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Autobiografia sumária de Adília Lopes

Autobiografia sumária de Adília Lopes
Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas.

Adília Lopes


Pastiches do 10.ºB

Os acordes que faço
Surgem nas cordas 
Da minha guitarra.
                           Ana Sofia

A sociedade
É tão incompreensível
Como a minha mente.
                       Ariana Ferreira

Os meus livros
Dizem por mim
O que preciso contar ao mundo.
                        Ariana Sanches

Os meus livros 
eram as palavras 
que me faltavam.
                        Ariana Sanches

Eu gosto muito de música
Apesar de não querer ser artista
A música faz parte da vida
Beatriz
A minha vida
Numa palavra
É muito mexida, é a dança.
                         Bruna Rocha

Além de ouvir música
Gosto de ver televisão
E dormir.
                            Débora

As músicas 
Que eu ouço
Fazem-me sentir feliz.
                            Inês 

Eu gosto de
Estar na minha cama 
a ver TV e a dormir.
                              Jéssica

Visto-me de preto 
Combinando
Com a imagem da minha alma inexistente.
                                  Andreia

Eu gosto muito de ver séries,
Porque sempre que estou triste
Elas metem-me em modo fantasia.
                                  Márcia Silva

Cada viagem de autocarro
Uma deslocação aos 
Pensamentos mais tortuosos.
                                Márcia Dantas

Eu gosto de música
Mas obviamente
Nem todo o tipo de 
música me agrada.
                            Maria 

A minha gata gosta 
de brincar 
com o meu cabelo.
                            Marta

No cinema 
sinto-me feliz.
                            Marta

Escondido entre os meus passos
Vejo o meu passado
A correr sobre os meus traços
                                       Pedro Cardoso

Sou imprudente | Adília Lopes


Sou imprudente
como os pombos
que morrem atropelados
e complicada
como as serpentes
que se enroscam
nas árvores

Adília Lopes

Quando as irmãs no Carnaval | Adília Lopes

 Carnaval sur la plage, Ensor

Quando as irmãs no Carnaval
(sobretudo no Carnaval)
iam a bailes
e ela ficava em casa
porque não a tinham convidado
escrevia no diário
a verdadeira vida está nos bailes de Carnaval
a que as minhas irmãs vão
e quando uma noite num baile de Carnaval
a que as irmãs lhe pediram que fosse
mascarada de órfã
ela ficou sentada entre um espelho e um reposteiro
a ver as irmãs dançar
pensou
quem me dera estar no meu quarto
a escrever no meu diário
perdi o hábito de escrever no meu diário
«gostava de dançar»
sentiu uma pontada no joanete do pé esquerdo
(um joanete minúsculo
mas em todo o caso um joanete)
e descalçou o sapato com o outro sapato
as irmãs apareceram-lhe todas de repente
já com os abafos vestidos
e ela na atrapalhação de não ficar para trás
esqueceu-se do sapato
debaixo da cadeira
era um sapato de salto raso
e de sola fina
não se dava muito pela falta dele
quando ela deu pela falta dele
ainda estava na escada
mas por acanhamento
não voltou atrás
voltou no dia seguinte
a uma hora a que só podia ver as criadas
(que a intimidavam mais que a dona da casa
mas bem menos que as filhas da dona da casa)
desculpe vir a esta hora
mas acho que deixei cá ontem à noite
um sapato
e as criadas tiveram tanta pena dela
à vista do sapato
que a levaram para a cozinha
e lhe deram leite-creme e pãezinhos doces
a mais velha embrulhou com muito cuidado
o sapato
e ela despediu-se das três com um aperto de mão
desceu pela escada de serviço aliviada
com o embrulho debaixo do braço
mas ouviu uma risada para os lados da cozinha
encolheu os ombros
o sapato tinha custado uma fortuna
era italiano de pelica

Adília Lopes

Intertextualidades: Pêro da Ponte, Adília Lopes, Catarina Nunes de Almeida



Se eu podesse desamar
a quen me sempre desamou,
e podess'algún mal buscar
a quen me sempre mal buscou!
Assí me vingaría eu,
     se eu podesse coita dar,
     a quen me sempre coita deu.

                                                              Pêro da Ponte

Não podemos
desamar
quem nos ama

Se nem
quem nos desama
podemos desamar

                                                                    Adília Lopes


Se eu pudesse desamar
destecer as barcas dos autos de Inverno -
frota de cabelos esparsos
por entre águas vertebradas
nas tuas pernas
perdição dos peixes.
Se eu pudesse digerir a cidade depois do teu nome
aparar a plumagem que me separa dos animais
e cair para dentro deles
num abraço escavado por eles
disponível para a idade para a margem da lavoura
onde nunca se aviste
o mar.

Catarina Nunes de Almeida

Rui Manuel Amaral & Adília Lopes [associação muito livre]


O que os peixes decidiram fazer
Rui Manuel Amaral

 
Todos os dias, um pescador lançava as redes, plaf, à água. Longas horas no meio do mar, lançando as redes, plaf, plaf, plaf, com gestos de semeador apaixonado. Os peixes, esses, aguardavam alegre e pacientemente a vez de serem pescados, borbulhando intermináveis declarações de amor ao pescador.
O caso é que, por uma sucessão de intermináveis azares e infortúnios, pescador e peixes falhavam sempre os seus encontros. Os peixes corriam como loucos, de olhos esbugalhados, atrás do pescador e este sulcava incansavelmente as ondas no encalço daqueles. Mas parecia que quanto mais insistiam neste assíduo labor, mais excitavam a crueldade dos elementos. E, dia após dia, semana após semana, mês após mês, as redes permaneciam vazias.
Ora, cansados de tanta correria para nada, os peixes decidiram acabar com aquilo. “Chegou o momento de lançarmos as nossas redes”, disseram os peixes que tinham barbatanas vermelhas. “Chegou o momento de recuperarmos o tempo perdido”, disseram os que tinham barbatanas azuis. E assim foi. Os peixes lançaram as suas redes e pescaram sem dificuldade o pescador. Em poucos segundos, o homem evaporou-se da superfície das águas como se evapora uma aparição da Virgem. (Doutor Avalanche, pag, 33)


A BIFURCAÇÃO SUCESSIVA , de Adília Lopes

Divido a minha vida
em duas partes
uma em que tinha orelhas
e não tinha brincos
uma em que já não tinha orelhas
e toda a gente me dava brincos
para me consolar de duas coisas
de não ter orelhas
e de não ter tido brincos
quando tinha orelhas
de todos nós assim era só eu
porque orelhas tinha duas

Adília Lopes

                          (copiado de Sophia)

Antígona
não aprendeu
a ceder
aos desastres


                                      (copiado de Agustina)

Eva não era má. Adão também não. Eva e Adão eram novos de mais na Terra como nós todos.

Adília Lopes

Notícia de Torto , Adília Lopes

Édipo e suas filhas Antígona e Isménia


"Vinte anos de psiquiatria deixaram-me com mais 40 kg e uma distensão abdominal que me dá lugar sentado em todos os transportes públicos. Ao fim e ao cabo, sou uma veterana de guerra. Há 20 anos eu tinha lido as tragédias gregas e reconhecia-me em Antígona, Electra e Ifigénia. Cedo percebi porém que não vale a pena falar em Sófocles e em Eurípides aos psiquiatras pela simples razão de que os psiquiatras não os leram. Sófocles e Eurípides só entrarão para o vocabulário dos psiquiatras no dia em que forem os nomes do último grito em psicotrópicos. O mesmo se pode dizer do famoso complexo de Édipo, de que os psiquiatras, como toda a gente, sabem umas banalidades aprendidas em más traduções espanholas. O complexo de Édipo só lhes interessará verdadeiramente no dia em que for o nome de um complexo urbanístico de luxo, com piscinas e palmeiras." 


Adília Lopes

Constroem para destruir | Adília Lopes


Depois de ler isto...

Constroem
para destruir

Constroem
a destruição

As obras faraónicas
fazem-se
com a escravidão

Mas as pessoas
valem mais
do que as pirâmides

As obras faraónicas
fazem-se
com a morte

Adília Lopes, Le vitrail de la nuit

O rio deve ir dar ao mar | Adília Lopes


O rio deve ir dar ao mar
mas a vida não deve dar toda
em poema
o poeta é aquele que mata
duas vezes
o mesmo coelho
o coelho comido
é o coelho escrito
o salto do coelho não lhe basta
precisa de caçar
duas vezes
o coelho
come o coelho
com uma infusão de tília
e regressa ao futuro
a lembrar Chardin
e a tia Idalina
mas que o sangue do coelho
não manche o espólio do poeta
o coelho sentido foi comido
o coelho fingido és tu
e assim no comboio eléctrico
do meu irmão João
anda laparoto
a múmia
isto é a minha vida
isto é um conto de Lucy Ellmann
mas o caçador
abstém-se de caçar o coelho
e deixa de haver literatura
beijo-te as as orelhinhas encaroçadas, Rabujo

Adília Lopes

ESTE PORTUGAL - Sagrado e Profano


ESTE PORTUGAL

As noivas
De Santo António
Que exigem
Casar
Com Santo António

À porta
Do tribunal
A Eva
Do Natal
Que dá
Um andar
Que não é
Uma cave

Adília Lopes


A RELIGIÃO

"Foi no habitual mês de festas, romarias e regressos dos emigrantes para as vacances que o País se pôs a cantarolar o Pimba, já lá vão onze anos. A moda pegou. E logo o termo foi adoptado para catalogar, a bem ou a mal, a nova roupagem da cantiga popularucha, de rima fácil, brejeira, provocadora.
A velha canção melosa e delicodoce ganhou então mais frenesim, baloiço de ancas e atrevimento. À conta disso, Miguel Gomes, 34 anos, realizador, anda por Arganil, a recolher imagens de arraiais e festas. «Já filmei uma banda que tinha um bebé de seis meses em palco», diz o cineasta, apostado, nesta fase, no registo documental para o seu filme Aquele Querido Mês de Agosto.
O melodrama é inspirado numa cantiga do mítico Dino Meira. O fundo musical é pimba. Ou, como prefere Miguel, «a música ligeira, romântica que se faz por aí». Para este trabalho, já ouviu mais de 300 canções e até ficou fã do grupo Diapasão. «Não tenho um olhar maldoso sobre este universo. Os sentimentos das pessoas que ouvem e gostam destas músicas são tão intensos e complexos como os de quem ouve Bach». Se assim não fosse, Carina António, de 22 anos, nunca iria em peregrinação até à Palhaça, por ocasião das festas da Senhora da Memória. Óculos, cara redondinha, a jovem viajou de Santarém até àquela freguesia de Oliveira do Bairro numa noite de segunda-feira para assistir ao seu enésimo concerto de Tony Carreira, o quebra-corações do momento. «Sigo-o para todo o lado, até faço directas para chegar cedo ao restaurante onde trabalho. Mas ele compensa tudo», diz, segurando um álbum com dezenas de fotos de Tony e do saxofonista Vítor, mais conhecido como o Brad Pitt do Seixal.
Entradas a cinco euros, barracas à nora com as bifanas, tendas com Noddys de pilhas, um terreiro quase às escuras e acidentado, eis o cenário no qual se enlataram casais com carrinhos de bebé, velhinhos de muletas e pares de namorados. Na assistência, vêem-se coelhinhos de peluche, rosas, cartazes com declarações de amor e um enxame de máquinas digitais e telemóveis a flashar o cantor. Este, primeiro de fato escuro às riscas, e depois já de ganga e camisa vermelha, ouve gritinhos enquanto pede mãozinhas no ar. «Cavaleiro andante, de abrigo em abrigo», Tony passa, nas suas músicas, a ideia de «eterno vagabundo».
Elas gostam. E engrossam a fila para os autógrafos. Um aparato tal que «nem no Estádio do Dragão se vê tanta segurança», ouvia-se.
O cantor, esse, esteve blindado. Quando o staff do mais-que-tudo da canção romântica quis impor a escolha das fotografias para a reportagem, o nosso papel na Palhaça esgotou-se.
Se a clausura fosse proporcional ao sucesso, Roberto Leal já estaria num altar ou fechado a sete chaves como uma freira carmelita.Não é o caso.
Quinze milhões de discos vendidos depois, o português com o sotaque mais famoso do País continua tão acessível como o cidadão António Joaquim Fernandes, natural de Vale da Porca, que um dia rumou ao Brasil e adoptou o nome artístico de Roberto Leal. Em São Martinho de Anta, ele entrou em cena às duas da manhã, no momento alto das festas da Senhora da Azinheira. No largo principal da terra, nem os jovens que, no início, torciam o nariz, resistiram ao batuque, sanfona e jogo de bunda das bailarinas. «Roberto, és o maior!», gritavam. E ele, todo de branco, entremeando a canção de puxar lágrima, os vivas ao Senhor, o hino de Portugal e os calores de palco, lá acabou a beijar Toninho na testa, velho amigo dos tempos difíceis do Brasil."
Miguel Carvalho, in Aqui na Terra)




É um quadro de Edward Hopper | Adília Lopes

New York Pavements, Edward Hopper (1924)
É um
quadro
de Edward Hopper
de 1924
chama-se
“New York pavements”
mostra
uma freira
a empurrar
um carrinho de bebé
contra o vento
pelas ruas
pelos passeios
de Nova Iorque
o véu
do hábito
da freira
esvoaça

Que freira
desalmada!
comenta
uma amiga

Este
quadro
de Edward Hopper
que tenho
em postal
puxa-me
ou empurra-me
a alma

COMO SE FAZ UM POEMA? | Adília Lopes


COMO SE FAZ UM POEMA?


Apanhei o cabelo
em rabo de cavalo
agora a minha solidão
vê-se melhor
vê-se tão bem
como a minha face

E a minha face
é desassombrada
as sombras
não são minhas


Adília Lopes



Tive um esgotamento psíquico no Natal e estou a escrever isto no princípio da Primavera. Sinto que ainda não estou bem. Peço desculpa por o texto ser breve e aos satlos, aos trambolhões.

Escrevo sempre por inspiração e num impulso. Sophia de Mello Breyner Andresen diz muito melhor do que eu o que é e como é para mim escrever um poema. Está tudo em "Arte Poética IV" de Dual.

O poema que ilustra e encima este meu texto foi escrito da seguinte maneira que passo a registar.

Eu vivo de uma maneira sofrida actualmente porque tenha uma doença psíquica, posso vir a ter dificuldades de dinheiro e o mundo não está cor-de-rosa. O dia a dia é muito sofrido. Desde que o meu pai morreu que decidi deixar crescer o cabelo que usei sempre muito curtinho durante 21 anos seguidos. Passados dois anos e só dois pequenos acertos do cabelo, decidi experimentar fazer rabo de cavalo. Comprei um elástico e quatro ganchos. Essa compra motiva o poema, a meu ver.

O poema surge assim de minha vida presente e passada. É autobiográfico à sua maneira. Já não uso rabo de cavalo. Surge da leitura. E surge da Sophia. Decalquei o poema "Soror Mariana - Beja", de O nome das coisas.

SOROR MARIANA - BEJA


Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.


A expressão "em rabo de cavalo" é o quotidiano. As minhas grandes influências, que admito e reconheço, são Sophia, Ruy Belo e Sylvia Plath. Foi com eles que comecei a escrever e é com eles e por eles que continuo a escrever e a ler.

Eu tenho a minha vida, mas assim como digo "Bom dia!" e a expressão "Bom dia!" não é de minha autoria, alguém a inventou muito antes de mim, a minha poesia é como se não fosse minha. Sinto-me despojada, desapossada, despossuída da minha poesia. O que faço é conviver: pôr a minha vida em comum.

A ideia das sombras e do desassombro não é também minha. Um namorado dizia a certa altura que havia menos sombras em mim, o que me fez ver que tinha havido e que havia sombras em mim. Um programador de televisão falou de desassombro a respeito de algumas das minhas prestações televisivas.

A minha poesia é uma poesia ao quadrado. Fiz uma metáfora de uma metáfora: em vez de trigos cortados, o cabelo apanhado em rabo de cavalo. Acrescentei um capitel: as sombras. Onde a Sophia viu paisagem, eu vi o meu corpo.

(publicado originalmente na revista Relâmpago número 14, de Portugal e em 2008 na revista Inimigo Rumor nº 20).

(anti-Ricardo Reis) | Adília Lopes

(Miguel Yeco)


(anti-Ricardo Reis)

O rio
é bom
para nadar
e as flores
para dar
o resto
são cantigas
casa-te com Lídia
tem bebés
passa a lua-de-mel
na Grécia.

Adília Lopes

"pega tu nelas"
Ricardo Reis

Mão morta vai bater àquela porta
as rosas amo dos jardins de Adónis
ao escrever
é preciso reconciliar uma lebre
com uma tartaruga
oh como era lebre a tartaruga!

*

Mas porque será sempre Lídia
a pegar nas rosas
Dr. Ricardo Reis?

Adília Lopes

a propósito da Arca de Pessoa


Todos os poetas
têm uma arca

Todos os poetas
têm uma arca
frigorífica

A arca de Pessoa
era frigorífica

A de Noé não
graças a Deus


Adília Lopes (in Clube da Poetisa Morta)



Uma reflexão acerca de lixo, Ricardo Araújo Pereira


Uma reflexão acerca de lixo, Ricardo Araújo Pereira

É muito frequente encontrar-me na circunstância de ter lixo na mão e, quando confrontado com os rótulos que hoje designam as várias secções dos caixotes do lixo (cartão, papel, embalagens, vidro), verificar que o lixo que eu possuo se enquadra, invariavelmente, na categoria dos indiferenciados.

Certo dia, quando trabalhava no JL, fui incumbido de entrevistar uma escritora chamada Adília Lopes. A primeira pergunta que lhe fiz foi sobre um poema seu de que eu gostava e gosto muitíssimo. Chama-se Autobiografia sumária e só tem três versos: "Os meus gatos / gostam de brincar / com as minhas baratas." O meu objectivo era impressionar a autora com a minha excelente interpretação do poema. Disse-lhe que aqueles versos eram também o resumo da minha vida. Os meus gatos, isto é, aquilo que em mim é felino, arguto, crítico ("Não é por acaso", disse eu, "que Fialho de Almeida reuniu os seus textos críticos num volume chamado Os Gatos), aquilo que em mim é perspicaz - e até cruel - gosta de brincar com as minhas baratas, ou seja, com aquilo que em mim é repugnante, negro, rasteiro, vil. E aquela operação poética - que é, igualmente, uma operação humorística - de escarnecer de si próprio era-me tão familiar que podia descrever-me de forma tão competente como à autora do poema.
Os olhos de Adília Lopes humedeceram-se. Fosse qual fosse a noite solitária em que escreveu o poema, estava longe de imaginar que, tanto tempo depois, a sua alma gémea se apresentasse à sua frente, compreendendo-a tão profundamente. Foi então que Adília Lopes falou. Disse o seguinte: "Pois. Bom, comigo, o que se passa é que eu tenho gatos. E tenho também baratas, na cozinha. E os gatos gostam de ir lá brincar com elas." E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.
Foi naquele dia, amigo leitor, que eu deixei de me armar em esperto. Tinha citado Fialho de Almeida, tinha usado a expressão "operação poética", e tinha-me visto a mim onde só havia gatos e baratas. Os olhos de Adília Lopes estavam húmidos, provavelmente, do esforço que a sua proprietária fazia para não rir. Não eram só os sacanas dos gatos que escarneciam de mim: a Adília Lopes também. E, desde esse dia, tenho constatado que o mundo inteiro, em geral, me mofa (quem aprecia a frase bem torneada fará bem em registar, num caderninho próprio, a elegante construção "me mofa").
Vários filósofos têm reflectido sobre o lixo, sobretudo acerca do modo como a nossa sociedade trata o seu lixo. Eu estou magoado com o modo como a nossa sociedade trata o meu lixo em especial. Não me interessa o tratamento que a sociedade dá ao seu lixo: a forma como trata o meu é humilhante. O lixo de Adília Lopes gera vida e poemas. O meu lixo não só não gera nada como tem uma falta de personalidade que o amesquinha quase tanto quanto me amesquinha a mim. É muito frequente encontrar-me na circunstância de ter lixo na mão e, quando confrontado com os rótulos que hoje designam as várias secções dos caixotes do lixo (cartão, papel, embalagens, vidro), verificar que o lixo que eu possuo se enquadra, invariavelmente, na categoria dos indiferenciados. Quase todo o meu lixo se caracteriza por uma falta de carácter que só posso ser eu a transmitir--lhe. Eis, afinal, a minha autobiografia sumária: "O meu lixo / é tão desinteressante / como eu."

in Visão (26/03/09)

Depois da paixão | Adília Lopes

Alvess

Depois
da paixão
e da ausência
ficou a esperança
e a indulgência

Não sou Marianna
e tu não és Chamilly

A minha história
é outra
e começa agora

Estou sempre
a começar

Adília Lopes