
Ficha de Leitura de António Quadros

(Rol de Livros)
Depois de uma série de peripécias, que não interessa agora relatar, Simão e Teresa acabaram por ficar juntos, tal como ambicionavam. Já com quatro filhos, ambos de relações cortadas com os seus pais e a viverem do rendimento mínimo, continuavam juntos, mas já sem tanto amor, pois Simão, na realidade, tinha um feitio difícil. Simão era ciumento e conflituoso e não ajudava em casa. 
morte de camilo
quando camilo deu, como então diziam os românticos
afectando o maior desprezo pelo corpo, um tiro
nos miolos, o projéctil furou muitos milhares de páginas
que ele, na cegueira, já não conseguia ler, mas
guardava na cabeça. elas entraram assim em contacto,
umas com as outras, as dele e muitas mais, por esse
novo canal aberto pela bala. no exacto momento
da sua morte, tintas de sangue e dor insuportável,
ele deve ter reconhecido semelhanças e perdições,
reencontrado personagens e experiências
amarguradas a jorrarem, de súbito presentes,
deve ter entrevisto paisagens, rostos, torpezas, ironias,
intensidades próprias e alheias. camilo deve tê-las percorrido,
a velocidade do raio, numa fracção de segundo,
como numa espécie de nova ars combinatoria,
e compreendido as negras molas reais de tudo. nós só
não sabemos se então ainda lamentou já não poder
escrever esses enredos possíveis, fulgurantes numa prosa
cada vez mais dominada, mas que, corno sempre, da paixão
incontrolada e da morte e de rápidos traços se nutriam.
Vasco Graça Moura, “poemas com pessoas”
Na introdução, Camilo entrelaça duas histórias – a sua e a de Simão – a partir de uma coincidência: a de um estar na Cadeia da Relação e de outro por lá ter passado. A Cadeia é assim o pretexto para uma viagem memorialista por uma história familiar.
A referência e a reprodução dos registos escritos inscritos nos velhos livros de assentamentos da cadeia de Relação do Porto, a par da neutralidade informativa do texto produzem um duplo efeito: o de enigma e o de verdade. Ao dar estes dados ao leitor, este se quiser pode, por si, ir verificar a veracidade dos mesmos, ao mesmo tempo que se estimula a curiosidade e se adensa o mistério.
Por outro lado, na Introdução, o narrador-autor manipula o potencial leitor, de modo a fazer com que este crie empatia com a figura de Simão Botelho, usando para isso dois argumentos: a juventude e o amor que o jovem sentiu. Somando a isto, o autor traça o perfil do leitor da sua obra, este deve ter “sensibilidade” e “boa formação” – ora que leitor é que não se quer identificar com este modelo?
Com esta estratégia, o autor sacraliza o amor e desresponsabiliza Simão de todos os outros actos. Camilo mostra que só os incapazes de compreender o amor condenarão Simão (e já agora a ele próprio, que na época se encontrava preso por motivos passionais).
* Captatio Benevolentiae - Expressão da retórica latina que significa literalmente “conquista da benevolência”, muito difundida em todas as literaturas românicas, quando um escritor quer ganhar a simpatia do leitor, interpelando-o no sentido de receber louvor e solidariedade para a causa que está a ser defendida )
(para saber mais consulta a Colóquio-Letras)
Em Amor de Perdição, a aceitação trágica da morte decorre da impossibilidade da concretização do amor. No capítulo XIX, , a morte vai torna-se uma obsessão quer para Simão, quer para Teresa. Escreve Simão: "Não temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte...Há um segredo que só no sepulcro se sabe.” E ela responde:: "Morrerei, Simão, morrerei [...] e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te.
A verdadeira união romântica do par é feita pela morte: só esta é realmente indestrutível.
Cara menina Coração:
Desde os meus quinze anos que prometi o meu coração a um rapaz meu vizinho. Amo e sou amada por ele, contudo as nossas famílias estão desavindas. O meu pai não me compreende e quer que eu me case com meu primo Baltazar. Diz-me ele que com o tempo vou amá-lo. O meu pai até me disse: « minha querida filha, que a violência dum pai é sempre amor. ». Ontem, meu querido pai disse-me:
« - Hás de casar! - Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para teu primo! Nenhum infame há de aqui pôr pé nas alcatifas de meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de Sol.»
Cara menina Paixão, o que devo fazer?
Ass.: Teresa
Elabora duas possíveis respostas à carta da menina Teresa, pondo-te na pele da “Menina Coração”. Uma imaginando-te na época em que decorre Amor de Perdição, outra, nos dias de hoje.
Bom trabalho!