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Vozes, de Ana Luísa Amaral


A Cerimónia
Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,

mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,

em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.

Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.

Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.
Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.

A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um ceptro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,
ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último contei-lhe o caminho de
água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava

com as margens que havia deixado
para trás.

Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,

a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado
,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.
Antes lhe tivesse dito vezes sem conta como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.
Uma prenda, porém, me é boa na memória:
a do papel e das palavras. Dispensaria o ceptro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.
Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina, 
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?
Onde ficaram as minhas tardes molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?
Por que outra noite trocaram
o meu escuro? 
Vozes, de Ana Luísa Amaral  (2011)

Novas Cartas Portuguesas: "há 38 anos foi histórico, agora é contemporâneo" [Ana Luísa Amaral]



[...] é muito interessante porque elas, ao desmontarem a noção de autoria, desmontam a noção de autoridade, questionam a autoridade social, a ditadura. Mas ao estenderem isso até agora, por mais 40 anos, no fundo é a própria autoridade social e a ideia de poder das nossas sociedades de hoje em dia, de controlo de tudo, que está também a ser posta em causa. Há um estudo feito, por exemplo, na Universidade de Aveiro que diz que as poesias são todas da Teresa Horta. Não são. Parece que até são poucas.

O que acontece é que elas exercitam a escrita umas das outras. Trabalham também com o conceito de alteridade, com a importância do outro. O outro que traz o seu texto. É quase uma cooperativa literária. É uma utopia, mas é uma utopia que tem resultados práticos. É como se provasse que a utopia é possível. E, depois, há a intertextualidade que percorre o livro. O livro do ponto de vista literário é riquíssimo, tem referências históricas, culturais, literárias de diversíssima ordem, umas mais, outras menos óbvias. Logo na primeira carta, quando se fala de Outubro e Maio, são os vários maios importantes na história portuguesa, europeia e mundial: o Primeiro de Maio, o Maio de 68, o mês de Maria, o Armistício. E há os diálogos intertextuais com outros escritores: Herberto Helder, Alexandre O'Neill, Eugénio de Andrade, a poesia trovadoresca, Bernardim Ribeiro. É toda a literatura portuguesa que é percorrida e não só, é Lévi-Strauss, por exemplo. A literatura e a história mundiais são aqui reactivadas, mas de uma forma nova. [...] Ana Luísa Amaral

Ler tudo aqui.

Novas Cartas Portuguesas



da Breve Introdução de Ana Luísa Amaral a Novas Cartas Portuguesas

"Mais relevante do que saber a verdadeira autoria de Cartas Portuguesas, foi o facto de a figura de Mariana Alcoforado passar de «uma sombra textual anónima» para «uma identidade pessoal e uma genealogia, familiar e nacional, que a configurou ( ... ) como epítome nacionalmente representativo da feminilidade e, aos olhos dos Portugueses, da identidade nacional em geral» (Klobucka 2006a: 19). Essa questão do mistério relativamente à autoria viria a ser de extrema importância para a recepção do livro Novas Cartas portuguesas - afinal, as autoras nunca revelaram publicamente quem assinava parcelar-mente os textos -, desestabilizando as noções fixas de autoria e de autoridade. Não menos relevante para a concepção de Novas Cartas terá sido a escolha de Cartas portuguesas como texto matricial justamente. pelo peso simbólico de que se revestia a figura de Mariana e pela imagem feminina que delas emergia: o estereótipo da mulher abandonada, suplicante e submissa, alternando entre a adoração e o ódio, praticando um discurso de paixão avassaladora por aquele (o cavaleiro) que se apaixonara também, mas partira depois, para não mais, regressar. É esta relação de amor e devoção, de subserviência  e autovitimização que as três autoras, três séculos depois os contornos mais gerais, vão desmontar e re-montar, estilhaçando  fronteiras e limites, quer das temáticas, quer da própria linguagem. "

Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (org. Ana Luísa Amaral=

Primeira Carta
Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos.  E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício. 

O Excesso Mais que Perfeito, Ana Luísa Amaral

 [ rododendros]

Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura e mística.
Ah, como eu queria um poema diferenteda pureza do granito,
e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo.
E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos,
de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguraçãodo seu olhar.
Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu,
carregada de nada.
 Ana Luísa Amaral

Manifesto Anti-poetisa | Ana Luísa Amaral


Manifesto Anti-poetisa | Ana Luísa Amaral

Para a Maria Irene sobre «o sexo dos poetas», 
e recordando aquela que, engenhosamente, 
um dia escreveu «This was a Poet – It is That –».

Mais fácil é «a poet – it is that –»,
que a gramática nossa o não permite
e precisa dois gumes do estilete
– o que implicará sempre mais limite.

Mas, caso a regra for bem aplicada
(invertendo-se os termos da excepção),
porque não ler «poeta», feminino,
e masculino: ... vide conclusão?

Mas se poeta for quem mais repete
as quadras já ouvidas, recusando-
-as depois e repetidas, lembrando
utilidade imensa do estilete:

ou seja, a de espetar tais mil palavras
em cima de mil sílaba de mais,
sabendo que depois, uma palavra
é o que sobrará; e que das tais

mil e catorze sílabas só uma
lá caberá (no verso, quero dizer),
que de tanto esforçar e se perder,
acaba por às vezes ser nenhuma.

E se poeta for nem paciente
nem ausente de tal, que a paciência
em demasia: coisa de serpente,
como é do seu contrário a sua ausência.

E se poeta for... inútil mais,
que de ridículo este definir
se perderá por versos mais e tais
que o verso às tantas poderá partir.

Mas quando se partir, aí o verso.
E quando se partir, aí o lume:
avançar muito além do definir,
não distinguir essência de perfume.

E na ausência de final dourado,
tal como na ausência de terceto,
a conclusão: nem homem, nem mulher,
ou então: a «poeta» e o «poeto».

 Ana Luísa Amaral, revista DIACRÍTICA, Ciências da Literatura, n.º 22/3 (2008), 157-158

Inversos, de Ana Luísa Amaral

Terça-Feira, 11 de Maio, 18:30 - Biblioteca Almeida Garrett


Apresentação de Inversos - poesia 1990-20010

DA OFERTA E DA PROCURA | Ana Luísa Amaral


DA OFERTA E DA PROCURA

Com tanta angústia em stock
não sei o que fazer
acumulada é tanta
que o coração assim
não cabe mais

Vendo-a barata, avulso.
à vontade de bolso ou contentor,
na quantidade exacta
que o desejo
traz

Ou troco um quilo dela
por grama de suor

(ou meio grama de paz)

Ana Luísa Amaral, Inversos

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS | Ana Luísa Amaral

 

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS

É tarde. Inês é velha.
Os joanetes de Pedro não o deixam caçar
e passa o dia todo em solene toada:
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro!
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar
os grelhados!»

Mas isto Inês nem ouve:
não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,
e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando as chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora
era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).
Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia.

 Ana Luísa Amaral,  Inversos

AS RAÍZES DO VOO | Ana Luísa Amaral



AS RAÍZES DO VOO

 São as cores?
Ou declarar-me assim a esta árvore?
Num sobressalto, desassossego
lento – as colmeias de ramos e de folhas,
o corpo em curvas densas,
as raízes,
e, delicadamente, o coração

Apaixonar-me e outra vez,
e agora por um tempo de nervura
acesa, o fogo – e sem palavra que chegasse
para habitar o mundo:
são as cores, dir-lhe-ia,
ou os meus olhos?

E se faltar olhar, ouvido, cheiro, mãos,
ver-te sem ver, sentir-te sem sentir:
neste musgo e por dentro
poder perder-me, fingir-me distraída
pelo puro prazer de me fingir,
sem sossego nenhum
– aprender a voar –
pelo desassossego de um dedo
preso à terra

Mas se as asas faltarem,
serão sempre as cores,
uma leve impressão de nervos, digital,
de qualquer coisa
 Há-de ser isto assim:
luz para além de azul,
paz muito além do verde a respirar
– ou eu, igual ao sol,
comovendo-me em ar e
por raízes –


Ana Luísa Amaral

CONSTELAÇÕES | Ana Luísa Amaral


CONSTELAÇÕES

Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
histórias, constelações
de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos

Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seiscentista
que ofuscando-se: o sol

Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste

Ana Luísa Amaral, Se fosse um intervalo