GRAMÁTICA: O VERBO
ECOS E MEMÓRIAS DE A Morte do Palhaço, Nuno Júdice
A propósito de intertextualidade...
"Filmes que retomam filmes, quadros que dialogam com outros, propagandas que se utilizam do discurso artístico, poemas escritos com versos alheios, romances que se apropriam de formas musicais, tudo isso são textos em diálogo com outros textos: intertextualidade." (ver mais)
Era a noite que caía
E na sombra recolhia
O voo das andorinhas.
Era a voz que se calava,
Era a dor de ver que estava
Sem as tuas mãos nas minhas
Eram passos que escutei,
Que eram teus ainda pensei,
Iludiu-me o coração.
Foram pela rua escura
Longe da minha amargura
E acompanhei-os em vão
Fiquei perto da janela,
Pus-me a abri-la com cautela,
Fiz disfarce da cortina.
Vi então na luz incerta
Que a rua estava deserta
E deserta estava a esquina.
Era só eu na escuridão,
Era no peito um rasgão,
Era já no céu a lua,
Que me importa?, á minha porta
A sombra que se recorta
Bem pode ainda ser a tua.
Vasco Graça Moura
Era um choro de olhos
Abertos; um copo de silêncio
A esvaziar de um trago;
Um corpo ácido como certas
cidades nocturnas.
Era essa canção de pedra
Que os rios murmuram; esse
Muro de ramos partidos numa
Secura de lábios; a sombra
Que desce com a chuva.
Nuno Júdice
Os cinco sentidos, Relações Intertextuais
Jogo
Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Nuno Júdice
Lusofonia | Nuno Júdice
rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.
Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.
...
Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008
ARREDORES | Nuno Júdice
Álvaro de Campos
670 | Emily Dickinson

One need not be a Chamber — to be Haunted —
One need not be a House —
The Brain has Corridors — surpassing
Material Place —
Far safer, of a Midnight Meeting
External Ghost
Than its interior Confronting —
That Cooler Host.
Far safer, through an Abbey gallop,
The Stones a'chase —
Than Unarmed, one's a'self encounter —
In lonesome Place —
Ourself behind ourself, concealed —
Should startle most —
Assassin hid in our Apartment
Be Horror's least.
The Body — borrows a Revolver —
He bolts the Door —
O'erlooking a superior spectre —
Or More —.
Emily Dickinson
****
Não é preciso ser um Quarto - para estar assombrado -
Nem é preciso ser uma Casa -
O cérebro tem Corredore - que ultrapassam
Os lugares materiais -
Bem mais seguro o Encontro Nocturno
Com um fantsma Concreto
Do que o confronto interior -
Com o Hóspede mais Frio.
Bem masi seguro o galopar por uma abadia,
Com as pedras atrás -
Do que encontrar-se consigo mesmo, Desarmado -
Num ermo -
Esse Eu que o próprio Eu encobre -
Eis o maior susto -
Nem um Assassino escondido em nossa Casa
Seria mais Horrível.
O Corpo - pega numa pistola -
Aferrolha a Porta -
Ms esquece um espectro bem maior -
Ou Pior ainda -
JÚDICE, Nuno. Emily Dickinson: poemas e cartas (antologia para um recital). (Introdução e tradução [revista por Ana Luísa Amaral]. Seleção de Nuno Vieira de Almeida). Edição bilíngüe. Lisboa: Cotovia, 2000.
TROCAS | Nuno Júdice
TROCAS
Tinha uma amiga com quem queria ter dormido. A
amiga tinha outro amigo com quem dormiu depois
de saber que ele queria dormir com ela. Disse-lhe
depois que se não tivesse sabido que ele queria
dormir com ela teria dormido com ele sem dormir
com o outro. Mas o outro, que sabia que ela não
queria dormir com ele, dormiu com ela para que
ela percebesse que era melhor dormir com ele do
que dormir com o amigo. O amigo é que deixou
de ser amigo dele porque não gostou que a amiga
o tivesse preferido a ele. A amiga dos dois, por
fim, convenceu-os a não se zangaram por ela ter
dormido com o que não gostava dela, e acabou a
pedir ao primeiro que dormisse com ela para não
ficar triste. Mas o amigo não quis, porque já tinha
feito as pazes com o que dormira com ela, e não
queria que tudo voltasse ao princípio. E foi assim
que a amiga se zangou com o que queria ter dormido
com ela por ele não querer dormir com ela só
porque ela tinha dormido com o outro depois de
saber que o outro já tinha dormido com ela, e ele não.
Nuno Júdice
Cesário Verde | Nuno Júdice
CESÁRIO VERDE
(variante sem burguesas)
Naquele piquenique de deusas, serviram
ambrósia e sanduíches de cisne, com
molho de via láctea a mistura. Vénus,
de véu na cabeça, desatou-o; e os seus
cabelos derramaram-se pelo copo, para
que Vulcano se engasgasse, ao beber,
e Marte lhe batesse nas costas, fazendo
inchar mais ainda a sua corcunda. Mas
quando a pálida Diana, num crescente
de lua, tirou a saia, e os sátiros saíram
de dentro das pregas, todos olharam
para o lado, e foi a coisa mais bela da
merenda: os seus seios soltos, e os doces
melões, servidos na bandeja do céu.
Nuno Júdice, in A Matéria do Poema
De Tarde
Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!
Cesário Verde
Maja nua e Maja vestida | Goya


Francisco de Goya (1746-1828)
Especialistas supõem que as Majas tenham sido feitas por Goya, usando como modelo María del Pilar Teresa Cayetana de Silva y Álvares de Toledo, a duquesa de Alba, com quem o artista tinha intimidade. Uma autópsia realizada no corpo da duquesa confirmou as proporções pintadas por Goya.
(ver mais aqui)
Autópsia, Nuno Júdice
"Reabro as portas do poema" | Nuno Júdice
Reabro as portas do poema, portas de ouro
Da estrofe, e entro num chão de terra negra,
Pisando a cinza de quem ali viveu.
Tu, Camões, com a lenta memória de amigas
E madrugadas, levantas-te de um sepulcro
De rimas e mágoas, com as mãos cansadas.
E tu, Garrett, suando o ócio de amores e
Desamores, já não corres pelos campos
Onde viveste para nunca mais.
Mesmo tu, Antero, cujo tédio se estende
Pelas paredes onde jazem Cristos estéreis,
Perdeste o impulso da oração.
Puxo-vos para dentro das palavras. E ouço
O murmúrio que escorre dos lábios,
Como um salmo que o poema repete.
Nuno Júdice (n. 1949)



