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GRAMÁTICA: O VERBO


GRAMÁTICA: O VERBO
Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

Nuno Júdice, A matéria do poema, 2008.

ECOS E MEMÓRIAS DE A Morte do Palhaço, Nuno Júdice

ECOS E MEMÓRIAS DE A Morte do Palhaço

Quando publiquei a minha primeira obra de ficção, Plâncton, Vergílio Ferreira procurou situá-la dentro de uma tradição do romance português. Numa conversa que tivemos no extinto café Monte Carlo, em Lisboa, falou de duas linhas ficcionais que se polarizavam em Raul Brandão e Eça de Queiroz, e colocava-me dentro da linha brandoniana que, segundo ele, remontava à Menina e Moça de Bernardim Ribeiro. Não se contrariam os Mestres (para além de tudo, Vergílio Ferreira fora meu professor de grego no liceu Camões), e aceitei de bom grado esta minha inclusão no que me parecia ser uma família melancólica e nocturna que, além do mais, se inscrevia dentro de um universo que me era próximo: o dos nórdicos, como Strindberg e Kierkegaard, e o de russos como Dostoievski e o Tolstoi das novelas, não o épico da Guerra e Paz. O tempo passou, outras coisas foram surgindo e apagando esta ilustre linhagem até que, quando João Brites há já mais de uma década me propôs uma releitura de Raul Brandão para o seu espectáculo a partir de A Morte do Palhaço, representado no Teatro Maria Matos, me lembrei dessas palavras de Vergílio Ferreira e entrei no jogo que consiste em entrar na cabeça de um outro, e puxar de dentro dos seus fantasmas aquilo que se poderá cruzar ou confundir com o meu próprio imaginário. Não precisei de um grande esforço para descobrir uma identidade profunda com o universo de A Morte do Palhaço, que então me falou mais do que o Húmus, que só recentemente redescobri numa leitura que dele fiz na sua absoluta e total singularidade de entrar na sociedade pela voz e pela alma dos que ela despreza e silencia. Muito antes de Beckett, o que Raul Brandão faz é assumir o lugar dos marginais e excluídos e levá-los ao estatuto de uma santidade negativa, como sucede com Eponina que é, sem dúvida, uma das figuras femininas mais fortes da nossa literatura, ao lado de outras como a enigmática “menina” de Bernardim ou a Maria do Frei Luís de Sousa de Garrett. O drama é pintado com as cores negras e violentas do expressionismo, de que Brandão é contemporâneo e, pode dizer-se, um cultor, embora nada possa demonstrar que tenha conhecido esse movimento e apreciado o seu radicalismo estético. Porém, se quisermos ter um retrato do que foi o Portugal dessa transição da Monarquia para a República, e a miséria mais extrema dos que estavam por baixo, desde os camponeses às criadas de servir, do poeta pobre às prostituta que por vezes eram quase crianças, como algumas de que fala no diário, é nele que o teremos de ir procurar. E esse retrato é feito sob a forma de um fresco monumental em que entram todas as classes e todas as regiões, como se Brandão se tivesse dado como projecto guardar a memória de uma época que, sob uma forma mais atenuada, só tem equivalente nos romances de Aquilino Ribeiro (outro grande esquecido nos dias de hoje). João Brites voltou a dar voz a essas personagens, e pô-las em cena de uma forma criativa, recuperando esse tom do expressionismo e do excesso de uma prosa inigualável. Depois dele, outras encenações de obras de Brandão surgiram, em particular a partir do Húmus. É por isso de toda a actualidade recuperar essa encenação, recriando-a, e ver como essa prosa se transforma em discurso e em canção, sem que para isso tenha sido necessário afastarmo-nos da sua linguagem. Com efeito, como Herberto Helder já fizera, a escrita de Brandão molda-se facilmente à poesia;e sobre o barro dessas palavras surgem estas construções teatrais que dão vida, de novo, a uma obra que eu classificaria como o anti-Livro do Desassossego, dado o eco de um mundo subterrâneo e inconsciente que, sob um fundo de crenças e de esperanças traídas, corporiza uma época sombria. Também por isto, Raul Brandão volta a ser actual e esta Morte do Palhaço põe-nos perante uma voz que merece ser escutada. (aqui).

A propósito de intertextualidade...

 Nestes dois poemas, um de Vasco Graça Moura, outro de Nuno Júdice, há uma alusão implícita  ao Nocturno de David Mourão Ferreira.  Trata-se de um fenómeno de intertextualidade. Diz Carlos Ceia:
"Filmes que retomam filmes, quadros que dialogam com outros, propagandas que se utilizam do discurso artístico, poemas escritos com versos alheios, romances que se apropriam de formas musicais, tudo isso são textos em diálogo com outros textos: intertextualidade." (ver mais)

Era a noite que caía
E na sombra recolhia
O voo das andorinhas.
Era a voz que se calava,
Era a dor de ver que estava
Sem as tuas mãos nas minhas

Eram passos que escutei,
Que eram teus ainda pensei,
Iludiu-me o coração.
Foram pela rua escura
Longe da minha amargura
E acompanhei-os em vão

Fiquei perto da janela,
Pus-me a abri-la com cautela,
Fiz disfarce da cortina.
Vi então na luz incerta
Que a rua estava deserta
E deserta estava a esquina.

Era só eu na escuridão,
Era no peito um rasgão,
Era já no céu a lua,
Que me importa?, á minha porta
A sombra que se recorta
Bem pode ainda ser a tua.

Vasco Graça Moura




Era um choro de olhos
Abertos; um copo de silêncio
A esvaziar de um trago;
Um corpo ácido como certas
cidades nocturnas.

Era essa canção de pedra
Que os rios murmuram; esse
Muro de ramos partidos numa
Secura de lábios; a sombra
Que desce com a chuva.


Nuno Júdice

Os cinco sentidos, Relações Intertextuais



Jogo

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Nuno Júdice




Lusofonia | Nuno Júdice

Lusofonia


rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.
...
Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008

ARREDORES | Nuno Júdice


[um dos textos do exame de Literatura]
"Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros"
Álvaro de Campos
ARREDORES

No tempo em que havia quintas e hortas em Lisboa, e
se ia para lá aos domingos, eu ficava em casa. E em
vez de ir para as quintas e para as hortas, em vez
de apanhar couves e de ordenhar ovelhas, lia
poemas que falavam das quintas e das hortas de Lisboa,
como se isso substituísses o ar do campo e o cheiro
dos estábulos. É por isso que hoje quando me lembro são horas de leitura de
poemas sobre esses arredores, e os passeios que eles me faziam dar
aos domingos, substituindo os lugares reais com mais exactidão
do que se eu tivesse ido a esses lugares. Visitei, assim, quintas
e hortas pela mão do Cesário Verde e do Álvaro de Campo, e
soube por eles tudo o que precisava de saber sobre os arredores de Lisboa,
que hoje já não existem porque Lisboa entrou por eles e transformou as quintas
em prédio e as ovelhas em automóveis. Não me arrependo, então, de
ter lido Cesário e Campo enquanto ouvia balir os rebanhos que vinham
pastar a Lisboa, nas traseiras do meu prédio, onde as mulheres
das hortas vendiam leite e queijo fresco, às escondidas
da polícia. Hoje, já não sei onde se escondem essas mulheres,
nem há quintas e hortas em Lisboa; mas ficaram os poemas
que ainda me levam a passear às quintas e hortas que já não existem,
onde apanho couves e ordenho ovelhas por entre prédios
e automóveis.

Nuno Júdice

670 | Emily Dickinson


One need not be a Chamber — to be Haunted —
One need not be a House —
The Brain has Corridors — surpassing
Material Place —

Far safer, of a Midnight Meeting
External Ghost
Than its interior Confronting —
That Cooler Host.

Far safer, through an Abbey gallop,
The Stones a'chase —
Than Unarmed, one's a'self encounter —
In lonesome Place —

Ourself behind ourself, concealed —
Should startle most —
Assassin hid in our Apartment
Be Horror's least.

The Body — borrows a Revolver —
He bolts the Door —
O'erlooking a superior spectre —
Or More —.

Emily Dickinson

****

Não é preciso ser um Quarto - para estar assombrado -
Nem é preciso ser uma Casa -
O cérebro tem Corredore - que ultrapassam
Os lugares materiais -

Bem mais seguro o Encontro Nocturno
Com um fantsma Concreto
Do que o confronto interior -
Com o Hóspede mais Frio.

Bem masi seguro o galopar por uma abadia,
Com as pedras atrás -
Do que encontrar-se consigo mesmo, Desarmado -
Num ermo -

Esse Eu que o próprio Eu encobre -
Eis o maior susto -
Nem um Assassino escondido em nossa Casa
Seria mais Horrível.

O Corpo - pega numa pistola -
Aferrolha a Porta -
Ms esquece um espectro bem maior -
Ou Pior ainda -


JÚDICE, Nuno. Emily Dickinson: poemas e cartas (antologia para um recital). (Introdução e tradução [revista por Ana Luísa Amaral]. Seleção de Nuno Vieira de Almeida). Edição bilíngüe. Lisboa: Cotovia, 2000
.

TROCAS | Nuno Júdice

Júlio Pomar

TROCAS

Tinha uma amiga com quem queria ter dormido. A

amiga tinha outro amigo com quem dormiu depois

de saber que ele queria dormir com ela. Disse-lhe

depois que se não tivesse sabido que ele queria

dormir com ela teria dormido com ele sem dormir

com o outro. Mas o outro, que sabia que ela não

queria dormir com ele, dormiu com ela para que

ela percebesse que era melhor dormir com ele do

que dormir com o amigo. O amigo é que deixou

de ser amigo dele porque não gostou que a amiga

o tivesse preferido a ele. A amiga dos dois, por

fim, convenceu-os a não se zangaram por ela ter

dormido com o que não gostava dela, e acabou a

pedir ao primeiro que dormisse com ela para não

ficar triste. Mas o amigo não quis, porque já tinha

feito as pazes com o que dormira com ela, e não

queria que tudo voltasse ao princípio. E foi assim

que a amiga se zangou com o que queria ter dormido

com ela por ele não querer dormir com ela só

porque ela tinha dormido com o outro depois de

saber que o outro já tinha dormido com ela, e ele não.


Nuno Júdice

Cesário Verde | Nuno Júdice


CESÁRIO VERDE

(variante sem burguesas)


Naquele piquenique de deusas, serviram
ambrósia e sanduíches de cisne, com
molho de via láctea a mistura. Vénus,
de véu na cabeça, desatou-o; e os seus
cabelos derramaram-se pelo copo, para
que Vulcano se engasgasse, ao beber,
e Marte lhe batesse nas costas, fazendo
inchar mais ainda a sua corcunda. Mas
quando a pálida Diana, num crescente
de lua, tirou a saia, e os sátiros saíram
de dentro das pregas, todos olharam
para o lado, e foi a coisa mais bela da
merenda: os seus seios soltos, e os doces
melões, servidos na bandeja do céu.

Nuno Júdice, in A Matéria do Poema



De Tarde

Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde


Maja nua e Maja vestida | Goya



Francisco de Goya (1746-1828)

Especialistas supõem que as Majas tenham sido feitas por Goya, usando como modelo María del Pilar Teresa Cayetana de Silva y Álvares de Toledo, a duquesa de Alba, com quem o artista tinha intimidade. Uma autópsia realizada no corpo da duquesa confirmou as proporções pintadas por Goya.

(ver mais aqui)


Autópsia, Nuno Júdice


Limpo com um espanador a memória de Maria Teresa Cayetana da Silva, Duquesa de Alba, enterrada no Campo de Santo Isidoro, de onde foi exumada para autópsia em 1945, notando-se então a falta dos pés. Enterraram-na vestida, e é assim que o corpo surge na fotografia, com a mão direita visível e um esgar de dor na caveira. A nudez, aqui, pertence apenas à morte, que lhe aconteceu antes dos quarenta anos, como se a mais bela mulher de Espanha pudesse morrer de um dia para outro, sem razão aparente.Falou-se de veneno. Mas seu veneno era outro: o da beleza. Nua sobre almofadas, no quadro de Goya, os seios apontando horizontes do amor, o púbis sobressaindo de entre as coxas, na linha do umbigo, a duquesa de Alba nos fixa com os olhos desmaiados do prazer.A mão que se vê no túmulo segura, na tela, a cabeça. E o rito da morte é substituído por um sorriso de lábios fechados, num desafio a quem por ela passa, como se alguém pudesse resistir ao abismo que se abre sob seu braço esquerdo, onde se encontram o tecido e o torso. Nua e vestida, a duquesa de Alba está inteira. Olho para seus pés, onde cada um dos dedos, com as unhas perfeitas, não adivinha a mutilação póstuma, para relíquia ou simples descuido, o que não é grave: em algum juízo final, os restos se hão de colar. E Maria Teresa Cayetana da Silva, restituída a seu esplendor, se apresentará com o argumento com que a limpo, agora, do pó dos séculos: a beleza absoluta de seu corpo, o mais puro sinal de que merece a eternidade.

"Reabro as portas do poema" | Nuno Júdice

Reabro as portas do poema, portas de ouro
Da estrofe, e entro num chão de terra negra,
Pisando a cinza de quem ali viveu.

Tu, Camões, com a lenta memória de amigas
E madrugadas, levantas-te de um sepulcro
De rimas e mágoas, com as mãos cansadas.

E tu, Garrett, suando o ócio de amores e
Desamores, já não corres pelos campos
Onde viveste para nunca mais.

Mesmo tu, Antero, cujo tédio se estende
Pelas paredes onde jazem Cristos estéreis,
Perdeste o impulso da oração.

Puxo-vos para dentro das palavras. E ouço
O murmúrio que escorre dos lábios,
Como um salmo que o poema repete.


Nuno Júdice (n. 1949)