Mostrando postagens com marcador TNSJ. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TNSJ. Mostrar todas as postagens

PARA MEMÓRIA FUTURA



Breve Sumário Da História De Deus| Gil Vicente
O Ano Do Pensamento Mágico| Joan Didion
Glosa Nova Da Tragédia De Sófocles| António Pedro
Antígona| Sófocles
O Deus da Matança| Yasmina Reza
O Príncipe de Homburgo| Kleist
Azul Longe nas Colinas| Dennis Potter
A Gaivota| Tchékhov
Hedda| Ibsen
Talk Show| Rui Horta
Sombras| Ricardo Pais
Exactamente Antunes| Almada Negreiros
A Morte do Palhaço| Raul Brandão

... e sexta-feira voltamos...

A Morte do Palhaço, de Raul Brandão



«De uma galeria de figuras marginais que se encontram de passagem no seu percurso infindável, de uma colecção de refugiados cujo olhar está sempre à espera de um Verão que nunca chega, surge-nos um palhaço indigente que se ergue contra o mundo, “como se um bicho de esgoto criasse asas e se pusesse a voar”. Passados vinte anos, o Teatro O Bando regressa às palavras de Raul Brandão (1867-1930) e à música de José Mário Branco, mas a este gesto dificilmente poderíamos chamar reposição, porque no caso concreto destes incansáveis alquimistas, uma nova paisagem cénica e uma nova visão dramatúrgica implicam necessariamente outras formas de organização e percepção. A Morte do Palhaço que co-produzimos e apresentamos no claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória é um espectáculo onde a luta quotidiana se aproxima dos sonhos, ainda que para tal tenha de sacrificar a realidade. Um espectáculo que procura derrubar portas invencíveis, portas que não se abrem, que não se vergam e que só cedem sob o peso de uma vida, pois sempre morre alguém para que a humanidade dê um novo passo. Passados vinte anos, João Brites regressa inquieto aos mesmos pontos de interrogação: “Quais são os nossos sonhos e quimeras? E que força precisamos para os atingir? E quem são os nossos pares nesta luta?”» daqui

Exactamente Antunes, a partir de NOME DE GUERRA de ALMADA NEGREIROS , JACINTO LUCAS PIRES



 [Acto 1, Cena 6]
    ÀS VEZES O DIA COMEÇA À NOITE
      À SEGUNDA VEZ QUE SE NASCE, ASSISTE-SE AO PRÓPRIO NASCIMENTO
      AS PESSOAS PÕEM NOMES A TUDO E A SI PRÓPRIAS TAMBÉM
  UM PAR SEM OUTRO SENTIDO ALÉM DE PAR
                     QUANTO MAIS SE SABE, MAIS VAI FICANDO POR SABER

[Ao mesmo tempo, uma canção com estas palavras baralhadas? Esta letra em cima da música o É pr'amanhã, do Variações?]

Às vezes os nomes começam pessoas
À segunda vez, somos um número par
Se ele há dias maus, ai ela há noites boas
Tantas pessoas ficam por começar

Quanto mais tudo, tudo tão mais além
Nenhum sentido que não o musical
Chama-me nomes a ver se sou alguém
Matas-me bem e não fazes por mal

Talk Show | Rui Horta | dia 11.01.11


Rui Horta - Talk Show from Dance Umbrella on Vimeo.


Talk Show é uma obra para quatro intérpretes e duas colunas de som. Um questionamento sobre o corpo enquanto sistema comunicante e sobre o seu desaparecimento ao longo da vida no território maior da sua evidência: o amor. Um homem e uma mulher falam um com o outro à frente de uma plateia. As suas linguagens são simultaneamente a voz e o corpo. O corpo é a nossa única propriedade, tudo o que realizamos tem a sua medida, tanto no espaço como no tempo. Talk Show é um road movie do corpo. Um exercício de curiosidade e inquietude perante o desconhecido. aqui

Hedda, a partir de Hedda Gabler de Henrik Ibsen


[...]
"Lovborg - Escrevi um livro para agradar.
Hedda - Isso é possível?
Lovborg - É mais fácil do que parece. Basta juntar as palavras pela ordem certa.
Hedda - Qual é a utilidade?
Lovborg - Para quem?
Hedda - Para quem lê.
Lovborg - É torna-se útil.
Hedda - Isso parece-me desinteressante."
[...]

Hedda [documentação]


thea: Querias acabar com o quê? Com o livro ou com o Eilert? Quem é que era o alvo a abater? A escrita ou a pessoa? O pai ou o filho? Era eu? Queres voltar atrás?
hedda: Voltar atrás?
thea: Se gostavas, se é disso que precisas? Tomar outras decisões, voltar atrás, é por isso? Queres estar no meu lugar? Queres sair daqui? Queres ir passear? Andar de
comboio? Não queres estar casada? Não queres gostar? Não gostas? O que é que
queres? Queres ser como eu? Queres ser o contrário de mim? Não sabes o que queres?
Tens inveja? Tens medo do que está para a frente? Queres ser o quê? Queres parar?
Queres disparar? Queres ir para longe? Estar longe das pessoas? Sair desta casa?
Queres o quê? Hedda.
hedda: Tantas perguntas…
thea: Queres que eu continue?
hedda: …E nem uma interessa. Nem uma dessas perguntas interessa.
thea: Qual é a pergunta então?
hedda: Porque é que não gostas de mim?
thea: Como?
hedda: Porque é que não gostas de ninguém?
thea: Estás a falar comigo?
hedda: Desde o princípio até ao fim. Fundamentalmente. É esse o meu percurso. É para isso. É por isso. Sou eu que conto a minha história. Mais ninguém. Sou eu que escolho as palavras. Aprende comigo. Vê ‑me a fazer. Talvez um dia sejas capaz. De escrever as tuas próprias palavras.

José Maria Vieira Mendes – Hedda

Mais aqui.

Hedda Gabler - John Calle

Desvio de Ibsen [Hedda]

Desvio de Ibsen
Teatro

 [José Maria Vieira Mendes]

É sempre uma aventura re-escrever radicalmente outro texto dramático. E cada aventura significa risco. Esta é a situação de Hedda, baseada, ou antes, inspirada na peça de extremo rigor estrutural de Henrik Ibsen (1828-1906), Hedda Gabler (1890). Toda essa cumplicidade fiel e infiel podia ser objeto de um belo seminário e seminários não têm faltado nos últimos anos. Para alguém que quinzenalmente escreve a sua visão crítica dos espetáculos oferecidos ao público, o problema é outro. Tem de dizer, se possível claramente, como resultou quer a passagem de um texto para o outro, quer a solução adotada sobre os outros elementos que compõem o espetáculo: encenação, intérpretes, solução espacial, guardaroupa, iluminação. Em princípio, todos esses elementos existem e coexistem em desequilíbrio neste espetáculo que os Artistas Unidos nos oferecem.
Comecemos pelo princípio. O neotexto do dramaturgo José Vieira Mendes (1976), não é uma adaptação dramatúrgica de um texto do fim do século XIX para as novas condições de receção do início do século XXI, mas uma escrita nova a partir do argumento e personagens ibsenianas. Porém, a complexidade estrutural e a riqueza dramática da peça de origem resistem a uma leitura hiperfragmentada que tende a separar e a abstratizar as situações urdidas dentro de um regime de verossimilhança ainda que por vezes simbólica. A efemeridade permanente da realidade que o novo texto configura é bem traduzida pela nova personagem Hedda, não sabendo muito bem o que quer. Além de alguns achados e boas soluções, uma dela fascinante e cinematográfica, quando Hedda antes de se suicidar toca piano perfeitamente: ela que não sabia tocar, descobre que afinal sabe.
A opção de, segundo o seu autor, acentuar "a narração como se nesta Hedda tudo viesse da cabeça da protagonista", cria dificuldades para o espectador em seguir a narrativa, quer lógica quer intuitivamente.
Situação que se repercute no próprio elenco de atores já em si de valor, mas ostensivamente diferenciado.
É fácil imaginar que não é de ânimo leve que se contracena com a atriz Maria João Luís; porém, aqui os contrastes são por demais negativos. O enfraquecimento da tensão dramática não fica a dever-se tanto a diferença de idades entre a frustrada Hedda e a resignada Thea, mas entre a insegura Hedda e o seu desnorteado marido. A opção anti naturalista do novo texto dramático contrasta, por exemplo, com o realismo da interpretação da cena da bebedeira de Lovborg.
[...]
Falar da peça de José Vieira Mendes, Hedda, obriga a falar de Hedda Gabler de Ibsen, e de como esta peça foi importante para a tomada de consciência da necessidade de realização individual face a uma sociedade feita de clichês.
A Hedda de 2010 diz para a jovem Thea: "Aprende comigo.Vê-me a fazer. Talvez um dia sejas capaz. De escrever as tuas próprias palavras.", a mostrar como as temáticas ibsenianas continuam a questionar-nos.

Helena Simões, Jornal de Letras 6 de Outubro de 2010

A mulher e o sofá, [Hedda]


Numa rescrita da peça de Ibsen, Hedda Gabler perde o apelido paterno mas conserva as pistolas do general Gabler

Em 1890 era publicada a "Hedda Gabler", de Ibsen, e representada um ano depois, em Munique.
Em 2010 é publicada a "Hedda", de José Maria Vieira Mendes, para ser representada logo de seguida.
O que é que se passou entre os dois textos, em que é que estes 120 anos de diferença entre uma e outra peça contribuíram para alterar o original? Vejamos as indicações iniciais da peça de Ibsen: "Uma sala de estar espaçosa, bem mobilada e com muito bom gosto, decorada em cores escuras." Segue-se uma página de mais indicações, entre as quais uma extensa lista de objetos: uma mesa oval coberta por uma toalha; cadeiras; uma salamandra; uma poltrona de encosto alto; um banco almofadado e dois tamboretes; um sofá de canto; uma mesinha redonda; um sofá; um piano-forte; prateleiras com peças decorativas de terracota e majólica; um sofá; uma mesa; duas cadeiras; o retrato a óleo de um senhor de idade, elegante, em uniforme de general; um candeeiro de vidro fosco; vários ramos de flores dispostos em vasos e jarras; mais ramos de flores sobre as mesas; tapetes espessos.
"Hedda", de José Maria Vieira Mendes, começa assim: "Uma sala. Caixotes por desempacotar, alguma mobília, desarrumação." Seguem-se duas frases sobre organização do espaço, e é tudo. Mesas, cadeiras, sofás, porcelanas, candeeiros, tudo pela borda fora. Com eles foi também Berta, a criada da "Hedda Gabler" imaginada por Ibsen.
"Muitas das convenções do Ibsen não estão vivas, eu já não suporto ver peças em que a criada vem dizer 'está aqui a senhora fulana de tal'. Toda essa ganga, essa convenção dramática com que o naturalismo cristalizou, eu não a consigo suportar. Não quer dizer que daqui a 40 ou 50 anos essas técnicas narrativas não venham a renascer, e sejam interessantes, mas agora não as consigo ler", diz Jorge Silva Melo, que encena e que teve a ideia de tudo. Queria fazer a "Hedda Gabler", queria que fosse aMaria João Luís a fazer o papel,mas queria que José Maria Vieiran Mendes rescrevesse a peça, queria sentir que trabalhava com palavras que estão a ser ou que acabam de ser escritas, queria fazer coincidir o espetáculo com a origem dele. "Interessou-me ver, em cem anos, entre Ibsen e o Zé Maria, o que é que mudou. Eu acho que o Zé Maria desenvolveu um lado muito infantil, ele diverte-se com estas personagens, acha os dramas delas risíveis. Isso nunca me passaria pela cabeça, por isso acho graça que o Zé Maria me venha iluminar uma peça que conheço, por assim dizer, desde que comecei a ler", continua o encenador.
A peça de Ibsen começa no dia a seguir à chegada do casal Hedda Gabler - agora Tesman - e Jorgen Tesman à sua casa, vêm de viagem de núpcias, seis meses pela Europa. Quando a tia Juliana lá vai, de manhã, ainda está tudo a dormir. Na peça de Ibsen, a centralidade de Hedda Gabler coexiste com um equilíbrio perfeito entre ela as outras personagens, um equilíbrio que começa e que depende, essencialmente, da teia de palavras que Ibsen constrói com uma mestria inultrapassada. José Maria Vieira Mendes desequilibra voluntariamente a peça, confere às personagens um carácter reflexivo que no original elas não possuem, ou não formulam. Como diz Jorge Silva Melo, "isto é uma Hedda 'depois', não sei se é Gabler, mas é depois de Ibsen. Esta Hedda já viu a peça, lembra-se dela, sabe como acaba".
 A Hedda moderna, como a antiga, vive insatisfeita, sem saber porquê; gosta mais do marido do que a de Ibsen, mas isso não a satisfaz; sente em Thea uma rival (na nova versão, Thea é bastante mais nova) porque Thea partilha com Eilert Lovborg aquilo que Hedda finge desprezar: a possibilidade de escrever.
Em qualquer das "Heddas", a escrita émotivo de realização pessoal, frustração, inveja, ansiedade e morte.
Em qualquer das peças, Hedda procura um ideal que poderia ser substituído, eventualmente, pela única coisa que ela não consegue fazer: trabalhar. Em 1890, porque uma mulher burguesa não está preparada para isso; em 2010, porque... porque... porquê?
Na "Hedda" de José Maria Vieira Mendes, a tia Juliana faz apenas duas entradas - "de leão", seja dito - para debitar dois extraordinários discursos sobre as rotinas como forma de vida, ou de sobrevivência, e que ecoam fortemente o discurso de Winnie, de "Dias Felizes", sobre a mesma coisa, aliás; só que aqui é Hedda, claro, e não a tia Juliana, quem tem as pistolas (as armas resistem bem às alterações cronológicas, como é sabido). Aliás, as pistolas são, com o sofá em que passa uma boa parte do tempo, o essencial do mundo de Hedda, uma Hedda que agora, como diz Jorge Silva Melo, "nem sequer arruma a casa. A sua vida é um sofá, o sofá é o corpo dela".
Na "Hedda" de 2010 o tempo é fortemente, explicitamente, tematizado. Lovborg, o ex-amante e escritor, é uma personagem para quem, segundo Jorgen Tesman, "os dias não existem, o sol não nasce nem se põe". Bem gostaria Jorgen, o marido de Hedda, de parar o tempo: "O segundo dia dos Tesman. Preferia que o primeiro não tivesse ainda acabado. Tentar prolongá-lo. Só que o sol não espera." À sensatez de Tesman opõe Hedda o seu delírio idealista: "Porque eu, se quiser, sou capaz de acelerar o tempo. Faço avançar as horas. Encolho os dias." Contudo, foi para Ulisses e Penélope, não para Hedda, que Atena "reteve o fim do longo percurso da noite; reteve junto das correntes do Oceano a Aurora de trono dourado". Ulisses e Penélope amavam-se e sabiam o que queriam.
Hedda tem direito apenas ao cinismo do juiz Brack: "Não se pode ter tudo o que se quer. Sobretudo quando não se sabe o que se quer." "Hedda" tem interpretação de Maria João Luís, Rita Brütt, António Pedro Cerdeira, Marco Delgado, Lia Gama e Cândido Ferreira. O cenário e os figurinos são de Rita Lopes Alves, o desenho de luz é de Pedro Domingos.

João Carneiro, Expresso, 11 de Setembro de 2010.

Hedda #2


Hedda

Uma personagem sem comedimento para um talento desmedido.

É uma atriz única. Inventiva, minuciosa, inteira, não se imagina outra coisa que não seja ver Maria João Luís enfrentar a exigência de grandes papéis. Como Hedda Gabler, a personagem que Henrik Ibsen desenhou contra um fundo burguês dos finais do século XIX, uma mulher em proclamação da sua individualidade, numa fúria de (tudo) viver que não olha a meios, ou a meios-termos. José Maria Vieira Mendes propõe, na recriação do original, uma leitura sem o espartilho da notação epocal nem pretensões naturalistas. Independentemente da validade de tal opção, o facto é que a reabilitação da obra como um todo não funciona, sobretudo porque a sublimação do drama interior não tem correspondência com o espaço físico nem com a direção de Jorge Silva Melo. Assiste-se, com alguma estranheza, a uma versão híbrida, sempre a meio caminho entre a natureza intemporal de Hedda e o peso da cor local. E enquanto Maria João toma conta do palco, do S. Luiz, tudo o mais à sua volta se apequena. À independência, determinação, ciúme, capricho, intensidade, beleza, princípio e fim da sua personagem, contrapõe-se a frouxidão de marido, ex-amante, rival. Como um triângulo de que só se visse um lado, sem que os atores (António Pedro Cerdeira, Marco Delgado, Rita Brütt ou, de outra forma, Lia Gama) validem ações e não apenas reações, só Cândido Ferreira (Juiz Brack) conseguindo, no seu jeito e experiência, fugir à réplica cerebral que marca o tom. (Rosário Anselmo) in Visão 7 Lisboa - pág. 19

 
 

Hedda Gabler #1

"Hedda Gabler" é  um clássico escrito em 1890 pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.


Em 2009, HEDDA GABLER foi  apresentada em Lisboa no Espaço Negócio / ZDB




Também, recentemente, Celso Cleto encenou Hedda Gabler, que foi interpretada por Sofia Alves.



Mas a Hedda Gabler mais conhecida é, sem dúvida, a que foi interpretada por Ingrid Bergman:

Hedda resgatada...

As pistolas estão lá, num canto da sala ainda por arrumar. Hedda Gabler, agora Hedda Tesman, e o marido acabaram de chegar de uma longa lua-de-mel. Hedda segura as pistolas. Aponta-as. Testa-as. Diverte-se com elas. "As pessoas dizem isso, mas não o fazem." Não disparam as pistolas, é o que ela quer dizer. Mas há um semi-sorriso naquele rosto, como se soubesse algo mais.

[...]

Em 1970, Silva Melo era um jovem em Londres a assistir, "umas duas ou três vezes", à Hedda Gabler encenada por Ingmar Bergman. Nunca mais se esqueceu daquele espectáculo. "Para mim, esta é peça de Ibsen perfeita", admite. Em 2008, enquanto assistia à reposição de Stabat Mater no São Luiz, a peça de Antonio Tarantino em que Maria João Luís interpretava uma mulher em busca do seu filho, o encenador percebeu que estava perante a actriz ideal para fazer Hedda. "Ela tem tudo a ver com as heroínas de Ibsen e Strindberg. Tem aquele lado moderno mas ao mesmo tempo elegante, é uma mulher e uma actriz independente", explica. E foi naquele momento que decidiu pedir a Vieira Mendes para reescrever a peça. Queria deixar de fora "toda a ganga" do naturalismo que hoje em dia lhe parece absurda. "Mas não queria ser eu a fazê-lo. Achei que fazia mais sentido ter um jovem, da geração do Zé Maria, a olhar para esta peça. Quando Hedda Gabler se estreou em Portugal foi um escândalo. Era tudo novo, toda aquela abordagem e a mentalidade do Norte da Europa. Mas o que é que Hedda Gabler diz às novas gerações de hoje?", pergunta-se Silva Melo.
Hedda perdeu o apelido, mas não só. "Já não é aquela mulher mal-casada. Pelo contrário, é uma mulher que quer mais do que um bom casamento. O marido é mais doce e atraente do que em Ibsen mas isso não é suficiente." Ou, como diz Maria João Luís: "Ela é um ser humano, uma mulher como todas as outras. Não é a mulher diabólica da peça de Ibsen, quase monstruosa. Mas é uma mulher ansiosa, que quer mais sem saber muito bem o quê. Todos nós temos estes momentos em que já pensámos em acabar com isto."
Sobre esta adaptação, o encenador diz que "é como contar a história de novo, mas à nossa maneira". E esta foi uma ideia que tentou passar aos actores e sobretudo a Maria João Luís: "Esta Hedda explica-se, analisa-se, tem consciência de si própria. Parece que já viu a peça, que sabe o que vai acontecer." E talvez saiba. Talvez seja por isso aquele semi-sorriso ao pegar nas pistolas do general seu pai. "Se eu quiser, nada me pára. E vou a caminho do impossível, está a ouvir?"
No palco, com cenário e figurinos de Rita Lopes Alves, além de Maria João Luís, estão António Pedro Cerdeira (o marido Jorge Tesman), Marco Delgado (o escritor Eilert Lovborg), Lia Gama (a tia Juliana), Cândido Ferreira (o juiz Brack) e Rita Brutt (a jovem Thea Elvsted). Hedda fica em cena até 17 de Outubro.

[fonte Diário de Notícias]

HEDDA, dia 21, no TNSJ

Ibsen não teve influência apenas no teatro. A sua peça “Casa de Bonecas”, de 1879, revelou uma mulher mal situada nas regras do casamento da época — acabando por influenciar a discussão sobre o feminismo e logo sobre os direitos da mulher. “Hedda Gabler”, escrita muitos anos depois (1891), criava “uma versão feminina de Hamlet”, como se tornou cliché dizer. A bela e inteligente mulher de classe alta — sem profissão, filha de um homem poderoso e casada sem paixão nem amor com um homem que a idolatra — age sobre os seus próximos de forma incompreensível. José Maria Vieira Mendes, a pedido do encenador Jorge Silva Melo (que tinha em mente atribuir este papel a Maria João Luís), rescreveu a peça de Ibsen.

HEDDA, dia 22, no TNSJ

Hedda, 
Hedda é a resposta por escrito de José Maria Vieira Mendes a uma pergunta de Jorge Silva Melo: “Será possível voltar a Ibsen?” A longa didascália que abre Hedda Gabler (1890) de Henrik Ibsen – atafulhada de móveis, bricabraque, bom gosto burguês – é pulverizada pelo dramaturgo português, que começa a sua Hedda com ela a dizer-nos “Diz”. E este verbo tão performativo, dito com uma urgência conjugada no presente do indicativo, é todo um programa, e parte da resposta ao repto lançado pelo encenador. Sem actualizações, violentações ou cinismos pós-qualquer-coisa, Vieira Mendes reescreve Ibsen para nos devolver personagens capazes de voltar a assombrar o nosso quotidiano vivencial, como se lhes perguntasse, perguntando-nos: “Quem és, o que queres, o que te traz aqui hoje?” Nem Gabler nem Tesman, nem a filha do seu pai nem a mulher do seu marido – Hedda é simplesmente Hedda, ou a tremenda Maria João Luís no lugar dela. E a sua solidão, no caminho para o suicídio, é um assunto que nos toca a todos. [daqui]


DIA 22 vamos ao teatro.

A Gaivota, de Anton Tchékhov


"O título original da peça – Tchaïka (a gaivota) – pode evocar em russo o verbo tchaïat’, esperar vagamente, que contém em si um dos temas principais de A Gaivota: a ilusão, a decepção, a divagação, a desilusão, o facto de se estar virado para o futuro e de se esperar o irreal, ou de olhar para o passado, esperando que esse passado descubra uma esperança de ver nele o que aí não existia, uma reconciliação possível."
André Markowicz, Françoise Morvan
“Notes sur La Mouette”. In Pascal Rambert [et al.] – Lexi  ‑Textes. 
5: Inédits et Commentaires. Paris: L’Arche, 2001.



Há realmente muito amor nesta peça, embora em verdade se trate mais de amores desencontrados. Medvedenko ama Macha, que ama Tréplev, que ama Nina, que ama Trigórin, que ama Arkádina, amará e deixará de amar Nina, a qual apesar disso continuará a amá  ‑lo. Até o velho Sórin confessa a sua paixão  por Nina. E há também Polina que ama Dorn, sendo esposa de Chamráev. Só nestes dois últimos não parece haver sintomas de infecção desse vírus. Mas o amor que nas novelas surge como o remédio salvador que tudo redime, não parece ter aqui essa função. 
O papel redentor parece caber aqui à entrega a uma vocação, à confança em si próprio e nas suas capacidades para enfrentar e vencer as difculdades da vida. Nina, rapariguinha provinciana que vivia na ilusão da celebridade, do papel enaltecedor da arte, da criação, terá que passar pelo calvário do fracasso na sua carreira, da desilusão amorosa, para descobrir enfm a autenticidade da sua vocação e a sua força interior, para vencer as difculdades. Tréplev, flho de uma actriz famosa, que passou a vida meio abandonado pela mãe, apagado pela fama da grande actriz, entregue a si mesmo, vê no seu amor por Nina uma tábua de salvação, a única razão verdadeira para viver, e nem o relativo sucesso como escritor basta para o compensar da perda desse amor. [...] 
O tema principal da peça é pois o da ligação do artista com a vida, a ligação do homem com a realidade, decisiva também nos destinos das outras personagens: Trigórin, Tréplev, Arkádina, Macha e outras.    António Pescada aqui 

A Gaivota, de Anton Tchékhov no TNSJ


Trigórin
Estou só a tomar uma nota… Surgiu‑me um tema… (Escondendo o caderno.) Um tema para um pequeno conto: na margem do lago vive desde criança uma jovem, assim como você; gosta do lago como uma gaivota, e é feliz, e livre como uma gaivota. Mas por acaso apareceu um homem, viu ‑a e por não ter nada que fazer, destruiu ‑lhe a vida. Como a desta gaivota. 
in  A Gaivota, de Anton Tchékhov  

Do livro ao filme: filme do Desassossego




a partir de "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares 
realização João Botelho 
música Caetano Veloso, Carminho, Lula Pena, Ricardo Ribeiro e "Ópera Marcha Fúnebre para o Rei Luís Segundo da Baviera", de Eurico Carrapatoso (interpretação Angélica Neto, Elsa Cortez) fotografia João Ribeiro som Francisco Veloso  
direcção artística Sílvia Grabowski 
montagem João Braz  
interpretação Cláudio da Silva, Alexandra Lencastre, Ana Moreira, André Gomes, António Pedro Cerdeira, Carlos Costa, Catarina Wallenstein, Dinis Gomes, Filipe Vargas, José Eduardo, Luísa Cruz, Manuel João Vieira, Marcello Urgeghe, Margarida Vila-Nova, Miguel Guilherme, Miguel Moreira, Mónica Calle, Paulo Filipe, Pedro Lamares, Ricardo Aibéo, Rita Blanco, Rui Morisson, Sofia Leite, Suzana Borges  
produção Ar de Filmes 

TEATRO NACIONAL SÃO JOÃO - dias 7,8,9 de Outubro.


Os filhos de Édipo [Expresso, 27 de Março] por Valdemar Cruz

 por Valdemar Cruz
[Expresso, 27 de Março]


Nunca sobe à cratera. Creonte nunca desde aos subterrâneos. Antígona nunca desiste, quando o mais fácil seria ceder. Creonte percebe tarde de mais a dimensão da tragédia criada pelo labirinto da sua intransigência. Antígona é mulher e clama o direito de dizer ‘não’ num tempo governado por homens. Creonte é um tirano cheio de dúvidas. Antígona não tem medo de morrer. Creonte desejaria ser tragado pelo vulcão que no cenário se impõe como metáfora maior do turbilhão contido neste conflito feito de contradições, mágoas e ressentimentos. Num tempo tão despojado de valores éticos, políticos ou morais, não deixa de alguma nobreza de carácter”. Não era uma anarquia organizada, materializada no empunhar de bandeiras pretas, “mas anarquia no sentido de contra a corrente”, sublinha Nuno Carinhas. De resto, foi nesta peça que pela primeira vez, através de Sófocles, a palavra ‘anarquia’ foi inscrita. Na Grécia antiga, as mulheres não tinham um papel político. Até por isso, Nuno não quis apresentar um olhar feminino ou feminista, mas interessa-lhe tentar perceber “como é que os gregos reagiriam quando assistiam à representação, sabendo que por trás de uma máscara estava um homem que representava uma mulher”. Com um texto muito marcado pela importância dos valores, o encenador fez questão de chamar a atenção dos actores para a necessidade de “nunca abandonarem a espessura da argumentação, fossem homens ou mulheres, guardas ou reis”. Há ali uma permanente reflexão sobre tudo e de forma tão elaborada que ultrapassa a dimensão específica de cada uma das personagens. Funcionam como coro de ideias, e é como “se a peça fosse construída como uma única cabeça que vemos por dentro e à volta”.
Quando a cena se abre por completo, depois de uma espécie de prólogo com Antígona e a irmã, Ismena, que nos apresenta todo o drama em construção, surge Creonte no cimo de uma cratera, formada por uma estrutura concêntrica, numa espécie de anfiteatro ao contrário. Durante longos minutos, e devido ao efeito de luz, não se percebe qual a matéria, qual a textura daquela cratera de enorme beleza e com uma dimensão visual muito táctil. Por fim, revela-se a cortiça, um material já proposto por Carinhas para a cenografia de “Cabelo Branco É Saudade”. Agora apeteceu-lhe voltar àquele material de “forma mais abundante e mais determinante. Ao pensar naquela cratera, naquela paisagem vulcânica, achei que a cortiça tinha já na sua textura esses veios, como de lava quase gelada que tinha ficado ali esculpida”. Num trabalho ancorado numa forte metáfora do poder e das hierarquias, impõe-se a presença do coro como se fora uma outra personagem. Não apenas pelo modo como todos estão tão austeramente vestidos com casacos compridos. Não apenas por, apesar do conjunto, manterem uma forte individualidade. Mas antes de tudo por surgirem como personagens actuantes. Como diz Nuno, “são uma espécie de espelho nosso”. Estão em cena a presenciar de forma activa o que se passa e, por vezes, a condicionar o que se passa. ser surpreendente a actualidade da proposta de Nuno Carinhas, de regresso a Sófocles e à coragem de uma mulher, Antígona, disposta a sacrificar a própria vida em nome de um princípio. A revolta da filha de Édipo contra a decisão de Creonte de proibir o enterro de seu irmão Polinice, por ter lutado contra a cidade de Tebas, resultava então numa tragédia pejada de mortes. 2500 anos depois, a desgraça reside sobretudo na constatação de que aquele rosto, aquela mulher, aquela capacidade de enfrentar o poder, aquela disponibilidade para defender uma causa é cada vez mais necessária, mas está cada vez mais moribunda.

  por Valdemar Cruz
[Expresso, 27 de Março]