Mostrando postagens com marcador valter hugo mãe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador valter hugo mãe. Mostrar todas as postagens

o poema feio | valter hugo mãe


o poema feio | valter hugo mãe

o poema feio 
para o jamie stewart

a princesa feia não casou mas, no tempo em que foi visitada por príncipes solteiros, querendo agradar, cortou uns palmos às pernas para ficar mais baixa e cómoda ao abraço, puxou pelos dedos para ficar com eles compridos, amassou os seios de encontro ao pescoço para subirem aos olhos da gente, rasgou os lábios para sorrir eternamente. agora, ali sentada, sozinha de amores, lembrava-se de ser impossivelmente a mulher que foi, mas os ratos passavam-lhe entre as falhas cortadas das pernas, e os dedos desjuntavam-se irremediavelmente murchos de encontro ao chão, os seios coagularam como calcificados com as marcas desorganizadas das mãos e os lábios articulavam apenas palavras de dentes, trituradas pelo osso da cabeça lentamente vertendo para fora da pele. conformada, a princesa feia, dizia à prioresa sua amiga que o vento estava louco. levantava-se instável e profundamente mortal, fechava a janela e voltava ao silêncio
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)

Poema sobre o ódio à vida , valter hugo mãe

(foto de Pat)

Poema sobre o ódio à vida
para o zeca afonso

Havia um sapato de cristal no meio das escadas, era
certo que uma futura princesa ali o passara. um príncipe
triste, acompanhado de seus pajens, recolheu o
delicado objecto e suspirou, antevendo um amor eterno,
o coração acelerado, o príncipe tornou-se muito ansioso e
mais ansioso à medida da espera. e esperou demasiado,
enquanto todos os seus esforços falhavam o encontro
com a futura princesa. um dia, estava quieto em seus
aposentos quando súbito lhe anunciaram a bela moça.
entrando de cautelo no rico palácio, vinha já coberta
de ouro e luzia como luz que aumentasse. foi quando
lhe perguntou o pretendente, quereis casar comigo,
um príncipe triste. e a moça respondeu, perdi o sapato
sem querer, sou contra o amor, prefiro odiar todas as
coisas, ser fútil, promíscua. o príncipe ordenou que
deixassem todos os seus aposentos e ponderou o
suicídio. fechou as janelas, como num luto e, no dia
que veio, começou por inventar as leis mais justas e
mandar que oferecessem moedas aos pobres.

valter hugo mãe