O comentário de texto (passo a passo)



O que é que o texto diz? Como diz? O que me diz?

- estas são as principais perguntas a que temos de dar resposta quando pretendemos fazer um comentário de texto.

Lemos um texto e, para falar dele, temos que o ter compreendido em primeiro lugar. O acto de falar do texto corresponde, por sua vez, ao acto de explicação, ou seja, o momento em que, uma vez compreendido o texto lido, estamos aptos a esclarecer os outros sobre aquilo que o texto diz, como diz e o que nos diz. O acto de compreensão do texto torna-se, a partir daqui, simultâneo em relação ao acto de explicação, porque explicamos para que os outros possam compreender. Este processo pode ser continuado infinitamente. Só podemos chegar ao comentário, depois de termos compreendido e explicado um texto.

1. Ler atentamente o texto a comentar, pelo menos duas vezes. Desde logo, devemos assinalar todos os elementos do texto que nos ofereçam dificuldades de compreensão (vocábulos, referências concretas, conceitos complexos desconhecidos ou empregues em situações inesperadas).

2. Resolver todas as dificuldades encontradas, procurando nos dicionários e enciclopédias as respostas a todas as palavras e expressões que ofereceram dificuldade de compreensão.
3. Identificar o tipo de texto que estamos a ler.
A que género literário pertence? Qual o modo que (o) representa?

4. Localizar o texto: trata-se de um excerto ou de um texto independente?
No primeiro caso, identificaremos a obra original a que o excerto pertence, fazendo uma síntese do seu enquadramento geral; no segundo, limitar-nos-emos à síntese do enquadramento do texto autónomo na totalidade da obra do seu autor.

5. Indicar o tema do texto. A compreensão do texto passa por este primeiro teste que consiste em responder correctamente à questão: O que é que o texto diz? Não devemos confundir tema com assunto. O primeiro é a ideia fundamental que o texto quer provar ou desenvolver; o segundo, é a matéria ou objecto de que trata o texto. O assunto obtém-se por intermédio do resumo, que contém todos os elementos relevantes do texto.
Para o comentário, interessa mais a definição do tema do que o resumo do texto. A extensão narrativa do assunto é sempre maior do que a do tema, que, pela sua extrema brevidade, se aproxima do título (mas não se confundindo obrigatoriamente com ele).

6. Determinar a estrutura do texto. Todo o texto possui uma estrutura interna, ou seja, os elementos que o constituem ordenam-se segundo uma lógica de sentido. Determinar tal estrutura significa, em termos simples, identificar os momentos em que podemos dividir o texto como um todo, possuindo cada momento, por si só, uma lógica de sentido própria. O conjunto dos momentos de um texto, sempre reduzidos a um mínimo razoável e justificável, dá-nos desde logo um plano esquemático do texto nas suas linhas fundamentais. O tema já definido terá de percorrer, de alguma forma, mesmo que implicitamente, os momentos determinados no texto.

7. Analisar a forma do texto. Nesta fase, esclarecem-se os processos estilísticos, linguísticos e/ou gráficos que o autor do texto utilizou na construção do texto. É fundamental não esquecer que esta análise só é justificável em função do nível de adequação da forma escolhida ao tema desenvolvido, isto é, o tema tem que estar representado em cada um dos processos analisados.

8. Elaborar uma conclusão, captando o essencial do texto.

(ver mais aqui , aqui e aqui)

Se ao menos a morte, de Filipa Leal


Se ao menos a morte

Ela morria tantas vezes
em tiroteios à porta de casa
que já não sabia morrer para sempre
assim
de uma vez só.
Se ao menos se marcasse um dia
para a morte, uma hora certa
como no dentista
que apesar de tudo
nos faz esperar
onde apesar de tudo
não sabemos quando será a nossa vez.
Se ao menos a morte tivesse revistas
e gente na sala de espera
não estaríamos tão sós
tão vivos nessa ideia final
nesse desconforto.
Poríamos o nome na lista
quando estivéssemos prontos
sabendo que seria fácil desmarcar
marcar para outro dia
ou simplesmente
não comparecer.
Depois, ficaríamos com a dor,
com o terror
de passar sequer naquela rua
como ela à porta de casa.
Ela que morria tantas vezes
porque morria de medo de morrer.
Filipa Leal

Desafio


Durante o primeiro período, gostaria que cada um fizesse um microfilme.
Esse microfilme deverá ser um relato de vivências, experiências ou reflexões, verdadeiras ou fictícias, na 1.ª pessoa. Sobre as imagens, haverá um texto criado e dito pelo autor do microfilme. Esse texto — autobiográfico, memorialístico, diarístico ou de auto-retrato — deve percorrer todo o filme e ser preparado. O microfilme não deve ter personagens visívveís.
Bom trabalho!

Ultimato, crítica de cinema, por Tiago



O Ultimato, em inglês The Bourne Ultimatum, é uma triologia cinematográfica onde se ficciona a história de um assassino profissional, Jason Bourne (interpretado por Matt Damon) que perde a memória e que ao longo das três longas-metragens tenta reconstituir o seu passado. Jason Bourne perdeu a memória numa missão ao serviço de um programa secreto do governo dos EUA, por isso é perseguido pela C.I.A. para que não revele informação confidencial.
Trata-se de um conjunto excelente de filmes de acção, sendo que, a meu ver, o último filme da saga é aquele que se me afigura como o mais entusiasmante, uma vez que é aqui que tomamos conhecimento de muitos pormenores que dão sentido aos filmes anteriores. O pior do filme é mesmo ser o último da triologia.
Tiago Santos

Alguns apontamentos sobre o Bairro, por Tiago



O Bairro é um conjunto de livros onde comparecem uma série de senhores com estórias anormais, no sentido em que escapam à lógica habitual. O Senhor Valéry, o Senhor Calvino, o Senhor Krauss e o Senhor Juarroz têm em comum o facto de serem todos vizinhos do mesmo bairro, apesar de nos livros existir registo de que falem uns com os outros.

Todos os habitantes do bairro têm nomes de escritores famosos: Valéry (Paul Valéry), Calvino (Italo Calvino), Kraus (Karl Krauss) e Juarroz ( Roberto Juarroz).

O Senhor Valéry e o Senhor Calvino têm em comum a baixa estatura, o que os leva a andar muitas vezes aos "saltos" para conseguirem ser do mesmo tamanho das outras pessoas, só que por menos tempo.De todos os livros, considero que o Senhor Valéry e o Senhor Juarroz são os mais cativantes. O Senhor Krauss foi, de entre todos os livros, aquele que considerei menos interessante.


Sobre o autor:


Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Foi Bolseiro do Ministério da Cultura — IPLB com uma bolsa de Criação Literária para o ano 2000, na área de poesia. Em Dezembro de 2001 publicou a sua primeira obra: Livro da dança, na Assírio e Alvim.

Recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso com a obra O Senhor Valéry (publicado na Editorial Caminho em 2002) e o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Investigações. Novalis (Difel).

Publicou O homem ou é tonto ou é mulher e A colher de Samuel Beckett e outros textos, ambos na Campo das Letras e adaptados para teatro. Está representado em antologias de poesia publicadas na Holanda («Hotel Parnassus, Poetry International 2002») e na Bélgica («Het laatste anker» — «O último refúgio — 300 poemas de todo o mundo sobre a morte», Lannoo/Atlas), e editado em revistas inglesas e americanas. Traduzido para italiano com um conto inserido na antologia «Racconti senza dogana» — «Jovens escritores para a nova Europa» (Gremese Editore). No grupo OuLIPO (França) foi realizada, em 2003, uma leitura de algumas histórias de O Senhor Valéry (com tradução e leitura de Jacques Roubaud). Ainda em 2003 publicou O Senhor Henri (Caminho). O Senhor Valéry foi traduzido para francês, com um prefácio de Jacques Roubaud, e editado em Setembro de 2003 na «Joie de Lire». O ano de 2004 assitiu ao crescimento do «Bairro» com o lançamento de O Senhor Brecht e O Senhor Juarroz. Publicou os romances: Um homem: Klaus Klump, em 2003 e A máquina de Joseph Walser (2004) na Caminho.Em 2005 publica, também na Editorial Caminho, a obra vencedora de dois prémios, Jerusalém.Vencedor, em 2004, do Prémio LER/Millenium BCP.Vencedor, em 2005, do Prémio Literário José Saramago.


Tiago Joel Rocha Santos

Os Animais Carnívoros, de Herberto Helder



Os Animais Carnívoros
I
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante umparque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia oque fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanhaintensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele erauma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Herberto Helder

Nesta última tarde em que respiro, de António Franco Alexandre




Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

António Franco Alexandre

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões, de Daniel Faria



As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Duas albas separadas por vários séculos

woman staring blankly, Edward Hopper

ALBA: Cantiga que tem por tema o amanhecer e a consequente separação dos amantes, que amaldiçoam a brevidade da noite. Pode ser encontrada em quase todas as literaturas. Na lírica galego-portuguesa, encontram-se exemplos nas cantigas de amigo, aparecendo a composição de Nuno Fernandez Torneol, Levad'amigo que dormides as manhanas frias, como a obra-prima do género entre nós. O género foi trabalhado ao longo dos séclos: John Donne escreveu "The Sunne Rising" e Shakespeare introduz uma alba em Romeu e Julieta (Acto III, cena v). Muitos poetas contemporâneos retomam o género em versões modernas. Natália Correia, por exemplo, escreveu uma "Alba", que começa assim: "No laranjal laranjedo / A lua florida estava. / Sonhando estava o guerreiro / Que em meus braços repousava. / Comigo sonha o guerreiro, / Não venha acordá-lo a alva."



ALBA


Levad', amigo, que dormides as manhanas frías;
toda-las aves do mundo d'amor dizían.
Leda m'and'eu.
Levad', amigo, que dormide-las frías manhanas;
toda-las aves do mundo d'amor cantavan.
Leda m'and'eu.

Toda-las aves do mundo d'amor dizían;
do meu amor e do voss'en ment'havían.
Leda m'and'eu.

Toda-las aves do mundo d'amor cantavan;
do meu amor e do voss'i enmentavan.
Leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss'en ment'havían;
vós lhi tolhestes os ramos en que siían.
Leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss'i enmentavan;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan.
Leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que siían
e lhis secastes as fontes en que bevían.
Leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan
e lhis secastes as fontes u se banhavan.
Leda m'and'eu.

Nuno Fernandez Torneol (séc. XIII)

Edward Hopper

Alba
Para Fátima Maldonado


Olhavam-se, viera com os outros,
ficava depois de terem ido.
Viam-se no mesmo espelho os dois.

Uma alegria dolorosa calava-se.
Os autocarros voltavam a ouvir-se
para além do parque.
A medo prendiam os olhos a sorrir.

Desapertavam os atacadores.
Abriam os colarinhos. Perdiam-se
no ardente tecido em redor do peito.

Na raiz do sexo o sobressalto
da primeira claridade nos estores.
A mistura de sorte e de prazer
a que chamamos o bem.

"Era de inverno, em Vila Real.", Joaquim Manuel Magalhães




Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo do vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesa indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.
Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.

Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.
Joaquim Manuel Magalhães


Beiras

Dia 18, quinta-feira, vamos ao teatro.


Beiras
A Farsa de Inês Pereira + A Farsa do Juiz da Beira + Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela

de >>
Gil Vicente
direcção >> Nuno Carinhas
música >> António Sérgio
desenho de luz >> Rui Simão

interpretação >> Alberto Magassela, Alexandra Gabriel, Ana Ferreira, Fernando Moreira, João Castro, Jorge Mota, Lígia Roque, Paulo Freixinho, Mário Santos, Marta Freitas, Nuno Veiga, Pedro Frias

produção >> TNSJ

classificação etária >> Maiores de 12 anos
duração aproximada >> [1:50] com intervalo

Uma esplanada sobre o mar, Vergílio Ferreira


Lemos e gostámos.


«A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco e era loura mas estava muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular para acertar bem a sombra. O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar era muito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passavam tinham os traços imprecisos como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca, iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.»

Areia - Lado C por Bruna Freitas


«Em “Areia” – inspirado na contemplação do óleo sobre tela de 1891, Melancolia, de Edvard Munch – a mesma história é-nos contada sob duas perspectivas – o “Lado A” e o “Lado B”, tal como no conto “Investir em ti” –, dois homens que, sem se conhecerem, repartem o mesmo amor pela mesma mulher, e cujo amor carnal e efectivo de um, e o amor destroçado e ressentido de outro, acabam por reflectir, em lados aparentemente opostos, a mesma dúvida existencial: «Aconchego-me na areia, sentindo-me parte dela, apenas mais um grão; e espero» (aqui). Agora o "lado C":



Ao caminhar contigo de mão dada, naquela praia, relembrava alguns momentos que ali tinha passado com outro alguém, numa outra altura. Sentia algo por ti, não sei bem o quê, estava tensa, nervosa. Fiquei mais ao ver ao longe um vulto. Fiquei com receio de continuar. Era ele. Pesei em fingir que não o conhecia, mas seria rude. Então optei por ter uma atitude simpática. Pensei: já estive aqui com ele. Depois pensei que antes de ter estado ali com ele, já tinham existido outros eles. Ele foi alguém que amei ali, que me amou, mas que deixei para trás. Beijaste-me. Correspondi, mas sem sentir nada. Foste atingido. Olhei e era aquela figura do meu passado que deiei e magoei. Foste novamente atingido. Depois, pousou o pau, virou costa e partiu. Ainda me olhaste, sem entender o cedido. Pedi-te desculpa e desapareci. Sou prisioneira de outro amor. Perdão.
Bruna Freitas

POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO, Adília Lopes

POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO (cliché em papel couché)

1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu

Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata

2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo

Sou um poeta-macho
sacho

3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas

Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial

4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante

Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato

5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete

sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete

Sou um poeta-macho
sou um badalo

sou uma poetisa-fêmea
calo-me

6
A poetisa- fêmea
toca viola

o poeta-macho
viola-a
7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios

o poeta-macho
assina o despacho
8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo

9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato



A ideia fundamental que retirei do poema prende-se com a diferença que existe entre a "poetisa fêmea"e o "poeta macho". Por exemplo, aparentemente, o poeta tem mais direitos. Ele tem um gabinete, enquanto ela só tem uma "retrete". Concluo que os homens tem mais oportunidades de dizer, mas as poetisas fêmeas conseguem dar a volta, escrevendo ainda melhor so que eles e dizendo tudo o que querem.


Gabriela Maximiano

POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO, Adília Lopes

POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO (cliché em papel couché)

1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu

Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata

2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo

Sou um poeta-macho
sacho

3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas

Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial

4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante

Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato

5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete

sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete

Sou um poeta-macho
sou um badalo

sou uma poetisa-fêmea
calo-me

6
A poetisa- fêmea
toca viola

o poeta-macho
viola-a
7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios

o poeta-macho
assina o despacho
8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo

9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato


A ideia fundamental que retirei do poema prende-se com a diferença que existe entre a "poetisa fêmea"e o "poeta macho". Por exemplo, aparentemente, o poeta tem mais direitos. Ele tem um gabinete, enquanto ela só tem uma "retrete". Concluo que os homens tem mais oportunidades de dizer, mas as poetisas fêmeas conseguem dar a volta, escrevendo ainda melhor so que eles e dizendo tudo o que querem.

Gabriela Maximiano

Testamento, Ana Luísa Amaral


TESTAMENTO
Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras

ANA LUÍSA AMARAL



O "Testamento" de Ana Luísa Amaral de que a poeta fala, não é um testamento material, mas uma forma de ela dizer o que quer para a sua filha, quais os seus desejos. Sabe-se que o sujeito lírico vai viajar de avião e receia a morte, por isso deixa bem claro o que quer para sua filha. Pede que alguém a eduque a filha com carinho, que não lhe ensinem só a fazer as tarefas dométicas e escolares, mas que a ensinem a ser feliz. Pede ainda que a lembrem, junto da filha, com contentamento.


Maria João

Ser forte, mandar


Ser forte, mandar
para que o mundo não se abra a meus pés
Para que não tenha que me matar.
E tu mãe que me disseste
Os homens a terra o mar, que me propuseste
O sacrifício e o altar, também sentes este ódio
Esta raiva, também vês o mundo a desfilar?

Carlos Luís Bessa


Não sei muito bem porquê, este poema chamou-me à atenção. Senti ao lê-lo que quem o escreveu, sente o mundo a desabar a seus pés e não tem explicação para tal. O sujeito poético sente-se repugnado pelo mundo. Sente que ou domina ou é dominado pelo mundo. No poema há também uma enorme raiva, daí o questionar a mãe. O pergutar-lhe se também ela sente o mundo assim.


Gabriela

Novas Cartas Portuguesas.


Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa foram levadas a julgamento em 1973, devido aos trechos ditos "imorais e pornográficos" contidos em Novas Cartas Portuguesas. Neste livro critica-se o patriarcado e questionam-se vários aspectos da vida nacional (a condição da mulher, a guerra colonial, a emigração, entre outros), utilizando como instrumento de luta uma linguagem que se ancora numa tradição literária que remonta às famosas cartas de Mariana Alcoforado ao Cavaleiro de Chamilly.
Essas cinco cartas de Soror Mariana do Alcoforado são a base deste livro, constítuido por nove carta, poemas e pequenos ensaios.
O excerto que se seguefaz parte das Novas Cartas Portuguesas, mas foi retirado ipsis erbis do Código Penal de 1971. Esta lei só foi revogada em 1982...

«Código Penal Português


Artigo 372º

(Provocação constituída por adultério ou corrupção de menores como provocação)

"O homem casado que achar sua mulher em adultério, cuja acusação lhe não seja vedada nos termos do artigo 404§, § 2º, e nesse acto matar ou a ela ou ao adúltero, ou a ambos, ou lhes fizer alguma das ofensas corporais declaradas nos artigos 360º, nº 3º a 5º, 361º e 366º, será desterrado para fora da comarca por seis meses.
§ 1º - Se as ofensas forem menores, não sofrerá pena alguma.
§ 2º - As mesmas disposições se aplicarão à mulher casada, que no acto declarado neste artigo matar a concubina teúda e manteúda pelo marido na casa conjugal, ou ao marido ou a ambos, ou lhes fizer as referidas ofensas corporais.
§ 3º - Aplicar-se-ão também as mesmas disposições, em iguais circunstâncias, aos pais a respeito de suas filhas menores de vinte e um anos e dos corruptores delas, enquanto estas viverem debaixo do pátrio poder, salvo se os pais tiverem eles mesmos excitado, favorecido ou facilitado a corrupção. »


Outro texto de NOVAS CARTAS PORTUGUESAS:

O PAI
Era perversa:
dormia toda nua, os peitos soltos e brandos muito brancos e expostos tal como os seus mamilos largos, róseos, distendidos.Durante o dia andava em casa com as blusas desabotoadas e sentava-se de qualquer maneira com os fatos a subirem-lhe sempre a meio das coxas, deixando antever entre as pernas uma escuridão macia, amolentada na sua meia penumbra.

Era perversa:

deitava-se nos sofás, ao comprido, os braços atirados para trás e ficava assim, toda lisa, ao seu alcance, sem mal, a passar a língua aguda pelos lábios já húmidos

Era perversa:

de um louro fundo, a pele penugenta, os olhos de um azul duro, sempre adormentados

Era perversa:

rodeava-lhe com os braços o pescoço, os seios a esmagarem-se-lhe de encontro ao peito e o hálito morno, sedoso, a roçar-lhe a nuca, a rastejar-lhe perto, como que entorpecido de saliva.

Era perversa:

Deixava a porta entreaberta, esquecida, enquanto se despia devagar, a descobrir o ventre brando, os ombros magros, devagar em breves movimentos, em secretos sons e pactos com a infância.

Era perversa:

trazia os cabelos em desalinho e mornos de sono quando o beijava de manhã, a dar-lhe os bons-dias, com uma distracção de hábito tomada.

Era perversa:

dormia toda nua, os peitos soltos e brandos muito brancos e expostos tal como os seus mamilos largos, róseos, distendidos.

Quando entrou no quarto o homem hesitou, a olhá-la, a fixá-la no seu sono, mas logo avança, silencioso, e de manso pára junto à cama a hesitar novamente. Depois estende uma das mãos, desliza-a na curva suave do peito, na anca quente, doce, o dedos crispados a entranharem-se já nos pêlos sedosos da púbis.Curva-se quando ela acorda e tapa-lhe a boca com força, brutal, mantendo-a deitada, firmemente, debaixo do seu corpo agora ao comprido sobre o dela.
Era perversa:tinha um riso liberto, sedento, e uma maneita envolvente de olhar os outros; um odor enlouquecido a entreabrir-se aos poucos, como um fruto, obsessivo: obsessivamente, obsessivamente.
Indiferente, Mariana sente que ele sai de dentro de si, sujando-a de esperma também por fora. Depois vê-o que se levanta da cama, se veste à pressa e se vai embora sem a olhar, todo o tempo mudo, mesmo enquanto a forçara, mudo mesmo quando a tivera, rendida, afundada naquele torpor, de onde não quer sair nunca mais, cada hora mais fundamente perdida.«- Tens de deixar esta casa - disse-lhe ele numa voz neutra, monocórdica - não podemos continuar a viver todos juntos na mesma casa depois do que se passou. Foste a culpada de tudo, bem sabes que foste a culpada de tudo, eu sou homem; sou homem e tu és provocante, perversa. és perversa. Uma mlher sem vergonha, sem pudor. Não te quero ver mais, enojas-me, repugnas-me, envergonhas-me. Tu percebias, sei que percebias, que sabias como me punhas. Eu sou homem minha puta.»

- Claro que sou uma puta, podes estar tranquilo, pai, sou uma puta.

«- Grande cabra - chamou-lhe a mãe quando ela se dirigia para a porta da rua, agarrada às paredes para não cair. - Grande cabra.»

23/4/71 in Novas Cartas Portuguesas

Areia - Lado C por Juliana Monteiro


Caminhamos lentamente pela praia. Enquanto eu falava, tu simplesmente ouvias-me, apesar de parecer que querias dizer qualquer coisa, algo que querias e não querias revelar.
Eu recordava alegremente a primeira vez que tinha estado naquela praia. Recordava o passado, até que o passado se tornou presente. Avistei-o ao longe, sentado numa rocha. Era como se me conseguisse ler o seu pensamento. Entender a sua dor. Ao aproximarmo-nos, disse-lhe, naturalmente, que estava com bom aspecto e que era bom revê-lo, mas aquilo perturbou-me, interferiu com o meu íntimo, tirou-me a serenidade. Algo me preocupava. Soltei uma gargalhada e voltei ao presente, à nossa conversa… e vi-o novamente. Dirigia-se a nós, mas com uma calma assustadora. Na mão trazia uma tábua de madeira. Aproximou-se. Soltei um grito. Estava apavorada e com ódio dele. Como podia ser capaz.
Vendo-o deitado sobre aqueles grãos de areia, afastou-se, deixando-me a sós com a dor com a culpa
.


Juliana Monteiro, nº 10 D

Areia - Lado C por Rui Filipe

O conto AREIA de Paulo Kellerman foi escrito a partir de duas perspectivas: Lado A e Lado B. A proposta foi escrever de um outro ponto de vista: o feminino. Esta é versão do Rui Filipe:







Nós andamos, à beira mar, na praia que já fiz crescer, sorris não percebo porquê, tento fazer com que fales, mas estás em silêncio, como se me quisesses dizer alguma coisa, mas receasses que fosse constrangedor. Ao longe vejo alguém, sentado num rochedo, a olhar o mar. Tu pareces um pouco aborrecido. Continuamos. Eu falo-te da primeira vez que estive nesta praia, enquanto ainda era adolescente.
Vejo agora quem está nos rochedos: é um homem, um dos homens que eu trouxe para esta mesma praia, seguimos, olho-o, vejo-o, observo-o.
Pergunto-lhe como está, ele murmura palavras que não ouço, no entanto, entendo, percebo cada palavra que esconde, minto, digo que parece estar bem. Perguntas-me quem era, penso que quero, penso que não devo, penso que devo entendo que queiras saber, mas espero que não entendas, porque não o faço.
Beijo-te, abraço-te, acaricio-te, fecho os olhos, tu gritas, sinto o sol bater-me na cara e o mar molhar-me os pés, este, fecha-se numa onda que nos une ainda mais, algo estranho acontece, deixo de sentir o Sol aquecer-me a cara, abro os olhos e vejo-o. Nos olhos dele, vejo ódio, de braços estendidos no ar segurando, fortemente um pedaço de madeira, ele desce os braços com força, acerdando-te, eu grito-te, ele repete atingindo-te com muita força. Ele avança para o mar, perco-o de vista. Pergunto-me se estás vivo.

Rui Filipe, nº14, 10ºD