A mulher ao longo dos tempos, por Rui Filipe

(quadro de Graça Morais)

A mulher desde sempre foi idealizada pelo homem, mas nem nos tempos medievais, nem agora no texto publicitário, tem voz própria. Na Idade Média, os poemas eram feitos por homens para a mulher idealizando-a, fazendo-a perfeita , mas apenas em seu próprio beneficio, com o intuito de serem vistos como grandes poetas. Essas mulheres não tinham direito à palavra, não podiam expressar-se. Nos dias de hoje, acontece algo parecido na publicidade, à qual estamos expostos, todos os dias. A mulher é apresentada como um modelo estético e sugere-se que todas deviam ser como esse modelo. Ambas, quer a mulher medieva, quer a mulher da publicidade, são adoradas, idealizadas. São mulheres perfeitas, mas sem poder para dizer o que pensam. No entanto existem algumas diferenças. Enquanto a mulher na Idade Média era vista como um objecto, hoje não é vista assim. A mulher tem acesso a cargos políticos, sociais, profissionais. Os homens também mudaram, tanto nas opiniões, como nas posições. Hoje em dia existem muitos mais homens a cuidar da casa do que na Idade Média (se é que havia algum). Apesar de já terem mais peso na balança, esta ainda não se encontra equilibrada, coisa que devia acontecer.


Rui Filipe

Escrever...

("cabeça de uma mulher" de Picasso)

Elabora um comentário, onde reflictas sobre os pontos de contacto entre a «senhor» emudecida da lírica trovadoresca e as mulheres de papel que invadem a publicidade.


A mulher na publicidade



«Os modelos do feminino apresentados pelos anúncios são entendidos como uma espécie de norma face à qual as mulheres agem, e que se torna impossível de ignorar. »


«Se a publicidade dá a ver imagens do feminino e das mulheres que são interiorizadas e as influenciam em termos de valores e de comportamentos, não é menos verdade que tais imagens emergem num determinado clima social e que captam, portanto, tendências sociais. A publicidade veicula e sedimenta os valores da sociedade na qual opera. São, pois, determinantes, deste ponto de vista, as relações de poder entre homens e mulheres, os valores de género vigentes e o papel social da mulher, uma vez que estes vão também reflectir-se na publicidade e nos anúncios produzidos. Sem pôr de lado o potencial de subversão de valores e de práticas sociais tantas vezes atribuído à publicidade, mesmo em termos dos papéis sociais das mulheres, não é possível contornar o facto de que nenhum tipo de mensagem veiculada socialmente pode fugir da realidade social em que é produzida. Os anúncios que mostram, por exemplo, homens a escolher o seu detergente, a lavar a louça ou a cuidar dos filhos têm um potencial de instigação à mudança social diminuto. Isto porque são criados e lidos à luz de práticas sociais em que são habitualmente as mulheres a realizar estas tarefas. São produzidos para serem interpretados como dando conta de uma realidade não real. Não pretendem dizer que os homens são ou devem ser assim, mas, pelo contrário, que são as mulheres a ocuparem-se normalmente daquelas tarefas e que estes seres do sexo masculino são uma excepção. Face a isto, poderá afirmar-se que, de algum modo, reforçam a norma da mulher dona de casa, em vez de a contrariarem. »

«O visual (a representação imagética publicitária do feminino) toma a seu cargo o social (as atitudes e comportamentos sociais das mulheres), criando representações sociais ao dar a ver representações visuais, "fazendo" mulheres ao mostrar mulheres. »


(excertos do livro Retratos de mulher : construções sociais e representações visuais do feminino)

A mulher na ldade Média


As cantigas de amor são o momento em que a mulher assume o papel de suserana: o homem coloca-se na atitude de seu fiel vassalo. Contudo à mulher apenas lhe era permitido deixar-se adorar. A mulher devia controlar seus impulsos e manter-se em sua postura de senhora. Não podia entregar-se para não infringir as regras do amor cortês. Nesse aspecto, o amor cortês também serviu para impor controle à mulher, pois não se podia romper o sistema de relações sociais hierárquicas que subordinavam o feminino ao masculino e impedia qualquer união entre classes distintas. Longe do amor cortês, a mulher continuava em sua condição inferior, pois essa “promoção” feminina era restrita ao âmbito literário.
Sujeitas à submissão e transformadas em objectos de troca entre homens, as mulheres são lançadas ao sabor das estratégias de alianças de homens que criam normas, codificam e determinam os destinos da mulher.
Dos protagonistas da história, os homens, sabemos sempre o nome, e quase sempre a formação cultural, as amizades, as deslocações, a data e o lugar do nascimento e morte; se são homens da Igreja, sabemos a que ordem pertenceram e que papel representaram; se são leigos, podemos determinar-lhes a condição social e o nível cultural. Das protagonistas da nossa história não sabemos o nome nem a biografia; as mulheres entram nos textos da literatura medieval como mulheres sem voz.
Nas cantigas, a mulher não é a detentora do discurso, não é o sujeito da enunciação que a espelha. O homem a condena por sua liberdade, no entanto, percebe-se que é uma liberdade controlada, pois ela não tem o direito de ser a detentora do discurso que pretende revelá-la em seus cotiodiano e em seus aspectos emocionais. Através da palavra ela se revelaria em poderia instaurar as suas próprias verdades, os seus anseios, as suas dúvidas e as suas exigências emocionais, morais e sensuais. Ao terem a palavra silenciada, as mulheres medievais tinham a vida silenciada.

As cantigas trovadorescas revelam um jogo de espelhos em que à mulher restavam apenas duas opções: ou corresponder à imagem criada pelo clero e endossada pela estrutura patriarcal, metonímia e metáfora de uma ideologia opressotra e conservadora, ou, ao fugir do quadro convencionado, ser religada à marginalidade através de imagens grotescas, da beleza disforme, do cómico, da sexualidade diabólica e desenfreada, da prostituição, da bruxaria, pois o direito à liberdade era limitado e utópico.

Pode alguém ser quem não é? , Sérgio Godinho

A passagem do tempo não impediu que chegassem à actualidade marcas e temáticas já presentes nas cantigas trovadorescas. Mais um exemplo.

- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo,
o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão
“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém nao é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,sonhos vãos,
pesadelos diz-me:
Pode alguém ser quem não é?

Sérgio Godinho, Pré-histórias

Amor, Escárnio e Maldizer


Para quem pensa que a lírica trovadoresca - cantigas de amigo, cantigas de amor e cantigas de escárnio e maldizer - é coisa do antigamente, peço um pouco de atenção para a actualidade musical. Amor Escárnio e Maldizer é título do sexto álbum de originais dos Da Weasel, novamente eleitos como a melhor banda portuguesa pela MTV, que alcançou já um resultado histórico,tendo sido disco de platina no próprio dia de lançamento. “Amor, Escárnio e Maldizer” é um título trazido do antigamente e que tem muita pertinência.



Temos Amor, Escárnio e Maldizer
Haja amor pela música, pela mulher
Pela vida, com todos os seus defeitos
Haja vontade de mudar esquemas dúbios,
truques, maningâncias, preconceitos (até os nossos)
Haja sementes bem cuidadas para tratar do amanhã
Que se prevê cada vez mais difícil
Haja orgulho na cultura nacional
Para além do futebol providencial
Há todo um manancial potencial
Haja igualdade social
Não só em campanha, mas em exercício de mandato
Haja coragem de mandar pra a a prisão de uma vez por todas
Quem o merece, e nós sabemos quem merece, de fato (e gravata)
Haja transparência, consciência e competência, sobretudo,
Haja urgência para cuidar da nossa sociedade com clarividência...
Haja paciência.

Temos Amor, Escárnio e Maldizer

O comentário de texto (passo a passo)



O que é que o texto diz? Como diz? O que me diz?

- estas são as principais perguntas a que temos de dar resposta quando pretendemos fazer um comentário de texto.

Lemos um texto e, para falar dele, temos que o ter compreendido em primeiro lugar. O acto de falar do texto corresponde, por sua vez, ao acto de explicação, ou seja, o momento em que, uma vez compreendido o texto lido, estamos aptos a esclarecer os outros sobre aquilo que o texto diz, como diz e o que nos diz. O acto de compreensão do texto torna-se, a partir daqui, simultâneo em relação ao acto de explicação, porque explicamos para que os outros possam compreender. Este processo pode ser continuado infinitamente. Só podemos chegar ao comentário, depois de termos compreendido e explicado um texto.

1. Ler atentamente o texto a comentar, pelo menos duas vezes. Desde logo, devemos assinalar todos os elementos do texto que nos ofereçam dificuldades de compreensão (vocábulos, referências concretas, conceitos complexos desconhecidos ou empregues em situações inesperadas).

2. Resolver todas as dificuldades encontradas, procurando nos dicionários e enciclopédias as respostas a todas as palavras e expressões que ofereceram dificuldade de compreensão.
3. Identificar o tipo de texto que estamos a ler.
A que género literário pertence? Qual o modo que (o) representa?

4. Localizar o texto: trata-se de um excerto ou de um texto independente?
No primeiro caso, identificaremos a obra original a que o excerto pertence, fazendo uma síntese do seu enquadramento geral; no segundo, limitar-nos-emos à síntese do enquadramento do texto autónomo na totalidade da obra do seu autor.

5. Indicar o tema do texto. A compreensão do texto passa por este primeiro teste que consiste em responder correctamente à questão: O que é que o texto diz? Não devemos confundir tema com assunto. O primeiro é a ideia fundamental que o texto quer provar ou desenvolver; o segundo, é a matéria ou objecto de que trata o texto. O assunto obtém-se por intermédio do resumo, que contém todos os elementos relevantes do texto.
Para o comentário, interessa mais a definição do tema do que o resumo do texto. A extensão narrativa do assunto é sempre maior do que a do tema, que, pela sua extrema brevidade, se aproxima do título (mas não se confundindo obrigatoriamente com ele).

6. Determinar a estrutura do texto. Todo o texto possui uma estrutura interna, ou seja, os elementos que o constituem ordenam-se segundo uma lógica de sentido. Determinar tal estrutura significa, em termos simples, identificar os momentos em que podemos dividir o texto como um todo, possuindo cada momento, por si só, uma lógica de sentido própria. O conjunto dos momentos de um texto, sempre reduzidos a um mínimo razoável e justificável, dá-nos desde logo um plano esquemático do texto nas suas linhas fundamentais. O tema já definido terá de percorrer, de alguma forma, mesmo que implicitamente, os momentos determinados no texto.

7. Analisar a forma do texto. Nesta fase, esclarecem-se os processos estilísticos, linguísticos e/ou gráficos que o autor do texto utilizou na construção do texto. É fundamental não esquecer que esta análise só é justificável em função do nível de adequação da forma escolhida ao tema desenvolvido, isto é, o tema tem que estar representado em cada um dos processos analisados.

8. Elaborar uma conclusão, captando o essencial do texto.

(ver mais aqui , aqui e aqui)

Se ao menos a morte, de Filipa Leal


Se ao menos a morte

Ela morria tantas vezes
em tiroteios à porta de casa
que já não sabia morrer para sempre
assim
de uma vez só.
Se ao menos se marcasse um dia
para a morte, uma hora certa
como no dentista
que apesar de tudo
nos faz esperar
onde apesar de tudo
não sabemos quando será a nossa vez.
Se ao menos a morte tivesse revistas
e gente na sala de espera
não estaríamos tão sós
tão vivos nessa ideia final
nesse desconforto.
Poríamos o nome na lista
quando estivéssemos prontos
sabendo que seria fácil desmarcar
marcar para outro dia
ou simplesmente
não comparecer.
Depois, ficaríamos com a dor,
com o terror
de passar sequer naquela rua
como ela à porta de casa.
Ela que morria tantas vezes
porque morria de medo de morrer.
Filipa Leal

Desafio


Durante o primeiro período, gostaria que cada um fizesse um microfilme.
Esse microfilme deverá ser um relato de vivências, experiências ou reflexões, verdadeiras ou fictícias, na 1.ª pessoa. Sobre as imagens, haverá um texto criado e dito pelo autor do microfilme. Esse texto — autobiográfico, memorialístico, diarístico ou de auto-retrato — deve percorrer todo o filme e ser preparado. O microfilme não deve ter personagens visívveís.
Bom trabalho!

Ultimato, crítica de cinema, por Tiago



O Ultimato, em inglês The Bourne Ultimatum, é uma triologia cinematográfica onde se ficciona a história de um assassino profissional, Jason Bourne (interpretado por Matt Damon) que perde a memória e que ao longo das três longas-metragens tenta reconstituir o seu passado. Jason Bourne perdeu a memória numa missão ao serviço de um programa secreto do governo dos EUA, por isso é perseguido pela C.I.A. para que não revele informação confidencial.
Trata-se de um conjunto excelente de filmes de acção, sendo que, a meu ver, o último filme da saga é aquele que se me afigura como o mais entusiasmante, uma vez que é aqui que tomamos conhecimento de muitos pormenores que dão sentido aos filmes anteriores. O pior do filme é mesmo ser o último da triologia.
Tiago Santos

Alguns apontamentos sobre o Bairro, por Tiago



O Bairro é um conjunto de livros onde comparecem uma série de senhores com estórias anormais, no sentido em que escapam à lógica habitual. O Senhor Valéry, o Senhor Calvino, o Senhor Krauss e o Senhor Juarroz têm em comum o facto de serem todos vizinhos do mesmo bairro, apesar de nos livros existir registo de que falem uns com os outros.

Todos os habitantes do bairro têm nomes de escritores famosos: Valéry (Paul Valéry), Calvino (Italo Calvino), Kraus (Karl Krauss) e Juarroz ( Roberto Juarroz).

O Senhor Valéry e o Senhor Calvino têm em comum a baixa estatura, o que os leva a andar muitas vezes aos "saltos" para conseguirem ser do mesmo tamanho das outras pessoas, só que por menos tempo.De todos os livros, considero que o Senhor Valéry e o Senhor Juarroz são os mais cativantes. O Senhor Krauss foi, de entre todos os livros, aquele que considerei menos interessante.


Sobre o autor:


Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Foi Bolseiro do Ministério da Cultura — IPLB com uma bolsa de Criação Literária para o ano 2000, na área de poesia. Em Dezembro de 2001 publicou a sua primeira obra: Livro da dança, na Assírio e Alvim.

Recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso com a obra O Senhor Valéry (publicado na Editorial Caminho em 2002) e o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Investigações. Novalis (Difel).

Publicou O homem ou é tonto ou é mulher e A colher de Samuel Beckett e outros textos, ambos na Campo das Letras e adaptados para teatro. Está representado em antologias de poesia publicadas na Holanda («Hotel Parnassus, Poetry International 2002») e na Bélgica («Het laatste anker» — «O último refúgio — 300 poemas de todo o mundo sobre a morte», Lannoo/Atlas), e editado em revistas inglesas e americanas. Traduzido para italiano com um conto inserido na antologia «Racconti senza dogana» — «Jovens escritores para a nova Europa» (Gremese Editore). No grupo OuLIPO (França) foi realizada, em 2003, uma leitura de algumas histórias de O Senhor Valéry (com tradução e leitura de Jacques Roubaud). Ainda em 2003 publicou O Senhor Henri (Caminho). O Senhor Valéry foi traduzido para francês, com um prefácio de Jacques Roubaud, e editado em Setembro de 2003 na «Joie de Lire». O ano de 2004 assitiu ao crescimento do «Bairro» com o lançamento de O Senhor Brecht e O Senhor Juarroz. Publicou os romances: Um homem: Klaus Klump, em 2003 e A máquina de Joseph Walser (2004) na Caminho.Em 2005 publica, também na Editorial Caminho, a obra vencedora de dois prémios, Jerusalém.Vencedor, em 2004, do Prémio LER/Millenium BCP.Vencedor, em 2005, do Prémio Literário José Saramago.


Tiago Joel Rocha Santos

Os Animais Carnívoros, de Herberto Helder



Os Animais Carnívoros
I
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante umparque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia oque fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanhaintensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele erauma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Herberto Helder

Nesta última tarde em que respiro, de António Franco Alexandre




Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

António Franco Alexandre

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões, de Daniel Faria



As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Duas albas separadas por vários séculos

woman staring blankly, Edward Hopper

ALBA: Cantiga que tem por tema o amanhecer e a consequente separação dos amantes, que amaldiçoam a brevidade da noite. Pode ser encontrada em quase todas as literaturas. Na lírica galego-portuguesa, encontram-se exemplos nas cantigas de amigo, aparecendo a composição de Nuno Fernandez Torneol, Levad'amigo que dormides as manhanas frias, como a obra-prima do género entre nós. O género foi trabalhado ao longo dos séclos: John Donne escreveu "The Sunne Rising" e Shakespeare introduz uma alba em Romeu e Julieta (Acto III, cena v). Muitos poetas contemporâneos retomam o género em versões modernas. Natália Correia, por exemplo, escreveu uma "Alba", que começa assim: "No laranjal laranjedo / A lua florida estava. / Sonhando estava o guerreiro / Que em meus braços repousava. / Comigo sonha o guerreiro, / Não venha acordá-lo a alva."



ALBA


Levad', amigo, que dormides as manhanas frías;
toda-las aves do mundo d'amor dizían.
Leda m'and'eu.
Levad', amigo, que dormide-las frías manhanas;
toda-las aves do mundo d'amor cantavan.
Leda m'and'eu.

Toda-las aves do mundo d'amor dizían;
do meu amor e do voss'en ment'havían.
Leda m'and'eu.

Toda-las aves do mundo d'amor cantavan;
do meu amor e do voss'i enmentavan.
Leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss'en ment'havían;
vós lhi tolhestes os ramos en que siían.
Leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss'i enmentavan;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan.
Leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que siían
e lhis secastes as fontes en que bevían.
Leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan
e lhis secastes as fontes u se banhavan.
Leda m'and'eu.

Nuno Fernandez Torneol (séc. XIII)

Edward Hopper

Alba
Para Fátima Maldonado


Olhavam-se, viera com os outros,
ficava depois de terem ido.
Viam-se no mesmo espelho os dois.

Uma alegria dolorosa calava-se.
Os autocarros voltavam a ouvir-se
para além do parque.
A medo prendiam os olhos a sorrir.

Desapertavam os atacadores.
Abriam os colarinhos. Perdiam-se
no ardente tecido em redor do peito.

Na raiz do sexo o sobressalto
da primeira claridade nos estores.
A mistura de sorte e de prazer
a que chamamos o bem.

"Era de inverno, em Vila Real.", Joaquim Manuel Magalhães




Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo do vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesa indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.
Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.

Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.
Joaquim Manuel Magalhães


Beiras

Dia 18, quinta-feira, vamos ao teatro.


Beiras
A Farsa de Inês Pereira + A Farsa do Juiz da Beira + Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela

de >>
Gil Vicente
direcção >> Nuno Carinhas
música >> António Sérgio
desenho de luz >> Rui Simão

interpretação >> Alberto Magassela, Alexandra Gabriel, Ana Ferreira, Fernando Moreira, João Castro, Jorge Mota, Lígia Roque, Paulo Freixinho, Mário Santos, Marta Freitas, Nuno Veiga, Pedro Frias

produção >> TNSJ

classificação etária >> Maiores de 12 anos
duração aproximada >> [1:50] com intervalo

Uma esplanada sobre o mar, Vergílio Ferreira


Lemos e gostámos.


«A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco e era loura mas estava muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular para acertar bem a sombra. O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar era muito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passavam tinham os traços imprecisos como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca, iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.»

Areia - Lado C por Bruna Freitas


«Em “Areia” – inspirado na contemplação do óleo sobre tela de 1891, Melancolia, de Edvard Munch – a mesma história é-nos contada sob duas perspectivas – o “Lado A” e o “Lado B”, tal como no conto “Investir em ti” –, dois homens que, sem se conhecerem, repartem o mesmo amor pela mesma mulher, e cujo amor carnal e efectivo de um, e o amor destroçado e ressentido de outro, acabam por reflectir, em lados aparentemente opostos, a mesma dúvida existencial: «Aconchego-me na areia, sentindo-me parte dela, apenas mais um grão; e espero» (aqui). Agora o "lado C":



Ao caminhar contigo de mão dada, naquela praia, relembrava alguns momentos que ali tinha passado com outro alguém, numa outra altura. Sentia algo por ti, não sei bem o quê, estava tensa, nervosa. Fiquei mais ao ver ao longe um vulto. Fiquei com receio de continuar. Era ele. Pesei em fingir que não o conhecia, mas seria rude. Então optei por ter uma atitude simpática. Pensei: já estive aqui com ele. Depois pensei que antes de ter estado ali com ele, já tinham existido outros eles. Ele foi alguém que amei ali, que me amou, mas que deixei para trás. Beijaste-me. Correspondi, mas sem sentir nada. Foste atingido. Olhei e era aquela figura do meu passado que deiei e magoei. Foste novamente atingido. Depois, pousou o pau, virou costa e partiu. Ainda me olhaste, sem entender o cedido. Pedi-te desculpa e desapareci. Sou prisioneira de outro amor. Perdão.
Bruna Freitas

POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO, Adília Lopes

POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO (cliché em papel couché)

1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu

Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata

2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo

Sou um poeta-macho
sacho

3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas

Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial

4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante

Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato

5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete

sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete

Sou um poeta-macho
sou um badalo

sou uma poetisa-fêmea
calo-me

6
A poetisa- fêmea
toca viola

o poeta-macho
viola-a
7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios

o poeta-macho
assina o despacho
8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo

9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato



A ideia fundamental que retirei do poema prende-se com a diferença que existe entre a "poetisa fêmea"e o "poeta macho". Por exemplo, aparentemente, o poeta tem mais direitos. Ele tem um gabinete, enquanto ela só tem uma "retrete". Concluo que os homens tem mais oportunidades de dizer, mas as poetisas fêmeas conseguem dar a volta, escrevendo ainda melhor so que eles e dizendo tudo o que querem.


Gabriela Maximiano