Gastar Palavras |Paulo Kellerman


Gastar Palavras é um conjunto de contos de Paulo Kellerman. Estes contos têm como temática transversal o amor, ou melhor, os (des) amores. Paulo Kellerman trabalha cuidadosamente a escrita de cada conto, fazendo uma descrição cirúrgica de situações e sensações quotidianas. Vale a pena ler.

O livro Gastar Palavras, de Paulo Kellerman, foi o vencedor do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2005, um galardão instituído pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Juliana Monteiro

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CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA, de Jorge de Sena


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Mocidade Portuguesa Feminina vs Cosmo

versus

O Rui fez uma “leitura” comparativa entre Mocidade Portuguesa Feminina de Irene Flunser m Pimentel uma revista feminina (Cosmopolitan). O trabalho do Rui é mais extenso, mas por agora fiquemos com os títulos do passado e os títulos do presente:

Casar é um sacramento para ser uma verdadeira mulher. / Para que serve o casamento?

O uniforme da Mocidade / Peças de roupa e acessórios com muito brilho.

Pode uma rapariga corresponder-se com um rapaz desconhecido? / Atreva-se: meta conversa!

Há inconvenientes no flirt? / Ouse

Combate os teus defeitos / Goste de si

Os rapazes ao sol! As raparigas na sombra / Sexy na neve.

Qual é a idade ideal para uma rapariga casar? / Sexo – o que ele gosta (e o que ele não gosta)

Curso de Donas de casa / Estratégias para seduzir

Boa filha e rapariga séria / Pare de comer o que engorda e tenha um corpo fabuloso

Diogo


Um vez mais, o Diogo brilhou. (dia 12, Escola de Campanhã)
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Grupo de Teatro


Dia 7 de Março, auditório da Junta de Freguesia da Corujeira.
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Artistas...


A Gabriella nos camarins...
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Maria Gabriela Llansol, 1931 - 2008


"_______escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear"

Ler

"A finalidade de ler não é guardar na memória. Eu esqueço-me do que leio mas encontro-me, ao cair da noite, com ele. O fundamento da minha leitura é a pergunta seguinte:
"Por quanto tempo lês um pequeno período extenso?". Por um segundo, um minuto, um ano, toda esta noite, ou toda esta vida? Ler estende-se pelo tempo e quer o espaço do dia-a-dia para projectar a sua sombra. Ler estende-se por vertentes desconhecidas, e eu leio pouco, mas infinitamente. Desses metais preciosos escolho um metal, e torno-o integralmente minha estrela."

Maria Gabriela Llansol

O desempregado com filhos | Gonçalo M. Tavares


O desempregado com filhos

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht

Senhor Juarroz


Hoje foi dia de teatro...
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FOTO III

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Foto II

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Foto I


As nossas experiências fotográficas...
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Vamos ao teatro?



O Senhor Juarroz de Gonçalo M. Tavares com poemas de Roberto Juarroz

Alguns já leram alguns livros de O Bairro de Gonçalo M. Tavares: O senhor Valéry, O senhor Henri, O senhor Walser, O senhor Bretch, O senhor Juarroz, O senhor Calvino. Uns gostaram, outros estranharam. A companhia Pé de Vento, encenou O Senhor Juarroz, um espectáculo absurdo e surrealista artísticamente inspirado na pintura de René Magritte.

Dia 28 de Fevereiro, pelas 11 h.

Excerto de O SENHOR JUARROZ:

"
O Senhor Juarroz pensou num Deus que, em vez de nunca aparecer, aparecesse, pelo contrário, todos os dias, a toda a hora, a tocar à campainha. Depois de muito meditar sobre esta hipótese o Senhor Juarroz decidiu desligar o quadro da electricidade." Gonçalo M. Tavares.

Fotografias contemporâneas Portuguesas





















Foi a autora deste três trípticos,
Rita Castro Neves, quem nos recebeu no dia 23 de Fevereiro no serviço educativo da Fundação de Serralves.

Fernando Lemos, Helena Almeida, Jorge Molder, Paulo Nozolino, Daniel Blaukfucks, Virgílio Ferreira, João Tabarra, Manuel Santos Maia, Teresa Sá, Paulo Mendes foram alguns dos artistas que ficamos a conhecer um pouco melhor. Além da própria Rita Castro Neves, claro.
em Serralves. A Rita foi a nossa guia, na nossa primeira incursão na fotografia contemporânea portuguesa.

Nos trípticos acima vemos uma paisagem urbana desolada e desconfortável. Uma cidade vazia, abandonada. Uma cidade à espera de um autocarro que pode não mais chegar, de uma farmácia que esteja aberta. Nesta cidade despojada e anónima, os corpos são anónimos e a identidade fluida. É o corpo do homem com um soutien de pensos rápidos, é a jovem com um bigode de algodão, são os músculos de ligaduras. Tudo é medicalizado. A esperança está na individualidade das campainhas, todas diferentes, quem será que se esconde atrás delas?


“Amor é um fogo que arde sem se ver” : numa linhagem clássica


Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris
Nescio sed fieri sentio et excrucior

Amo e odeio. Como? Perguntais por certo.
Não sei, mas sei que sinto e sei que sofro assim
Catulo


Iuctantur pectusque leve in contraria tendunt
Hac amor hac odium; sed, puto, vincit amor


Lutam e desenham o meu fraco coração em direcções opostas,
ora o amor, ora o ódio; mas penso que ganha o amor
Ovídio

Outra vez amo e não amo,
Estou louco e não estou louco.

Anacreonte

O Amante, de Marguerite Duras, por Jessica



O Amante conta a descoberta do amor e do sexo por uma adolescente, filha de uma família de colonos que vivem numa situação de falência na Indochina francesa, nos anos 30. O amor proibido da menina branca, que ainda não completou 16 anos, e a sua entrega a um jovem chinês rico, dez anos mais velho do que ela, é também uma forma de escapar à claustrofobia a da família.
É a jovem que descobre o poder da sua própria beleza e da sua sexualidade e que , desde o início, domina a relação com ele.


Duras, Marguerite, (trad.: Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira), O Amante, Difel, 1984

A Relíquia, de Eça de Queirós, por Sandra Sousa


A Relíquia conta-nos a história de Teodorico Raposo. Teodorico vivia com uma velha tia, rica e muito devota. Por influência de um amigo, Dr. Margaride, decide aproximar-se da tia Patrocinio e traçar uma estratégia para herdar a fortuna da velha senhora, mostrando-se, para tal, mostra-se (falsamente) religioso e devoto.
Pede à tia que lhe financie uma viagem a Paris, mas esta recusa-se terminantemente afirmando que Paris era a cidade do vício e da perdição. Teodorico pede, então, para fazer uma peregrinação à Terra Santa. A tia consente e pede que lhe traga uma recordação. Teodoro, na viagem, envolve-se com uma inglesa – Mary – que, como recordação dos momentos que passaram juntos, lhe dá um embrulho com a sua camisa de noite. Chegado à Palestina, Raposo continua a sua vida profana e amoral.
Antes de regressar, Teodorico lembra-se do pedido da tia e corta uns ramos de um arbusto e tece com estes uma coroa, que embrulhou e pôs na sua bagagem.
Entretanto, uma pobre mendiga pede-lhe esmola e ele deu-lhe o embrulho que (pensava ele) continha a camisa de Mary.
Chegado a Lisboa, relata, hipocritamente, à tia todas as penitências e jejuns que fizera durante a peregrinação e oferece-lhe o embrulho, dizendo que este continha a coroa de espinhos. A abertura da suposta relíquia faz-se perante uma imensa audiência de sacerdotes e beatas, num ambiente de ansiedade. Qual o espanto de todos quando, em vez do sagrado objecto, surge a camisa de noite de Mary.


Queirós, Eça de, A Relíquia

O Nariz , de Nikolai Gogol, por Juliana Monteiro


O Nariz é um pequeno conto humorístico de Nikolai Gogol. O conto fala-nos major Kovalióv , um homem, que numa qualquer manhã, acorda e e descobre que seu nariz desapareceu.. Como é uma figura pública importante, decide procurar o seu nariz. Descobre, então, o seu nariz caminhando apressado e vestido com um uniforme bordado a ouro. In terpela-o, mas o nariz ignora-o….

“Ivan Iákovlevitch vestiu, por respeito das conveniências, a casaca por cima da camisa e, sentado-se à mesa, serviu-se de sal, preparou duas cebolas, pegou na faca e, com uma expressão eloquente na cara, pôs-se a cortar o pão. Ao abri-lo ao meio, olhou para o miolo e, surpresa sua, viu algo esbranquiçado. Escavou cuidadosamente com a faca e apalpou com um dedo. "É duro,- disse para si. - Que poderá ser?". Enfiou os dedos e tirou - um nariz!...Caiu das nuvens; esfregou os olhos e começou a apalpar: nariz, nariz de certeza! Ainda por cima de alguém conhecido, parecia-lhe. Desenhou-se o terror no rosto de Ivan Iákovlevitch." (pg. 26)

Gógol, Nikolai, (trad. Filipe Guerra e Nina Guerra) O Nariz, Assírio & Alvim, 2000

CARTA DE AMOR , Jorge Sousa Braga



CARTA DE AMOR (1981)

A Eugénio de Andrade

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e ...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração.

Jorge Sousa Braga