Os poetas

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.


José Luís Peixoto (in Gaveta de Papeis)

Do Aquário ao Sermão de "Sermão de Santo António aos Peixes"

"A primeira coisa que me desedifica de vós - peixes - É QUE VÓS VOS COMEIS UNS AOS OUTROS. Não só vos comeis uns aos outros, SENÃO QUE OS GRANDES COMEM OS PEQUENOS. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas, como os grandes comem os pequenos, NÃO BASTAM 100 PEQUENOS, nem 1.000, PARA UM SÓ GRANDE, e, para que vejais que estes comidos na terra são os pequenos, e pelos modos que vós vos comeis no mar...OS HOMENS, COM SUAS MÁS E PERVERSAS COBIÇAS, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros...Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, QUERO QUE O VEJAIS NOS HOMENS. Olhai, peixes, lá do mar para a terra...cuidais que só os tapuias (índios) se comem uns aos outros?. Muito maior açougue é o de cá, MUITO MAIS SE COMEM OS BRANCOS".

Barroco

Contos

Casamento

“Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe.”
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto estrangulei-a e fui-me embora.


Noivado

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Mário Henrique-Leiria

Epigrama, de Marcial

Porque te não ofereço os meus livrinhos,
A ti que tantas vezes mos pedes e exiges,
Ficas admirado, Teodoro? A razão é de peso:
Não vás tu oferecer-me os teus livrinhos.

Marcial (século I d.C.)


Casar comigo é o que Paula quer; eu, casar com Paula,
nem pensar: é velha. Quereria — fosse ela mais velha.

Marcial (século I d.C.)

Micronarrativas


Razão

Contra a vontade da mãe, que não augurava nada de bom, ela casou com o homem que amava.
Foram felizes para sempre durante quase duas décadas.
Um dia divorciaram-se.
A mãe disse:
- Viu?

(Rui Zink, Contos de Algibeira)

Desafio de Escrita


Desafio de Escrita

Tenho sempre perto de mim (20 palavras) um espelho grande (12 palavras) solidão (6 palavras)

Tenho sempre perto de mim o meu filho que está em coma profundo há mais de um ano. Sinto-me perdida como se tudo desabasse. Um espelho grande devolve-me o reflexo de tempos felizes passados ao lado dele. Resta-me a solidão deste mundo onde tudo é sombrio. (Bruna e Gabriela)

Tenho sempre perto de mim uma criança com quinze anos, sangue do meu sangue, vida da minha vida, ser do meu ser que é como um espelho grande que me faz lembrar o que fui e o que sou. Sinto solidão quando não tenho esse espelho perto. (Maria João)

Tenho sempre perto de mim os amigos. Não sei andar sozinha na rua, nem estar num espaço vazio. É como se a minha vida fosse um espelho grande e receio olhar-me nesse espelho e ver-me só no fundo receio a solidão que um dia a todos atingirá. (Juliana Monteiro)

Tenho sempre perto de mim aquela tal pessoa que considero essencial que me apoia nos momentos mais complicados. Eu sei que nela posso confiar. É um espelho grande e verdadeiro. Já viveu comigo momentos alegres e difíceis, mas nunca de solidão, essa não existe perto de nós. (Jessica)

Tenho sempre perto de mim ou melhor, à minha frente, algo que me transmite um certo medo e o algo é um espelho grande. Tenho medo de enfrentar a realidade: essa realidade é a solidão que sempre me impediu de sonhar. (Gabriela)


Tenho sempre perto de mim e eternamente comigo um enorme caixão, sete palmos abaixo da terra, imerso no siçêncio da morte que se assemelha a um espelho grande que reflecte o fim que rodeia a minha feia aldeia, arrepiante, outrora solidão mas hoje rejubila de alegria, felicidade. (Tiago)


Tenho sempre perto de mim o que me é essencial, aquilo de que preciso para viver: os meus amigos que me ajudam. Tenho também um espelho grande onde vejo todos os que me rodeiam, pois tudo o que receio é a solidão, esta que invade o meu ser. (Cátia)

Feliz Aniversário, de Clarice Lispector

O conto Feliz Aniversário, da escritora Clarice Lispector, pode ser lido na íntegra aqui.



Sexta-feira à noite, de Emmanuele Bernheim



"Sexta-feira, princípio de uma noite de Inverno. Laura sente-se feliz pois está prestes a deixar o seu apartamento e a sua vida solitária para ir viver com o namorado. Não estava à espera, no entanto, de uma descomunal greve dos transportes e vê-se de repente presa num enorme engarrafamento.
Como vive momentaneamente entre dois domicílios, entre duas “vidas, Laura atravessa um momento de liberdade total, em que de certa maneira tudo lhe é permitido. E assim como se abandona ao lento fluxo do trânsito, do mesmo modo aceita, impensadamente, dar boleia a um homem estranho que lhe surge no caminho. Só que depois dessa noite já nunca mais será a mesma..."

Li este livro nas férias da Páscoa, foi uma leitura que me agradou bastante, apesar de o fim me ter desapontado um pouco.

Autor: Emmanuele Bernheim
Título: Sexta-feira à noite
Editor: Asa

Diário de um Louco, de Gogol


Diário de um Louco, de Gogol

Como em todos os seus contos, predomina também aqui uma mistura de real e de fantasia. Enquanto leitora, este conto trouxe-me alguma "amargura" por estar a assistir ao
sofrimento da personagem. Trata-se de uma história escrita na primeira pessoa, uma vez que é um diário, e onde assistimos ao delírio e fragmentação da identidade do personagem principal.

"Como tem a forma de diário, este é o único livro de ficção do autor escrito na primeira pessoa. O herói, o eterno funcionário miserável de Gógol, assume em Diário de Um Louco, apesar e, talvez, por causa do delírio psicótico em que se refugia, contornos muito humanos e comoventes. Como sempre, a arte gogoliana de misturar o real e o fantástico, o normal e o patológico, o razoável e o delírio, imperam em Diário de Um Louco, a ponto de o leitor se sentir desconfortavelmente a assistir ao sofrimento de um ser humano a quem a identidade se vai estilhaçando com a rapidez e a intensidade de um pequeno conto."

(excerto da introdução, Filipe Guerra)

Os mundos separados que partilhamos, de Paulo kellerman


A primeira vez que ouvi falar Os mundos separados que partilhamos, de Paulo kellerman, foi numa aula de Literatura em que a professora levou muitos livros para nós escolhermos um para ler. Eu ouvi um excerto de um conto e quis logo trazer o livro para casa. Tinha ficado cativada, mas sozinha em casa não consegui encontrar a magia das palavras. Talvez porque, nas aulas, a professora lê com expressividade e depois ajuda-nos a pensar. Quando li, achei confuso. Aliás, li duas vezes e duas vezes achei confuso e difícil. Percebi que se fala de uma relação, de solidões, de cumplicidades e obsessões. Existem alguns momentos em que os silêncios falam pelas persinagens. Gostei muito do conto AREIA, porque tem duas versões e eu criei um terceira. Deu-me muito gozo essa minha identificação com a personagem. Senti-me mesmo ela.

Bruna

Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe


Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe

A principal característica deste autor é a minuciosidade com que descreve cada um dos seus contos. O autor consegue despertar em nós a sensação de estarmos presentes em cada momento das histórias. Ambas as histórias são de terror e a forma como são contadas ainda as torna mais aterrorizantes.

Gastar Palavras |Paulo Kellerman


Gastar Palavras é um conjunto de contos de Paulo Kellerman. Estes contos têm como temática transversal o amor, ou melhor, os (des) amores. Paulo Kellerman trabalha cuidadosamente a escrita de cada conto, fazendo uma descrição cirúrgica de situações e sensações quotidianas. Vale a pena ler.

O livro Gastar Palavras, de Paulo Kellerman, foi o vencedor do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2005, um galardão instituído pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Juliana Monteiro

...

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA, de Jorge de Sena


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Mocidade Portuguesa Feminina vs Cosmo

versus

O Rui fez uma “leitura” comparativa entre Mocidade Portuguesa Feminina de Irene Flunser m Pimentel uma revista feminina (Cosmopolitan). O trabalho do Rui é mais extenso, mas por agora fiquemos com os títulos do passado e os títulos do presente:

Casar é um sacramento para ser uma verdadeira mulher. / Para que serve o casamento?

O uniforme da Mocidade / Peças de roupa e acessórios com muito brilho.

Pode uma rapariga corresponder-se com um rapaz desconhecido? / Atreva-se: meta conversa!

Há inconvenientes no flirt? / Ouse

Combate os teus defeitos / Goste de si

Os rapazes ao sol! As raparigas na sombra / Sexy na neve.

Qual é a idade ideal para uma rapariga casar? / Sexo – o que ele gosta (e o que ele não gosta)

Curso de Donas de casa / Estratégias para seduzir

Boa filha e rapariga séria / Pare de comer o que engorda e tenha um corpo fabuloso

Diogo


Um vez mais, o Diogo brilhou. (dia 12, Escola de Campanhã)
Posted by Picasa

Grupo de Teatro


Dia 7 de Março, auditório da Junta de Freguesia da Corujeira.
Posted by Picasa

Artistas...


A Gabriella nos camarins...
Posted by Picasa

Maria Gabriela Llansol, 1931 - 2008


"_______escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear"

Ler

"A finalidade de ler não é guardar na memória. Eu esqueço-me do que leio mas encontro-me, ao cair da noite, com ele. O fundamento da minha leitura é a pergunta seguinte:
"Por quanto tempo lês um pequeno período extenso?". Por um segundo, um minuto, um ano, toda esta noite, ou toda esta vida? Ler estende-se pelo tempo e quer o espaço do dia-a-dia para projectar a sua sombra. Ler estende-se por vertentes desconhecidas, e eu leio pouco, mas infinitamente. Desses metais preciosos escolho um metal, e torno-o integralmente minha estrela."

Maria Gabriela Llansol