Herberto helder: Afastem de mim a inocência || António Guerreiro

UM AR DE FAMÍLIA atrai para o mesmo lugar problemático uma afirmação de Hölderlin - de uma carta enviada à mãe - e dois versos de Herberto Helder: um, designando a poesia como «a ocupação mais inocente de todas»; o outro, enunciando o princípio que coloca a poesia nas regiões do terror e liberta nela um núcleo trágico: «- o inferno! alguém disse: afastem de mim a inocência/ eu falo o idioma demoníaco». A falsa e irónica inocência de Hölderlin revelou-se, afinal, como um saber que inaugura uma idade heróica da literatura. Herberto Helder pertence ainda a esta idade.
Princípio importante deste «ethos» heróico (que toda a poesia moderna fortemente reivindicou): o poeta constitui-se única e exclusivamente através da sua obra (e, desse modo, não coincide com um indivíduo que tem uma determinada identidade civil), a qual deve escapar a todos os factores pessoais e sociais que a alienam. Dito de outro modo, ela não deve legitimar-se senão no interior de um espaço literário autónomo. «Les honneurs déshonorent», disse Flaubert contra o sucesso mundano. As recusas e resistências de Herberto Helder - ou melhor e mais radicalmente: a decisão de, enquanto poeta, não existir senão através da sua poesia - encontram nessa frase do escritor francês um sentido muito evidente.
Durante anos, habituámo-nos a designar a sua «Poesia Toda». Mas esse «corpus» volumoso foi reduzido, em 2001, a uma «súmula», acompanhada desta advertência: «para dizer que é uma ressalva ao poema contínuo pelo autor chamado poesia toda. O poema contínuo parecia não exigir a escusa das partes que não eram punti luminosi poundianos, ou núcleos de energia assegurando uma continuidade imediatamente sensível. O livro de agora pretende então aceitar a escusa e, em tempos de redundância, estabelecer apenas as notas impreteríveis para que da pauta se erga a música, uma decerto não muito hínica, não muito larga nem límpida música, mas este som de quem sopra os instrumentos na escuridão (...)».
Um estreito laço familiar aproxima também «os tempos de redundância» apontados por Herberto Helder e «o tempo de indigência» de Hölderlin - razão da sua pergunta inquietante: «Para quê poetas?» Na nota que citámos, coloca-se de maneira explícita a questão da condição epocal da poesia. E não é certamente exagerado dizer que a de Herberto Helder (e alguns, raros, textos e «extratextos», como este aqui citado) obriga, de maneira radical (e como nenhuma outra, na poesia portuguesa contemporânea), a questionar o próprio lugar e estatuto da poesia, hoje. Porque ela designa um «espaço literário» que só podemos reconhecer como intempestivo. Não se entra nela senão interrompendo o curso do mundo, suspendendo as linguagens da história e pondo entre parêntesis as circunstâncias empíricas. Eis a literatura como utopia.
Essa drástica redução da Poesia Toda operada em Ou o Poema Contínuo (2001) é agora confirmada em A Faca Não Corta o Fogo. De certa maneira, esta concepção do «poema contínuo», da obra como poema único que pode ser ampliado sem quebras, responde à exigência de caminhar para um ponto onde só a linguagem age, com todo o seu poder, suprimindo a pessoalidade e, de certa maneira (não como Mallarmé, mas também não o ignorando), erradicando o autor. Na poesia de Herberto Helder não há psicologia, nem confidencialidade, nem biografia - estamos noutro mundo, mais difícil de reconhecer e de habitar. O que nela emerge é uma paixão puramente literária. Ora, em «tempos de redundância», o grande «escândalo» de Herberto Helder é o de se furtar à esfera mundana da «vida literária», deixando que apenas a sua obra exista e siga o seu curso sem quaisquer interferências do exterior. Repare-se que a única entrevista que se lhe conhece é uma «auto-entrevista».
Esta atitude, que não devemos reconduzir a uma mera «idiossincrasia», ganha hoje um sentido fundamental. O que é que se acelerou nas últimas décadas? Acelerou-se a perda de autonomia dos escritores e do campo literário em geral, um campo que deixou de reivindicar o direito a ser ele próprio a definir os princípios que o legitimam. A legitimidade passou a ser outorgada pela instância do mercado e por factores mundanos, que ditam as regras da consagração. E a literatura de entretenimento ganhou um poder desmesurado, quase deixou de ser reconhecível como tal, como se só ela existisse. Por isso é que a obra de Herberto Helder é intempestiva: conduz-nos para um espaço e um tempo que lançam um forte desafio a todo o contexto, não apenas o literário; fala um «idioma» que é cada vez mais difícil de escutar.
Na história da poesia portuguesa da segunda metade do século XX, Herberto Helder ocupa a posição do «poeta forte», que provoca nos que vêm depois uma «angústia da influência». Já muitas vezes se falou deste poder totalitário que exerceu sobre poetas mais jovens, da atracção fatal que representou. Joaquim Manuel Magalhães escreveu um texto fundamental sobre esta questão. Entretanto, a poesia portuguesa seguiu maioritariamente por vias diferentes. Mas a luz que emana do fogo lento da poesia de Herberto Helder não se extinguiu nem um pouco. Sem ela, outra figura teria o último meio século literário português.
António Guerreiro, Actual (Expresso), 11/10/08
A propósito do "Dia Mundial da Saúde Mental" | Adília Lopes

"Há um preconceito em relação à doença mental que não há em relação às outras doenças. É para ajudar a desfazer esse preconceito que escrevo isto. Mas estou afinal no mesmo barco que os doentes do Júlio de Matos que pedem esmola na rua para tabaco e café. Quando disse ao Professor Pinto Peixoto, meu professor de Termodinâmica, na Faculdade de Ciências de Lisboa, que tinha estado "doente dos nervos", ele disse-me "doenças de nervos são doenças de ricos". O Professor Pinto Peixoto é o mais célebre meteorologista português, era inteligentíssimo e muito culto, mas isto que me disse é um disparate: a doença mental afecta tanto os pobres como os ricos.
Volto sempre à frase de Francesc Parcerisas, poeta catalão: uma poetisa tem o direito de apoiar candidatos à Presidência da República e de declarar à televisão o que come ao pequeno-almoço. Penso que todos devíamos ter esse direito. Mas, quando torno público que tenho uma doença mental, sei que é muito mais fácil para mim fazê-lo do que, por exemplo, para uma educadora de infância ou para um polícia. Ser poetisa, ser artista, é, neste caso, um escudo visível que me protege. Pelo menos, parece-me que é assim. Mas ser poetisa não me dá dinheiro para viver e é aí que ser poetisa e ter uma doença mental põe problemas. Por isso não é assim tão fácil, para mim, assumir publicamente que tenho uma doença mental. Admite-se uma poetisa louca, isso pode até funcionar como chamariz, aumentar o valor dos seus textos (aos meus olhos, não aumenta nada). Mas uma professora do ensino secundário louca? Uma bibliotecária louca? Uma animadora cultural louca? O artista pobre, genial e louco só é admitido depois de morto. E afinal não é esse o meu papel. Como vou contar, já fiz muitos disparates em público, mas, segundo o psiquiatra que me trata agora, tenho uma doença mental compensada. Isto, para mim, é como ter o salto de um sapato mais alto do que o outro por se ter uma perna mais curta do que a outra.
Não há exibicionismo nem confessionalismo impudico neste texto. Como aquele médico de cabelos brancos, que ensinava na televisão como fazer quando uma criança bebe lixívia, e que se regozijava por ter salvo assim a vida a uma criança, espero que este texto vá ter com aqueles que têm vontade de beber lixívia ou pó para ratos." (Cartas do meu Moinho)
Concerto de Clara Ghimel sobre poemas de Ana Luísa Amaral
Foi ontem, dia 8, na Reitoria da Universidade do Porto.
A Bruna, a Gabriella e a Patrícia estiveram lá.
Somos de natureza contrária., de Joaquim Manuel Magalhães
Somos de natureza contrária.
Um de nós pode destruir o outro,
mas só por fora, uma onda que vem
de muito longe, demora a chegar
à praia, ao sol que sossobra
no lugar onde nós estamos,
entregues, entristecidos. Dentro,
no interstício de silêncio
ameaçado pela despedida, sempre
de despedida ameaçado, nenhum
de nós será destruído nunca,
a memória da rua com plátanos,
o pólen mordente da primavera,
o cântico dos pardais. Não,
eu não quero esse amor indeciso
que sossobra num frio inebriante:
cada um com o outro tenta conservar
o seu ser, a identidade que sorri
na janela do quarto que fica por fechar.
Joaquim Manuel Magalhães, Uma luz com um toldo vermelho
Depois do Adeus, de Garrett, vamos ver duas despedidas mais "contemporâneas".Milly chéri, de Adília Lopes
Milly chéri
tenho coisas
para te dizer
de viva voz
cartas de amor
nunca mais
agora só escrevo
cartas comerciais
Não quero
ter filhos
gosto muito
de foder
contigo
e com outros
mas de bebés
não gosto
uma vez
por outra
tem graça
mas sempre
não
os bebés deprimem-me
se engravidar
faço abortos
por muito
que me custe
e custa-me
muito
(um bebé é dom
do Espírito Santo)
Ficas
no castelo de Beja
e eu aqui
no convento
com vento
(as janelas
fecham mal
estão empenadas)
há uma passagem
subterrânea
como nos romances
que liga
castelo e convento
o outro é o Céu
com peúgas
e cuecas sujas
Antes de chegares
pensava assim
mesmo que Milly volte
não quero foder
o feitio das unhas dos pés
e a implantação dos cabelos
na nuca
do meu Milly chéri
mais tarde
ou mais cedo
vão-me meter nojo
nunca mais danço
nunca mais dou beijos
mas quem não pensa
em foder
está fodido
mas agora
quero foder contigo
Portanto Milly chéri
és muito bem vindo
a mulher ( eu )
deixa
pai e mãe
e apega-se
ao homem ( tu )
e são ambos
uma carne
Adília Lopes
“Acho que era a Sylvia Plath que estava convencida, por volta de 1950, que para escrever romances era preciso ter amantes e fazer viagens. É um mito, isso dos amantes e das viagens. Pode--se ser feliz e escrever romances sem ter amantes e sem fazer viagens. Mais importante que amantes e viagens é ter um espaço próprio, um domínio, um território, uma casa, pelo menos um quarto com privacidade, como muito bem viu Virginia Woolf. Para ser feliz não é preciso foder, ao contrário do que apregoam as revistas. Neste meu tempo de horror económico, parece que tudo gira à volta das fodas. [...] Mas não condeno quem sinceramente dá beijos e abraços e faz coitos e faz filhos e faz abortos e depois sofre com isso e se perde neste massacre quotidiano que é a foda obrigatória, o perder a virgindade obrigatório antes dos 17 anos, o orgasmo, os super-bebés. Isto é tudo tão ridículo! E é trágico.”
Adília Lopes, Obra (pg.463)
O guindaste branco espalha as suas asas, Poesia de Lawrence Pettener, por Filipa Leal
Filipa Leal nasceu no Porto. Formada em Jornalismo, é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros. Publicou «lua-polaroid», «Talvez os Lírios Compreendam», «A Cidade Líquida e Outras Texturas» e «O Problema de Ser Norte». Tem participado em vários Encontros de Poesia, nomeadamente na Galiza, em Pisa, Zagreb e Bristol. Integra, desde 2004, os Seminários de Tradução Colectiva de Poesia Viva da Fundação da Casa de Mateus.
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, 22
Sábado, 11 de Outubro, 17 h
Da Escola ao Clube Literário:
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Importas-te de continuar? # 2 [Gabriella]

[…]
Aproximei-me da janela, afastei as cortinas. Lá fora o horror é maciço.
A guerra rebentou. As pessoas correm, fogem para onde podem.
Mães protegem os filhos, levando-os nos braços. Estou horrorizado. Não consigo sair de casa. Só penso em Sara.
Ontem discutimos. Ela saiu e não sei nada dela. Estou preocupado, amo-a, mas ela irrita-me.
Nunca pensei perdê-la após longos anos. Sempre nos demos bem, mas estes dias ela tem-se tornado intransigente. Discutimos várias vezes. Mas agora, que está perdida, no meio desta vasta confusão. […]
Nunca me passou pela cabeça que esta guerra pudesse chegar ao Chile. Chegará a nós uma vitória fascista? O que ficará deste país? […]
Importas-te de continuar? # 2 [Juliana]
E se não escrever?
9 de Março
Ela vivia a rotina diária, sonhando todas as noites com um acontecimento que mudasse a rotina dos seus dias.
Eu não encontrava já nada que me fizesse sorrir, nem em casa, nem no emprego.
Estava a janela, embrenhado nos meus pensamentos, quando, em frente à minha janela, reparei nela.
Todos os dias apanhamos o metro juntos, todos os dias entravamos no mesmo edifício com o mesmo objectivo: sair dele.
Almoçávamos no mesmo café, em mesas distantes.
16 de Março
Começamos a ir juntos para o emprego, agora já não almoçávamos sozinhos. Conversávamos imenso e fomo-nos descobrindo.
23 de Março
Fomos jantar a casa dos meu pais. Eles gostaram da delicadeza dela.
Quando chegamos à nossa rua, ela beijou-me. Subimos e só voltamos no dia seguinte.
Ainda não acredito em tudo o que aconteceu.
Hoje recordo-me do dia em que pensei que estaria a escrever na página cento e quinze, recordo-me do medo, da incerteza de não saber o futuro.
Hoje abri o caderno na página duzentos e seis e fiquei a pensar no que lá escreverei.
Juliana Monteiro
“Só a imaginação transforma. Só a imaginação transtorna.” , Cesariny

Proposta de trabalho:
Ler o conto "Azul", de Ruben A., tendo por base a proposta de Mário Cesariny: “Só a imaginação transforma. Só a imaginação transtorna.” (A intervenção surrealista).
Linhas de análise:
- o maravilhoso como disfarce para a crítica à sociedade portuguesa e ao regime ditatorial;
- subversão;
- paródia do real;
- marcas do surrealismo;
- marcas que ancoram o texto à realidade social;
- decadência política da nação;
- ausência de nostalgia de um passado perfeito;
- princípio imaginativo em vez do princípio realista;
- enredo insólito;
- expedientes transgressores;
- intriga ancorada no efeito de real;
- identidade e perca de identidade.
Jeff Koons ( a propósito do kitsch)


"O kitsch é um termo de origem alemã (verkitschen) que é usado para categorizar objetos de valor estético distorcidos e/ou exagerados, que são considerados inferiores à sua cópia existente. São freqüentemente associados à predileção do gosto mediano e pela pretensão de, fazendo uso de estereótipos e chavões que não são autênticos, tomar para si valores de uma tradição cultural privilegiada." (in wikipedia)
Três poemas de Juliana Monteiro

Há alturas em que penso mais no título que no poema.
História sem Fim
Vejo um livro em branco aberto.
Pede-me para escrever na sua primeira página.
Conto-lhe uma história.
O livro, como se tivesse medo de perder um tesouro,
aprisiona-me nele.
Manhã provisória
Acordas-me e sinto que estás feliz.
Sem te perguntar, dizes que me amas.
Prometes nunca me deixar.
Dás-me um beijo sentido.
Levo-te à porta com um sorriso.
Dizes-me até logo.
Juliana Monteiro
"Pierce, grande Pierce, quão parecido", de Tiago "Bocage" Joel

Eis uma resposta ao primeiro desafio:
Importas-te de continuar? # 2
“11 de Dezembro
Olho para o papel branco (afinal um tudo-nada pardacento) sem a angústia de que falava Gaughin (ou era Van Gogh?) ao ver-se em frente da tela, mas com apreensão, apesar de tudo. Que vou eu escrever — eu, a quem nada neste mundo obriga a escrever? Eu, antecipadamente sabedor da inutilidade das linhas que neste momento ainda não redigi, dentro de alguns minutos (de alguns anos) finalmente redigidas?
Não sei: folheio ao acaso a página cento e quinze do meu caderno, ainda branca, ainda parda, e pergunto-me: daqui a dois, a três, a quatro meses, quando a alcançar — se a alcançar —, terei escrito uns milhares de palavras. Que palavras?
E fico perturbado, muito mais perturbado por essa página do que por esta, já em parte azulada e vazia de surpresas. Como saber se nela, hoje e durante um ou dois meses ainda branca, branca e situada no futuro, embora um futuro espacial, eu não contarei (não terei contado) coisas de cortar o coração? Sobre mim. Ou sobre o mundo, uma guerra, a vitória completa do fascismo, por exemplo.”
É com a angústia da página em branco que se inicia o romance Bolor, de Augusto Abelaira.
Continua o texto (não mais de 400 palavras) respeitando o registo de língua usado pelo autor e a tipologia textual.
"Camões, grande Camões, quão semelhante" - 1ª tarefa P.I.L.
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar c'o sacrílego gigante.
Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao céo, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu tu és, mas... oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.
Bocage
Primeira tarefa - P.I.L.:
Neste soneto, Bocage compara-se a Camões nos transes da ventura, porém, nota que se afasta dele no génio literário. Tendo por base este soneto, reescreve-o parodicamente, comparando-te tu a uma figura que admires.

