Pe. António Vieira e o Barroco

«Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter: palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja.»
 Pe. António Vieira  

Adília Lopes por Adília Lopes


O cheiro de Deus: Recital de poesia de Adília Lopes from Pastoral da Cultura on Vimeo.

O PROBLEMA DE SER NORTE | Filipa Leal

 
O PROBLEMA DE SER NORTE

Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que

um
raro
silêncio ainda

me interrompa?

Filipa Leal, O Problema de Ser Norte, Deriva Editores

Escolas no Teatro - CONVITE

Sábado dia 15 de Maio

Escolas no Teatro

O Teatro Nacional São João convida V. Exa. para assistir à inauguração da exposição Escolas no Teatro, no próximo dia 15 de Maio, às 14:00, no Teatro Carlos Alberto.

Orientados pelos professores de Língua Portuguesa e de Artes, alunos do terceiro ciclo do ensino básico, do ensino secundário e do ensino profissional da Área Metropolitana do Porto expõem trabalhos realizados ao longo do ano lectivo 2009/2010, partindo da experiência de assistir a espectáculos da programação do TNSJ.

Escolas participantes: Escola Secundária com 3.º ciclo Clara de Resende, Escola Artística e Profissional Árvore, Escola Básica e Secundária do Cerco, Escola Secundária de Almeida Garrett, Escola Secundária da Boa Nova, Escola Secundária de Paredes, Escola Secundária Dr. Manuel Gomes de Almeida, Escola Secundária Inês de Castro, Escola no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, Instituto das Artes e da Imagem.

organização TNSJ

Teatro Carlos Alberto (Sala de Vidro) 15 | 28 Maio 2010
terça-feira a sábado 14:00-19:00 domingo 14:00-15:00


Inversos, de Ana Luísa Amaral

Terça-Feira, 11 de Maio, 18:30 - Biblioteca Almeida Garrett


Apresentação de Inversos - poesia 1990-20010

O país mais cristão do mundo | Ricardo Araújo Pereira

 O país mais cristão do mundo | Ricardo Araújo Pereira

No ano de 1143, o Papa Inocêncio II reconheceu que Portugal era um país*. Oitocentos e sessenta e sete anos depois, temo que Bento XVI venha cá dizer-nos que talvez o seu antecessor se tenha precipitado. O Papa visita Portugal numa altura em que, ao que dizem pessoas versadas em economia, embora contradizendo outras pessoas igualmente versadas em economia, o País está à beira da bancarrota. É inquietante não perceber se o Papa vem abençoar-nos ou dar-nos a extrema-unção. Seria demasiado atentatório do protocolo que o Presidente Cavaco Silva tentasse convencer o Santo Padre a devolver-nos aquelas quatro onças de ouro que D. Afonso Henriques começou a pagar anualmente à Santa Sé? Podia ser uma boa ajuda para sair da crise, mas é provável que o Vaticano já tenha gasto tudo em hóstias e talha dourada.
Portugal pode ao menos aproveitar a visita do Papa para aprender com a Igreja, sobretudo nesta altura em que o País parece condenado a fazer à União Europeia o que a Igreja faz aos fiéis: pedir esmola. Na verdade, dificilmente haverá país que viva mais de acordo com a lei de Cristo do que Portugal: há anos que os portugueses têm vindo a despojar-se dos bens materiais e a abdicar da riqueza. Se os países morressem (e não é assim tão certo que o nosso não esteja com os pés para a cova), Portugal seria certamente dos que iriam para o céu.
Para o Papa, visitar Portugal é a decisão mais inteligente que poderia ter tomado. A Igreja tem sido abalada pelo escândalo de pedofilia, e não haverá nada mais sensato a fazer quando se está envolvido num escândalo do que viajar para um país em que os escândalos são corriqueiros. De todos os altos dignitários que vai encontrar, Bento XVI deve ser o que está menos atormentado por escândalos. Portugal é a Brobdingnag dos escândalos. Assim como Gulliver se sente mínimo em Brobdingnag, qualquer escândalo estrangeiro se sente pequenino em Portugal. O périplo do Papa pelo nosso país será o equivalente a uma pessoa que tem uma pequena nódoa na camisa ir rodear-se de pintores de parede com os fatos-macaco todos sarapintados. Quem se atreverá a censurar o Papa por comandar uma instituição que só pediu desculpa a Galileu mais de 350 anos depois do seu julgamento quando é essa, precisamente, a duração média de um julgamento em Portugal? Aqui, qualquer um se sente impoluto. Deve ser nisso que consiste a nossa celebrada hospitalidade.

* Mais ano menos ano, mais Papa menos Papa. Não me chateiem. O rigor histórico atrapalha quem quer trabalhar.


Revista Visão, 6 dfe Maio

Mulher ao Mar, Margarida Vale de Gato [Pedro Mexia]

A melhor estreia de uma poeta portuguesa nas últimas décadas
Pedro Mexia 


Margarida Vale de Gato (n. 1973) é uma das nossas melhores tradutoras, como se comprova lendo as suas versões de Lewis Carroll, Christina Rossetti, Wilde, Yeats, Melville, James, Char, Michaux, Sarraute, Dickens ou Poe. Há muito que também publica poemas em revistas, mas só agora editou a primeira colectânea. A espera valeu a pena, pois "Mulher ao Mar" é possivelmente a melhor estreia de uma poeta portuguesa desde "Um Jogo Bastante Perigoso" (Adília Lopes, 1985). 


A escritora assume a "condição feminina" em praticamente todos os poemas. Especialmente a condição feminina portuguesa. Os textos têm ecos da "Menina e Moça", donzelas prendadas do Estado Novo, raparigas que ficavam em casa enquanto os homens tratavam da política, esposas dedicadas, irmãs pacientes, freiras sofridas, legiões compulsoriamente dóceis, pacientes, esperando, costurando, virgens e putas, degredadas filhas de Eva. 

Em vez de "homem ao mar" grita-se "mulher ao mar" nestes poemas, e não é a mesma coisa. Eis o poema que dá título ao livro: "MAYDAY lanço, porque a guerra dura / e está vazio o vaso em que parti / e cede ao fundo onde a vaga fura, / suga a fissura, uma falta - não / um tarro de cortiça que vogasse; / especifico: é terracota e fractura, / e eu sou esparsa, e a liquidez maciça. / Tarde, sei, será, se vier socorro: / se transluz pouco ao escuro este sinal, / e a água não prevê qualquer escritura / se jazo aqui: rasura apenas, branda / a costura, fará a onda em ponto / lento um manto sobre o afogamento" (pág. 8). A mulher destes poemas, que é arquétipo mas também sujeito concreto e vivido, herda toda uma carga cultural, e procura uma linguagem em que encontre a sua autonomia. O "eu" destes poemas é rigoroso e esquivo, sexual e cultista, vulnerável e orgulhoso. Nos últimos anos, nenhum livro de poemas autobiográficos evitou com tal mestria as armadilhas da primeira pessoa, do cabotinismo ao prosaísmo, da trivialidade ao derrame sentimental. 

A mulher que cai ao mar, ou se lançou, ou a ele regressou, fazendo o caminho inverso de Vénus, quem é? É uma mulher determinada pelos seus desejos, pela maternidade, pela experiência de uma domesticidade agreste ou azeda, muitas vezes sarcástica: "Costumes que frequentamos: / o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas / do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão, / o alguidar, guardamos os restos, torcemos / os trapos, os nossos recados, os nossos sacos, / os nossos ovos" (pág. 45). O livro é ao mesmo tempo afirmação e luto, gémeos incindíveis. 

Alheia a todo o solipsismo, Margarida Vale de Gato escreve uma poesia relacional, em constante diálogo com pessoas que passaram, que são passado, que não estão ultrapassadas, em geral homens que deixaram um agudo sentimento de orfandade ou decepção. A amargura cultíssima e vagamente niilista nunca impede momentos a que podemos chamar "românticos", de entrega confiada e apaixonada. É o caso um notável poema chamado "Intercidades", no qual a tristeza do mundo e a inquietação individual é atravessada pelo comboio que engole eucaliptos na paisagem portuguesa. Mas há também uma constante queda no "bathos" quotidiano, feito de segundas escolhas e de quedas conscientes e sem culpabilidade: "Foi como amor aquilo que fizemos / ou acto tácito? - os dois carentes / e sem manhã sujeitos ao presente; / foi logro aceite quando nos fodemos // Foi circo ou cerco, gesto ou estilo / o acto de abraçarmos? foi candura / o termos juntos sexo com ternura / num clima de aparato e de sigilo. // Se virmos bem ninguém foi iludido / de que era a coisa em si - só o placebo / com algum excesso que acelera a libido. // E eu, palavrosa, injusta desconcebo / o zelo de que nada fosse dito / e quanto quis tocar em estado líquido" (pág. 23).

Árvore da Vida | Pe António Vieira


"Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles." 
Pe António Vieira, in Sermão da Sexagésima

Sermão da Sexagésima [Ficha de trabalho]

FInf LitPort Sermão Sexagésima avaliação

UMA FALHA NO PROGRAMA | Margarida Vale de Gato


UMA FALHA NO PROGRAMA

Estou à espera mais uma vez
de ser gentilmente votada
ao meu lugar de amante
intensa, grata e gozada
e é melhor que fique assim,

nem me queixo, inconveniente
sou para todo o protocolo
e além disso algo demente;
tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme

e desprendimento - aliás,
agradeço que entre portas
me deixem dedicar mil vezes,
no meio dos uivos e lodos,
a minha vulnerabilidade -

- mas se por acaso, só desta,
for mesmo da minha cabeça
e acontecer de outro modo,
fico de tal forma contente
que hei-de agradar-vos a todos.

Margarida Vale de Gato, in Mulher ao Mar, Mariposa Azual, 2010.

«Glosa da Nau Catrineta», Margarida Vale de Gato

 Há uns tempos, as Corujas Trovadoras brindaram-nos com uma brilhante apresentação da Nau Catrineta, que pode ser vista aqui.
Agora, a provar que a literatura é coisa viva e que os textos falam um com os outros (intertextualidade), deixamos aqui ficar uma  Glosa da Nau Catrineta, belo poema de Margarida Vale de Gato. Nesta glosa , a poetisa (ou poeta, o que mais lhe agradar)  dá voz às três meninas e cada uma delas representa as três parcas.

 «Glosa da Nau Catrineta»

Mote

Mais enxergo três meninas
debaixo de um laranjal,
uma na roca a fiar,
outra sentada a coser,
a mais fermosa de todas
está no meio a chorar.


Glosa

Somos as três irmãs mouras,
nosso pai anda no mar
e lá longe foi buscar
onde o ouro as terras doura
um anel pra nos casar.
Mas um demónio que o tenta
faz passar por genuínas
as visões que lhe apresenta:
“Vejo aplacada a tormenta,
mais enxergo três meninas.
 

Somos as três irmãs parcas
no falar e no folgar,
“Muito riso, pouco siso”,
quis nosso pai avisar
quando partiu com as barcas
nesse dia de improviso.
Seguiu dos ventos a rosa
espinhosa e fatal,
deixou-nos sós e ciosas
debaixo de um laranjal.

 
“Eu sou a irmã da roca
fio finos fios de hera,
quem meus finos fios toca
num ventre de mãe se gera
e num seio desemboca.
Fui eu quem fez o tecido
pra minha avó se encontrar
três vezes com seu marido,
duas rompi-o ao tear
uma na roca a fiar.”
 

“Eu sou a irmã que cerze
e tenho um metro que mede
o fio da alma que impede
o corpo de se perder.
Fui eu quem fez a bainha
dessa espada que levou
o meu pai para vencer
e três vezes me cortou,
duas a enfiar a linha,
outra sentada a coser.”
 

“Eu sou a irmã que carpe,
que tem nas mãos a tesoura,
e no alto dessa escarpa
nas terras que o ouro doura
sou tão bárbara quanto moura.
Fui eu quem cortou o fio
do mastro preso ao navio
do pai que me deu em bodas
ao demo a quem sugeriu
a mais fermosa de todas.”
 

Somos as irmãs que vêem
com um só olho de auguro
que as nossas agulhas têm
o passado e o futuro,
os mundos que há para além
e os mundos que há sob o mundo
onde os mortos vão penar:
e nosso pai, lá no fundo,
que quis o demo comprar
está no meio a chorar.



 Margarida Vale de Gato, in Mulher ao Mar

Livros...

Mulher ao Mar, Margarida Vale de Gato



ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.

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COM PAIXÃO E HIPOCONDRIA

Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía

[in Mulher ao Mar, Mariposa Azual, 2010]

Contratenor Luís Peças

Ainda no rescaldo da visita a Alcobaça, Luís Peças, contratenor, que nos brindou com apontamentos musicais, na Sala do Capítulo, uma sala cheia de história e com uma acústica fantástica.

O valor do vento, Ruy Belo



Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto.

Ruy Belo

Kleist


“Poder-se-iam distribuir as criaturas humanas por duas classes: aquelas que percebem de metáforas e aquelas que percebem de fórmulas. Os indivíduos que percebem de ambas as coisas são muito poucos e não chegam para constituir uma classe.” Kleist, in Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos

VIEIRA PREGADOR

Para fazer da sua palavra um meio eficaz de intervenção e actuação, Vieira recorre naturalmente às técnicas que a Retórica (disciplina fundamental no curriculum escolar e na formação intelectual dos homens da época) sistematizara e codificara. De um dos seus sermões (o "Sermão da Sexagésima", o mais conhecido, aquele que o autor escolheu para abrir o primeiro volume dos que publicou) fez Vieira uma espécie de sucinto tratado de Retórica, um sermão que pretende ensinar como pregar um sermão que seja de facto um discurso persuasivo, capaz de convencer e converter os ouvintes
MARIA LUCÍLIA GONÇALVES PIRES

O Caranguejo, Carlos Pinhão

O Caranguejo

o caranguejo
talvez seja bom rapaz
não digo que não
mas quando o vejo
andar para trás
faz-me lembrar a Revolução.
(Set. 1983. Inédito)

Carlos Pinhão

in Poemabril  - Antologia poética,2.ª edição (Organização de Carlos Loures E manuel Simões), Fora Do Texto, Coimbra, 1994

Elefante de Abril , de Carlos Pinhão


ELEFANTE DE ABRIL

A Revolução
teve uma flor
-o cravo.
Não teve um animal
e, como tal,
proponho o elefante
tão paciente e sofredor
durante tanto ano
mas quando a paciência se esgotou
foi coisa de se ver
violento eficaz empolgante.
Depois, voltou a ser
lento
bom rapaz
algo distante.
Mas, atenção
nunca se VIU morrer
um elefante!

(Bichos de Abril, Lisboa, Ed. Caminho, 1977)

in Poemabril  - Antologia poética,2.ª edição (Organização de Carlos Loures E manuel Simões), Fora Do Texto, Coimbra, 1994.