Já Bocage não sou...

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se  me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

                                   Bocage

Bocage e o Nicola




Lugar de intercâmbio de ideias, debates literários e propaganda de opiniões, é assim que podemos definir um dos cafés mais frequentados do séc. XVIII – o Café Nicola.

O Café Nicola pertence a tipo de estabelecimentos com o seu charme característico, que marcaram diferentes épocas, foram ponto de encontro e, muitas vezes, de partida para movimentos sociais, políticos e culturais. Pela porta de Cafés como este, “A Brasileira”, o “Marare”, o “Martinho da Arcada”, entre tantos outros, passaram algumas das mais emblemáticas figuras públicas. Hoje, alguns vão subsistindo, constituindo-se como verdadeiros refúgios onde ainda se consegue imaginar o seu passado vibrante.


O Café Nicola é por excelência um dos cafés mais literários de Lisboa.. Existe desde finais do século XVIII. Fundado em 1787, no Rossio por um italiano, Nicola Breteiro, é um dos estabelecimentos mais antigos de Lisboa. É referenciado na «Gazeta de Lisboa» nesse mesmo ano e, o mesmo periódico, menciona uma «liquidação da loja grande de bebidas do Café Nicola», em Julho de 1794. Neste botequim vendiam-se cafés e refrescos e era um local frequentado por jacobinos e maçónicos.

Tendo como alcunha “Academia”, devido ao largo leque de intelectuais que o frequentavam, o Nicola teve um frequentador que se destacava por entre todos outros. Esse homem era Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Um dos episódios mais engraçados da vida deste autor aconteceu precisamente à frente do Nicola: conta-se que um polícia lhe perguntou quem era, donde vinha e para onde ia, ao que o espirituoso poeta respondeu:

“Eu sou Bocage
Venho do Nicola
Vou p’ro outro mundo
Se dispara a pistola”.
 

Bocage

Louise Bourgeois (1911-2010) O último beijo da mulher-aranha





Um portento de pouco mais de um metro e meio de altura vindo lá de trás, do arranque do século XX, a atravessar a história do mundo contemporâneo para chegar até nós, ao novo milénio, com a pujança de um colosso sem tempo. 


O caminho todo. E, depois, o fim da viagem - ontem a mulher-aranha recolheu-se na sua teia de memórias e fechou os olhos: a artista plástica Louise Bourgeois morreu no Beth Israel Medical Center, em Manhattan, segundo anunciado ao princípio da tarde de Nova Iorque por Wendy Williams, directora do Louise Bourgeois Studio. Bourgeois faria 99 anos a 25 de Dezembro.

E, sim, os números enganam. Afinal, não tivemos tanto tempo assim para conhecer este ser raro. Pouco mais de duas décadas desde que em 1982 o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque organizou a primeira exposição retrospectiva de sempre da sua obra; apenas dez anos desde que a Tate Modern, de Londres, caiu como uma bomba no circuito expositivo internacional revelando ao mundo Maman.

Freud tinha explicado tudo sobre aranhas até nos depararmos com esta imensa representação da mãe a olhar-nos lá de cima, do alto das suas gigantescas patas de aço como quem avança Turbine Hall fora.

Bourgeois falaria num "símbolo de benevolência e protecção". A mesma candura com que aos 71 anos apareceu no estúdio de Robert Mapplethorpe para se fazer fotografar de sorriso rasgado dentro de um casaco de pêlo e com um poderoso pénis erecto enfiado debaixo do braço. Foi na mesma altura em que publicou um texto autobiográfico intitulado Child Abuse explicando como a mãe a usara como espia para obter informação sobre o caso de anos que o marido manteve com a governanta da família.

Foi em Paris, e há imagens deles todos juntos. Depois, à distância de Nova Iorque, para onde se mudou em 1938, Bourgeois continuaria sempre a partir exorcismo dos demónios do passado como motor criativo. 

Aranhas, falos de metal e látex, esfinges cobertas de seios, madeiras velhas de décadas e mármores acabados de polir, tecidos cozidos e recozidos, pequenos desenhos a vermelho, como sangue, roupas antigas (às vezes as dela, de criança), presenças disformes, por vezes grotescas, narrativas a aflorar o macabro: a obra de Bourgeois tece uma trama de densíssima carga emocional, um murro no estômago do ponto de vista dos subtextos psicológicos. Mas o humor está também sempre ali, ao virar da esquina. 

Há três anos, com nova exposição na Tate, a artista acedeu a criar um objecto para vender às centenas na loja do museu, um pequeno lenço bordado com uma frase: "Fui ao Inferno e voltei e, deixem-me que vos diga, foi maravilhoso."

Nessa altura, em entrevista ao Observer, diria: "Os meus trabalhos são retratos de uma relação e a minha relação mais importante foi com a minha mãe. Agora, como é que estes sentimentos por ela chegam até à minha interacção com as outras pessoas e como é que estes sentimentos por ela alimentam o meu trabalho, é [uma questão] tão complexa quanto misteriosa. Ainda estou a tentar perceber os mecanismos [desse processo].[Público]

o meu amor é glandular , Mafalda Gomes


da charcutaria
eu não faço fiambre de memória
estou a encher chouriços onde me deixaste

do coração é que não
o meu amor é glandular
e o teu é perpendicular relativamente ao eixo da minha secreção


entornaste vinho no meu regaço
cachos de uvas numa videira como amantes numa forca
têm em comum a gravidade

digestão
triste é fechar os olhos para não te receber pela boca que poderia
engolir a praia inteira se cá estivesses

 Ajavardamento Poético é o blogue das  Abóboras Mecânicas, nome de guerra, das  alunas do 12ºE da Escola Secundária do Padrão de Légua,  Ana Cardoso, Ana Teles, Bruna Gonçalves, Isabel Piano e Mafalda Gomes.  Blogue que nasce   «no âmbito da disciplina de Área de Projecto as Abóboras Mecânicas fazem surgir um espaço onde todos podem javardar. Um espaço asseado porém. Um espaço onde se sublimam as palavras e os dizeres. Um espaço de voo. Convida-se toda a Comunidade Escolar a entrar. Sirvam-se da nossa língua sirvam-se do que vos grita o íntimo sirvam-se deste blogue.».

Do blogue e das maravilhas que já fizeram (v.g. Padrões Poéticos & Léguas de Poemas)  voa-se para quem está por trás e descobre-se este maravilhoso O MEU AMOR É GLANDULAR, de Mafalda Gomes. O blogue vai ficar sob vigilância apertada e já está nos favoritos. Uma menina que, como a Adília, escreve coisas que não se dizem.

Fala com Ela: Filipa Leal e Inês Meneses

Para ouvir, clica aqui.

MÁQUINAS: Fundação de Serralves

Na sequência da inauguração da exposição MÁQUINAS,  a Fundação de Serralves  convida os alunos participantes a  visitar gratuitamente a exposição MÁQUINAS, o Museu e o Parque de Serralves com as suas famílias.

Vicente, de Miguel Torga




Apresentação de Vicente de Miguel Torga pelas Corujas Trovadoras e 10.ºE.






LIBERDADE

– Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
– Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga
Albufeira, 28 de Agosto de 1975
in Diário XII


Ler Vicente na íntegra aqui.

Cerva ...

O 10.ºE, o 4.ºA e o 4.ºB agradecem ao Agrupamento de Escolas de Cerva a forma calorosa com que foram recebidos.

Clube da Palavra #1

CERCO & CERVA

Amanhã, rumaremos a Cerva em boa companhia: as Corujas Trovadoras.

2 poemas de Bénédicte Houart




falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida

*******

«pus-me a escrever um poema
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe»

Bénédicte Houart

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[para ler, basta clicar na imagem]

COMUNICADO | Miguel Torga

COMUNICADO 

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha.
Até cair.

Miguel Torga


 (Coimbra, 18 de Abril de 1961)

DIÁRIO, Ana Salomé


[Na segunda-feira, lemos alguns poemas de  Resumo, a poesia em 2009 uma antologia. O que se segue, de Ana Salomé, foi um dos que mais agradou. Um  manifesto poético que quer a raiz do poema.  Fora  os artifícios, as circunstâncias, o imediato, o banal e o corriqueiro].
DIÁRIO
A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.

Ana Salomé 
 

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É hoje que saímos na Visão? 
Não... ainda é o Papa...

Depois de semanas de ansiedade... a reportagem de Joana Loureiro e Lucília Monteiro (fotografia).
Obrigada à Joana por ter escrito: "No nosso grupo de alunos". A Joana e a Lucília já fazem parte da nossa turma.


Derivas de Maio ! 22 de Maio | ESMAE

 
«E se a Revolução significasse, antes de tudo, Educação?»
9:30 – Entrega do certificado de presença
9:45 – Abertura
Moderação: António Luís Catarino
10:00 – Suzana Ralha, Professora
11:30 – António Alves da Silva, Professor
Debate
12:30 – Intervalo para almoço
«Fazer o Pensar e Pensar o Fazer – Como atacar a Realidade?»
Moderação: António Luís Catarino
 14:30 – Rui Pereira, Jornalista
15:00 – Santiago López-Petit,  Filósofo. Universidade de Barcelona
Debate
16:00 ––  Apresentação do livro de Santiago López-Petit,  A Mobilização Global seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos. Tradução e Comentários de Rui Pereira. Deriva Editores, 2010
17:00 – Projecção do Filme El Taxista Ful de Jordi Solé (Jo Sol)