Para Elisa...
O 4.ºA percorreu um caminho connosco.
Partilhámos leituras, partilhámos autores, partilhámos viagens, partilhámos cumplicidades, partilhámos o inefável, o intangível.
Momentos únicos que só a poesia pode ajudar a dizer.
Momentos únicos que só a poesia pode continuar a ajudar a dizer.
INFANTUNA
No âmbito do Projecto "Ler é Preciso!", o Agrupamento de Escolas do Cerco apresenta amanhã, pelas 20.30, dia 19 de Junho, o Festival Infantuna, na Quinta do Bonjóia.
Dos contos dos livros partiu-se para o verso e criam-se cumplicidades entre a TUNA Real de Bragança e alunos de vários Ciclos do Agrupamento de escolas do Cerco. Amanhã, à noite alunos universitários, crianças do pré escolar e dos 1.º e 3.º Ciclos do EB juntar-se-ão num hino à leitura e à fantasia.
Riscava a palavra dor no quadro negro, Luís Quintais
VII
O esboço na página profunda
profunda do que não escreverei
é aquilo a que chamam de poema,
um mapa da cidade sem mapa,
da cidade irreal, da cidade cortejo da morte
e esquecimento, da cidade-fria-lâmina
acercando-sr do que está no vidro da mente
como um reflectido império antigo.
Para esse lugar de leveza ingrata,
transporto os impossíveis
que a biografia disse
necessários e urgentes.
Luís Quintais, in Riscava a palavra dor no quadro negro
dois poemas de Manuel de Freitas
ESTUDOS CAMONIANOS
Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.
Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.
Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.
Manuel de Freitas, A última Porta
Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.
Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.
Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.
Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.
Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.
Manuel de Freitas, A última Porta
GRAPEFRUIT MOON
Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.
Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.
Ao quinto ou quarto gin
(lembras-te?) deitávamo-nos
a sorrir para a estrelas,
sobre o pano gasto do bilhar.
A música era esta.
Perdemos quase tudo.
Manuel de Freitas
Camões, grande Camões, Bocage
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.
Bocage
Já Bocage não sou...
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Bocage
Bocage e o Nicola
Lugar de intercâmbio de ideias, debates literários e propaganda de opiniões, é assim que podemos definir um dos cafés mais frequentados do séc. XVIII – o Café Nicola.
O Café Nicola pertence a tipo de estabelecimentos com o seu charme característico, que marcaram diferentes épocas, foram ponto de encontro e, muitas vezes, de partida para movimentos sociais, políticos e culturais. Pela porta de Cafés como este, “A Brasileira”, o “Marare”, o “Martinho da Arcada”, entre tantos outros, passaram algumas das mais emblemáticas figuras públicas. Hoje, alguns vão subsistindo, constituindo-se como verdadeiros refúgios onde ainda se consegue imaginar o seu passado vibrante.
O Café Nicola é por excelência um dos cafés mais literários de Lisboa.. Existe desde finais do século XVIII. Fundado em 1787, no Rossio por um italiano, Nicola Breteiro, é um dos estabelecimentos mais antigos de Lisboa. É referenciado na «Gazeta de Lisboa» nesse mesmo ano e, o mesmo periódico, menciona uma «liquidação da loja grande de bebidas do Café Nicola», em Julho de 1794. Neste botequim vendiam-se cafés e refrescos e era um local frequentado por jacobinos e maçónicos.
Tendo como alcunha “Academia”, devido ao largo leque de intelectuais que o frequentavam, o Nicola teve um frequentador que se destacava por entre todos outros. Esse homem era Manuel Maria Barbosa du Bocage.
Um dos episódios mais engraçados da vida deste autor aconteceu precisamente à frente do Nicola: conta-se que um polícia lhe perguntou quem era, donde vinha e para onde ia, ao que o espirituoso poeta respondeu:
“Eu sou Bocage
Venho do Nicola
Vou p’ro outro mundo
Se dispara a pistola”.
Venho do Nicola
Vou p’ro outro mundo
Se dispara a pistola”.
(daqui)
Louise Bourgeois (1911-2010) O último beijo da mulher-aranha
Um portento de pouco mais de um metro e meio de altura vindo lá de trás, do arranque do século XX, a atravessar a história do mundo contemporâneo para chegar até nós, ao novo milénio, com a pujança de um colosso sem tempo.
O caminho todo. E, depois, o fim da viagem - ontem a mulher-aranha recolheu-se na sua teia de memórias e fechou os olhos: a artista plástica Louise Bourgeois morreu no Beth Israel Medical Center, em Manhattan, segundo anunciado ao princípio da tarde de Nova Iorque por Wendy Williams, directora do Louise Bourgeois Studio. Bourgeois faria 99 anos a 25 de Dezembro.
E, sim, os números enganam. Afinal, não tivemos tanto tempo assim para conhecer este ser raro. Pouco mais de duas décadas desde que em 1982 o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque organizou a primeira exposição retrospectiva de sempre da sua obra; apenas dez anos desde que a Tate Modern, de Londres, caiu como uma bomba no circuito expositivo internacional revelando ao mundo Maman.
Freud tinha explicado tudo sobre aranhas até nos depararmos com esta imensa representação da mãe a olhar-nos lá de cima, do alto das suas gigantescas patas de aço como quem avança Turbine Hall fora.
Bourgeois falaria num "símbolo de benevolência e protecção". A mesma candura com que aos 71 anos apareceu no estúdio de Robert Mapplethorpe para se fazer fotografar de sorriso rasgado dentro de um casaco de pêlo e com um poderoso pénis erecto enfiado debaixo do braço. Foi na mesma altura em que publicou um texto autobiográfico intitulado Child Abuse explicando como a mãe a usara como espia para obter informação sobre o caso de anos que o marido manteve com a governanta da família.
Foi em Paris, e há imagens deles todos juntos. Depois, à distância de Nova Iorque, para onde se mudou em 1938, Bourgeois continuaria sempre a partir exorcismo dos demónios do passado como motor criativo.
Aranhas, falos de metal e látex, esfinges cobertas de seios, madeiras velhas de décadas e mármores acabados de polir, tecidos cozidos e recozidos, pequenos desenhos a vermelho, como sangue, roupas antigas (às vezes as dela, de criança), presenças disformes, por vezes grotescas, narrativas a aflorar o macabro: a obra de Bourgeois tece uma trama de densíssima carga emocional, um murro no estômago do ponto de vista dos subtextos psicológicos. Mas o humor está também sempre ali, ao virar da esquina.
Há três anos, com nova exposição na Tate, a artista acedeu a criar um objecto para vender às centenas na loja do museu, um pequeno lenço bordado com uma frase: "Fui ao Inferno e voltei e, deixem-me que vos diga, foi maravilhoso."
Nessa altura, em entrevista ao Observer, diria: "Os meus trabalhos são retratos de uma relação e a minha relação mais importante foi com a minha mãe. Agora, como é que estes sentimentos por ela chegam até à minha interacção com as outras pessoas e como é que estes sentimentos por ela alimentam o meu trabalho, é [uma questão] tão complexa quanto misteriosa. Ainda estou a tentar perceber os mecanismos [desse processo].[Público]
o meu amor é glandular , Mafalda Gomes
da charcutaria
eu não faço fiambre de memória
estou a encher chouriços onde me deixaste
do coração é que não
o meu amor é glandular
e o teu é perpendicular relativamente ao eixo da minha secreção
entornaste vinho no meu regaço
cachos de uvas numa videira como amantes numa forca
têm em comum a gravidade
digestão
triste é fechar os olhos para não te receber pela boca que poderia
engolir a praia inteira se cá estivesses
Ajavardamento Poético é o blogue das Abóboras Mecânicas, nome de guerra, das alunas do 12ºE da Escola Secundária do Padrão de Légua, Ana Cardoso, Ana Teles, Bruna Gonçalves, Isabel Piano e Mafalda Gomes. Blogue que nasce «no âmbito da disciplina de Área de Projecto as Abóboras Mecânicas fazem surgir um espaço onde todos podem javardar. Um espaço asseado porém. Um espaço onde se sublimam as palavras e os dizeres. Um espaço de voo. Convida-se toda a Comunidade Escolar a entrar. Sirvam-se da nossa língua sirvam-se do que vos grita o íntimo sirvam-se deste blogue.».
Do blogue e das maravilhas que já fizeram (v.g. “Padrões Poéticos & Léguas de Poemas”) voa-se para quem está por trás e descobre-se este maravilhoso O MEU AMOR É GLANDULAR, de Mafalda Gomes. O blogue vai ficar sob vigilância apertada e já está nos favoritos. Uma menina que, como a Adília, escreve coisas que não se dizem.
MÁQUINAS: Fundação de Serralves
Na sequência da inauguração da exposição MÁQUINAS, a Fundação de Serralves convida os alunos participantes a visitar gratuitamente a exposição MÁQUINAS, o Museu e o Parque de Serralves com as suas famílias.
Vicente, de Miguel Torga
Apresentação de Vicente de Miguel Torga pelas Corujas Trovadoras e 10.ºE.
LIBERDADE
– Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
– Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga
Albufeira, 28 de Agosto de 1975
in Diário XII
Ler Vicente na íntegra aqui.
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Corujas Trovadoras,
Miguel Torga
Cerva ...
O 10.ºE, o 4.ºA e o 4.ºB agradecem ao Agrupamento de Escolas de Cerva a forma calorosa com que foram recebidos.
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