O sentido da vida

Barbara Kruger

SENHORA DONA BURGUESA, Natércia Freire


SENHORA DONA BURGUESA

Senhora Dona Burguesa,
Dentro da sala fiando,
Com olheiras de tristeza,
Fia o sonho e vai sonhando.

Cantam pássaros na tarde.
Senhora Dona Burguesa
Recolheu as mãos e arde
Na romântica tristeza
De ouvir pássaros na tarde.
Já espreitou da velha torre

Campos e montes de Espanha.
Disse à nuvem: - Corre, corre,
Conta o mal que me acompanha.
De nada serve espreitar
Campos e montes de Espanha...

O silêncio envolve tudo:
Compõe teus olhos, Senhora.
Touca e manto de veludo,
Longos dedos cor de aurora.

Voz débil, de flor cansada,
No esquecimento da vida.
Dona Senhora do Nada,
Nas sombras adormecida.

Vieram carros buscar
Senhora Dona Burguesa,
Para a levar a passear.
A Senhora estava presa,
Imóvel, no seu lugar. . .

Já correra o mundo todo
Com olhos de navegar.
Enterrara-se no lodo,
E um anjo a fora salvar.

Depois subira às ameias,
De mãos atadas e nua.
- Altura? Brumas? Areias!
Deitem-na, morta, às areias.
Não há mais cópias de lua!

Senhora Dona Burguesa
Ouvia o Anjo falar,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar. . .

Enfeitara-se o coreto;
Logo à volta houvera danças.
Senhora Dona Burguesa
Levara vestido preto
E laços pretos nas tranças.

Levara vestido justo,
Justo no seio e nas ancas;
Vestido preto a acabar
No branco das pernas brancas.

Todos a viram calçada
Com ar de sonho e vigília.
Todos a viram sentada
Por entre a sua família.
Todos a viram modesta,
Sorridente e sossegada...

Senhora Dona Burguesa
Andou descalça na festa
E foi por todos pisada.

Quando a deitaram na cama,
Ninguém viu que se morria.
Tinha os cabelos em chama,
E à chama, ninguém a via. . .

Enfeitaram mais coretos,
Houve mais cantos e danças.
Mulheres vestidas de preto,
Com laços pretos nas tranças,
Endoideceram o espaço
De saudade e ventania,
De cantigas, de cansaço,
De pecado e de alegria. . .

(Senhora Dona Burguesa
No escuro se repetia...)

Quando viram que era morta,
Teve que ir a enterrar.
Não é preciso trazer
Carros para a passear.
Não subirá torres altas,
Para delas espreitar
Campos e montes de Espanha,
Brumas, areias do mar...
Não deverá ter impérios
Quem deles não sabe usar.
Só terá vestidos pretos
Para neles se amortalhar.

Senhora Dona Burguesa,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar.

Senhora Dona Burguesa
Sem história para contar!...

Natércia Freire in Anel de Sete Pedras (1952)

[HÁ COLARES QUE SÃO COLEIRAS], Bénedict Houart



há colares que são coleiras
há mulheres que são cadelas
certos homens, cães raivosos

os cães propriamente ditos
não foram para aqui chamados
embora metam o nariz em todo o lado
farejando coisas imaginárias
e, de resto, não falam, ladram
têm com certeza razão


Bénedict Houart .

Saramago, por Miguel Carvalho [A Devida…na VISÃO – XXXII]

(foto de Egídio Santos)


Do autocarro aos cafés, da coluna de jornal ao supermercado, o País pergunta: o Presidente da República deveria ou não ter ido ao funeral de José Saramago? Como nesta Terra de Pecado todas as interpretações são livres, também tenho uma: Cavaco não foi porque vai precisar dos votos dos que não leram O Evangelho segundo Jesus Cristo e consideraram Caim uma obra dos infernos. Ou seja, os mesmos votos que o inquilino de Belém terá perdido ao aprovar, contrariado, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Como se sabe, o facto levou a Igreja portuguesa ao desespero. Desde esse dia, anda por aí, numa autêntica Viagem do Elefante, em busca de um candidato a Belém mais bafejado pela graça de Deus. E, já agora, pelo espírito das cruzadas, quem sabe.

Esgrimiram-se, entretanto, outras justificações para a ausência de Cavaco: que não queria ser assobiado, que não queria ser hipócrita, que já tinha feito o que deveria como chefe de Estado… Argumentou-se também que não poderia faltar às cerimónias pela dignidade do cargo que ocupa. Ora, Saramago, que nunca foi um Homem Duplicado e dado a ostentações e vénias pelos senhores de turno, dispensaria bem a presença do homem a quem nunca apertou a mão. Ele, que nem n´As Intermitências da Morte quis fazer as pazes com a figura suprema do Governo que o tratou como um Objecto, Quase, agradeceria, por certo, a ausência.

Claro que, para quem apenas guarda Pequenas Memórias do tempo que passa, a censura ao escritor em pleno cavaquismo deveria ser relegada para Os Apontamentos da História na hora da despedida. Discordo. Naquela altura, goste-se ou não, tiraram tudo o que resta a um escritor: o valor da liberdade de criação e a dignidade das suas palavras. E Provavelmente, Alegria, já agora. Cavaco era chefe de um ajudante de ministro que, a dada altura, se questionou: Que farei com este livro? E tão rápido pensou como decidiu: uma obra incómoda para “o património religioso dos cristãos” não seria candidata ao Prémio Literário Europeu. Disse. E fez. Ontem como hoje, sabe-se o quanto Cavaco é cioso desse património cristão, pelos vistos sagrado. Num Governo que chefiou, um escritor foi relegado para A Caverna e nem Os Poemas Possíveis lhe valeram. Ou alguém ouviu a Cavaco arrependimentos a propósito desse momento triste, qual Ensaio sobre a Cegueira num País em que o mal parece incurável?

Nem por isso, Saramago deixou de ser Levantado do Chão.

Até ao Nobel. E depois dele.

Saramago foi Deste Mundo e do Outro e o gosto, nestas coisas, fica à porta. Entendamo-nos: não preciso de concordar ou aplaudir tudo o que escreveu ou disse. Mas a verdade é que foi nele, mais luminoso e redentor, qualquer Ensaio sobre a Lucidez do que Todos os Nomes que lhe chamaram.

M.C.

Synecdoche, New York

Synecdoche, New York

Morada, Margarida Ferra




Morada

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

[Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, &etc, 2010]

Saber mais aqui [minuto 3´28´´]

Passado, Presente, Futuro [José Saramago]

Infantuna




Hoje, o Ler é Preciso! deu-nos música no Bonjóia...
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Curso intensivo de Jardinagem, Margarida Ferra [dois poemas]





Foi quando as palavras 
se prenderam na minha garganta,
uma a uma, abri a boca
e espalhei na sala, depois
do jantar, alguns bocados antigos.

Ouvi mais uma vez o sinal interrompido,
quando quis escutar-te por dentro
(outra vez este plano),
os algarismos, fixos
na minha memória, um a um.
As minhas mãos sobre ti já
discaram quatrocentos números iguais aos teu.
Não sei o que são frases, a única sequência
está nos meus dedos. Debaixo deles,
tu, mais uma década, e duas vezes
o sete antes da tua voz.

Estamos agora longe
e não sabemos ainda
que esse de quem te falo
é o próximo e o último.
Estamos agora longe, melhores.

Mas preferia não saber
nunca o teu lugar exacto,
coordenadas cegas,
dois números em qualquer cidade.

***


Ontem adormeceste, ainda
tínhamos as facas todas na boca
e três por abrir.
Ficou uma pousada
em equilíbrio geométrico
na linha dos lábios.
Não sei de quem eram
esses lábios onde
o gume imóvel não deixava sair
as palavras duras
e, mais tarde, os pesadelos.
Outras o cabo na minha mão,
esqueci-a  antes da última
costela flutuante
depois do coração.

De manhã éramos só nós, frios,
e a memória das cinzas na rua.

A terceira foi como se nunca tivesse existido.

Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, & etc, Lisboa, 2010.

(*) Margarida Ferra tem 32 anos e é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou numa pizzaria, num jornal, numa galeria de arte contemporânea, em duas livrarias e no Palácio da Ajuda. É responsável, desde Janeiro de 2009, pela área de comunicação da Quetzal Editores [daqui]

Mulher a adias do texto - aqui



"Um escritor é um homem como os outros: sonha." José Saramago

"Um escritor é um homem como os outros: sonha."  



"Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais."


''Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira.''

[José Saramago na contracapa de Levantado do Chão]



“Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já”.

José Saramago, "Viagem a Portugal", Caminho - O Campo da Palavra, Lisboa 1995, p. 387.

Para Elisa...


O 4.ºA percorreu um caminho connosco.
Partilhámos leituras, partilhámos autores, partilhámos viagens, partilhámos cumplicidades, partilhámos o inefável, o intangível.
Momentos únicos que só a poesia pode ajudar a dizer.
Momentos únicos que só a poesia pode continuar a ajudar a dizer.
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Finalistas, 4.ºA


Um grupo, uma história....


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Festa de Finalistas | 4.º A




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Espelho Felino 2#




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Espelho Felino #1




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INFANTUNA


No âmbito do Projecto "Ler é Preciso!", o Agrupamento de Escolas do Cerco apresenta amanhã, pelas 20.30, dia 19 de Junho, o Festival Infantuna, na Quinta do Bonjóia.

Dos contos dos livros partiu-se para o verso e criam-se cumplicidades entre a TUNA Real de Bragança e alunos de vários Ciclos do Agrupamento de escolas do Cerco.  Amanhã, à noite alunos universitários, crianças do pré escolar e dos 1.º e 3.º Ciclos do EB juntar-se-ão num hino à leitura e à fantasia.



Riscava a palavra dor no quadro negro, Luís Quintais


VII

O esboço na página profunda
profunda do que não escreverei

é aquilo a que chamam de poema,
um mapa da cidade sem mapa,

da cidade irreal, da cidade cortejo da morte
e esquecimento, da cidade-fria-lâmina

acercando-sr do que está no vidro da mente
como um reflectido império antigo.

Para esse lugar de leveza ingrata,
transporto os impossíveis

que a biografia disse
necessários e urgentes.

Luís Quintais, in Riscava a palavra dor no quadro negro 

dois poemas de Manuel de Freitas

ESTUDOS CAMONIANOS

Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.

Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.

Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.

Manuel de Freitas, A última Porta

A Última Porta 

GRAPEFRUIT MOON


Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Ao quinto ou quarto gin
(lembras-te?) deitávamo-nos
a sorrir para a estrelas,
sobre o pano gasto do bilhar.

A música era esta.
Perdemos quase tudo.
Manuel de Freitas

Camões, grande Camões, Bocage


Camões, grande Camões, quão semelhante
 
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo! 
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo, 
Arrostar co'o sacrílego gigante; 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante, 
Da penúria cruel no horror me vejo; 
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, 
Também carpindo estou, saudoso amante. 

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura 
Meu fim demando ao Céu, pela certeza 
De que só terei paz na sepultura. 

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!... 
Se te imito nos transes da Ventura, 
Não te imito nos dons da Natureza. 

Bocage