Histórias de mão em mão


Palavras
                 texto de Miguel Carvalho10.ºA, 10.ºB,  10.ºC,  10.ºD, 10.ºE


Por vezes, o silêncio inunda a casa como águas correndo livres. Trepa pelas paredes, toca os objectos. Humedecendo memórias, desbotando palavras passadas, pretéritos imperfeitos. Quando o silêncio invade a casa como águas correndo livres quase inunda o rosto desse nada liquefeito e todas as certezas se deterioram. Mas quando entra o sol, manhã dentro, a vida está de novo seca. Posta ao relento, enxuta. No estendal dos dias, penduramos então os sonhos. 
            Estes trazem-nos lembranças, memórias e também pensamentos futuros que nos alimentam esperanças. Os sonhos, por vezes, servem de molas às nossas motivações, desejos e objectivos. E, quando o silêncio essas motivações inunda, nada sobra para se desejar. No silêncio, cabe tudo o que ainda não dissemos. E o que dissemos pedindo mais silêncios.
Sobreviver a palavras mudas e ocas é calarmos a frase por dentro. 
Sobreviver a essas palavras guardadas na mente, aos pensamentos que não revelamos, causa a verdadeira dor. Tudo fica guardado na caixinha a que chamamos memórias. Estas condicionam os sonhos que teimam em não sair do estendal. Lembrar do que fiz traz dor, uma dor que não se compara à lembrança do que não fiz, do que não te disse... O interior das palavras é o que as faz ganhar significado e voar de coração em coração, fazendo o que o silêncio não pode fazer. 
            Os corações pedem palavras vividas, mas ainda por viver. Como escrever com os dedos o encantamento como se não houvesse palavras antes? 
As memórias, “palavras antes”, não podem impedir de sonhar e alcançar a nossa liberdade. Essas palavras são algo que nos ajuda a traçar o nosso destino, pois memórias vividas não são esquecidas, mas sim perdidas quando não recordadas. Assim, quando o Verão chega, as nuvens desaparecem, os sonhos voltam e a esperança renasce. 
Que as frases ganhem asas, que andem em reboliço por dentro da pele. E letra a letra se escreva chão, nunca «não». 
Que o «não» nunca nos impeça de voar mais alto … Que as «frases» andem de boca em boca criando esperanças. Os sonhos não vivem de frases feitas, palavras mudas… mas de memórias vividas que nos dão fôlego para continuar. São as memórias que penduram palavras incertas ditas ao acaso, espontâneas, sem pensar no que virá depois, no que aconteceu antes... Em nada se pensa quando os sentimentos são raros e puros. Quando as palavras fogem do papel e se escondem no coração, saem brilhantes pelos olhos, em forma de lágrima ou de sorriso. 
Que as mãos guardem a vida conjugada sem gramáticas conhecidas. Letra a letra. Presente. Do infinito. 
A vida é um verbo que se conjuga no passado, no presente e no futuro.
 Que as nossas mãos agarrem o presente para construir aquele futuro. Que consigam agarrar, pouco a pouco, os sonhos para que a esperança não morra e o infinito seja o limite.
Que as mãos guardem a vida para que tudo o que hoje somos jamais seja esquecido!...

[Este texto faz parte de uma colectânea de histórias  que nasceu do projecto LER É PRECISO! . De mão em mão, alunos do pré-escolar, dos terceiro, quarto, quinto, sétimo e décimo anos do Agrupamento de Escolas do Cerco, juntamente com autores e ilustradores, teceram O Juntador de Azuis, O Pirilampo Octávio; Era uma Vez o Pedro Três, Fada Madragana e Palavras
Esta aventura teve a colaboração generosa e disponível de  Ana Luísa Amaral, Ana Mendanha, André Constante, Antónia Carvalho, Beatriz Hierro Lopes, Isabel Carvalho, João Pedro Mésseder, Miguel Carvalho, Nuno Barrigão, Sílvia Dias, Tiago Araújo e a Vítor Guedes.] 

Do sono da desperta Grécia, de Ruy Belo



[o eco de Antígona continua a acompanhar-nos]


Do sono da desperta Grécia, de Ruy Belo 

Nenhuma voz em Esparta nem no oriente
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma Grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã

[Ruy Belo, “Nau dos Corvos”, in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

Matilde Rosa Araújo (1921-2010) – Para uma fada chamada Matilde

por José António Gomes



"Conheci pessoalmente Matilde Rosa Araújo em 1989, em Lisboa, na sessão de lançamento desse belo romance juvenil que é Os Olhos de Ana Marta, de Alice Vieira. A cave da Livraria Barata era pequena para albergar tanta gente conhecida e menos conhecida, todos amigos da autora de Rosa Minha Irmã Rosa. Começara, há pouco tempo, a publicar recensões críticas sobre literatura para crianças e a Caminho convidara-me por isso a apresentar o livro. Estávamos em vésperas do Natal, o frio era cortante, eu andava sufocado de trabalho e o meu texto acabou de se escrever no automóvel, em plena A1, sentido Porto-Lisboa, ao lado de uma motorista simpática e que sabe compreender, quase sempre, o meu silêncio nervoso e a minha fleuma de futuro cardíaco. Lembro-me que um dos «meus» poetas, o grego Iannis Ritsos, havia morrido dias antes e entendi por bem homenageá-lo, integrando, no texto de apresentação, um dos seus pungentes poemas sobre as crianças mortas – já que me parecia especialmente talhado para fazer entender, de modo mais intenso, a dor das personagens de Alice Vieira."  (continua)

Minibiografia, Luiza Neto Jorge

Minibiografia

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge

Poema Pouco Original do Medo, Alexandre O’Neill


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos

Alexandre O’Neill

do capítulo da devolução


do capítulo da devolução

Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu
     leito , um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível

aquele desespero que deixou de ter forças para erguer os portais do
   outro reino tristeza de menino a quem tiraram tudo , até
   a tinta e as flores e o prazer de gritar

esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de tomar banho
   no cosmos , olhar o cosmos como os que ainda podem
   interrogar as ondas e morrer

mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até à janela , aspiras
   com cuidado o oxigénio que o espaço te oferece , apontas
   rindo a meiga criatura que pela rua arrasta a sua condição
   de animal fulminado

depois olhas para mim , olhas as tuas mãos , e elas ambas , tão claras ,
tão seguras , são as mãos de um soldado a arder em febre ,
aves a percorrer o seu novo deserto

mas sabes , tu viste , e mais do que eu; a mão do homem é doce e
iluminada como a noite como um rasto de fumo sobre
os hospitais

tivemos uma história mas a história foi-se , em fileiras angélicas e
  gratas , a fazer a manhã de outras paragens; outra sombra ,
  outros olhos semelhantes

noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos , o teu cansaço e a
minha miséria , os teus braços e os meus , altos como
cidades , altos como flores

parou o automóvel , lá em baixo , e eu não tenho mais que descer as
   escadas , fechar ainda a porta do teu quarto , atravessar de
  um pulo a minha própria vida

agora posso sonhar até deixar de te ver

belo rio sem lágrimas


Mário Cesariny

livro

"Rendi-me à minha condição de mero executante. Ao meu lado o livro pulsava como se fosse eu, visto no reflexo de um vidro interior. Escrevia com a minha letra acertada frases que não eram minhas com prazer e gratidão, frases que já estavam escritas há muito, sabendo que nunca poderia ser o seu autor."
José Ricardo Nunes, in Alfabeto Adiado, Deriva Editores

Miguel Carvalho ganhou o Grande Prémio Gazeta 2009

O jornalista da Visão Miguel Carvalho ganhou o Grande Prémio Gazeta 2009 pelo trabalho “Os segredos do Barro Branco” sobre Joaquim Ferreira Torres, figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em 1979.
Nós já conhecemos Miguel Carvalho daqui ,  de uma visita à comunidade de leitores e das nossas Histórias de Mão em Mão.


Reportagem Vencedora

Joaquim Ferreira Torres - Os segredos do Barro Branco


Joaquim Ferreira Torres, industrial e financiador da rede bombista de extrema-direita, foi assassinado a 21 de Agosto de 1979. A morte serviu conveniências privadas e políticas. Mentores e autores não foram descobertos. O crime prescreveu. Trinta anos depois, a VISÃO traz a público novos dados e documentos.

Esta é a história de um homem controverso, de fortuna suspeita, que tentou cair nas graças do fascismo, deu dinheiro à oposição democrática, tirou comunistas da cadeia e ajudou «pides» e empresários a fugir. Um dia, ameaçou «abrir o saco» e calaram-no. A tiro

Naquela manhã, Joaquim Ferreira Torres levantou-se mais tarde do que o habitual. Normalmente, estaria a pé às seis horas. Mas o jantar terminara para lá da meia-noite e ele havia passado a madrugada com dores na coluna. Estava, contudo, bem-disposto ao pequeno--almoço. Era Verão e a família mudara da vivenda das Antas, no Porto, para a sua Quinta de Vila Nova, em Penafiel. A mulher, Elisa, ia para as termas de São Vicente, ali perto. O marido continuava a fazer o percurso diário entre a casa e a fábrica têxtil de que era proprietá rio, em Famalicão, ignorando o significado da palavra férias.

Apesar de discreto e reservado, regressara uma das últimas noites carregando uma mala com mil contos, fruto de um negócio com ciganos.

Atarefado, nem deu importância ao facto de, naquele período, alguém lhe rondar a quinta, questionando os caseiros sobre as suas rotinas. Estranhara apenas as avarias no telefone, quase sempre ao final da tarde. O aparelho parecia ter vontade própria e os técnicos tardavam em descobrir o defeito.

Tal não o impediu de marcar o referido jantar. Encomendara uns melões no restaurante Tanoeiro, em Famalicão, onde almoçava amiúde. O tenente-coronel Oliveira Marques e a esposa eram esperados à noite, vindos de Lisboa. Torres juntou à mesa a mulher, o Quinzinho sobrinho que criou como verdadeiro filho desde os onze meses após a morte de um irmão, a irmã Sãozinha e o cunhado Mota Freitas, major da PSP, entre outros familiares. Antes e depois da refeição, os homens reuniram no escritório. Oliveira Marques foi embora já passava da meia-noite.

Quando acordou, Torres vestiu uma camisa, casaco e calças claras, tipo caqui.

Apertou o cinto de cabedal vermelho e calçou uns sapatos castanho-claros picotados, de pala. No pulso, um Ómega de ouro. Num dedo, o anel, também em ouro, com brilhante de sete quilates.

Guardou a carteira com umas dezenas de contos e numa pequena pasta preta colocou documentos, cerca de 42 mil pesetas e 200 marcos. No casaco, levava a caneta em ouro e a agenda, cheia de contactos.

Nomes de homens de negócios, polícias e militares de várias patentes, velhos conhecidos do antigo regime, cónegos, políticos e cadastrados.

O industrial fez-se à estrada no seu Porsche vermelho 911 T, por volta das oito horas. Em Paredes, comprou os três matutinos do Porto e seguiu viagem. Três quilómetros à frente, na estrada nacional que liga Paredes a Paços de Ferreira, talvez vendo um rosto familiar, abrandou.

Numa emboscada de execução tipicamente militar, desconhecidos, munidos de armas pouco habituais no País, disparam contra ele vários tiros, atingindo-o sobretudo no crânio. Torres tombou, morto, para o lado direito do condutor.

Passavam 15 minutos das oito horas do dia 21 de Agosto de 1979. O Porsche contava mais de 77 mil quilómetros. Duas jovens iam comprar vinho quando deram o alerta. Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco» sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.

Até ali, ele tinha granjeado fama e fortuna vindo do nada e do esquecimento, ao estilo do mito americano. Nascera no simbólico 13 de Maio, em 1925, em Rebordelo, Amarante, um de 17 irmãos. Fez o ensino básico e vendeu carvão em Vila Pouca de Aguiar, onde o pai trabalhou nas minas. Também passou madeiras para Espanha, clandestino.

Foi marçano numa loja de mercearias finas e, no final dos anos 40, já andava por terras transmontanas, de bicicleta ou motorizada, como comissionista e vendedor de rifas, ganhando bom dinheiro com sorteios de chocolates e navalhas.

Em Murça, conhece Elisa, da aldeia de Noura, com quem haveria de casar. A rapariga trabalhara numa padaria e era governanta.

«Uma lasca de mulher, muito cobiçada», diz quem a conheceu. Namoram pelos quintais. E ela é sua cúmplice nas fugas à polícia, que metiam saltos pelos telhados e esconderijos em tonéis de vinho. Os mandados de captura contra ele sucediam-se. E do tribunal de Chaves desapareceria, mais tarde, o seu registo criminal, que incluiria um historial considerável de abusos de confiança.

LAMINAGEM, Joaquim Manuel Magalhães


LAMINAGEM
 *

Um país agora este imenso aterro
teve alguma vez colinas e montados
onde o olhar demorava, adormecia
e seguia uma alegria viandante?
Ou gente que chegasse a qualquer mar
de que não quisesse logo fugir?
Só o pastoril decrépito o suspirava.
Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,
até cobrir-se de desterro e de ilegais
e em pano de fundo esse lagar
de suicidas e débitos e primeiras segundas gerações.
A farpa de aceitação de quem consome
o sem destino da consciência.
Um país; tomou-se um assassino.
Vi verei os poucos verões até morrer
com este mundo de agressão em cerco.
Eu queria outro país, outro lugar
e tenho este infortúnio de leis amarrotadas
que não cumprem nem o violento nem o clandestino.

Um país de acasos,
um parque de campismo selvagem, um cimento apodrecido,
a música de sem abrigos nas estações de metro
enquanto não chegam comboios avariados
às plataformas de arte depredada,
um esboroamento sanguinário.
Até a linguagem que me ergueu
me sabe a sarro e a arrabalde.
Não fossem as obrigações que nos garrotam
nos fazem monstros com a lassidão de herbívoros
talvez pudesse ter o interior abandonado
e chegasse a faca do sol e me cortasse
noutra penúria mais serena.
Ainda que me digam que não olhe,
eu vejo. Ainda que me digam faz ginástica
e a depressão desaparece, nada me resolve.
Os ruídos sobem de qualquer lugar,
sintetizadores, martelos, desabamentos
uma percussão alheia a qualquer justiça.
Nenhuma janela que não fale
da construção administrativa dos piores instintos.
Todo o lixo do humano feito sebo
em qualquer lugar. Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei. Nem direitos nem deveres.
Um sem remédio ancestral.
Morreu a casa. Matou-a

O que lhe coube por contemporâneo
contra a placidez. Os autorizados
pelo conluio e pela votação.
Morreu a casa. E o pior
é não poder partir. Os laços
já se juntaram em anestesia. Preso
por outro amor, que não entende,
que não ouve como a casa já morreu.
A alguns vemo-los em qualquer pousio
Depois de fecharem as lojas
e nem se sabe o que vemos.
Aos balcões de cafés de azulejo,
com telemóveis pendurados nos cintos
e os cartões de crédito em dente na carteira.
Riem-se e batem nas costas
uns dos outros, entreolham e vigiam
se alguém diverso se aproxima
para largarem uma troça arcaica, e comem
com essa fome dos que não sofreram ainda
inquietações laborais ou crêem que virá
depressa o primeiro emprego. ..
Ao olhá-Ios melhor, aos seus afectos
de pessoal especializado em escuras economias
adicionais, vejo-os depois no verão.
Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, em rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar. E as mulheres
com os sinais exteriores da aspereza.
E as asas do inverno marítimo
auguram o aluimento.
Eu queria que na cabeça parasse
o furor de tudo o que tomba,
a derrota do dia a dia,
mas será sempre o cabide do tempo
quem estende as garras para nos alhear.
E os e-mail atravessam zonas sem remendo,
choças de tijolo com roupas a secar.
Assim armado o país.
As gentes em catástrofe deslocam-se,
deixam por testemunho o abandono e a inépcia.
Uma a uma, uma paisagem é trucidada.
Inchou a autarquias o país.
Atravessam-no a miséria e algum dinheiro
insolentes.
Um assassino
espreita outro assassino.
Os que destroem agora
podem exigir os torcionários que virão,
pois quem destrói pressente um chefe
e vai servi-Io.
E muitos hão-de sempre ser as vítimas
Da liberdade que consente a violência,
Da violência que não consente a liberdade.
Um assassino o país. Com as suas leis
Inúteis, a sua ordem por cumprir.

Só nos resta esperar então morrer?

Joaquim Manuel Magalhães, Alta noite em alta fraga, Relógio d'Água


* A laminagem é um dos Processos de alteração de forma por deformação em massa. (nota minha) 

O sentido da vida

Barbara Kruger

SENHORA DONA BURGUESA, Natércia Freire


SENHORA DONA BURGUESA

Senhora Dona Burguesa,
Dentro da sala fiando,
Com olheiras de tristeza,
Fia o sonho e vai sonhando.

Cantam pássaros na tarde.
Senhora Dona Burguesa
Recolheu as mãos e arde
Na romântica tristeza
De ouvir pássaros na tarde.
Já espreitou da velha torre

Campos e montes de Espanha.
Disse à nuvem: - Corre, corre,
Conta o mal que me acompanha.
De nada serve espreitar
Campos e montes de Espanha...

O silêncio envolve tudo:
Compõe teus olhos, Senhora.
Touca e manto de veludo,
Longos dedos cor de aurora.

Voz débil, de flor cansada,
No esquecimento da vida.
Dona Senhora do Nada,
Nas sombras adormecida.

Vieram carros buscar
Senhora Dona Burguesa,
Para a levar a passear.
A Senhora estava presa,
Imóvel, no seu lugar. . .

Já correra o mundo todo
Com olhos de navegar.
Enterrara-se no lodo,
E um anjo a fora salvar.

Depois subira às ameias,
De mãos atadas e nua.
- Altura? Brumas? Areias!
Deitem-na, morta, às areias.
Não há mais cópias de lua!

Senhora Dona Burguesa
Ouvia o Anjo falar,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar. . .

Enfeitara-se o coreto;
Logo à volta houvera danças.
Senhora Dona Burguesa
Levara vestido preto
E laços pretos nas tranças.

Levara vestido justo,
Justo no seio e nas ancas;
Vestido preto a acabar
No branco das pernas brancas.

Todos a viram calçada
Com ar de sonho e vigília.
Todos a viram sentada
Por entre a sua família.
Todos a viram modesta,
Sorridente e sossegada...

Senhora Dona Burguesa
Andou descalça na festa
E foi por todos pisada.

Quando a deitaram na cama,
Ninguém viu que se morria.
Tinha os cabelos em chama,
E à chama, ninguém a via. . .

Enfeitaram mais coretos,
Houve mais cantos e danças.
Mulheres vestidas de preto,
Com laços pretos nas tranças,
Endoideceram o espaço
De saudade e ventania,
De cantigas, de cansaço,
De pecado e de alegria. . .

(Senhora Dona Burguesa
No escuro se repetia...)

Quando viram que era morta,
Teve que ir a enterrar.
Não é preciso trazer
Carros para a passear.
Não subirá torres altas,
Para delas espreitar
Campos e montes de Espanha,
Brumas, areias do mar...
Não deverá ter impérios
Quem deles não sabe usar.
Só terá vestidos pretos
Para neles se amortalhar.

Senhora Dona Burguesa,
Viva e morta, branca e presa,
Imóvel no seu lugar.

Senhora Dona Burguesa
Sem história para contar!...

Natércia Freire in Anel de Sete Pedras (1952)

[HÁ COLARES QUE SÃO COLEIRAS], Bénedict Houart



há colares que são coleiras
há mulheres que são cadelas
certos homens, cães raivosos

os cães propriamente ditos
não foram para aqui chamados
embora metam o nariz em todo o lado
farejando coisas imaginárias
e, de resto, não falam, ladram
têm com certeza razão


Bénedict Houart .

Saramago, por Miguel Carvalho [A Devida…na VISÃO – XXXII]

(foto de Egídio Santos)


Do autocarro aos cafés, da coluna de jornal ao supermercado, o País pergunta: o Presidente da República deveria ou não ter ido ao funeral de José Saramago? Como nesta Terra de Pecado todas as interpretações são livres, também tenho uma: Cavaco não foi porque vai precisar dos votos dos que não leram O Evangelho segundo Jesus Cristo e consideraram Caim uma obra dos infernos. Ou seja, os mesmos votos que o inquilino de Belém terá perdido ao aprovar, contrariado, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Como se sabe, o facto levou a Igreja portuguesa ao desespero. Desde esse dia, anda por aí, numa autêntica Viagem do Elefante, em busca de um candidato a Belém mais bafejado pela graça de Deus. E, já agora, pelo espírito das cruzadas, quem sabe.

Esgrimiram-se, entretanto, outras justificações para a ausência de Cavaco: que não queria ser assobiado, que não queria ser hipócrita, que já tinha feito o que deveria como chefe de Estado… Argumentou-se também que não poderia faltar às cerimónias pela dignidade do cargo que ocupa. Ora, Saramago, que nunca foi um Homem Duplicado e dado a ostentações e vénias pelos senhores de turno, dispensaria bem a presença do homem a quem nunca apertou a mão. Ele, que nem n´As Intermitências da Morte quis fazer as pazes com a figura suprema do Governo que o tratou como um Objecto, Quase, agradeceria, por certo, a ausência.

Claro que, para quem apenas guarda Pequenas Memórias do tempo que passa, a censura ao escritor em pleno cavaquismo deveria ser relegada para Os Apontamentos da História na hora da despedida. Discordo. Naquela altura, goste-se ou não, tiraram tudo o que resta a um escritor: o valor da liberdade de criação e a dignidade das suas palavras. E Provavelmente, Alegria, já agora. Cavaco era chefe de um ajudante de ministro que, a dada altura, se questionou: Que farei com este livro? E tão rápido pensou como decidiu: uma obra incómoda para “o património religioso dos cristãos” não seria candidata ao Prémio Literário Europeu. Disse. E fez. Ontem como hoje, sabe-se o quanto Cavaco é cioso desse património cristão, pelos vistos sagrado. Num Governo que chefiou, um escritor foi relegado para A Caverna e nem Os Poemas Possíveis lhe valeram. Ou alguém ouviu a Cavaco arrependimentos a propósito desse momento triste, qual Ensaio sobre a Cegueira num País em que o mal parece incurável?

Nem por isso, Saramago deixou de ser Levantado do Chão.

Até ao Nobel. E depois dele.

Saramago foi Deste Mundo e do Outro e o gosto, nestas coisas, fica à porta. Entendamo-nos: não preciso de concordar ou aplaudir tudo o que escreveu ou disse. Mas a verdade é que foi nele, mais luminoso e redentor, qualquer Ensaio sobre a Lucidez do que Todos os Nomes que lhe chamaram.

M.C.

Synecdoche, New York

Synecdoche, New York

Morada, Margarida Ferra




Morada

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

[Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, &etc, 2010]

Saber mais aqui [minuto 3´28´´]

Passado, Presente, Futuro [José Saramago]

Infantuna




Hoje, o Ler é Preciso! deu-nos música no Bonjóia...
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Curso intensivo de Jardinagem, Margarida Ferra [dois poemas]





Foi quando as palavras 
se prenderam na minha garganta,
uma a uma, abri a boca
e espalhei na sala, depois
do jantar, alguns bocados antigos.

Ouvi mais uma vez o sinal interrompido,
quando quis escutar-te por dentro
(outra vez este plano),
os algarismos, fixos
na minha memória, um a um.
As minhas mãos sobre ti já
discaram quatrocentos números iguais aos teu.
Não sei o que são frases, a única sequência
está nos meus dedos. Debaixo deles,
tu, mais uma década, e duas vezes
o sete antes da tua voz.

Estamos agora longe
e não sabemos ainda
que esse de quem te falo
é o próximo e o último.
Estamos agora longe, melhores.

Mas preferia não saber
nunca o teu lugar exacto,
coordenadas cegas,
dois números em qualquer cidade.

***


Ontem adormeceste, ainda
tínhamos as facas todas na boca
e três por abrir.
Ficou uma pousada
em equilíbrio geométrico
na linha dos lábios.
Não sei de quem eram
esses lábios onde
o gume imóvel não deixava sair
as palavras duras
e, mais tarde, os pesadelos.
Outras o cabo na minha mão,
esqueci-a  antes da última
costela flutuante
depois do coração.

De manhã éramos só nós, frios,
e a memória das cinzas na rua.

A terceira foi como se nunca tivesse existido.

Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, & etc, Lisboa, 2010.

(*) Margarida Ferra tem 32 anos e é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou numa pizzaria, num jornal, numa galeria de arte contemporânea, em duas livrarias e no Palácio da Ajuda. É responsável, desde Janeiro de 2009, pela área de comunicação da Quetzal Editores [daqui]

Mulher a adias do texto - aqui



"Um escritor é um homem como os outros: sonha." José Saramago

"Um escritor é um homem como os outros: sonha."  



"Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais."


''Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira.''

[José Saramago na contracapa de Levantado do Chão]



“Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já”.

José Saramago, "Viagem a Portugal", Caminho - O Campo da Palavra, Lisboa 1995, p. 387.