Vida: Variações - Bénédicte Houart

 (imagem daqui)
algumas letras numa página
algumas páginas numa vida
algumas vidas numa morte
tantas mortes numa só vida

assim se compõe um livro
Bénédicte Houart

O prolongamento do lodo são estas quarto mãos | Catarina Nunes de Almeida


O prolongamento do lodo são estas quarto mãos
num dia sem vento e sem orquestra.
Na mansidão do pomar tantas vezes adiado
há cabelos e tecidos que se agitam
por debaixo da nespereira.


Catarina Nunes de Almeida
Metamorfose das Plantas dos Pés

Uma na Bravo Outra na Ditadura, de André Valentim Almeida

Uma na Bravo Outra na Ditadura (2010) é um "documentário retrato da geração nascida em Portugal pela revolução de Abril", de André Valentim Almeida  acabado de estrear na Web, com cerca de uma hora e de acesso integralmente gratuito.

Conta com mais de uma dezena de entrevistas, entre as quais, algumas figuras do panorama criativo nacional: Fernando Alvim, Gonçalo M. Tavares, Filipe Pedro, Inês Fonseca Santos, Inês Nadais, Jacinto Lucas Pires, Joana Vasconcelos, João Bonifácio, Jorge Guerra e Paz, JP Coutinho, JP Simões, Nuno Cardinho, Pedro Mexia, Pedro Ribeiro, Raquel Bulha, Raquel Vieira da Silva, Valter Hugo Mãe, Vanessa Granja.

VER O DOCUMENTÁRIO

Uma na Bravo Outra na Ditadura - parte 1/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.


Uma na Bravo Outra na Ditadura - parte 2/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.

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desculpa mãe, mas meu amigo... | MAFALDA GOMES


desculpa mãe, mas meu amigo...

A minha mãe disse-me não vás à fonte com a sede toda e eu não fiz caso. Pernas para que as queria? De goelas abertas, bebi. A minha mãe disse-me a carne é fraca e eu não fiz caso. Braços para que os queria? Dei o corpo sem a alma. A minha mãe disse-me a fome é negra e eu lambi os dedos, rapei os tachos, falei ao telefone como as putas, anoiteci como os gatos, amanheci como as leiteiras, não adormeci como os boémios, gatinhei como os loucos, farejei como os cães, suspirei de sede. Eu sou fácil, eu sei. A minha mãe disse-mebrincadeiras de homens, coices de burro e eu não fiz caso. Dei-me a todas as pancadas, emborquei quanto pude. É censurável, mas eu só tenho de averiguar o meu tamanho.  MAFALDA GOMES [O meu amor é Glandular]

Se essa rua fosse minha: Saramago, Eça, politiquices e politicões



Nada há de mais ruidoso, e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas – do que a política. Por toda essa antiga Europa real, se vêem multidões de politiquetes e de politicões enflorados, emplumados, atordoadores, cacarejando infernalmente, de crista alta. Mas concebes tu a possibilidade de daqui a cinquenta anos, quando se estiverem erguendo estátuas a Zola, alguém se lembre dos Ferry, dos Clemenceau, dos Cánovas, dos Brigth? Podes-me tu dizer quem eram os ministros do império em 1856, há apenas trinta anos, quando Gustave Flaubert escrevia «Madame Bovary»? Para o saber precisas desenterrar e esgaravatar com repugnância velhos jornais bolorentos: e achados os nomes nunca verdadeiramente poderás diferenciar o sujeito Baroche do sujeito Troplong: mas de «Madame Bovary» sabes a vida toda, e as paixões e os tédios, e a cadelinha que a seguia, e o vestido que punha quando partia à quinta-feira na «Hirondelle» para ir encontrar Léon a Rouen! Bismarck todo-poderoso, que é chanceler e de ferro, daqui a duzentos anos será, sob a ferrugem que o há-de cobrir, uma dessas figuras de Estado que dormem nos arquivos e que pertencem só à erudição histórica: o papa Leão XIII, tão grande, tão presente, que até as crianças lhe sabem de cor o sorriso fino, não será mais, na longa fila dos papas, que uma vaga tiara com um número; mas duzentos anos passarão, e mil – e o nome, a figura, e a vida de certo homem que não governou a Alemanha nem a Cristandade, estará tão fresca e rebrilhante como hoje na memória grata dos homens.”  Eça de Queirós, Prefácio a  «Azulejos» do Conde de Arnoso (Notas Contemporâneas)
Assisto à montanha
e não me apetece mais nada,
nem que o palco se ilumine
nem que me traduzam o texto.
Um corpo sem pegadas
é o lugar perfeito
para o abandono.

Catarina Nunes de Almeida

I love my husband, Nélida Piñon



I love my husband, Nélida Piñon

Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre maldormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado.

Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto.

Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo compras, e por cima reclamo da vida. Enquanto ele constrói o seu mundo com pequenos tijolos, e ainda que alguns destes muros venham ao chão, os amigos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e visíveis.

A mim também me saúdam por alimentar um homem que sonha com casas-grandes, senzalas e mocambos, e assim faz o país progredir. E é por isto que sou a sombra do homem que todos dizem eu amar. Deixo que o sol entre pela casa, para dourar os objetos comprados com esforço comum. Embora ele não me cumprimente pelos objetos fluorescentes. Ao contrário, através da certeza do meu amor, proclama que não faço outra coisa senão consumir o dinheiro que ele arrecada no verão. Eu peço então que compreenda minha nostalgia por uma terra antigamente trabalhada pela mulher, ele franze o rosto como se eu lhe estivesse propondo uma teoria que envergonha a família e a escritura definitiva do nosso apartamento.

O que mais quer, mulher, não lhe basta termos casado em comunhão de bens? E dizendo que eu era parte do seu futuro, que só ele porém tinha o direito de construir, percebi que a generosidade do homem habilitava-me a ser apenas dona de um passado com regras ditadas no convívio comum.

Comecei a ambicionar que maravilha não seria viver apenas no passado, antes que este tempo pretérito nos tenha sido ditado pelo homem que dizemos amar. Ele aplaudiu o meu projeto. Dentro de casa, no forno que era o lar, seria fácil alimentar o passado com ervas e mingau de aveia, para que ele, tranqüilo, gerisse o futuro. Decididamente, não podia ele preocupar-se com a matriz do meu ventre, que devia pertencer-lhe de modo a não precisar cheirar o meu sexo para descobrir quem mais, além dele, ali estivera, batera-lhe à porta, arranhara suas paredes com inscrições e datas.

Filho meu tem que ser só meu, confessou aos amigos no sábado do mês que recebíamos. E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa. Então o homem, além de me haver naufragado no passado, quando se sentia livre para viver a vida a que ele apenas tinha acesso, precisava também atar minhas mãos, para minhas mãos não sentirem a doçura da própria pele, pois talvez esta doçura me ditasse em voz baixa que havia outras peles igualmente doces e privadas, cobertas de pêlo felpudo, e com a ajuda da língua podia lamber-se o seu sal?

Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. Alisei meu corpo, pensei, acaso sou mulher unicamente pelas garras longas e por revesti-las de ouro, prata, o ímpeto do sangue de um animal abatido no bosque? Ou porque o homem adorna-me de modo a que quando tire estas tintas de guerreira do rosto surpreende-se com uma face que Ihe é estranha, que ele cobriu de mistério para não me ter inteira?

De repente, o espelho pareceu-me o símbolo de uma derrota que o homem trazia para casa e tornava-me bonita. Não é verdade que te amo, marido? perguntei-lhe enquanto lia os jornais, para instruir-se, e eu varria as letras de imprensa cuspidas no chão logo após ele assimilar a notícia. Pediu, deixe-me progredir, mulher. Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo.

Eu lhe disse então, se não quer discutir o amor, que afinal bem pode estar longe daqui, ou atrás dos móveis para onde às vezes escondo a poeira depois de varrer a casa, que tal se após tantos anos eu mencionasse o futuro como se fosse uma sobremesa?

Histórias de mão em mão


Palavras
                 texto de Miguel Carvalho10.ºA, 10.ºB,  10.ºC,  10.ºD, 10.ºE


Por vezes, o silêncio inunda a casa como águas correndo livres. Trepa pelas paredes, toca os objectos. Humedecendo memórias, desbotando palavras passadas, pretéritos imperfeitos. Quando o silêncio invade a casa como águas correndo livres quase inunda o rosto desse nada liquefeito e todas as certezas se deterioram. Mas quando entra o sol, manhã dentro, a vida está de novo seca. Posta ao relento, enxuta. No estendal dos dias, penduramos então os sonhos. 
            Estes trazem-nos lembranças, memórias e também pensamentos futuros que nos alimentam esperanças. Os sonhos, por vezes, servem de molas às nossas motivações, desejos e objectivos. E, quando o silêncio essas motivações inunda, nada sobra para se desejar. No silêncio, cabe tudo o que ainda não dissemos. E o que dissemos pedindo mais silêncios.
Sobreviver a palavras mudas e ocas é calarmos a frase por dentro. 
Sobreviver a essas palavras guardadas na mente, aos pensamentos que não revelamos, causa a verdadeira dor. Tudo fica guardado na caixinha a que chamamos memórias. Estas condicionam os sonhos que teimam em não sair do estendal. Lembrar do que fiz traz dor, uma dor que não se compara à lembrança do que não fiz, do que não te disse... O interior das palavras é o que as faz ganhar significado e voar de coração em coração, fazendo o que o silêncio não pode fazer. 
            Os corações pedem palavras vividas, mas ainda por viver. Como escrever com os dedos o encantamento como se não houvesse palavras antes? 
As memórias, “palavras antes”, não podem impedir de sonhar e alcançar a nossa liberdade. Essas palavras são algo que nos ajuda a traçar o nosso destino, pois memórias vividas não são esquecidas, mas sim perdidas quando não recordadas. Assim, quando o Verão chega, as nuvens desaparecem, os sonhos voltam e a esperança renasce. 
Que as frases ganhem asas, que andem em reboliço por dentro da pele. E letra a letra se escreva chão, nunca «não». 
Que o «não» nunca nos impeça de voar mais alto … Que as «frases» andem de boca em boca criando esperanças. Os sonhos não vivem de frases feitas, palavras mudas… mas de memórias vividas que nos dão fôlego para continuar. São as memórias que penduram palavras incertas ditas ao acaso, espontâneas, sem pensar no que virá depois, no que aconteceu antes... Em nada se pensa quando os sentimentos são raros e puros. Quando as palavras fogem do papel e se escondem no coração, saem brilhantes pelos olhos, em forma de lágrima ou de sorriso. 
Que as mãos guardem a vida conjugada sem gramáticas conhecidas. Letra a letra. Presente. Do infinito. 
A vida é um verbo que se conjuga no passado, no presente e no futuro.
 Que as nossas mãos agarrem o presente para construir aquele futuro. Que consigam agarrar, pouco a pouco, os sonhos para que a esperança não morra e o infinito seja o limite.
Que as mãos guardem a vida para que tudo o que hoje somos jamais seja esquecido!...

[Este texto faz parte de uma colectânea de histórias  que nasceu do projecto LER É PRECISO! . De mão em mão, alunos do pré-escolar, dos terceiro, quarto, quinto, sétimo e décimo anos do Agrupamento de Escolas do Cerco, juntamente com autores e ilustradores, teceram O Juntador de Azuis, O Pirilampo Octávio; Era uma Vez o Pedro Três, Fada Madragana e Palavras
Esta aventura teve a colaboração generosa e disponível de  Ana Luísa Amaral, Ana Mendanha, André Constante, Antónia Carvalho, Beatriz Hierro Lopes, Isabel Carvalho, João Pedro Mésseder, Miguel Carvalho, Nuno Barrigão, Sílvia Dias, Tiago Araújo e a Vítor Guedes.] 

Do sono da desperta Grécia, de Ruy Belo



[o eco de Antígona continua a acompanhar-nos]


Do sono da desperta Grécia, de Ruy Belo 

Nenhuma voz em Esparta nem no oriente
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma Grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã

[Ruy Belo, “Nau dos Corvos”, in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

Matilde Rosa Araújo (1921-2010) – Para uma fada chamada Matilde

por José António Gomes



"Conheci pessoalmente Matilde Rosa Araújo em 1989, em Lisboa, na sessão de lançamento desse belo romance juvenil que é Os Olhos de Ana Marta, de Alice Vieira. A cave da Livraria Barata era pequena para albergar tanta gente conhecida e menos conhecida, todos amigos da autora de Rosa Minha Irmã Rosa. Começara, há pouco tempo, a publicar recensões críticas sobre literatura para crianças e a Caminho convidara-me por isso a apresentar o livro. Estávamos em vésperas do Natal, o frio era cortante, eu andava sufocado de trabalho e o meu texto acabou de se escrever no automóvel, em plena A1, sentido Porto-Lisboa, ao lado de uma motorista simpática e que sabe compreender, quase sempre, o meu silêncio nervoso e a minha fleuma de futuro cardíaco. Lembro-me que um dos «meus» poetas, o grego Iannis Ritsos, havia morrido dias antes e entendi por bem homenageá-lo, integrando, no texto de apresentação, um dos seus pungentes poemas sobre as crianças mortas – já que me parecia especialmente talhado para fazer entender, de modo mais intenso, a dor das personagens de Alice Vieira."  (continua)

Minibiografia, Luiza Neto Jorge

Minibiografia

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge

Poema Pouco Original do Medo, Alexandre O’Neill


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos

Alexandre O’Neill

do capítulo da devolução


do capítulo da devolução

Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu
     leito , um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível

aquele desespero que deixou de ter forças para erguer os portais do
   outro reino tristeza de menino a quem tiraram tudo , até
   a tinta e as flores e o prazer de gritar

esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de tomar banho
   no cosmos , olhar o cosmos como os que ainda podem
   interrogar as ondas e morrer

mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até à janela , aspiras
   com cuidado o oxigénio que o espaço te oferece , apontas
   rindo a meiga criatura que pela rua arrasta a sua condição
   de animal fulminado

depois olhas para mim , olhas as tuas mãos , e elas ambas , tão claras ,
tão seguras , são as mãos de um soldado a arder em febre ,
aves a percorrer o seu novo deserto

mas sabes , tu viste , e mais do que eu; a mão do homem é doce e
iluminada como a noite como um rasto de fumo sobre
os hospitais

tivemos uma história mas a história foi-se , em fileiras angélicas e
  gratas , a fazer a manhã de outras paragens; outra sombra ,
  outros olhos semelhantes

noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos , o teu cansaço e a
minha miséria , os teus braços e os meus , altos como
cidades , altos como flores

parou o automóvel , lá em baixo , e eu não tenho mais que descer as
   escadas , fechar ainda a porta do teu quarto , atravessar de
  um pulo a minha própria vida

agora posso sonhar até deixar de te ver

belo rio sem lágrimas


Mário Cesariny

livro

"Rendi-me à minha condição de mero executante. Ao meu lado o livro pulsava como se fosse eu, visto no reflexo de um vidro interior. Escrevia com a minha letra acertada frases que não eram minhas com prazer e gratidão, frases que já estavam escritas há muito, sabendo que nunca poderia ser o seu autor."
José Ricardo Nunes, in Alfabeto Adiado, Deriva Editores

Miguel Carvalho ganhou o Grande Prémio Gazeta 2009

O jornalista da Visão Miguel Carvalho ganhou o Grande Prémio Gazeta 2009 pelo trabalho “Os segredos do Barro Branco” sobre Joaquim Ferreira Torres, figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em 1979.
Nós já conhecemos Miguel Carvalho daqui ,  de uma visita à comunidade de leitores e das nossas Histórias de Mão em Mão.


Reportagem Vencedora

Joaquim Ferreira Torres - Os segredos do Barro Branco


Joaquim Ferreira Torres, industrial e financiador da rede bombista de extrema-direita, foi assassinado a 21 de Agosto de 1979. A morte serviu conveniências privadas e políticas. Mentores e autores não foram descobertos. O crime prescreveu. Trinta anos depois, a VISÃO traz a público novos dados e documentos.

Esta é a história de um homem controverso, de fortuna suspeita, que tentou cair nas graças do fascismo, deu dinheiro à oposição democrática, tirou comunistas da cadeia e ajudou «pides» e empresários a fugir. Um dia, ameaçou «abrir o saco» e calaram-no. A tiro

Naquela manhã, Joaquim Ferreira Torres levantou-se mais tarde do que o habitual. Normalmente, estaria a pé às seis horas. Mas o jantar terminara para lá da meia-noite e ele havia passado a madrugada com dores na coluna. Estava, contudo, bem-disposto ao pequeno--almoço. Era Verão e a família mudara da vivenda das Antas, no Porto, para a sua Quinta de Vila Nova, em Penafiel. A mulher, Elisa, ia para as termas de São Vicente, ali perto. O marido continuava a fazer o percurso diário entre a casa e a fábrica têxtil de que era proprietá rio, em Famalicão, ignorando o significado da palavra férias.

Apesar de discreto e reservado, regressara uma das últimas noites carregando uma mala com mil contos, fruto de um negócio com ciganos.

Atarefado, nem deu importância ao facto de, naquele período, alguém lhe rondar a quinta, questionando os caseiros sobre as suas rotinas. Estranhara apenas as avarias no telefone, quase sempre ao final da tarde. O aparelho parecia ter vontade própria e os técnicos tardavam em descobrir o defeito.

Tal não o impediu de marcar o referido jantar. Encomendara uns melões no restaurante Tanoeiro, em Famalicão, onde almoçava amiúde. O tenente-coronel Oliveira Marques e a esposa eram esperados à noite, vindos de Lisboa. Torres juntou à mesa a mulher, o Quinzinho sobrinho que criou como verdadeiro filho desde os onze meses após a morte de um irmão, a irmã Sãozinha e o cunhado Mota Freitas, major da PSP, entre outros familiares. Antes e depois da refeição, os homens reuniram no escritório. Oliveira Marques foi embora já passava da meia-noite.

Quando acordou, Torres vestiu uma camisa, casaco e calças claras, tipo caqui.

Apertou o cinto de cabedal vermelho e calçou uns sapatos castanho-claros picotados, de pala. No pulso, um Ómega de ouro. Num dedo, o anel, também em ouro, com brilhante de sete quilates.

Guardou a carteira com umas dezenas de contos e numa pequena pasta preta colocou documentos, cerca de 42 mil pesetas e 200 marcos. No casaco, levava a caneta em ouro e a agenda, cheia de contactos.

Nomes de homens de negócios, polícias e militares de várias patentes, velhos conhecidos do antigo regime, cónegos, políticos e cadastrados.

O industrial fez-se à estrada no seu Porsche vermelho 911 T, por volta das oito horas. Em Paredes, comprou os três matutinos do Porto e seguiu viagem. Três quilómetros à frente, na estrada nacional que liga Paredes a Paços de Ferreira, talvez vendo um rosto familiar, abrandou.

Numa emboscada de execução tipicamente militar, desconhecidos, munidos de armas pouco habituais no País, disparam contra ele vários tiros, atingindo-o sobretudo no crânio. Torres tombou, morto, para o lado direito do condutor.

Passavam 15 minutos das oito horas do dia 21 de Agosto de 1979. O Porsche contava mais de 77 mil quilómetros. Duas jovens iam comprar vinho quando deram o alerta. Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco» sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.

Até ali, ele tinha granjeado fama e fortuna vindo do nada e do esquecimento, ao estilo do mito americano. Nascera no simbólico 13 de Maio, em 1925, em Rebordelo, Amarante, um de 17 irmãos. Fez o ensino básico e vendeu carvão em Vila Pouca de Aguiar, onde o pai trabalhou nas minas. Também passou madeiras para Espanha, clandestino.

Foi marçano numa loja de mercearias finas e, no final dos anos 40, já andava por terras transmontanas, de bicicleta ou motorizada, como comissionista e vendedor de rifas, ganhando bom dinheiro com sorteios de chocolates e navalhas.

Em Murça, conhece Elisa, da aldeia de Noura, com quem haveria de casar. A rapariga trabalhara numa padaria e era governanta.

«Uma lasca de mulher, muito cobiçada», diz quem a conheceu. Namoram pelos quintais. E ela é sua cúmplice nas fugas à polícia, que metiam saltos pelos telhados e esconderijos em tonéis de vinho. Os mandados de captura contra ele sucediam-se. E do tribunal de Chaves desapareceria, mais tarde, o seu registo criminal, que incluiria um historial considerável de abusos de confiança.

LAMINAGEM, Joaquim Manuel Magalhães


LAMINAGEM
 *

Um país agora este imenso aterro
teve alguma vez colinas e montados
onde o olhar demorava, adormecia
e seguia uma alegria viandante?
Ou gente que chegasse a qualquer mar
de que não quisesse logo fugir?
Só o pastoril decrépito o suspirava.
Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,
até cobrir-se de desterro e de ilegais
e em pano de fundo esse lagar
de suicidas e débitos e primeiras segundas gerações.
A farpa de aceitação de quem consome
o sem destino da consciência.
Um país; tomou-se um assassino.
Vi verei os poucos verões até morrer
com este mundo de agressão em cerco.
Eu queria outro país, outro lugar
e tenho este infortúnio de leis amarrotadas
que não cumprem nem o violento nem o clandestino.

Um país de acasos,
um parque de campismo selvagem, um cimento apodrecido,
a música de sem abrigos nas estações de metro
enquanto não chegam comboios avariados
às plataformas de arte depredada,
um esboroamento sanguinário.
Até a linguagem que me ergueu
me sabe a sarro e a arrabalde.
Não fossem as obrigações que nos garrotam
nos fazem monstros com a lassidão de herbívoros
talvez pudesse ter o interior abandonado
e chegasse a faca do sol e me cortasse
noutra penúria mais serena.
Ainda que me digam que não olhe,
eu vejo. Ainda que me digam faz ginástica
e a depressão desaparece, nada me resolve.
Os ruídos sobem de qualquer lugar,
sintetizadores, martelos, desabamentos
uma percussão alheia a qualquer justiça.
Nenhuma janela que não fale
da construção administrativa dos piores instintos.
Todo o lixo do humano feito sebo
em qualquer lugar. Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei. Nem direitos nem deveres.
Um sem remédio ancestral.
Morreu a casa. Matou-a

O que lhe coube por contemporâneo
contra a placidez. Os autorizados
pelo conluio e pela votação.
Morreu a casa. E o pior
é não poder partir. Os laços
já se juntaram em anestesia. Preso
por outro amor, que não entende,
que não ouve como a casa já morreu.
A alguns vemo-los em qualquer pousio
Depois de fecharem as lojas
e nem se sabe o que vemos.
Aos balcões de cafés de azulejo,
com telemóveis pendurados nos cintos
e os cartões de crédito em dente na carteira.
Riem-se e batem nas costas
uns dos outros, entreolham e vigiam
se alguém diverso se aproxima
para largarem uma troça arcaica, e comem
com essa fome dos que não sofreram ainda
inquietações laborais ou crêem que virá
depressa o primeiro emprego. ..
Ao olhá-Ios melhor, aos seus afectos
de pessoal especializado em escuras economias
adicionais, vejo-os depois no verão.
Ao deus dará em todos os lugares,
em tendas velhas, em rulotes,
sabe-se lá onde vão cagar. E as mulheres
com os sinais exteriores da aspereza.
E as asas do inverno marítimo
auguram o aluimento.
Eu queria que na cabeça parasse
o furor de tudo o que tomba,
a derrota do dia a dia,
mas será sempre o cabide do tempo
quem estende as garras para nos alhear.
E os e-mail atravessam zonas sem remendo,
choças de tijolo com roupas a secar.
Assim armado o país.
As gentes em catástrofe deslocam-se,
deixam por testemunho o abandono e a inépcia.
Uma a uma, uma paisagem é trucidada.
Inchou a autarquias o país.
Atravessam-no a miséria e algum dinheiro
insolentes.
Um assassino
espreita outro assassino.
Os que destroem agora
podem exigir os torcionários que virão,
pois quem destrói pressente um chefe
e vai servi-Io.
E muitos hão-de sempre ser as vítimas
Da liberdade que consente a violência,
Da violência que não consente a liberdade.
Um assassino o país. Com as suas leis
Inúteis, a sua ordem por cumprir.

Só nos resta esperar então morrer?

Joaquim Manuel Magalhães, Alta noite em alta fraga, Relógio d'Água


* A laminagem é um dos Processos de alteração de forma por deformação em massa. (nota minha)