Noivado do Sepulcro, Soares dos Passos

 [a propósito da aula de quinta-feira passada e do ultra-romantismo]

Saber mais sobre Soares dos Passos aqui.



O NOIVADO DO SEPULCRO

BALADA


Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?

"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?

"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!

"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!

– "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
– "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.

"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?

"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
– "Oh vejo sim... recordação fatal!
– "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.

"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"

E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrada, d'infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.


Soares dos Passos

Pastor, pastorzinho...

Hoje foi o primeiro dia de uma viagem...



Pastor, pastorzinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.
Porque vais sozinho,
pastor, pastorzinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo.

Eugénio de Andrade

Hedda, a partir de Hedda Gabler de Henrik Ibsen


[...]
"Lovborg - Escrevi um livro para agradar.
Hedda - Isso é possível?
Lovborg - É mais fácil do que parece. Basta juntar as palavras pela ordem certa.
Hedda - Qual é a utilidade?
Lovborg - Para quem?
Hedda - Para quem lê.
Lovborg - É torna-se útil.
Hedda - Isso parece-me desinteressante."
[...]

Quintas de Leitura: Sérgio Godinho é o Poeta

Quintas de Leitura: Sérgio Godinho é o Poeta: "Sérgio Godinho é o Poeta convidado da 108ª sessão das 'Quintas de Leitura', ciclo poético promovido pela Câmara Municipal do Porto, atra..."

Omnipresentes...


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Hedda [documentação]


thea: Querias acabar com o quê? Com o livro ou com o Eilert? Quem é que era o alvo a abater? A escrita ou a pessoa? O pai ou o filho? Era eu? Queres voltar atrás?
hedda: Voltar atrás?
thea: Se gostavas, se é disso que precisas? Tomar outras decisões, voltar atrás, é por isso? Queres estar no meu lugar? Queres sair daqui? Queres ir passear? Andar de
comboio? Não queres estar casada? Não queres gostar? Não gostas? O que é que
queres? Queres ser como eu? Queres ser o contrário de mim? Não sabes o que queres?
Tens inveja? Tens medo do que está para a frente? Queres ser o quê? Queres parar?
Queres disparar? Queres ir para longe? Estar longe das pessoas? Sair desta casa?
Queres o quê? Hedda.
hedda: Tantas perguntas…
thea: Queres que eu continue?
hedda: …E nem uma interessa. Nem uma dessas perguntas interessa.
thea: Qual é a pergunta então?
hedda: Porque é que não gostas de mim?
thea: Como?
hedda: Porque é que não gostas de ninguém?
thea: Estás a falar comigo?
hedda: Desde o princípio até ao fim. Fundamentalmente. É esse o meu percurso. É para isso. É por isso. Sou eu que conto a minha história. Mais ninguém. Sou eu que escolho as palavras. Aprende comigo. Vê ‑me a fazer. Talvez um dia sejas capaz. De escrever as tuas próprias palavras.

José Maria Vieira Mendes – Hedda

Mais aqui.

Hedda Gabler - John Calle

Desvio de Ibsen [Hedda]

Desvio de Ibsen
Teatro

 [José Maria Vieira Mendes]

É sempre uma aventura re-escrever radicalmente outro texto dramático. E cada aventura significa risco. Esta é a situação de Hedda, baseada, ou antes, inspirada na peça de extremo rigor estrutural de Henrik Ibsen (1828-1906), Hedda Gabler (1890). Toda essa cumplicidade fiel e infiel podia ser objeto de um belo seminário e seminários não têm faltado nos últimos anos. Para alguém que quinzenalmente escreve a sua visão crítica dos espetáculos oferecidos ao público, o problema é outro. Tem de dizer, se possível claramente, como resultou quer a passagem de um texto para o outro, quer a solução adotada sobre os outros elementos que compõem o espetáculo: encenação, intérpretes, solução espacial, guardaroupa, iluminação. Em princípio, todos esses elementos existem e coexistem em desequilíbrio neste espetáculo que os Artistas Unidos nos oferecem.
Comecemos pelo princípio. O neotexto do dramaturgo José Vieira Mendes (1976), não é uma adaptação dramatúrgica de um texto do fim do século XIX para as novas condições de receção do início do século XXI, mas uma escrita nova a partir do argumento e personagens ibsenianas. Porém, a complexidade estrutural e a riqueza dramática da peça de origem resistem a uma leitura hiperfragmentada que tende a separar e a abstratizar as situações urdidas dentro de um regime de verossimilhança ainda que por vezes simbólica. A efemeridade permanente da realidade que o novo texto configura é bem traduzida pela nova personagem Hedda, não sabendo muito bem o que quer. Além de alguns achados e boas soluções, uma dela fascinante e cinematográfica, quando Hedda antes de se suicidar toca piano perfeitamente: ela que não sabia tocar, descobre que afinal sabe.
A opção de, segundo o seu autor, acentuar "a narração como se nesta Hedda tudo viesse da cabeça da protagonista", cria dificuldades para o espectador em seguir a narrativa, quer lógica quer intuitivamente.
Situação que se repercute no próprio elenco de atores já em si de valor, mas ostensivamente diferenciado.
É fácil imaginar que não é de ânimo leve que se contracena com a atriz Maria João Luís; porém, aqui os contrastes são por demais negativos. O enfraquecimento da tensão dramática não fica a dever-se tanto a diferença de idades entre a frustrada Hedda e a resignada Thea, mas entre a insegura Hedda e o seu desnorteado marido. A opção anti naturalista do novo texto dramático contrasta, por exemplo, com o realismo da interpretação da cena da bebedeira de Lovborg.
[...]
Falar da peça de José Vieira Mendes, Hedda, obriga a falar de Hedda Gabler de Ibsen, e de como esta peça foi importante para a tomada de consciência da necessidade de realização individual face a uma sociedade feita de clichês.
A Hedda de 2010 diz para a jovem Thea: "Aprende comigo.Vê-me a fazer. Talvez um dia sejas capaz. De escrever as tuas próprias palavras.", a mostrar como as temáticas ibsenianas continuam a questionar-nos.

Helena Simões, Jornal de Letras 6 de Outubro de 2010

A mulher e o sofá, [Hedda]


Numa rescrita da peça de Ibsen, Hedda Gabler perde o apelido paterno mas conserva as pistolas do general Gabler

Em 1890 era publicada a "Hedda Gabler", de Ibsen, e representada um ano depois, em Munique.
Em 2010 é publicada a "Hedda", de José Maria Vieira Mendes, para ser representada logo de seguida.
O que é que se passou entre os dois textos, em que é que estes 120 anos de diferença entre uma e outra peça contribuíram para alterar o original? Vejamos as indicações iniciais da peça de Ibsen: "Uma sala de estar espaçosa, bem mobilada e com muito bom gosto, decorada em cores escuras." Segue-se uma página de mais indicações, entre as quais uma extensa lista de objetos: uma mesa oval coberta por uma toalha; cadeiras; uma salamandra; uma poltrona de encosto alto; um banco almofadado e dois tamboretes; um sofá de canto; uma mesinha redonda; um sofá; um piano-forte; prateleiras com peças decorativas de terracota e majólica; um sofá; uma mesa; duas cadeiras; o retrato a óleo de um senhor de idade, elegante, em uniforme de general; um candeeiro de vidro fosco; vários ramos de flores dispostos em vasos e jarras; mais ramos de flores sobre as mesas; tapetes espessos.
"Hedda", de José Maria Vieira Mendes, começa assim: "Uma sala. Caixotes por desempacotar, alguma mobília, desarrumação." Seguem-se duas frases sobre organização do espaço, e é tudo. Mesas, cadeiras, sofás, porcelanas, candeeiros, tudo pela borda fora. Com eles foi também Berta, a criada da "Hedda Gabler" imaginada por Ibsen.
"Muitas das convenções do Ibsen não estão vivas, eu já não suporto ver peças em que a criada vem dizer 'está aqui a senhora fulana de tal'. Toda essa ganga, essa convenção dramática com que o naturalismo cristalizou, eu não a consigo suportar. Não quer dizer que daqui a 40 ou 50 anos essas técnicas narrativas não venham a renascer, e sejam interessantes, mas agora não as consigo ler", diz Jorge Silva Melo, que encena e que teve a ideia de tudo. Queria fazer a "Hedda Gabler", queria que fosse aMaria João Luís a fazer o papel,mas queria que José Maria Vieiran Mendes rescrevesse a peça, queria sentir que trabalhava com palavras que estão a ser ou que acabam de ser escritas, queria fazer coincidir o espetáculo com a origem dele. "Interessou-me ver, em cem anos, entre Ibsen e o Zé Maria, o que é que mudou. Eu acho que o Zé Maria desenvolveu um lado muito infantil, ele diverte-se com estas personagens, acha os dramas delas risíveis. Isso nunca me passaria pela cabeça, por isso acho graça que o Zé Maria me venha iluminar uma peça que conheço, por assim dizer, desde que comecei a ler", continua o encenador.
A peça de Ibsen começa no dia a seguir à chegada do casal Hedda Gabler - agora Tesman - e Jorgen Tesman à sua casa, vêm de viagem de núpcias, seis meses pela Europa. Quando a tia Juliana lá vai, de manhã, ainda está tudo a dormir. Na peça de Ibsen, a centralidade de Hedda Gabler coexiste com um equilíbrio perfeito entre ela as outras personagens, um equilíbrio que começa e que depende, essencialmente, da teia de palavras que Ibsen constrói com uma mestria inultrapassada. José Maria Vieira Mendes desequilibra voluntariamente a peça, confere às personagens um carácter reflexivo que no original elas não possuem, ou não formulam. Como diz Jorge Silva Melo, "isto é uma Hedda 'depois', não sei se é Gabler, mas é depois de Ibsen. Esta Hedda já viu a peça, lembra-se dela, sabe como acaba".
 A Hedda moderna, como a antiga, vive insatisfeita, sem saber porquê; gosta mais do marido do que a de Ibsen, mas isso não a satisfaz; sente em Thea uma rival (na nova versão, Thea é bastante mais nova) porque Thea partilha com Eilert Lovborg aquilo que Hedda finge desprezar: a possibilidade de escrever.
Em qualquer das "Heddas", a escrita émotivo de realização pessoal, frustração, inveja, ansiedade e morte.
Em qualquer das peças, Hedda procura um ideal que poderia ser substituído, eventualmente, pela única coisa que ela não consegue fazer: trabalhar. Em 1890, porque uma mulher burguesa não está preparada para isso; em 2010, porque... porque... porquê?
Na "Hedda" de José Maria Vieira Mendes, a tia Juliana faz apenas duas entradas - "de leão", seja dito - para debitar dois extraordinários discursos sobre as rotinas como forma de vida, ou de sobrevivência, e que ecoam fortemente o discurso de Winnie, de "Dias Felizes", sobre a mesma coisa, aliás; só que aqui é Hedda, claro, e não a tia Juliana, quem tem as pistolas (as armas resistem bem às alterações cronológicas, como é sabido). Aliás, as pistolas são, com o sofá em que passa uma boa parte do tempo, o essencial do mundo de Hedda, uma Hedda que agora, como diz Jorge Silva Melo, "nem sequer arruma a casa. A sua vida é um sofá, o sofá é o corpo dela".
Na "Hedda" de 2010 o tempo é fortemente, explicitamente, tematizado. Lovborg, o ex-amante e escritor, é uma personagem para quem, segundo Jorgen Tesman, "os dias não existem, o sol não nasce nem se põe". Bem gostaria Jorgen, o marido de Hedda, de parar o tempo: "O segundo dia dos Tesman. Preferia que o primeiro não tivesse ainda acabado. Tentar prolongá-lo. Só que o sol não espera." À sensatez de Tesman opõe Hedda o seu delírio idealista: "Porque eu, se quiser, sou capaz de acelerar o tempo. Faço avançar as horas. Encolho os dias." Contudo, foi para Ulisses e Penélope, não para Hedda, que Atena "reteve o fim do longo percurso da noite; reteve junto das correntes do Oceano a Aurora de trono dourado". Ulisses e Penélope amavam-se e sabiam o que queriam.
Hedda tem direito apenas ao cinismo do juiz Brack: "Não se pode ter tudo o que se quer. Sobretudo quando não se sabe o que se quer." "Hedda" tem interpretação de Maria João Luís, Rita Brütt, António Pedro Cerdeira, Marco Delgado, Lia Gama e Cândido Ferreira. O cenário e os figurinos são de Rita Lopes Alves, o desenho de luz é de Pedro Domingos.

João Carneiro, Expresso, 11 de Setembro de 2010.

Hedda #2


Hedda

Uma personagem sem comedimento para um talento desmedido.

É uma atriz única. Inventiva, minuciosa, inteira, não se imagina outra coisa que não seja ver Maria João Luís enfrentar a exigência de grandes papéis. Como Hedda Gabler, a personagem que Henrik Ibsen desenhou contra um fundo burguês dos finais do século XIX, uma mulher em proclamação da sua individualidade, numa fúria de (tudo) viver que não olha a meios, ou a meios-termos. José Maria Vieira Mendes propõe, na recriação do original, uma leitura sem o espartilho da notação epocal nem pretensões naturalistas. Independentemente da validade de tal opção, o facto é que a reabilitação da obra como um todo não funciona, sobretudo porque a sublimação do drama interior não tem correspondência com o espaço físico nem com a direção de Jorge Silva Melo. Assiste-se, com alguma estranheza, a uma versão híbrida, sempre a meio caminho entre a natureza intemporal de Hedda e o peso da cor local. E enquanto Maria João toma conta do palco, do S. Luiz, tudo o mais à sua volta se apequena. À independência, determinação, ciúme, capricho, intensidade, beleza, princípio e fim da sua personagem, contrapõe-se a frouxidão de marido, ex-amante, rival. Como um triângulo de que só se visse um lado, sem que os atores (António Pedro Cerdeira, Marco Delgado, Rita Brütt ou, de outra forma, Lia Gama) validem ações e não apenas reações, só Cândido Ferreira (Juiz Brack) conseguindo, no seu jeito e experiência, fugir à réplica cerebral que marca o tom. (Rosário Anselmo) in Visão 7 Lisboa - pág. 19

 
 

Hedda Gabler #1

"Hedda Gabler" é  um clássico escrito em 1890 pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.


Em 2009, HEDDA GABLER foi  apresentada em Lisboa no Espaço Negócio / ZDB




Também, recentemente, Celso Cleto encenou Hedda Gabler, que foi interpretada por Sofia Alves.



Mas a Hedda Gabler mais conhecida é, sem dúvida, a que foi interpretada por Ingrid Bergman:

E agora José? - Carlos Drummond de Andrade & Sabes José?, Miguel Carvalho

E agora, José?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?

Carlos Drummond de Andrade


Sabes, José?, Miguel Carvalho []
Sabes, José? Nos quarteirões da minha cidade, voltaram os pedidos de meio frango com ar envergonhado e dinheiro contado. Na repartição dos correios, diante da minha porta, os funcionários já viram mãos alheias perto do gasganete em dias em que faltou dinheiro na caixa para pagar a pensão do mês. E há mais clientela esperando a sua vez.
Uma tragédia, José, quem havia de dizer que os nossos antigos iam morrer vivendo, de pé?
Também tenho reparado que os carrinhos de supermercado andam menos recheados, sabes? Mas deve ser das minhas vistas, tenho de mudar as lentes, certamente. Uma coisa tenho reparado e essa eu vejo bem: na hora de pagar, algo fica para trás. Um pacote, um algo que vinha e já não vem.
Nas farmácias, os velhos dizem que seleccionam medicamentos por não terem forma nem maneira de pagar a ementa dos remédios gourmet das suas eternas maleitas. Entre a doença, as dores e a boca, escolhem o pão, como não?
Olha, José, vê os portões das fábricas a fechar, o presente a definhar.
No nosso País de misérias e angústias, há um rumorejar a borbulhar, José. Ouve-se por toda a parte, até aqui ao pé, no escritório do lado, na mercearia da esquina ou no balcão do café.
Já não é só futebol, José, o penalty que é ou não é.
São conversas fartas, raivas incontidas, vidas fora-de-jogo à espera da reviravolta que nunca vem para quem sempre joga limpo.
Olha, José, vocês aí no alto discutem números, austeridade, a salvação nacional e a saúde da pátria depois do leite derramado. Mas aqui em baixo, no País terra-a-terra e na nação sem parlapié, há gente com défice de crença e paciência para acreditar de novo na sobrevivência.
Não sei, José, que dias virão a seguir.
Um dia, talvez mais cedo do que julgamos, vão juntar-se os deserdados do futuro, a polícia empobrecida e desprestigiada e os que pouco já tinham e agora não têm nada. Nesse momento, juntos, vão encher a praça. E aí, José, uma coisa eu garanto: não vai ter graça.

Miguel Carvalho (A Devida Comédia)


O Excesso Mais que Perfeito, Ana Luísa Amaral

 [ rododendros]

Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura e mística.
Ah, como eu queria um poema diferenteda pureza do granito,
e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo.
E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos,
de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguraçãodo seu olhar.
Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu,
carregada de nada.
 Ana Luísa Amaral

Hedda resgatada...

As pistolas estão lá, num canto da sala ainda por arrumar. Hedda Gabler, agora Hedda Tesman, e o marido acabaram de chegar de uma longa lua-de-mel. Hedda segura as pistolas. Aponta-as. Testa-as. Diverte-se com elas. "As pessoas dizem isso, mas não o fazem." Não disparam as pistolas, é o que ela quer dizer. Mas há um semi-sorriso naquele rosto, como se soubesse algo mais.

[...]

Em 1970, Silva Melo era um jovem em Londres a assistir, "umas duas ou três vezes", à Hedda Gabler encenada por Ingmar Bergman. Nunca mais se esqueceu daquele espectáculo. "Para mim, esta é peça de Ibsen perfeita", admite. Em 2008, enquanto assistia à reposição de Stabat Mater no São Luiz, a peça de Antonio Tarantino em que Maria João Luís interpretava uma mulher em busca do seu filho, o encenador percebeu que estava perante a actriz ideal para fazer Hedda. "Ela tem tudo a ver com as heroínas de Ibsen e Strindberg. Tem aquele lado moderno mas ao mesmo tempo elegante, é uma mulher e uma actriz independente", explica. E foi naquele momento que decidiu pedir a Vieira Mendes para reescrever a peça. Queria deixar de fora "toda a ganga" do naturalismo que hoje em dia lhe parece absurda. "Mas não queria ser eu a fazê-lo. Achei que fazia mais sentido ter um jovem, da geração do Zé Maria, a olhar para esta peça. Quando Hedda Gabler se estreou em Portugal foi um escândalo. Era tudo novo, toda aquela abordagem e a mentalidade do Norte da Europa. Mas o que é que Hedda Gabler diz às novas gerações de hoje?", pergunta-se Silva Melo.
Hedda perdeu o apelido, mas não só. "Já não é aquela mulher mal-casada. Pelo contrário, é uma mulher que quer mais do que um bom casamento. O marido é mais doce e atraente do que em Ibsen mas isso não é suficiente." Ou, como diz Maria João Luís: "Ela é um ser humano, uma mulher como todas as outras. Não é a mulher diabólica da peça de Ibsen, quase monstruosa. Mas é uma mulher ansiosa, que quer mais sem saber muito bem o quê. Todos nós temos estes momentos em que já pensámos em acabar com isto."
Sobre esta adaptação, o encenador diz que "é como contar a história de novo, mas à nossa maneira". E esta foi uma ideia que tentou passar aos actores e sobretudo a Maria João Luís: "Esta Hedda explica-se, analisa-se, tem consciência de si própria. Parece que já viu a peça, que sabe o que vai acontecer." E talvez saiba. Talvez seja por isso aquele semi-sorriso ao pegar nas pistolas do general seu pai. "Se eu quiser, nada me pára. E vou a caminho do impossível, está a ouvir?"
No palco, com cenário e figurinos de Rita Lopes Alves, além de Maria João Luís, estão António Pedro Cerdeira (o marido Jorge Tesman), Marco Delgado (o escritor Eilert Lovborg), Lia Gama (a tia Juliana), Cândido Ferreira (o juiz Brack) e Rita Brutt (a jovem Thea Elvsted). Hedda fica em cena até 17 de Outubro.

[fonte Diário de Notícias]

HEDDA, dia 21, no TNSJ

Ibsen não teve influência apenas no teatro. A sua peça “Casa de Bonecas”, de 1879, revelou uma mulher mal situada nas regras do casamento da época — acabando por influenciar a discussão sobre o feminismo e logo sobre os direitos da mulher. “Hedda Gabler”, escrita muitos anos depois (1891), criava “uma versão feminina de Hamlet”, como se tornou cliché dizer. A bela e inteligente mulher de classe alta — sem profissão, filha de um homem poderoso e casada sem paixão nem amor com um homem que a idolatra — age sobre os seus próximos de forma incompreensível. José Maria Vieira Mendes, a pedido do encenador Jorge Silva Melo (que tinha em mente atribuir este papel a Maria João Luís), rescreveu a peça de Ibsen.

Dizem, mas não o fazem (Expresso Actual, 16 Out 2010, Page 36)


Sobre Hedda

Dizem, mas não o fazem
Texto Cristina Margato
Expresso Actual
16 Out 2010

Ibsen não teve influência apenas no teatro. A sua peça “Casa de Bonecas”, de 1879, revelou uma mulher mal situada nas regras do casamento da época — acabando por influenciar a discussão sobre o feminismo e logo sobre os direitos da mulher. “Hedda...leia mais...
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Barca Bela

Voltou a acontecer magia...




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