Novas Cartas Portuguesas



da Breve Introdução de Ana Luísa Amaral a Novas Cartas Portuguesas

"Mais relevante do que saber a verdadeira autoria de Cartas Portuguesas, foi o facto de a figura de Mariana Alcoforado passar de «uma sombra textual anónima» para «uma identidade pessoal e uma genealogia, familiar e nacional, que a configurou ( ... ) como epítome nacionalmente representativo da feminilidade e, aos olhos dos Portugueses, da identidade nacional em geral» (Klobucka 2006a: 19). Essa questão do mistério relativamente à autoria viria a ser de extrema importância para a recepção do livro Novas Cartas portuguesas - afinal, as autoras nunca revelaram publicamente quem assinava parcelar-mente os textos -, desestabilizando as noções fixas de autoria e de autoridade. Não menos relevante para a concepção de Novas Cartas terá sido a escolha de Cartas portuguesas como texto matricial justamente. pelo peso simbólico de que se revestia a figura de Mariana e pela imagem feminina que delas emergia: o estereótipo da mulher abandonada, suplicante e submissa, alternando entre a adoração e o ódio, praticando um discurso de paixão avassaladora por aquele (o cavaleiro) que se apaixonara também, mas partira depois, para não mais, regressar. É esta relação de amor e devoção, de subserviência  e autovitimização que as três autoras, três séculos depois os contornos mais gerais, vão desmontar e re-montar, estilhaçando  fronteiras e limites, quer das temáticas, quer da própria linguagem. "

Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (org. Ana Luísa Amaral=

Primeira Carta
Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos.  E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício. 

A cena do ódio de Almada Negreiros por Mário Viegas




A Cena do ódio aqui.

[tudo a propósito do workshop Almada na Oficina das Palavras  que a Cátia e o Tiago estão a frequentar aqui]

Um Auto de Gil Vicente, de Almeida Garrett (1838)

Um Auto de Gil Vicente                                                            

Um Auto de Gil Vicente, de Almeida Garrett: próximo apeadeiro

 (fotografia de Paulo Cintra e Laura Castro Caldas - aqui)

 Para a semana começaremos o estudo de Um Auto de Gil Vicente, de Almeida Garrett.

Um texto que é muito mais do que a história de um poeta que  ama uma princesa destinada a outro amor oficial e é amado por outra mulher que não ama ou julga não amar....

Texto de apresentação de Luís Miguel Cintra, aquando da encenação do texto pelo Teatro da Cornucópia.


ESTE ESPECTÁCULO

Sejamos desequilibrados, imperfeitos apaixonadamente impuros. Sejamos portugueses. É isso que nos parece dizer esta peça impura, que muitos acharão imperfeita, desequilibrada. Mas que é apaixonadamente portuguesa. Como também isso nos diz, e talvez não seja por acaso, todo o benditamente impuro génio dramático de Gil Vicente e muito em especial essas CORTES DE JÚPITER, que serão teatro oficial até mais não poder ser, mas que o pobre Vicente imaginado por Garrett apaixonadamente tenta ensaiar, contra tudo e contra todos, no meio de negócios de Estado e embaixadas estrangeiras, de mistura com paixões e desgostos de amor de poetas, princesas e actrizes, preso no seu próprio entusiasmo. As CORTES já são acima de tudo uma peça portuguesa e talvez sobre Portugal: são o roteiro de uma despedida. A despedida de uma menina. Uma princesa portuguesa parte para longe, para "o estrangeiro", deixa a sua terra, leva e deixa saudades. A festa da sua despedida é uma sumptuosa oposição de Portugal ao resto do Mundo. Uma afirmação de nacionalidade, um esconjuro do medo de partir, ao que parece e por sinal, destino português por excelência. As CORTES são, como toda a obra de Gil Vicente, profundamente portuguesas até na ironia com que cumprem a sua função oficial de anunciar o desfile náutico que no dia seguinte iria rivalizar com os "trionfi" dos italianos. São irónicas, inteligentes, impuras, misturando o tom nobre de um ou outro verso de ]úpiter, da Providência ou de Marte, figuras de cartão de inspiração ilustre (e de menos consequência que o épico concílio dos deuses de Camões) com as palhaçadas dos ventos, o romance Niña era Ia Ifanta, que apaixonou Garrett, e essa fabulosa e longa antevisão do cortejo, maravilhosamente fechada em jogos de cumplicidades internas à côrte, em graças, elogios e galanteios que quase já nos são incompreensíveis de tão profundamente efémeros mas a que Vicente confere a densidade poética de uma apoteose onírica. Tudo isto sem esquecer que Portugueses também são mistura. Sempre andaram berberes por aqui. Valha-nos isso! E lá vem a moura encantada do Algarbe, filha de Braxa e neta de Axa. Tudo com castelhano à mistura. E muitos axes e exes. Pois então? Tudo num punhado de versos.

Foi desta portuguesa "confusão" que Garrett gostou. Este teatro é que é o passado que apaixonadamente invoca quando se lhe mete na cabeça criar um novo repertório e construir o futuro do nosso teatro. (E seria isso um projecto português? Não lhe bastava, à portuguesa, escrever mais uma ou outra peça imperfeita e escrever um dia uma talvez obra-prima - o tal FREI LUÍS DE SOUSA? Quem acredita ainda em fazer escola para lá de deixar formoso exemplo?). Ficou depois o Dona Maria, ficou o Conservatório. Mas neste UM AUTO DE GIL VICENTE o que ainda hoje nos entusiasma é sobretudo o amor pela confusão, a paixão de um projecto. A própria ideia de cruzar as duas intrigas (a dos ensaios e representação do auto com a dos amores de Beatriz, Paula e Bernardim) é também a de um entusiasmo: como se o teatro se vivesse entre um suicídio por e o destino da nação, como se o teatro fosse tudo e nada ao mesmo tempo, como se fosse aquele único sítio em que toda a vida tem lugar, tanto as nossas paixões como os interesses do Estado. Parece-me que foi assim que Garrett pensou na sua peça. Pensou num palco onde houvesse espaço para tudo. E onde mais que tudo tivesse lugar a sua terra, os seus poetas, as suas mulheres, os seus actores, bispos, falcoeiros, pagens, reis, ministros e plebeus. Sofrendo todos com certeza de um mal comum, essa inimitável "saudade" que mais não é que uma especial e muito doce maneira de viver a paixão. E talvez sempre às voltas com a questão da liberdade. ("Eu constrangi sua vontade. Meu Deus, se eu matei a minha filha!", diz a culpa do rei no fim da peça). Este projecto de teatro não nos ficava mal adoptar.

UM AUTO DE GIL VIGENTE é também um pouco as "Viagens na Minha Terra" do teatro. Uma viagem pelo meu país sem ir mais longe que de Lisboa a Santarém. Também nesta peça pouco se passa mas de tudo se fala. Lá está, na abertura, em compére deste novo teatro português, uma versão do mesmo Sancho de que falam as "Viagens", a grotesca figura de Pero Safio, confidente e factotum de uma outra versão de D. Quixote, o sublime Bernardim. De Paula a Georgina não vai tão grande distância e menos ainda de Beatriz a ]oaninha. A "desordem" também é a mesma das "Viagens". E por entre esses amores vai passando todo Portugal, país de gente do mar, vai passando toda a cultura portuguesa, a poesia, a culta e a tradicional, o teatro, a arquitectura antiga, os descobrimentos, a política das artes, a sinceridade e a hipocrisia, os barões e os frades. De tudo se fala sem qualquer muito evidente unidade, num moderno e ousado desprezo pelas regras clássicas e um gosto de facto novo pela mistura dos estilos, pela convivência e debate dos registos dramáticos mais opostos e que vão do monólogo trágico à farsa, passando pelo melodrama ou pela alta comédia. Isto, a partir de uma intriga quase inexistente, apenas de uma situação de impasse amoroso (um poeta ama uma princesa destinada a outro amor oficial e é amado por outra mulher que não ama ou julga não amar). E nem o desfecho, alguma solução para o impasse, parece interessar Garrett. A sua nota ao suicídio de Bernardim, que se diria aliás um trecho das "Viagens", é isso que nos conta na sua ironia: Aqui atirei com ele ao mar por me era preciso. Creio que acima de tudo interessava a Garrett pôr Portugal em cena, sem qualquer intenção normativa, apenas por gosto de contemplar ou dar a ver. O quê? A nossa terra, as coisas portuguesas, a nossa generosidade. É alguma coisa. Mas este UM AUTO são apenas três actos gratuitos, leves. É um mero prazer cultural, é quase um exercício. E se não é verdade, foi assim que gostámos dele. São três actos que permitem três tipos de escrita dramática e três modos diferentes de mostrar a mesma gente em três locais de acção emblemáticos. E a esses três "quadros" vivos se vão colando todas as referências culturais possíveis sem medo de perder a medida, de passagem. É, de certo modo, uma estrutura aberta, livre. E a encenação assim a quis expor e sublinhar-lhe as dissonâncias.

Também por aí gostámos da peça. Por ser portuguesa assim. E sentimos que essa liberdade de escrita nos pedia que a manipulássemos, que não tivéssemos medo de a ela agarrar mais pedaços da "Menina e Moça" de que apaixonadamente gostamos, que à evocação de Gil Vicente acrescentássemos mais texto das CORTÊS e acrescentássemos até uma ou outra referência a um "jeito" já nosso de pegar nos seus autos. Pedia que não a tomássemos a sério demais. Achámos que podíamos e devíamos, sei pelo menos que me apeteceu, encontrar lugar em cena também para um Portugal que Garrett já não conheceu e que é hoje a nossa terra. A uma coisa sei que a peça de Garrett felizmente nos obriga: memória. O seu teatro defende a Liberdade e afirma uma necessidade de História. Para formar um novo repertório recorre à História, põe em cena Gil Vicente; para falar à sua época traz para cena D. Manuel e o Renascimento em Portugal, de forma mais ou menos fiel, não é isso que importa. E para nós, portugueses já do fim do século seguinte, a peça de Garrett pedia neste seu amor à História, novo trabalho da memória, um salto para o nosso tempo. Percebemos que pôr em cena a peça de Garrett era rever a nossa bandeira, tanto mais que estreamos a peça em co-produção com um Teatro Nacional. Fizémos um espectáculo que é um jogo livre com as suas cores vermelho e verde com esfera armiIar dourada como o sol e quinas azuis como o luar, a abrir e fechar cortinas de teatro. Depois de Garrett as representações da memória portuguesa foram outras. Não ficámos sobretudo com a alma apaixonada dos poetas nem com tantos exemplos como isso de tolerância e liberdade na condução dos destinos nacionais. A nossa memória portuguesa está cheia de fatos típicos de fadistas, campinos, minhotas e pescadores da Nazaré. Limpemos as cores da bandeira. O nosso espectáculo gostava de esvaziar a nossa bandeira da normalização das fardas, sejam elas de soldados, futebolistas ou executivos. Reivindicamos a generosidade portuguesa. Uma certa desordem. Por trás da nossa bandeira está a delicadeza da alma das nossas Beatrizes, a violência da paixão das nossas Paulas, o corpo de Bernardim. Quero acreditar no seu suicídio. Acabemos com os barões. Voltemos a ser marinheiros. Lugar para o coração dos nossos rapazes!
Luis Miguel Cintra

Dos textos nascem textos # momento 1

[fotograma de Lost in Translation]

Dos textos nascem textos  

[construímos o nosso texto a partir desta gaveta. A utilização do texto foi autorizada e, durante o processo de escrita, procuramos não torturar a gramática, nem ofender a ortografia. Tomámos, apenas, algumas liberdades poéticas]

Aprendi a sinfonia dos silêncios. Das esperas.
Sem ânsias do amanhã. Aprendi a conjugar o presente.
E a vivê-lo como se um passado não tivesse existido.
Os compassos da lenta descoberta.
Abriram as comportas do imaginário
e, timidamente, quiseram ser peixes voadores
Ensaiei a dança das palavras, pura.
Puros movimentos doces dançando de boca em boca
e com o mesmo desfecho: morrer ali.
Sem ter a noção do ontem, sem saber do amanhã.
E vi o encantamento soltar as asas, reclamando o peito pela cintura.
Envolvendo todo o corpo
Encantamento perdido, no começo do fim
E veio a ânsia, despida.
Com silêncio profundo
Que me faz pensar na vida.
E a graça, nua.
sem medo da liberdade
Sem temer.
E todo este movimento perpétuo
que me faz explodir de alegria,
viver no limiar das emoções,
deixar voar as palavras, sem medo....
....sem medo de arriscar    de viver.


Miguel Carvalho, Ana , Raquel,  Filipa ,  Inês  , Juliana, Cátia, Joana, Tiago

Teste de avaliação [Folhas Caídas]


E foi assim o teste...

NÃO TE AMO

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.

E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero

De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.

Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,

De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto

Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett
 
1.       É evidente que o amor sensual é aqui posto em contraste com o amor ideal (espiritual). Faça um levantamento de todas as expressões que conotam o amor sensual e as que se referem ao amor ideal. (25 pontos)

2.      Transcreva uma frase antitética, que se repete ao longo do poema e que exprime o drama psicológico do poeta. Em que consiste esse drama? Qual é, dentro deste contexto, a intenção da repetição (total ou desdobrada) da frase que transcreveu? (25 pontos)


3.      Prove, com base no texto, que  neste poema há uma  confissão implícita da impossibilidade de amar (25 pontos)


4.      Jacinto do Prado Coelho afirma que há, em toda a obra de Garrett, um tema constante, uma espécie de leitmotiv, que «é uma oposição dinâmica, uma permanente tensão entre a Luz e as Trevas». Se está de acordo com esta afirmação, tente confirmá-la, com base no texto. (25 pontos)


5.      Faça um estudo do estilo do poema, focando os pontos mais contrastantes com a estética clássica. (25 pontos)


6.      5.         Quase todos os poemas de Folhas Caídas apresentam um tom nitidamente dramático. Encontre, neste poema, marcas desse dramatismo e refira-se ao seus efeitos perlocutórios. (25 pontos)

 II

Tendo em conta que a poesia garrettiana revela um espírito renovador, não só quanto à concepção da mulher amada e do amor, mas também quanto aos aspectos formais, numa composição cuidada (mínimo 90 e máximo 110 palavras), refere-te à nova sensibilidade e à nova expressão poética, evidenciadas na lírica de Almeida Garrett. (50 pontos)

A Literatura

A Literatura |  Uma macieira que dá laranjas.

                                              Rui Manuel Amaral

O Corvo de Edgar Allan Poe, (trad. Fernando Pessoa)


O Corvo  [em inglês aqui]
Edgar Allan Poe

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Edgar Allan Poe, (trad. Fernando Pessoa)

Folhas Caídas, de Almeida Garrett

Uma outra forma de ler Folhas Caídas, de Almeida Garrett.

Vou em mim como entre bosques | Fernando Pessoa

[Le Blanc-Seing, 1965, Magritte]

Vou em mim como entre bosques,
Vou-me fazendo paisagem
Para me desconhecer.
Nos meus sonhos sinto aragem,
Nos meus desejos descer.

Passeio entre arvoredo
Nos meandros de quem sinto
Quando sinto sem sentir...
Vaga clareira de instinto,
Pinheiral todo a subir...

Sorriso que no regato
Através dos ramos curvos
O sol, espreitando, achou.
Fluir de água, com tons turvos,
Onde uma pedra adensou.

Grande alegria das mágoas
Quando o declive da encosta
Apressa o passo ou querer...
De que é que a minha alma gosta
Ser que eu tenho de saber.

Muita curva, muita coisa,
Todas com gentes de fora
Na alma que sinto assim.
Que paisagem quem se ignora!
Meu Deus, que é feito de mim?


4-8-1930
Fernando Pessoa

Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 142.

"A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias" - Tim Burton

O livro que a Raquel levou e que a Inês fotografou....

Rui Manuel Amaral & Adília Lopes [associação muito livre]


O que os peixes decidiram fazer
Rui Manuel Amaral

 
Todos os dias, um pescador lançava as redes, plaf, à água. Longas horas no meio do mar, lançando as redes, plaf, plaf, plaf, com gestos de semeador apaixonado. Os peixes, esses, aguardavam alegre e pacientemente a vez de serem pescados, borbulhando intermináveis declarações de amor ao pescador.
O caso é que, por uma sucessão de intermináveis azares e infortúnios, pescador e peixes falhavam sempre os seus encontros. Os peixes corriam como loucos, de olhos esbugalhados, atrás do pescador e este sulcava incansavelmente as ondas no encalço daqueles. Mas parecia que quanto mais insistiam neste assíduo labor, mais excitavam a crueldade dos elementos. E, dia após dia, semana após semana, mês após mês, as redes permaneciam vazias.
Ora, cansados de tanta correria para nada, os peixes decidiram acabar com aquilo. “Chegou o momento de lançarmos as nossas redes”, disseram os peixes que tinham barbatanas vermelhas. “Chegou o momento de recuperarmos o tempo perdido”, disseram os que tinham barbatanas azuis. E assim foi. Os peixes lançaram as suas redes e pescaram sem dificuldade o pescador. Em poucos segundos, o homem evaporou-se da superfície das águas como se evapora uma aparição da Virgem. (Doutor Avalanche, pag, 33)


A BIFURCAÇÃO SUCESSIVA , de Adília Lopes

Divido a minha vida
em duas partes
uma em que tinha orelhas
e não tinha brincos
uma em que já não tinha orelhas
e toda a gente me dava brincos
para me consolar de duas coisas
de não ter orelhas
e de não ter tido brincos
quando tinha orelhas
de todos nós assim era só eu
porque orelhas tinha duas

Rui Manuel Amaral & Filipa Leal [associação muito livre]

[imagem daqui]

A  ÁRVORE
RUI MANUEL AMARAL

Não me lembro quando começou. Não sou bom a memorizar datas. Mas tenho ainda presente o espanto, o assombro, o medo, o assombro e o espanto que senti quando, uma manhã, ao acordar, dei de caras com a árvore. Uma árvore imensa plantada no meio do apartamento. Um gigante de longas raízes negras, que irrompera do fundo do soalho, durante a noite. Os ramos, tão numerosos como uma floresta, cobriam todas as divisões. As folhas farfalhavam no ar e batiam-me nos olhos.
Nesse mesmo dia, cortei-a pela base e livrei-me daquilo tudo. À noite, estendi-me na cama e adormeci muito satisfeito. Na manhã seguinte, porém, a árvore achava-se no mesmo local da véspera. E parecia ainda maior e mais frondejante. Cortei-a de novo e tudo se repetiu: de manhã lá estava o monstro verde, conspirando pacífica e vegetalmente, no meio do apartamento. No meu desespero, cheguei a queimar toda a madeira num instante. Mas bastavam alguns segundos para ela irromper do chão, ainda mais convincente e definitiva, e lançar os ramos contra os vidros.
Pouco a pouco, desisti de lutar contra os desígnios da natureza, se assim me posso exprimir. Tentava concentrar-me nas velhas tarefas domésticas, mas a minha atenção perdia-se por entre os ramos, nas folhas verdes e amarelas que ondulavam pelo tecto como borboletas caprichosas. Entretanto, um pássaro começou a cantar, depois outro e outro ainda, e pequenos animais despontaram de todos os lados, correndo e escondendo-se na erva.
Daí por diante, a casa transformou-se num bosque interminável, cheio de ruídos misteriosos, locais sombrios, segredos profundos. Por esta altura, creio que já não consigo encontrar a porta da rua. A vida nos bosques não é a melhor coisa do mundo, mas são tempos difíceis estes em que vivemos. E de um modo geral, tenho de o dizer sem falsa modéstia, estou a sair-me bem.

Amaral, Rui Manuel, Doutor Avalanche, Angelus Novus, 2010 [pg. 39]




O PROBLEMA DE SER NORTE, Filipa Leal

Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que

um
raro
silêncio ainda

me interrompa?

Filipa Leal, O Problema de Ser Norte, Deriva Editores

O HOMEM QUE TINHA DOIS CORAÇÕES, Rui Manuel Amaral

O HOMEM QUE TINHA DOIS CORAÇÕES

Era uma vez um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.
Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de muito grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.
Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil.

* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.

Amaral, Rui Manuel,  Doutor Avalanche, Angelus Novus, 2010 [pg. 101]

Preparação para o teste de avaliação: Não És Tu, Almeida Garrett


 [ilustração Rachel Caiano]

[preparação para o teste de avaliação]

Não És Tu

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai!, não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Almeida Garrett

1. O poema organiza-se na base da oposição entre passado e presente.
1.1. Faz a caracterização da mulher vista no passado e vista no presente.
12. Encontra uma palavra para caracterizar cada visão.
1.3. Delimita os momentos em que o texto se estrutura, justificando a divisão.
1.4. Atenta nos verbos principais. Explica o valor do imperfeito, do pretérito perfeito e do presente.

2. Há uma diferença entre a imagem do tu no passado e no presente.
2.1. Como se justifica essa diferença?
2.2. Comprova que o tipo de conhecimento utilizado pelo eu para conhecer o tu é importante para detectar as diferenças.

3. Como nos poemas já analisados, a mulher aparece sempre idealizada.
3.1. Encontra no texto palavras ou expressões que comprovem essa idealização.
3.2. Que figura de estilo suporta a idealização da mulher?
4. Há no poema várias figuras de estilo que geram a expressividade da linguagem.
4.1. Identifica  os segmentos de discurso que  efectivam a anáfora, a antítese, a comparação e a sinestesia.
4.2. Explica o sentido e a expressividade dessas figuras de estilo.

5. A oposição fogo/luz é recorrente na poesia de Garrett.
5.1. Para que tipos de amor apontam esses dois vocábulos?
5.2. Qual é o amor considerado mais perfeito? Porquê?

6. A parateatralidade ou a tendência para a oralidade é urna das características do discurso de Garrett.
 6.1. Indica os elementos que realizam a parateatralidade, neste texto.

7. Caracteriza, finalmente, a mulher na base da oposição “ter coração” / “não ter coração”.
 
Orientações 

Tema: desilusão amorosa.
Assunto: tentativa da posse do Ideal através de uma visão, verificando no fim  que a mulher presente não o corresponde no amor.

 Proposta de delimitação:

1ª parte - estrofes 1 – 4: descrição da visão, sonho, mulher, amor idealizado;
2ª parte - estrofe 5: a mulher presente não é a da sua visão / idealização. (adversativa "mas")

Estado de espírito do Eu:
- sofrimento provocado pela desilusão;
- desejo de regressar ao passado, em que vivia um amor espiritual, uma época de sonho e paz, pois, no presente, está a viver um amor carnal que o faz infeliz;
- sonhador, iludido, perdido pela ânsia de amar e ser amado;
- desiludido, impotente pela não correspondência do seu amor;
-  concepção neoplatónica do amor – frustração por não possuir o Ideal;

Toda a ilusão se desfez (v. 26)
Não és a mesma visão (v. 28)
Quando eu sonhava de amor, / Quando em sonhos me perdi (vv. 5–6)
(...) véu que lhe envolvia (v. 11)
(...) beleza (v. 12)
(...) não seduz (v. 16)
Não era fogo, era luz (v. 17)
(...) rosas celestes / Rosas brancas, puras, finas / Viçosas como boninas /
/ Singelas sem ser agrestes (vv. 22-24)

Passado - Não era fogo, era luz / que mandava ao coração

Fogo – paixão
Luz – razão

AMOR ESPIRITUAL

 Presente - Não és a mesma visão, /Que essa tinha coração/ essa tinha coração – amor espiritual transformado em amor carnal (a mulher mudou e a ilusão desfez-se)

A descrição da mulher / visão faz-se:
 -  pela aproximação aos sentidos:

visão (vv. 1-4, 7, 19)
audição (vv. 13-16)
olfacto (vv. 20-21)
pela comparação com a mulher real.

O tipo de relação EU – TU:
dependência;
submissão do EU ao TU, pois a mulher exerce um poder tão grande que o EU se sente totalmente dominado, mesmo com uma situação de desilusão.

Tempos verbais:
            oposições:

Passado / Presente
Amor Espiritual / Amor Carnal
Razão / Paixão
Sonho / realidade

Pretérito Imperfeito: era, tinha, corava, ...
-  mostra a situação amorosa do passado, em que se encontrava feliz e iludido com a beleza da mulher amada;

-  Presente Indicativo – descreve a situação actual em que toda a ilusão se
desfez em que só sente paixão e amor carnal. Desejando, pois, regressar
ao amor espiritual.

Recursos estilísticos:
- sinestesia: Que lhe adoçava a beleza

Rosas brancas, puras, finas / Viçosas
- hipérbole: Nos olhos tinha esse lume
-  assíndeto: ausência da conjunção coordenativa copulativa (vv. 1-3, 19-24)
- adjectivação múltipla: altivo (v. 7), pensativo (v. 8), ingénuo, vulgar (v. 14), celestes (v. 21), brancas, puras, finas / Viçosas (vv. 22-23), singelas, agrestes (v. 24), 
- comparação: Como um véu (v. 11), Viçosas como boninas (v. 23), 
- metáfora: sonhava de amor (v. 5, em sonhos me perdi (v. 6), Não era fogo, era luz / Que mandava ao coração (vv. 17-18), lume (v. 19), perfume (v. 20), Um cheiro a rosas celestes / (...) agrestes (vv. 21-24)
(associação do perfume da mulher ao perfume das rosas)
- interjeição: última estrofe; ai! (v. 25)
- anáfora: Quando (vv. 5-6) não és (vv. 27-28), Era assim (vv. 1-13)
- antítese: fogo / luz (v. 17)
- repetição: não és (v. 25)
, tinha (vv. 29-30),  assim (vv. 1, 7, 13)
- enumeração: vv. 7-9, 13-18
 

Análise formal:
--cinco sextilhas de 6 e 7 sílabas
- esquema rimático: a a b c b c
-  rima: emparelhada e cruzada
-  rima aguda: estrofes ímpares
-  rima grave: estrofes pares