Ainda bem que o natal acabou, Carlos Alberto Machado



Ainda bem que o natal acabou
logo que soaram as doze
descolei os lábios da mesa
vomitei as doçarias todas
para cima das notícias
que anunciavam a morte
algures onde o natal
é regado com sangue

e as rolhas das garrafas
são tiros cegos e certeiros
matam velhos e crianças
em natal ou em belém
para o ano haverá mais
se a dor aguentar até lá
nós aqui e eles no inferno
uma data é uma data
e é preciso comemorá-la

com sangue e com lágrimas
um dia os meus lábios
ficarão para sempre
agarrados à toalha de linho.

Carlos Alberto Machado, A Realidade Inclinada, Averno, 2003.

Dia de Natal | António Gedeão





Dia de Natal

Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.


É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.


De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)


Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.


Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.


Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.


A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.


Ah!!!!!!!!!!


Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.


Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.


Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.


Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.


Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

Um conto de Natal de Alexandre O´Neill

 
A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:
- Ó Quinhas anda ver!
Quinhas levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:
- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!
- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.
Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:
- Lèrinho, Lèrinho!
Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.
Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.
- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.
E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…
- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.
Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?
Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:
- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.

Alexandre O´Neill in Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, (coord. Vasco Graça Moura) col. Mil Folhas, Público.

Natal Chique, Vitorino Nemésio



Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.


Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

Intertextualidades: Pêro da Ponte, Adília Lopes, Catarina Nunes de Almeida



Se eu podesse desamar
a quen me sempre desamou,
e podess'algún mal buscar
a quen me sempre mal buscou!
Assí me vingaría eu,
     se eu podesse coita dar,
     a quen me sempre coita deu.

                                                              Pêro da Ponte

Não podemos
desamar
quem nos ama

Se nem
quem nos desama
podemos desamar

                                                                    Adília Lopes


Se eu pudesse desamar
destecer as barcas dos autos de Inverno -
frota de cabelos esparsos
por entre águas vertebradas
nas tuas pernas
perdição dos peixes.
Se eu pudesse digerir a cidade depois do teu nome
aparar a plumagem que me separa dos animais
e cair para dentro deles
num abraço escavado por eles
disponível para a idade para a margem da lavoura
onde nunca se aviste
o mar.

Catarina Nunes de Almeida

Expresso Actual, 18 Dez 2010. Pages16 - 17




Expresso Actual
18 Dez 2010

Natal | Yvette Centeno



O Chefe de família limpou a boca ao guardanapo e afirmou assim como dois e dois são quatro e não são outra coisa
 O Natal é o Natal e não é outra coisa antes pelo contrário
 E para provar o que dizia comeu uma asa de peru
com recheio de castanhas
e limpou os dedos gordurosos ao bordado da toalha
À volta da mesa metade da família discutia a mensagem
e comia
e a outra metade mais intelectual comia a mensagem
e discutia
sim tal não tal
sim tal não tal
não tal
não tal
Natal

Yvette Centeno

PAINÉIS DE SÃO VICENTE DE FORA, VISÃO POÉTICA



CINEMA | PAINÉIS DE SÃO VICENTE DE FORA, VISÃO POÉTICA
DE MANOEL DE OLIVEIRA
Filme 35 mm, cor, som, 16’
Financiado e produzido pela Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
09 DEZ 2010, 21h30 - AUDITÓRIO

A Praia das Maçãs, António Lobo Antunes


E então no princípio de agosto íamos para a Praia das Maçãs. Tudo começava como a partida, em sobressalto de fuga, de aristocratas russos a seguir à revolução de dezassete: tiravam-se os reposteiros e as cortinas, enrolavam-se os tapetes, cobriam-se os sofás de lençóis brancos, desprendiam-se os quadros das paredes que mostravam rectângulos mais claros pendurados de grampos, embrulhavam-se os castiçais, os talheres, os bules e as salvas de prata em jornais, a casa aumentava de tamanho e os sons ganhavam a amplitude de explosão de passos em garagem à noite, vinha uma camioneta carregar frigorífico, bagagem e criadas que seguiam logo de manhã, antes de nós, para o exílio das férias, e à tarde os meus pais embarcavam as crias que lutavam no banco de trás por um lugar à janela, entre lágrimas, pontapés e queixinhas, excepto o meu irmão mais novo que de pé no assento com o babete ao pescoço e um Pluto de borracha apertado no peito ia acenando adeuses, de Benfica a Sintra, aos automóveis que nos seguiam.
Depois de Colares os adeuses tornavam-se impossíveis por culpa do nevoeiro: percebiam-se a custo telhados de chalés e cumes vagos de pinheiros numa bruma desfocada, o mar invisível chiava um mecanismo ferrugento de berço, alcançávamos ao anoitecer uma vivenda desconhecida e húmida, cercada de arbustos horrivelmente tristes que as ondas se esqueceram de levar, adormecíamos em cobertores molhados com a ronca do farol a baralhar-nos os sonhos, e no dia seguinte, às nove da madrugada, a nossa mãe, em roupão, vinha ao convés do jardim observar o nevoeiro com um sobrolho de almirante, garantia 
        – Depois da uma levanta ~
       e nós, os filhos, de panamá na cabeça, submersos em cascas concêntricas de casacos de malha, parecidos com os automobilistas vestidos de urso do princípio do século, marchávamos a tiritar, em fila indiana, pastoreados pela criada, de nariz roxo de frio, até à praia em que se distinguiam os iglus de um ou dois toldos imprecisos, icebergues à deriva e os meninos-pinguins de uma colónia de férias guinchando como leitões a esbracejarem de susto, que banheiros-esquimós agarravam à força para os mergulharem de golpe, num clima de aurora boreal, entre calhaus de gelo e esqueletos de exploradores polares.
Sentados na areia, arrepiados de gripe, de pás, baldes de plástico e formas de bolo inúteis, reconhecíamo-nos uns aos outros pelo ímpeto da tosse e pela tonalidade dos espirros, e no Instituto de Socorros a Náufragos acumulavam-se, nas mesas de pedra dos afogados, moribundos de pneumonia com tantos casacos de lã e tantos panamás como nós. Às onze, quando das bandas da serra embuçada em películas cinzentas crescia um bocadinho de castelo a nossa mãe descia à praia, descalçava-se junto à estaca de toldo onde se amontoava um cone de sandálias, abria o Paris-Match e perguntava radiante, apontando em triunfo uma nesguita de ameias ~
        – Eu não disse que daqui a nada levantava?
       distribuindo a cada um embalagens de aspirina.
       Nunca mais voltei à Praia das Maçãs.

António Lobo Antunes, Livro de Crónicas, 5.ª ed., Lisboa, Dom Quixote, 2002

Histórias de Amor de Robert Walser [no Expresso]




Expresso Actual
07 Jun 2008

Russell Edson na Comunidade de Leitores


Tudo começou pela imagem, pelo cinzentismo pelo cigarro que se adivinha, pelo ar tão normal...  e depois vieram os textos (poemas como  o autor prefere)....
A Filipa escolheu  "Um homem que escreve" e "O livro branco" , o Tiago escolheu "Uma Máquina"; a Joana "O Outono", a Raquel  "O livro branco".  Rui Manuel Amaral (muito, muito obrigada, uma vez mais) conduziu a conversa e já temos autor para Janeiro: Robert Walser...
E em todos ficou a vontade de, como em "O Livro Branco", criar um endereço fictício.



UMA MÁQUINA
Um homem construíra uma máquina... Que faz o quê? Disse o seu pai.
Que fica vermelha com a ferrugem se chover, não te parece, pai?
Mas uma máquina é o que rouba o trabalho a um homem, disse o pai, e o trabalho é oração, logo a máquina é um pecado.
Mas a máquina também pode ser amorosa, cultivando teias de aranha entre as rodas onde rastejam pequenas patas negras; e logo as ervas aparecem entre as engrenagens - E os seus raios adornados com borboletas...
Não gosto da máquina, mesmo se é amável, pois pode ainda decidir amar a minha mulher e apanhar o meu transporte para o trabalho, disse o pai.
Não não pai, é uma máquina voadora.
Bom, supõe que a máquina faz ninho no telhado e tem filhos máquinas? disse o pai.
Pai, se quisesses olhar para a máquina apenas umas horas irias aprender a amá-la, talvez até a dedicar-lhe a própria vida.
Eu não faria tal coisa, pelo menos com a tua mãe a ver, cata¬logando as minhas infidelidades para me confrontar com elas na cama... Talvez eu conseguisse simpatizar com esta humilde obra de ferro, pois que já me sinto motivado a assegurar-lhe que existe um Deus, sim, até para ti, querida mdquina paciente. Mas a tua mãe vigia. Até a minha mãe vigia. Todas as mulheres da casa observam pelas janelas, esperando para ver o que farei . [Russell Edson]

Pessoa, 75 anos depois

"Eu já não sou eu. Sou um fragmento de mim conservado num museu abandonado. O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do desassossego. Mas tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos." Bernardo Soares

Comunidade de Leitores na Biblioteca

a pensar na Comunidade de Leitores, de 30 de Novembro,  orientada por Rui Manuel Amaral

Livro: O túnel, de Russel Edson 

UMA REPRESENTAÇÃO NO TEATRO DOS PORCOS

      Era uma vez um teatro de porcos onde porcos representavam como homens, se os homens fossem porcos. 
     Um porco disse, eu serei um porco num campo que encon­trou um rato que está a ser comido pelo mesmo porco que está no campo e o qual encontrou o rato, o que estou a representar como a minha contribuição para a arte de representar.
Oh sejamos apenas porcos, gritou um porco velho.
E logo os porcos saíram em tropel para fora do teatro gri­tando, só porcos, só porcos...

 (Edson, Russel, O túnel, Assírio  & Alvim)

Um Auto de Gil Vicente, de Almeida Garrett

 Excerto de uma comunicação de Ana Isabel Vasconcelos (disponível aqui)

[...]"Trata-se do drama precisamente intitulado  Um Auto de Gil Vicente, cuja acção  decorre na Corte de  D.  Manuel, tendo  como pólos de actuação a figura  de Gil Vicente e a de Bernardim Ribeiro. Desta  comparação, explica Garrett «fiz  nascer todo o interesse do meu drama», fixando-o num facto  notável: a  partida de  D. Beatriz, filha de D. Manuel, para Sabóia, em resultado do acordo matrimonial estabelecido. Neste acontecimento, cujos preparativos nos ocupam desde o início do 1º acto, entrelaçam-se várias e enredadas teias amorosas, destacando-se os amores, socialmente inaceitáveis e moralmente reprováveis, entre a Princesa, então já Duquesa, e o poeta Bernardim Ribeiro. Do nosso  ponto de vista, os afectos entre Bernardim e Beatriz vão pautar a situacionalidade de todas as outras personagens, constituindo-as em três grupos: as que têm conhecimento desse amor, como é o caso de Paula, de Pêro Safio e do próprio D.  Manuel; as que dele suspeitam, como é o caso dos  embaixadores italianos; e as que o ignoram, que são as restantes personagens, conjunto de uma importância bastante reduzida na totalidade da acção dramática. Do pequeno universo que partilha este segredo, destaca-se Paula Vicente, filha de mestre Gil e também ela comediante, que favorece os encontros clandestinos entre o poeta e  a Infanta.  Acontece que ela  mesma está apaixonada por Bernardim, chegando este amor não correspondido a  ter um efeito quase pernicioso, pelo sentimento momentâneo de revolta devido à posição subalterna que detémr elativamente à filha do monarca. Beatriz, modelo de virtude e abnegação, depende desta sua confidente, única testemunha do momento de sofrimento por que está a passar.
Bernardim, indivíduo  de excepção, que se afasta voluntariamente de todos os outros, é caracterizado como poeta e louco. Apaixonado pela Infanta, a quem dedica o seu livro das «Saudades», opta, como desfecho, pelo que tomamos como suicídio, não tendo intentado qualquer processo de luta para alterar o percurso por outros traçado. A resignação de ambos e a postura que assumem, desde o início, em não discutir o que fora socialmente aceite e nacionalmente conveniente é um traço que acentua, no drama, o clima de desespero. Em termos de desenlace, não há qualquer alteração à situação que se explicitara  logo inicialmente e que se atribuía a constrangimentos sócio-políticos incontornáveis. Perante esta realidade, o desejo de morte como libertação para o «mal de amor» é expresso pelos amantes e sublinhado pelos sucessivos desmaios de Beatriz.
Dando conteúdo à hipotética  desconfiança, por parte da corte italiana, relativamente a uma  possível relação amorosa entre  D. Beatriz  e um qualquer cavaleiro português, compõe Garrett três personagens representantes, em Lisboa, do Duque de Sabóia, que, numa cena específica despoletada por uma carta escrita por Beatriz, expressam os seus receios em terem ainda «grande tormenta» antes
de iniciada a viagem. Estes emissários estrangeiros são também habilmente utilizados pelo autor para, favorecendo um  enquadramento histórico mais global, servirem de «olhar do outro» sobre a realidade portuguesa, nomeadamente no que diz respeito a apreciações estético-literárias, a propósito do teatro vicentino, e à avaliação do desempenho dos portugueses na epopeia dos descobrimentos. Estas apreciações denotam, no primeiro caso, alguma censura pela falta de conhecimento da literatura clássica, e, no  segundo,  a pretensão de partilha dos louros pelos sucessos nas navegações marítimas. As referências a aspectos históricos e culturais concretos são dispersas ao longo do texto,  servindo para  compor a moldura histórica de época. Desde  a referência a monumentos e razões apresentadas pelo próprio monarca para a sua edificação, a uma neutra referência à viagem de Vasco da Gama, a uma observação crítica aotribunal da Inquisição, a uma apreciação comparativa entre o reinado de D. JoãoII e o de D. Manuel, a uma simples alusão à invenção da imprensa, tudo são apontamentos que,  no seu conjunto, referenciam  a época em causa. A caracterização da vida palaciana na corte de D. Manuel é feita pelo próprio monarca em tom de satisfação:

DOM MANUEL
Barão, podeis dizer em Itália que nem só de marfim e especiarias se trata na corte de Lisboa. Trazemos guerra, e mandamos nossos galeões a pelejar e traficar, nas quatro partes de que hoje – graças aos nossos pilotos! – se compõe o mundo; mas em casa cultivamos as artes da paz.

Ao expor-se em cena, D. Manuel confirma a leitura que as outras personagens dele já perspectivaram: magnânimo e, sobretudo, exemplo de tolerância e liberdade, características estas sublinhadas como favorecendo as condições imprescindíveis para o florescimento do teatro vicentino. A admiração pela produção de Gil Vicente leva a que este seja protegido pelo monarca, ocupando um lugar imprescindível nos divertimentos reais. «Compositor-mor de momos e chacotas, comédias, tragicomédias e autos», dedica-se também ele à arte de representação, integrando o elenco da companhia que dirige. É,  sem dúvida, sobretudo Gil Vicente, o dramaturgo, que agora é lembrado, pois o  seu auto, como outros estudiosos já observaram, não passa de um «pormenor episódico», aproveitado para estabelecer um breve confronto entre a escrita dramática vicentina e a composição poética de índole romântica, aqui da  autoria de Bernardim Ribeiro. Este, por seu lado,  mostra-se incapaz de valorizar os autos vicentinos, «que trazem embelecada esta corte de comediantes, que de mais não cuidam»16. A figura de Gil Vicente vai-se compondo ao longo do texto por referências váriasdadas por outras personagens, mas é Paula, porque afectivamente mais próxima, quem mais profundamente o caracteriza:

PAULA
Quem tivera aquela paixão de arte que o domina, aquele entusiasmo pela beleza ideal desse mundo de ficções que se criou e em que vive; aquela cegueira ditosa que lhe não deixa ver a miserável realidade que o cerca! O meu pobre pai, como ele vive enganado! Inda bem. – Cuida que o avaliam, que o entendem.  As sublimes criações do seu engenho, as graciosas pinturas de seu estilo, aplaudem-nas. Como, porquê? – Porque é moda, porque os fazem rir às vezes.

A imagem tradicional do poeta incompreendido numa corte que só aprecia quem a faz rir cola-se à  imagem de Gil Vicente, personagem que, adianta a própria filha, busca iludir-se, refugiando-se  no mundo  das ficções. Desprezando o tom satírico tão característico dos  textos vicentinos, e imbuído agora do perfil romântico do teatro moderno, Garrett apostou, decididamente, no motivo amoroso e no sofrimento decorrente da impossibilidade da sua concretização. Mais do que o amor é a saudade o sentimento que vai permanecer. O próprio monarca, na última cena, vacila perante a justeza  da decisão tomada, emprestando ao drama um final melodramático:

DOM MANUEL (perante Beatriz desmaiada)
O último adeus, minha filha, um abraço ainda! […] Tomou-a o susto. – Filha! […]
Eu constrangi sua vontade. – Meu Deus, se eu matei a minha filha!

Esta ressurreição de Gil Vicente e do seu tempo, mais do que do teatro vicentino, foi ainda apenas temporária e sobretudo com o intuito de fazer renascer o teatro em Portugal.
Quanto aos textos de Mestre Gil, o seu regresso à cena só aconteceu muitos anos mais tarde, mais precisamente em 1911, através de uma adaptação da responsabilidade de Afonso  Lopes Vieira, levada a cena no Teatro Nacional. A Companhia Amélia Rey-Colaço - Robles Monteiro recolheu a  lição e, entre 1940 e 60, incluiu, pelo menos dez vezes, o Auto da Barca do Inferno no seu repertório de teatro clássico. Nesses anos 40 e 50, porém, a vulgarização da peça ficou a dever-se sobretudo ao Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, que, pela mão do Professor Paulo Quintela, a fizeram representar «acomodada ao gosto dramático moderno».
Ana Isabel Vasconcelos,«A propósito de Gil Vicente», in Actas do Colóquio Internacional, O riso na cultura medieval.

Novas Cartas Portuguesas: "há 38 anos foi histórico, agora é contemporâneo" [Ana Luísa Amaral]



[...] é muito interessante porque elas, ao desmontarem a noção de autoria, desmontam a noção de autoridade, questionam a autoridade social, a ditadura. Mas ao estenderem isso até agora, por mais 40 anos, no fundo é a própria autoridade social e a ideia de poder das nossas sociedades de hoje em dia, de controlo de tudo, que está também a ser posta em causa. Há um estudo feito, por exemplo, na Universidade de Aveiro que diz que as poesias são todas da Teresa Horta. Não são. Parece que até são poucas.

O que acontece é que elas exercitam a escrita umas das outras. Trabalham também com o conceito de alteridade, com a importância do outro. O outro que traz o seu texto. É quase uma cooperativa literária. É uma utopia, mas é uma utopia que tem resultados práticos. É como se provasse que a utopia é possível. E, depois, há a intertextualidade que percorre o livro. O livro do ponto de vista literário é riquíssimo, tem referências históricas, culturais, literárias de diversíssima ordem, umas mais, outras menos óbvias. Logo na primeira carta, quando se fala de Outubro e Maio, são os vários maios importantes na história portuguesa, europeia e mundial: o Primeiro de Maio, o Maio de 68, o mês de Maria, o Armistício. E há os diálogos intertextuais com outros escritores: Herberto Helder, Alexandre O'Neill, Eugénio de Andrade, a poesia trovadoresca, Bernardim Ribeiro. É toda a literatura portuguesa que é percorrida e não só, é Lévi-Strauss, por exemplo. A literatura e a história mundiais são aqui reactivadas, mas de uma forma nova. [...] Ana Luísa Amaral

Ler tudo aqui.

OUTONO | Russell Edson

OUTONO

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
Mas os pais disseram olha é outono.
Russell Edson

A pensar na Comunidade de Leitores.



«'Outono' não é exactamente um poema.», observa Rui Manuel Amaral. «Também não é propriamente um conto curto. É algo que fica a meio caminho entre um género e outro. Ou que, de certa forma, parece combinar os dois. Os estudiosos chamam-lhe 'prosa poética'. Uma espécie de ornitorrinco literário. É justamente essa ambiguidade, essa condição de coisa escorregadia, desarrumada e difícil de classificar que me apaixona na grande criação literária. A obra de Russell Edson é um dos melhores exemplos disso mesmo: uma poderosa afirmação de liberdade, de negação de categorias e fronteiras. E este conto-poema-ou-o-que-lhe-queiram-chamar é uma obra-prima desse género singular: não é poesia, não é prosa, é grande literatura.» [daqui]

Rui Manuel Amaral, no Cerco


Hoje foi assim...
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Saramago - 16/11

Sou da Azinhaga, uma aldeia do concelho da Golegã, no Ribatejo. Os meus pais eram gente do campo. Nasci numa família camponesa sem terra. O meu avô Jerónimo e a minha avó Josefa tinham uma pequeníssima criação de porcos. Viviam disso, com as pocilgas ao lado da casa. O meu pai tinha feito a Guerra de 1914-18 na artilharia. No regresso decidiu sair da terra e emigrar. Foi para a PSP. Aos dois anos, o resto da família transferiu-se. Eu, a minha mãe e um irmão meu mais velho, que viria a morrer em Dezembro de 1924, poucos meses depois de estarmos em Lisboa. Se mal vivíamos, mal continuámos a viver. O ordenado do polícia era uma coisa ínfima, mas era outra vida.

A partir dos meus 5 ou 6 anos, primeiro com a família, depois sozinho, passava todo o tempo na terra. O que é importante nas minhas recordações formativas, tem muito mais que ver com o campo, do que com a cidade. A primeira coisa que fazia quando chegava à terra, nas férias grandes, era tirar os sapatos. A última coisa que fazia, quando tinha de voltar a casa, em Outubro, para regressar à escola, era calçar os sapatos. Durante esses três meses os pés tinham crescido e não entravam facilmente nos sapatos. Isto acontece até aos 15 ou 16 nos, e corresponde a um período muito vivido na aldeia.

Um dia resolveu-se levar os porcos à feira de Santarém. Da Azinhaga até lá, pelo campo, serão uns 15 ou 20 km. Saímos muito perto do fim da tarde e dormimos no caminho, na cavalariça de uma quinta, com os porcos recolhidos a uma pocilga. Não consigo, nem quero esquecer, o cheiro dos animais, os ruídos dos cavalos batendo com os cascos, o remoer da comida. Foi uma noite mágica. Tínhamos de acordar muito cedo, aí pelas cinco da madrugada, ou até um pouco antes. Quando me levanto e saio para um grande pátio, vejo a lua, a luz, o luar... Fiquei paralisado de espanto, de emoção, pela intensidade daquela luz. Apesar da minha cara de pau e da aparente frieza, sou uma pessoa que se emociona com uma facilidade incrível. Sempre fui assim. Coisas de uma simplicidade extraordinária podem emocionar-me até à lágrima. São infinitos os momentos de emoção.
O meu pai deu-me uma vez uma bofetada totalmente injusta e disse-lho muito mais tarde, mas não sofri os açoites que naquela altura eram regra. Eu, também, era uma criança fácil. Sobretudo melancólica. Quando estava na terra, muitas vezes saía de casa com um bocado de pão no bolso e uma rodela de chouriço e andava horas e horas naqueles campos, quase sempre sozinho. Sentava-me à beira do rio, não como o Ricardo Reis, mas creio que estava a preparar-se ali a pessoa em que me tornei.

O passado não cura. Deixa-se curar. No fundo trata-se de saber se aquilo que nos aconteceu é verdadeiramente importante ou não. Se as coisas não são importantes, nem vale a pena fazermos um esforço para reavivá-las, porque já se diluíram, estão mortas. Num quadro geral de meios-tons, de que o passado está cheio, tudo tem importância, mas tudo se relativiza mutuamente. Pode acontecer que algumas coisas não seja possível perdoá-las.

Se olho para trás, além da bofetada do meu pai, que não tinha nenhuma razão, e da qual não me esqueci, o que não perdoo é a história que rodeou o Evangelho Segundo Jesus Cristo, e que me fez sair de Portugal. Já passaram mais de dez anos, mas não esqueço. Também não importa nada. Eu faço a minha vida, as pessoas que cometeram esse disparate - só lhe chamo disparate nesta altura - fazem a sua própria, e acabou, mas não contem comigo. É algo de muito profundo. Detesto a hipocrisia. Não suporto aquele que, por natureza, ou por qualquer tipo de deformação moral, se transforma num hipócrita. O que se fez, seria compreensível se vivêssemos numa ditadura. É essa a regra. Agora, em democracia, dizer que um livro não pode representar o país, porque o povo português é maioritariamente católico, é algo que não admito.

Sou uma pessoa tranquila, em relação à religião. Fui baptizado, mas não tive educação religiosa. Nunca senti nenhum apelo emocional. Sou simplesmente um ateu, que nem sequer é capaz de conceber, mesmo só como construção mental, a possibilidade da existência de um Deus.

O dia mais importante da minha vida, à luz dos últimos 18 anos que vivi, foi o encontro com a minha mulher. É um mundo outro que nasce. É um mundo, que sendo o mesmo, o modo de vivê-lo mudou radicalmente com a chegada de Pilar. Se eu tivesse morrido um ano antes de a ter conhecido, teria morrido muito mais velho do que sou agora.

No plano da minha vida activa, há um tempo em que determinada decisão ganha corpo, não duvida de si mesma e de repente manifesta-se. Quando em 1975 perdi o meu emprego no «Diário de Notícias», onde era director-adjunto, encontrei-me numa situação bastante curiosa. Foi decretado o estado de sítio nos últimos dias de Novembro. Não se podia entrar, nem sair de Lisboa. O Mário Castrim e eu tínhamos um encontro marcado para Évora, onde nos reunimos depois de levantado o estado de sítio. Nessa conversa entre militantes do PCP, foi levantada esta questão: agora que se acaba o «DN», seria bom que o Partido tivesse um jornal. No dia seguinte fui ao centro de trabalho do PCP, na Avenida António Serpa, e falei com um dos responsáveis. Comuniquei-lhe que os camaradas do Alentejo tinham manifestado aquela vontade. A resposta que obtive foi a de que já estavam a pensar nisso. Achei que era óptimo e disponibilizei-me para o que fosse necessário. Então nasceu «o diário». Eu tinha dito, «se precisarem de mim, chamem-me». Precisaram de toda a gente ligada ao Partido. Muitos que estavam no «DN» e tinham perdido os seus empregos, transitaram para «o diário». Excepto eu. No fundo, talvez isso tenha razões, para quem as considera assim. Quando eu fui nomeado director-adjunto do «DN» decidi suspender a minha relação orgânica com o PCP. Porque não estava ali para receber indicações ou instruções sobre o que deveria ou não ser publicado. Na parte que me coubesse, a responsabilidade era minha. Vem o 25 de Novembro, acontece aquilo e fico à espera. Bem, no fundo não fiquei à espera que me chamassem, porque intuía, tinha-me apercebido o suficiente para ver que eu não tinha cumprido o meu dever. Não que me negasse a cumprir, mas simplesmente porque não reconhecia esse dever como tal. Portanto, com 53 anos, decido tentar finalmente saber o que é que eu poderia chegar a ser como escritor. É nessa altura que vou para o Alentejo, recolho material, começo a viver de traduções de francês. Em 1977 publico o Manual de Pintura e Caligrafia, em 78 o Objecto Quase, em 80 o Levantado do Chão, em 82 o Memorial do Convento. A partir daí começa outra vida. Essa é também uma das coisas que não perdoo. Continuo a ser militante. A única hipótese que não venha a sê-lo, não é que me separe do partido, é que o partido se separe de mim. No sentido de que o partido se converta numa tal coisa, que eu não possa reconhecer-me lá.

Houve um momento em que imaginámos que o mundo podia ser diferente. A prova de que será possível mudar o mundo está em que, desde a sua existência, o mundo não tem feito outra coisa, senão mudar. Uma das causas da frustração de muita gente é que mudou numa direcção, provavelmente previsível com um pouco mais de atenção, mas que a nossa capacidade de ilusão ou de esperança imaginou poder conduzir por outro destino. Não foi isso que aconteceu. Por isso levanto o debate da democracia.

Quando disse, com grande escândalo, que já não celebro o 25 de Abril, a questão é: porque merda tenho de celebrar o 25 de Abril? Tenho um imenso respeito pelas pessoas que o fizeram, mas um enorme desprezo pelas pessoas que o desfizeram. Hoje temos uma censura que se entranha na pele. Há uma autocensura voluntária, ou melhor, resignada. A autocensura de antes do 25 de Abril tinha uma grande diferença: não era resignada. A censura que sabíamos estar lá fora à nossa espera condicionava a expressão do pensamento, mas a nossa atitude em relação à necessidade de nos autocensurarmos não era de resignação. Não quer dizer que fôssemos melhores jornalistas do que somos agora, mas havia uma diferença imensa. Tínhamos contra quem lutar. Agora, embora se saiba contra quem deveríamos lutar, luta-se pouco.

A vida é uma lição para nós, mas talvez também tenhamos algo para ensinar à vida. Por isso, se nos questionamos sobre o que estamos a fazer aqui, acho-me tão ignorante hoje como quando, aos 7 ou 8 anos, me sentava à beira do rio, vendo a água passar.
[Expresso (1683 - Página 34) - Sábado, 29 de Janeiro de 2005]