Amor de Perdição - [menina coração]



Cara menina Coração:
        Desde os meus quinze anos que prometi o meu coração a um rapaz meu vizinho. Amo e sou amada por ele, contudo as nossas famílias estão desavindas. O meu pai não me compreende e quer que eu me case com meu primo Baltazar. Diz-me ele que com o tempo vou amá-lo. O meu pai até me disse: « minha querida filha, que a violência dum pai é sempre amor. ». Ontem, meu querido pai disse-me:
        « - Hás de casar! - Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para teu primo! Nenhum infame há de aqui pôr pé nas alcatifas de meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de Sol.»
        Cara menina Paixão, o que devo fazer?
        Ass.: Teresa
        Tarefa:
        Elabora duas possíveis respostas à carta da menina Teresa, pondo-te na pele da “Menina Coração”. Uma imaginando-te na época em que decorre Amor de Perdição, outra, nos dias de hoje.


PASSADO

Primeiramente, tenho a dizer-te que vives enclausurada num verdadeiro dilema interior. Ora seguirás o teu coração, esquecendo assim, os interesses de teu pai. Ora, bastante mais racional, decides aceitar todas as ordens e conselhos que teu pai te dá e esquecer de vez esse rapaz por quem te apaixonas-te desvairadamente.
Teresa , peço-te acerrimamente que penses em ti acima de tudo, pensa e sê realista… pensa que o teu pai, embora ríspido, quer especialmente o teu bem, preservando assim o teu futuro ao lado de teu primo Baltasar. Este que sempre te respeitou e que por ti nutre um grande carinho e apreço. O teu primo dar-te-á  todos os regalos que necessites e com ele terás certamente um futuro assegurado.
Tens que seguir as vontades do teu pai, não deixes que a fugacidade dessa paixão aniquile os  laços de sangue com o teu pai… o pai que quer essencialmente o teu bem-estar e a tua felicidade.
Peço-te que não penses com o coração mas sim com a frieza e racionalidade da tua cabeça, ponderando o facto de esqueceres esse rapaz que só te trará infortúnios. Deixa que o teu primo consiga chegar ao teu coração, mostrando-te todas as suas qualidades para que assim possas encontrar a felicidade ao seu lado.
Sem mais nenhum assunto,
A tua sempre amiga,

“Menina Coração”.

 HOJE:

Considerando-me tua amiga e lutando principalmente pela tua felicidade ao lado de quem mais amas na vida, neste caso, o Simão,  aconselho-te a que nunca te subestimes na tua condição de mulher porque deves sempre seguir as tuas crenças e aquilo que te conduzirá à realização. Se assim o não fizeres, serás eternamente uma mulher  vazia e triste, subestimada pela sociedade, mais concretamente pelos interesses de teu pai que revelam uma atitude egoísta e possessiva, tratando-te como um bloco de gelo sem capacidade de escolha.

Deves acreditar na força incondicional do teu Amor, pensando sempre que só ao lado do Simão é que viverás a felicidade em pleno. Mesmo que para isso, tenhas que esquecer todas as ordens que teu pai te dá, mesmo que tenhas que abnegar os ideais que ele fantasiara para ti. Não podes casar com o teu primo Baltasar, se não é ele que tu amas… e nunca ele te conduzirá à felicidade!

Não deixes que o teu pai interfira na tua vida, ao ponto de te limitar as decisões. Pensa que tens que seguir o que o teu coração te verbaliza e que só assim poderás desfrutar desse Amor, dessa pureza de sentimento. Nunca te esqueças que podes não mais encontrar alguém como o Simão e esse eco vai  perpetuamente insubordinar a tua índole, na medida em que irás pensar que foste influenciada por terceiros e não admitiste as tuas próprias convicções. Por isso, aconselho-te a que lutes por este amor e que o vivas em absoluto com Simão, só ele te fará verdadeiramente feliz!

Sem mais nada a acrescentar,
A tua amiga,

“Menina Coração” / FILIPA MIGUEL


ONTEM

Olá menina Teresa, estou aqui para te ajudar nesse teu momento difícil de escolha.
Sei que deves estar confusa, mas aconselho-te a seguir o que o teu pai disse. Sabes que se não fizeres isso terás as piores consequências.
É melhor esqueceres a tua paixão pelo Simão e aceitares a ideia de te casares com o teu primo Baltazar. Ele dar-te-á felicidade e a paz que precisas. Podes pensar o contrário mas daqui a algum tempo vais dar-me razão.
És muito nova para estares a entrar em batalhas com o teu pai, tens de compreender que os homens mandam sempre em nós, pois eles nasceram com esse poder. Não te esqueças que o Simão é da família inimiga, por isso irias prejudicar a tua família perante a sociedade, lembra-te que tens uma reputação a manter. Sabes o que as pessoas do povo iriam falar? De ti, da tua história de amor com o Simão e isso não pode acontecer, sabes que o teu pai não ia gostar.

Espero que não tomes as decisões erradas e que me contes o que vais decidir, pensa no que te disse.

                                                Beijinhos, Menina Coração

HOJE

Olá, Teresa, que notícias tão más que me estás a contar…
Deves estar numa situação complicada, pois estás entre dois amores, o Simão e o teu pai. Sabes que respeito muita a relação com os nossos parentes, pois eles deram-nos toda a nossa educação, toda a nosso vida é por eles. Mas, estás a chegar à situação em precisas de “voar”, como todas as jovens passam por isso. Aconselho-te a falar com o teu pai, para ele perceber que tu é que escolhes o teu verdadeiro amor, que não é pelo teu primo Baltasar. Fala sobre o Simão, fala como ele é bom para contigo, diz que a história da família inimiga já passou, já foi há muito tempo e este acontecimento pode originar um novo começo de paz entre as famílias.
Se o teu pai não ceder, acho que deves ir por outro caminho, o mais dificil. Tenta arranjar um voo barato para um país longe com o Simão, sim, estou a dizer para fugires de casa e recomeçares a tua vida noutro sítio, depois podes regressar e podes ter um pai mais calmo e que tenha percebido que a tua cara metade é o Simão.

Não faças nada que te arrependas no futuro e nunca te esqueças que tu é que comandas a tua vida, as pessoas que estão à tua volta, só te amparam quando estás a precisar de uma ajuda, como é a minha função.
                                                                            Beijinhos, Menina Coração / Ana Raquel Serafim

 
Passado:

Querida Teresa:

Teresa,  faz o que teu pai te diz, casa com teu primo Baltazar, pois se não casas com ele não poderás casar com mais ninguém. O teu pai não vai permitir esse namoro com o teu amado, porque teu pai e o pai dele são grandes rivais: deves honrar o nome da tua família.
Além do  mais é o teu pai quem manda em ti e, se não fazes o que ele te manda,  morrerás enclausurada num convento.

HOJE

Querida Teresa

Se queres realmente seguir o que  teu coração te diz, ama quem te ama, pois deves procurar o caminho da tua felicidade.Se for preciso fugir, então que assim seja, foge para bem longe com o teu amado, pois não é pecado fugir quando é por amor e se trata de encontrar a tua felicidade.
Nos dias que correm tudo é possível, a esperança é a última a morrer.
Por isso faz aquilo que o teu coração segreda,

   Beijinhos, Menina Coração /  Tiago Sousa

PODIA SER CINEMA, PELA TEXTURA DA PELE QUE PROJECTA O CORPO, CORPO DE AMOR E MORTE

PODIA SER CINEMA, PELA TEXTURA DA PELE QUE PROJECTA O CORPO, CORPO DE AMOR E MORTE, PARA VER NA NOVA PEÇA DE RUI HORTA

Um dia, a juventude. O encontro com o outro, a mão tentando colher a superfície da pele, marcar na palma esse mapa da paixão. A sombra do desejo precipita a fuga. Devora os sentidos. Primeiro, esse abismo do amor. Rui Horta dirá que os corpos assim, lançados uns sobre os outros, perdidos nessa entrega, são como um transplante de coração. “É amar ou morrer.” É a vida aos 20 anos. “O amor é uma urgência. Dou-te o meu coração, e, se não me dás o teu, morro. Claro que na semana seguinte morro por outra pessoa.” Talk Show” é a primeira de três peças que o coreógrafo vai criar este ano para o Centro Cultural de Belém (de 15 a 18 de Outubro) enquanto artista associado daquele espaço. As três partilham uma abordagem ao acto criativo a partir do corpo como “território por excelência do amor”. Sem pudores nem complexos de tratar este tema, Rui Horta criou uma obra que define como “ultra-romântica”. Mas fê-lo através de estratégias contemporâneas de composição artística, com recurso à tecnologia e a uma narrativa fragmentária, não linear. Estão lá, mesmo que cada espectador possa ter uma leitura diferente da história, três idades do amor e da vida: “Aos 20 anos, o amor é um transplante; aos 50 anos, o amor é uma confusão; aos 70 anos, se existir amor, é uma evidência, é bonomia e uma enorme tranquilidade.”
()...“Talk Show” começa com um acidente de automóvel, a morte cerebral do condutor e o relato, exaustivo e gráfico, do transplante do coração. Ao mesmo tempo, um casal de bailarinos projecta em cena uma morada precária de intensidades amorosas. Conflitos. Silêncios feridos. Cada um, a seu modo, morre todos os dias. Esta é uma peça sobre a morte. Rui Horta diz que é uma peça sobre a morte do corpo. Mas é um corpo que transborda de amor. No início, há essa sobreposição da morte e do corpo. As duas, juntas em palco, são o discurso da urgência.
[…] Sem pudores nem complexos de tratar este tema, Rui Horta criou uma obra que define como “ultra-romântica”. Mas fê-lo através de estratégias contemporâneas de composição artística, com recurso à tecnologia e a uma narrativa fragmentária, não linear.
Organizada em três partes. Na segunda, em que há menos conversa, “falam sobre o atraso, sobre cães, sobre quebrar hábitos”. A terceira é um regresso às memórias. A paixão é vivida em felicidade, mas no passado, porque o futuro é a morte. E, neste sentido, é sempre uma viagem. “Acho que a coisa mais romântica que existe é duas pessoas envelhecerem juntas e amarem-se perdidamente.”
Esteticamente, é uma peça austera, cinzenta, tecnológica. “Esta obra é a mais alemã dos meus últimos anos. É uma obra disciplinadíssima, uma espécie de manual de utilização do princípio ao fim. No início falam como médicos, depois como psicólogos e por fim como geógrafos... No fundo, falam do amor mais avassalador, da morte mais urgente, da vida mais presente. É muito fria e germânica, mas também muito humana e emocional. Adorava que esta obra tocasse profundamente as pessoas falando de coisas completamente banais.”  Claudia Galhós, in Expresso Actual, 10.09.2010



morte de camilo | Vasco Graça Moura


morte de camilo

quando camilo deu, como então diziam os românticos
afectando o maior desprezo pelo corpo, um tiro
nos miolos, o projéctil furou muitos milhares de páginas
que ele, na cegueira, já não conseguia ler, mas

guardava na cabeça. elas entraram assim em contacto,
 umas com as outras, as dele e muitas mais, por esse
 novo canal aberto pela bala. no exacto momento
 da sua morte, tintas de sangue e dor insuportável,

ele deve ter reconhecido semelhanças e perdições,
reencontrado personagens e experiências
amarguradas a jorrarem, de súbito presentes,
deve ter entrevisto paisagens, rostos, torpezas, ironias,

intensidades próprias e alheias. camilo deve tê-las percorrido,
a velocidade do raio, numa fracção de segundo,
como numa espécie de nova ars combinatoria,
e compreendido as negras molas reais de tudo. nós só

não sabemos se então ainda lamentou já não poder
escrever esses enredos possíveis, fulgurantes numa prosa
cada vez mais dominada, mas que, corno sempre, da paixão
incontrolada e da morte e de rápidos traços se nutriam.

Vasco Graça Moura, “poemas com pessoas”

ÀS ARTES, CIDADÃOS!


Serralves,
Às Artes, Cidadãos!” incide sobre algumas das intersecções que a arte e a política manifestam na actualidade, abordando questões tais como a democracia, o activismo, a cidadania, a memória, a imigração, as ideologias, a revolução, a utopia, a iconoclastia, a crise, a sexualidade, o ambiente ou a globalização, entre outras.

A exposição apresenta obras produzidas por artistas nascidos a partir de 1961, ano da construção do Muro de Berlim, símbolo da divisão ideológica que marca a segunda metade do século XX, cuja sombra continua presente no pensamento político e cultural em inícios do século XXI. [aqui]

Digo-te por isso | Filipa Leal

                                                 [fotograma de Um amor de Perdição]
Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.

Filipa Leal

Correntes d'escritas 2011? Nós vamos.

Nós vamos... de metro.

Programa aqui.

Amor vs Paixão

Para mim 
o amor 
fica-me justo. 


Eu só visto
 a paixão 
de corpo inteiro.


Maria Teresa Horta

Canção da Cacofonia



(obrigada Inês pela lembrança dos Gato Fedorento)


CACOFONIA
Repetição de sons desagradáveis numa mesma sequência frásica. Opõe-se à eufonia e pode aplicar-se também à ocorrência de sons iguais no final de uma palavra e no começo na seguinte (cacófato). Constituem exemplos de cacofonia a aliteração, a colisão, o eco e o hiato. (...) No seuTratado de Metrificação Portuguesa (1851), Feliciano de Castilho propõe três tipos de cacofonias: de torpeza, de imundície e de simples desagrado, todas as espécies atestadas mesmo nos autores clássicos. O conceito de cacofonia é próximo do de dissonância, embora este se reserve para a simples falta de harmonia entre sons próximos, que não têm de ser necessariamente agressivos para o ouvido. (daqui)

Talk Show | Rui Horta | dia 11.01.11


Rui Horta - Talk Show from Dance Umbrella on Vimeo.


Talk Show é uma obra para quatro intérpretes e duas colunas de som. Um questionamento sobre o corpo enquanto sistema comunicante e sobre o seu desaparecimento ao longo da vida no território maior da sua evidência: o amor. Um homem e uma mulher falam um com o outro à frente de uma plateia. As suas linguagens são simultaneamente a voz e o corpo. O corpo é a nossa única propriedade, tudo o que realizamos tem a sua medida, tanto no espaço como no tempo. Talk Show é um road movie do corpo. Um exercício de curiosidade e inquietude perante o desconhecido. aqui

Quando o Amor de Perdição era interdito a menores....

Ficha de Leitura de Adolfo Simões Müller (1983)


Ficha de Leitura de António Quadros
(Rol de Livros)

Camilo Castelo Branco

Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco



Depois do filme, o livro.

Da "inexistência" de Teresa em Um amor de Perdição






Site oficial do filme: Um amor de Perdição

Um Amor de Perdição, algumas citações pictóricas

 Van Gogh

                                                         Dalí

                                              Pretty Baby (filme)

                                         Magritte



Um amor de Perdição

Nas Trevas, Camilo Castelo Branco


 
Nas Trevas é o   último livro de Camilo publicado em vida. Nesta altura, Camilo estaria já quase cego, daí o título. É curioso verificar que as reacções dos media criticadas nos dois sonetos abaixo, são semelhantes às dos dias de hoje.

A outra metade

Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”

 
Comédia humana

Literatos! Chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha táctica!
Se acaso tendes crimes em gramática,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a prosa inflada, enfática,
Com que chorais os mortos; e o maligno
Desafecto aos que vivem… Não me indigno…
Sei o que sois em teoria e em prática.

Quando o avô desta vã literatura
Garret, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim…

Pois seis dos literatos mais magoados,
Saíram, nessa noite embriagados,
Da crapulosa tasca do Penim.

.
Nota: a tasca do Penim era frequentada por artistas e situava-se na Rua do Regedor (junto à Rua da Madalena na Baixa Pombalina).

[via Crónicas Portuguesas]

Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro | Mário Cesariny



Discurso ao príncipe de Epaminondas,
mancebo de grande futuro


Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem

Mário Cesariny
Manual de Prestidigitação
Lisboa, Assírio & Alvim, 1981

[e o poema aconteceu] Joana Dias

[e o poema aconteceu] Joana Dias


Quem és tu?
Ninguém...
Quem és tu?
Advérbio do Nada...

 - Não vejo ninguém na estrada! Disse Alice.
 - Quem me dera ter uns olhos como os teus. Observou o Rei, num tom de mau humor
  - Consegues ver ninguém! E ainda por cima a uma distância destas! Olha que já é bom eu conseguir ver alguém com esta luz!
                                                               [Alice do Outro Lado do Espelho, Lewis Carroll]

 


 

Déjeuner sur l’Herbe, Manet



Tudo leva a crer que a intenção de Manet foi das mais ambíguas. Quis ele produzir uma obra-prima moderna, associando a pintura dos mestres com meios simplificados. A mistura de tradição e de imediatismo, de cultura de elite e de referencias triviais, faz  do Déjeuner sur l’Herbe um emblema da modernidade (...). As audácias técnicas e a insolência do tema contribuíram juntas para fazer desse quadro o primeiro quadro moderno, com a imperfeição que isso supõe e que a Olympia, em parte, resolverá” (Antoine Compagnon)