O Valor do Vento, Ruy Belo

O Valor do Vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo

Shadi Ghadirian

Um Lugar para os clássicos

Azul Longe nas Colinas: final de período com teatro






'Azul Longe nas Colinas', de Dennis Potter, com encenação de Beatriz Batarda.

Exactamente Antunes, a partir de NOME DE GUERRA de ALMADA NEGREIROS , JACINTO LUCAS PIRES



 [Acto 1, Cena 6]
    ÀS VEZES O DIA COMEÇA À NOITE
      À SEGUNDA VEZ QUE SE NASCE, ASSISTE-SE AO PRÓPRIO NASCIMENTO
      AS PESSOAS PÕEM NOMES A TUDO E A SI PRÓPRIAS TAMBÉM
  UM PAR SEM OUTRO SENTIDO ALÉM DE PAR
                     QUANTO MAIS SE SABE, MAIS VAI FICANDO POR SABER

[Ao mesmo tempo, uma canção com estas palavras baralhadas? Esta letra em cima da música o É pr'amanhã, do Variações?]

Às vezes os nomes começam pessoas
À segunda vez, somos um número par
Se ele há dias maus, ai ela há noites boas
Tantas pessoas ficam por começar

Quanto mais tudo, tudo tão mais além
Nenhum sentido que não o musical
Chama-me nomes a ver se sou alguém
Matas-me bem e não fazes por mal

Nesta hora , Sophia de Mello Breyner Andresen,

Nesta hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo


Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade


Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida


O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade

Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe


A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados


Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão 

Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão


Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção –


Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste 


Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra poética III, 2ª Edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1996, pág. 197-198.

Dactilografia, Álvaro de Campos

Dactilografia

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos

Man on Wire

«foi em 8 de Março de 1914 » - Génese dos heterónimos


«Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer urna partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espé­cie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qual­quer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só.» "in  Carta a Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos heterónimos

Quando as irmãs no Carnaval | Adília Lopes

 Carnaval sur la plage, Ensor

Quando as irmãs no Carnaval
(sobretudo no Carnaval)
iam a bailes
e ela ficava em casa
porque não a tinham convidado
escrevia no diário
a verdadeira vida está nos bailes de Carnaval
a que as minhas irmãs vão
e quando uma noite num baile de Carnaval
a que as irmãs lhe pediram que fosse
mascarada de órfã
ela ficou sentada entre um espelho e um reposteiro
a ver as irmãs dançar
pensou
quem me dera estar no meu quarto
a escrever no meu diário
perdi o hábito de escrever no meu diário
«gostava de dançar»
sentiu uma pontada no joanete do pé esquerdo
(um joanete minúsculo
mas em todo o caso um joanete)
e descalçou o sapato com o outro sapato
as irmãs apareceram-lhe todas de repente
já com os abafos vestidos
e ela na atrapalhação de não ficar para trás
esqueceu-se do sapato
debaixo da cadeira
era um sapato de salto raso
e de sola fina
não se dava muito pela falta dele
quando ela deu pela falta dele
ainda estava na escada
mas por acanhamento
não voltou atrás
voltou no dia seguinte
a uma hora a que só podia ver as criadas
(que a intimidavam mais que a dona da casa
mas bem menos que as filhas da dona da casa)
desculpe vir a esta hora
mas acho que deixei cá ontem à noite
um sapato
e as criadas tiveram tanta pena dela
à vista do sapato
que a levaram para a cozinha
e lhe deram leite-creme e pãezinhos doces
a mais velha embrulhou com muito cuidado
o sapato
e ela despediu-se das três com um aperto de mão
desceu pela escada de serviço aliviada
com o embrulho debaixo do braço
mas ouviu uma risada para os lados da cozinha
encolheu os ombros
o sapato tinha custado uma fortuna
era italiano de pelica

Adília Lopes



A intriga, James Ensor

Tédio existencial pessoano

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reincarnar, reincarnarei sem mim, sem ter eu reincarnado.
Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu.
Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Ed. Ática,1982

A outra, Ana Teresa Pereira

A OUTRA Ana Teresa Pereira Relógio D'Água, 68 págs., €12 
 Já lemos e gostámos.




"A Outra": O ponto de vista do fantasma 
por José Mário Silva (daqui)


Em 2004, numa das suas crónicas no "Público", Ana Teresa Pereira escreveu o seguinte: "No conto 'O Desenho no Tapete' (...), Henry James fala do 'segredo' que o autor vai tecendo no próprio corpo do texto, o fio no qual estão enfiadas as pérolas, enfim, a verdadeira história que, se o romance ou conto tiver vida, está em todas as partes, e é contada por cada palavra, por cada sinal de pontuação. Claro que se existe um inconsciente do texto, e eu não tenho dúvidas de que existe, o autor pode ser o último a saber ou até nunca saber. Em 'A Volta no Parafuso', James deixou falar livremente o seu desejo e o seu medo. Mas é o nosso desejo e o nosso medo que vamos encontrar na novela."
Foi a partir desta projeção da escritora madeirense numa história alheia que nasceu o seu livro mais recente: "A Outra", um conto perfeito, daqueles que apetece ler em voz alta, várias vezes - pecando apenas por ser demasiado breve e por apresentar uma estrutura narrativa tão elíptica, tão reduzida ao mínimo dos mínimos, que se torna opaca para quem não conheça a novela de James.

Publicada em 1898, "A Volta no Parafuso" é uma ghost story em que uma precetora chega a um casarão na província para cuidar de duas crianças (Miles e Flora), cujos pais morreram e de quem o tio não se pode ocupar. Um dia, ela começa a ver o que aparentemente mais ninguém vê: um homem e uma mulher que correspondem às descrições de Miss Jessel, a anterior precetora, e Peter Quint, o seu amante, ambos mortos.
A narradora convence-se de que os meninos também reconhecem os fantasmas e que estes querem roubá-los. O desenlace é trágico. Ainda hoje, há discussões entre os leitores da novela em torno da questão de saber se os fantasmas eram reais ou apenas alucinações, fruto de um estado psicótico da protagonista. Depois de Freud, a história fantástica de James até pode ser reduzida a um caso clínico, mas não perde a sua capacidade de nos perturbar.

Virar a história do avesso


O que Ana Teresa Pereira faz não é apenas contar de novo esta história. É olhá-la de outra perspetiva. É virá-la do avesso, para nos mostrar o ponto de vista de Miss Jessel, o fantasma. É, no fundo, invadir o território de James com a sua própria linguagem: ali onde um se demora, construindo lentamente a tempestade, a outra espalha relâmpagos, fragmentos curtos, súbitos clarões. E, como sempre nos seus livros, há insistências, simetrias, circularidades, imagens que se repetem vindas de obras anteriores: as charnecas batidas pelo vento, as flores; ou o lago "assombrado", com uma "leve neblina" a nascer das águas.
No princípio, vemos como Miss Jessel se predispõe a desempenhar o papel principal, semelhante ao das heroínas dos romances que lia às escondidas do pai ("Jane Eyre" e "O Monte dos Vendavais", com esse Heathcliff capaz de lhe tirar o sono).
Ela é bonita e tem consciência da sua beleza: cabelo cor de cobre pela cintura, olhos azuis, uma aura como a das mulheres etéreas e carnais pintadas por Dante Gabriel Rossetti. Já Quint parece uma "versão áspera e brutal" do seu patrão, o senhor de Bly, de cujas roupas e pose se apropria. Ele é o homem omnipresente, à janela ou no cimo da torre, o que tem "todo o conhecimento das coisas selvagens", o ator ("quase como alguém", mas "só quase") que há de representar com Miss Jessel uma "peça diabólica", em que no limite usurpam as próprias crianças: "E Miles e Flora caminhavam num mundo criado por nós. E sentiam-se protegidos, e felizes."
Até que a morte os relega para o lugar de quem não encontra "o caminho para o Céu ou para o Inferno".
Quando, por fim, se reconhecem e enfrentam, as duas precetoras tocam no tal "segredo" mais fundo do texto: "Por quem está apaixonada a precetora de cabelo castanho?" A resposta óbvia seria Quint, mas Ana Teresa Pereira, na crónica de 2004, insinua que pode ser Miles. Na verdade, tanto faz. Porque "os fantasmas de Bly são os nossos" e, tal como em relação à história original de James, "é o nosso desejo e o nosso medo que vamos encontrar".

Talk Show | Rui Horta | por Filipa Miguel





Tendo como horizonte referencial as obras que conheces do romantismo português, explica num texto de 70 a 100 palavras, por que motivo Talk Show é, segundo Rui Horta, uma peça “ultra-romântica".
Talk-Show de Rui Horta é, tal como o próprio autor afirma, uma obra ultra-romântica, dado que há obsessão pela  da Morte.
Esta temática é comum a  todas as obras românticas e, em Talk Show, percebemos a fugacidade da vida, de como de um instante para o outro “o corpo se pode apagar”. Nesta peça, fala-se do corpo como o único espectador da longa viagem, sendo a nossa única propriedade.
Uma vez mais, há uma supervalorização do interior humano, há a busca das efemérides do passado como sendo cruciais ao presente e condicionando o futuro. Outras das características que fazem deste espectáculo ultra-romântico são os constantes duelos, as idealizações contínuas, o negativismo e o egocentrismo.
 

A CARTA DA CORCUNDA PARA O SERRALHEIRO | Fernando Pessoa


[monólogo inicial de Sombras ]
A CARTA DA CORCUNDA PARA O SERRALHEIRO

Senhor António:

O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciú­mes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o se­nhor não me desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo [sic] não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre se riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importân­cia em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e es­tou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Ingla­terra, eu às vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me jul­gam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da des­culpa, porque assim não tenho que explicar por que é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que es­tava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem mor­reria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.
O senhor que anda de um lado para o outro não calcula qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as ter­ras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que fi­cou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me di­zer adeus da rua, e eu gostava de se lhe puder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não sou mu­lher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma es­pécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!), o Antó­nio da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou toda a chorar.

MARIA JOSÉ

Prosa Íntima e de Autoconhecimento
Fernando Pessoa

Poema, Mário Cesariny

Poema

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes   loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos   e na boca
Mário Cesariny
In Pena Capital. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 44