A Morte do Palhaço, de Raul Brandão



«a vida aborrece [...] queres vingar-te?... Sonha!»

«queres ser rei? Queres vingar-te?... Sonha»
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A Biblioteca | Gonçalo M. Tavares [in Senhor Juarroz]

O senhor Juarroz gostava de organizar a sua biblioteca de maneira secreta. Ninguém gosta de revelar segredos íntimos. O senhor Juarroz primeiro organizara a biblioteca por ordem alfabética do título de cada livro. Rapidamente, porém, foi descoberto. O senhor Juarroz organizou depois a sua biblioteca por ordem alfabética, mas tendo em conta a primeira palavra de cada livro. Foi mais difícil, mas ao fim de algum tempo alguém disse: já sei! A seguir o senhor Juarroz reordenou a biblioteca, mas agora por ordem alfabética da milésima palavra de cada livro. Há no mundo pessoas muito perseverantes, e uma delas, depois de muito investigar, disse: já sei! No dia seguinte, assumindo este jogo como decisivo, o senhor Juarroz decidiu arrumar a biblioteca a partir de uma progressão matemática complexa que envolvia a ordem alfabética de uma determinada palavra e o teorema de Godel.

Assim, para estranheza de muitos, a biblioteca do senhor Juarroz começou a ser visitada, não por entusiastas da leitura, mas por matemáticos. Alguns passaram tardes a abrir os livros e a ler certas palavras, utilizando o computador para longos cálculos, tentando assim encontrar a todo o custo a equação matemática que desvendasse a organização da biblioteca do senhor Juarroz. Era, no fundo, um trabalho de descoberta da lógica de uma série, semelhante a 2|9|30|93 Pois bem, passaram dois, três, quatro meses, mas chegou o dia.

Um reputado matemático, completamente vermelho e eufórico, segurando, na mão direita, num bloco gigante coberto de números, disse: já sei!, e apresentou depois a fórmula de progressão da série que baseava a organização da biblioteca. O senhor Juarroz ficou desanimado e decidiu desistir do jogo. Basta!
No dia seguinte pediu à sua esposa para organizar a biblioteca como bem entendesse. Por ele estava farto.
Assim foi. Nunca mais ninguém descobriu a lógica da organização da biblioteca do senhor Juarroz.

Gonçalo M. Tavares

ECOS E MEMÓRIAS DE A Morte do Palhaço, Nuno Júdice

ECOS E MEMÓRIAS DE A Morte do Palhaço

Quando publiquei a minha primeira obra de ficção, Plâncton, Vergílio Ferreira procurou situá-la dentro de uma tradição do romance português. Numa conversa que tivemos no extinto café Monte Carlo, em Lisboa, falou de duas linhas ficcionais que se polarizavam em Raul Brandão e Eça de Queiroz, e colocava-me dentro da linha brandoniana que, segundo ele, remontava à Menina e Moça de Bernardim Ribeiro. Não se contrariam os Mestres (para além de tudo, Vergílio Ferreira fora meu professor de grego no liceu Camões), e aceitei de bom grado esta minha inclusão no que me parecia ser uma família melancólica e nocturna que, além do mais, se inscrevia dentro de um universo que me era próximo: o dos nórdicos, como Strindberg e Kierkegaard, e o de russos como Dostoievski e o Tolstoi das novelas, não o épico da Guerra e Paz. O tempo passou, outras coisas foram surgindo e apagando esta ilustre linhagem até que, quando João Brites há já mais de uma década me propôs uma releitura de Raul Brandão para o seu espectáculo a partir de A Morte do Palhaço, representado no Teatro Maria Matos, me lembrei dessas palavras de Vergílio Ferreira e entrei no jogo que consiste em entrar na cabeça de um outro, e puxar de dentro dos seus fantasmas aquilo que se poderá cruzar ou confundir com o meu próprio imaginário. Não precisei de um grande esforço para descobrir uma identidade profunda com o universo de A Morte do Palhaço, que então me falou mais do que o Húmus, que só recentemente redescobri numa leitura que dele fiz na sua absoluta e total singularidade de entrar na sociedade pela voz e pela alma dos que ela despreza e silencia. Muito antes de Beckett, o que Raul Brandão faz é assumir o lugar dos marginais e excluídos e levá-los ao estatuto de uma santidade negativa, como sucede com Eponina que é, sem dúvida, uma das figuras femininas mais fortes da nossa literatura, ao lado de outras como a enigmática “menina” de Bernardim ou a Maria do Frei Luís de Sousa de Garrett. O drama é pintado com as cores negras e violentas do expressionismo, de que Brandão é contemporâneo e, pode dizer-se, um cultor, embora nada possa demonstrar que tenha conhecido esse movimento e apreciado o seu radicalismo estético. Porém, se quisermos ter um retrato do que foi o Portugal dessa transição da Monarquia para a República, e a miséria mais extrema dos que estavam por baixo, desde os camponeses às criadas de servir, do poeta pobre às prostituta que por vezes eram quase crianças, como algumas de que fala no diário, é nele que o teremos de ir procurar. E esse retrato é feito sob a forma de um fresco monumental em que entram todas as classes e todas as regiões, como se Brandão se tivesse dado como projecto guardar a memória de uma época que, sob uma forma mais atenuada, só tem equivalente nos romances de Aquilino Ribeiro (outro grande esquecido nos dias de hoje). João Brites voltou a dar voz a essas personagens, e pô-las em cena de uma forma criativa, recuperando esse tom do expressionismo e do excesso de uma prosa inigualável. Depois dele, outras encenações de obras de Brandão surgiram, em particular a partir do Húmus. É por isso de toda a actualidade recuperar essa encenação, recriando-a, e ver como essa prosa se transforma em discurso e em canção, sem que para isso tenha sido necessário afastarmo-nos da sua linguagem. Com efeito, como Herberto Helder já fizera, a escrita de Brandão molda-se facilmente à poesia;e sobre o barro dessas palavras surgem estas construções teatrais que dão vida, de novo, a uma obra que eu classificaria como o anti-Livro do Desassossego, dado o eco de um mundo subterrâneo e inconsciente que, sob um fundo de crenças e de esperanças traídas, corporiza uma época sombria. Também por isto, Raul Brandão volta a ser actual e esta Morte do Palhaço põe-nos perante uma voz que merece ser escutada. (aqui).

A Morte do Palhaço, de Raul Brandão



«De uma galeria de figuras marginais que se encontram de passagem no seu percurso infindável, de uma colecção de refugiados cujo olhar está sempre à espera de um Verão que nunca chega, surge-nos um palhaço indigente que se ergue contra o mundo, “como se um bicho de esgoto criasse asas e se pusesse a voar”. Passados vinte anos, o Teatro O Bando regressa às palavras de Raul Brandão (1867-1930) e à música de José Mário Branco, mas a este gesto dificilmente poderíamos chamar reposição, porque no caso concreto destes incansáveis alquimistas, uma nova paisagem cénica e uma nova visão dramatúrgica implicam necessariamente outras formas de organização e percepção. A Morte do Palhaço que co-produzimos e apresentamos no claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória é um espectáculo onde a luta quotidiana se aproxima dos sonhos, ainda que para tal tenha de sacrificar a realidade. Um espectáculo que procura derrubar portas invencíveis, portas que não se abrem, que não se vergam e que só cedem sob o peso de uma vida, pois sempre morre alguém para que a humanidade dê um novo passo. Passados vinte anos, João Brites regressa inquieto aos mesmos pontos de interrogação: “Quais são os nossos sonhos e quimeras? E que força precisamos para os atingir? E quem são os nossos pares nesta luta?”» daqui

Toda a poesia é luminosa | Eugénio de Andrade


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade - Os Sulcos da Sede

O Valor do Vento, Ruy Belo

O Valor do Vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo

Shadi Ghadirian

Um Lugar para os clássicos

Azul Longe nas Colinas: final de período com teatro






'Azul Longe nas Colinas', de Dennis Potter, com encenação de Beatriz Batarda.

Exactamente Antunes, a partir de NOME DE GUERRA de ALMADA NEGREIROS , JACINTO LUCAS PIRES



 [Acto 1, Cena 6]
    ÀS VEZES O DIA COMEÇA À NOITE
      À SEGUNDA VEZ QUE SE NASCE, ASSISTE-SE AO PRÓPRIO NASCIMENTO
      AS PESSOAS PÕEM NOMES A TUDO E A SI PRÓPRIAS TAMBÉM
  UM PAR SEM OUTRO SENTIDO ALÉM DE PAR
                     QUANTO MAIS SE SABE, MAIS VAI FICANDO POR SABER

[Ao mesmo tempo, uma canção com estas palavras baralhadas? Esta letra em cima da música o É pr'amanhã, do Variações?]

Às vezes os nomes começam pessoas
À segunda vez, somos um número par
Se ele há dias maus, ai ela há noites boas
Tantas pessoas ficam por começar

Quanto mais tudo, tudo tão mais além
Nenhum sentido que não o musical
Chama-me nomes a ver se sou alguém
Matas-me bem e não fazes por mal

Nesta hora , Sophia de Mello Breyner Andresen,

Nesta hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo


Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade


Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida


O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade

Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe


A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados


Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão 

Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão


Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção –


Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste 


Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra poética III, 2ª Edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1996, pág. 197-198.

Dactilografia, Álvaro de Campos

Dactilografia

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos

Man on Wire

«foi em 8 de Março de 1914 » - Génese dos heterónimos


«Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer urna partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espé­cie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qual­quer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só.» "in  Carta a Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos heterónimos

Quando as irmãs no Carnaval | Adília Lopes

 Carnaval sur la plage, Ensor

Quando as irmãs no Carnaval
(sobretudo no Carnaval)
iam a bailes
e ela ficava em casa
porque não a tinham convidado
escrevia no diário
a verdadeira vida está nos bailes de Carnaval
a que as minhas irmãs vão
e quando uma noite num baile de Carnaval
a que as irmãs lhe pediram que fosse
mascarada de órfã
ela ficou sentada entre um espelho e um reposteiro
a ver as irmãs dançar
pensou
quem me dera estar no meu quarto
a escrever no meu diário
perdi o hábito de escrever no meu diário
«gostava de dançar»
sentiu uma pontada no joanete do pé esquerdo
(um joanete minúsculo
mas em todo o caso um joanete)
e descalçou o sapato com o outro sapato
as irmãs apareceram-lhe todas de repente
já com os abafos vestidos
e ela na atrapalhação de não ficar para trás
esqueceu-se do sapato
debaixo da cadeira
era um sapato de salto raso
e de sola fina
não se dava muito pela falta dele
quando ela deu pela falta dele
ainda estava na escada
mas por acanhamento
não voltou atrás
voltou no dia seguinte
a uma hora a que só podia ver as criadas
(que a intimidavam mais que a dona da casa
mas bem menos que as filhas da dona da casa)
desculpe vir a esta hora
mas acho que deixei cá ontem à noite
um sapato
e as criadas tiveram tanta pena dela
à vista do sapato
que a levaram para a cozinha
e lhe deram leite-creme e pãezinhos doces
a mais velha embrulhou com muito cuidado
o sapato
e ela despediu-se das três com um aperto de mão
desceu pela escada de serviço aliviada
com o embrulho debaixo do braço
mas ouviu uma risada para os lados da cozinha
encolheu os ombros
o sapato tinha custado uma fortuna
era italiano de pelica

Adília Lopes



A intriga, James Ensor

Tédio existencial pessoano

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reincarnar, reincarnarei sem mim, sem ter eu reincarnado.
Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu.
Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Ed. Ática,1982