Revisões da Matéria dada #5 [Literatura Portuguesa]

Comente a seguinte afirmação de Alexandre Herculano:
"Fernão Lopes adivinhou os princípios da moderna história: a vida dos tempos de que escreveu transmitiu-a à posteridade, e não, como outros fizeram, somente um esqueleto de sucessos políticos e de nomes célebres. Nas crónicas de Fernão Lopes não há só história: há poesia e drama; há a Idade Média com sua fé, seu entusiasmo ou amor de glória."


Com efeito, é a Fernão Lopes que se deve a história moderna, pois, como cronista-mor do reino, ele teve o cuidado de, em crónica, deixar registado os factos mais relevantes.
         A verdade, como nota Alexandre Herculano, é que Fernão Lopes foi o primeiro a mostrar preocupação com a verdade dos factos, livre da “mundanal afeição”. De facto, como   refere no Prólogo à Crónica de D. João I,  há um cuidado em dizer a verdade, mesmo que isso implique  não fazer o elogio dos seus. Para tal baseia-se em documentos históricos e em leituras várias, não se deixando, ou melhor, tentando não se deixar contaminar pelos afectos e pelo “sangue”. O povo, em Fernão Lopes, ganha uma expressão redobrada: é a “arraia miúda” quem escolhe o seu líder (vide Mestre de Avis em Crónica de D. João I). A história é feita por todos e não apenas pela nobreza.
O que foi anteriormente referido, não invalida que o cronista não tenha embelezado a língua portuguesa. O cronista serviu-se da língua para exprimir sensações, para nos transportar para a época dos factos. Assim, concordamos com Herculano, pois ler Fernão Lopes é viajar no tempo, é fazer parte da “arraia miúda”.

Revisões da Matéria dada #4 [Literatura Portuguesa]

Tendo presente a sua leitura de alguns dos poetas do século XIX (Almeida Garrett, Antero de Quental, Cesário Verde, António Nobre e Camilo Pessanha), elabore um texto, de cem a duzentas palavras, em que fale do poeta para si mais marcante, apresentando as razões da sua opção.

Almeida Garrett

Almeida Garrett foi, porventura, o poeta mais importante do Romantismo português. Coube a este poeta a tarefa de renovar a poesia portuguesa, introduzindo uma nova linguagem.
“Folhas Caídas” é a expressão vívida da novidade linguística e temática na poesia portuguesa. Aí, o autor de “Frei Luís de Sousa” exprime as contradições do amor, declarando, por exemplo, “não te amo, quero-te”. A um amor físico, carnal, corresponde também uma mulher fatal, uma sereia como a que nos é apresentada em “Barca Bela”.
A renovação linguística consistiu na introdução de um estilo coloquial, da simulação do diálogo, do uso  da pontuação com fins emotivos. A emoção sobra do verso e, por conseguinte, não cabe nas rígidas formas clássicas.
A importância de Garrett, seja na sua modernidade estética, seja na continuidade da tradição, foi reconhecida por Fernando Pessoa. Este poeta diz-se seguidor de Garrett.

Revisões da Matéria dada # 3 [Literatura Portuguesa]

Apresente as suas impressões de leitura sobre uma das seguintes peças de teatro:
Gil Vicente – Inês Pereira ou Lusitânia ou Dom Duardos;
António José da Silva – Guerras do Alecrim e Manjerona;
Almeida Garrett – Um Auto de Gil Vicente ou O Alfageme de Santarém;
Raul Brandão – O Gebo e a Sombra ou O Doido e a Morte;
José Cardoso Pires – O Render dos Heróis.
Redija um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras.
Comece por identificar, na folha de respostas, o nome do autor e o título da obra por si seleccionada.


Farsa Inês Pereira, de Gil Vicente

Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, dito pai do teatro português, datada do séc. XVI versa sobre as relações amorosas e sobre a forma como a mulher é, ou melhor, era, tratada. Neste texto dramático, Gil Vicente criou um enredo onde a mulher assume um papel preponderante.
Na corte duvidava-se da originalidade de suas obras, por isso, e a fim de provar que merecia a fama que tinha, desenvolveu uma intriga a partir do mote popular “Antes asno que me leve, que cavalo que me derrube”. É com base neste dito que é contada a história de Inês Pereira, rapariga idealista, sonhadora que, depois de ver os seus sonhos desfeitos, adopta uma postura mais pragmática na vida.
A novidade desta peça, em nosso entender, prende-se com o facto de a mulher ser apresentada como emancipada. Inês escolhe o seu destino, sem dar ouvidos à mãe, voz da razão, nem à alcoviteira. Porém, mesmo depois do casamento se ter tornado uma decepção, volta a arriscar. No entanto, desta vez Inês não se deixa ludibriar e, para não ser enganada, escolhe um marido “asno”. Consideramos que Gil Vicente ousou, ao não penalizar Inês Pereira pelos seus actos, afinal a sua conduta imprópria foi recompensada e ilustrada pelo provérbio: “Antes asno que me leve, que cavalo que me derrube”. Assim, esta pérola vicentina pode ser considerada uma obra feminista avant la lettre. 

Revisões da Matéria dada # 2 [Literatura Portuguesa]

Apresente as suas impressões de leitura sobre uma das seguintes peças de teatro:
– Gil Vicente – Inês Pereira ou Lusitânia ou Dom Duardos;
– António José da Silva – Guerras do Alecrim e Manjerona;
– Almeida Garrett – Um Auto de Gil Vicente ou O Alfageme de Santarém;
– Raul Brandão – O Gebo e a Sombra ou O Doido e a Morte;
– José Cardoso Pires – O Render dos Heróis.
Redija um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras.
Comece por identificar, na folha de respostas, o nome do autor e o título da obra por si seleccionada.

Um Auto de Gil Vicente, de Almeida Garrett
 Um Auto de Gil Vicente é um drama romântico de Almeida Garrett. Com esta peça, o autor de “Folhas Caídas” procurou, concomitantemente, homenagear Gil Vicente, dito pai do teatro português, e promover uma renovação do teatro.
Neste drama há um triângulo amoroso entre Paula Vicente (filha de Gil Vicente), Bernardim Ribeiro (poeta) e Beatriz (princesa). Paula Vicente representa uma mulher culta e orgulhosa, capaz de abdicar do amor que sente, para não ferir os sentimentos de Beatriz, sua amiga, mas também sua superior. Beatriz, que ama e é amada por Bernardim, cumpre os desígnios de seu pai e, a bem da nação, casa um príncipe italiano. Em nosso entender, Garrett conseguiu exprimir, de forma superior, as subtilezas dos sentimentos que atravessam Paula Vicente, personagem pivot do drama. Note-se que ela é o elo de ligação entre Gil Vicente e Bernardim Ribeiro; entre o elenco da peça; entre os homens da corte italiana e Beatriz.
Almeida Garrett, na escrita deste texto, revelou a sua argúcia ao construir um texto teatral que, dentro dele, num processo metatextual, insere outro texto, Cortes de Júpiter, de Gil Vicente.
Garrett prova à saciedade a sua mestria na arte dramatúrgica, afirmando-se como um dos raros talentos capaz de brilhar quer na narrativa, quer na lírica, quer no género dramático.

Revisões da Matéria dada # 1 [Literatura Portuguesa]

 [daqui]

Apresente um aspecto que considere significativo numa das obras narrativas do século XIX ou do século XX, indicadas no Programa, que tenha lido. Redija um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras. Comece por identificar, na folha de respostas, o nome do autor e o título da obra por si seleccionada.



[rascunho]
Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
Aspecto: Morte (Amor)

•    Amor e morte conjugam-se de forma trágica em Amor de Perdição, porém é um amor que sobrevive à  própria morte, à semelhança de outros amores míticos:  o de Pedro e Inês.
A tragicidade desta novela  adensa-se no final, quando Simão lê a carta de Teresa ela já havia morrido, é um presságio que ele pouco mais tempo viverá- Os dois morrem por e de amor, mas há a acrescentar uma outra  vítima inocente , Mariana.
Mariana é um símbolo de abnegação, ama em silêncio, respeita o amor/ paixão de Simão e Teresa servindo de intermediária e, no final, suicida-se,  morrendo abraçada a Simão.
•    O amor, nesta novela, é uma fatalidade: é por amor que Simão muda, é por amor que Teresa contraria o pai, é por amor que morre Teresa, Simão, Mariana.
•    A novela de Camilo pode resumir-se em poucas palavras: “amou, perdeu-se e morreu amando”.

Não inquiro do anónimo futuro | Ricardo Reis

Não inquiro do anónimo futuro
Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
A ignorância me basta.

Ricardo Reis

Teste

teste aparição 2011-1

O FUTURO | Maria Isabel Barreno


O FUTURO

Ela sujava uma faca, lavava-a logo. Tentava por esse meio evitar o trabalho que t eria, no futuro. Assim que qualquer pingo, qualquer cinza, caía, ela limpava logo. Mantinha a casa impecável, imaculada – na virgindade de um não-uso aparente. Sobre todo o uso real que a casa tinha, com família de quatro pessoas, ela tecia sem parar essa consistente teia de virginal recomeço. Tudo com o fito de manter o futuro limpo: que nenhuma tarefa monstruosa, nenhuma montanha de gordura e de poeira a aguardasse, medonha, num côncavo do porvir. Nesse futuro ela esperaria, sentada, com as mãos no regaço, os grandes acontecimentos – enfim! – da sua vida. A graça das grandes aventuras só poderia chegar abrindo-se-lhe um tempo, depois de todas as tarefas cumpridas, um tempo de repouso num espírito despreocupado.

Por incrível que pareça, esse tempo chegou. Um dia, ela descobriu-se sentada numa cadeira, sem nada que fazer. Os filhos haviam já deixado a casa, o marido morrera. Ela estava só. Conquistara o futuro. Todas as tarefas estavam definitivamente cumpridas, e ela estava disponível para os grandes acontecimentos. Ficou transida de medo vendo à sua frente um enorme vazio: todas as energias do futuro haviam sido gastas em cada presente que ela vivera.

 Maria Isabel Barreno [Contos analógicos]
Portugueses:
gente ousada
gente usada

Brandos usos:
abusos grandes
e pequenos

Adília Lopes

Portugal | Jorge Sousa Braga


Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca

 Jorge Sousa Braga

Os antigos invocavam as Musas. | Álvaro de Campos

Os antigos invocavam as Musas.
Nós invocamo-nos a nós mesmos.
Não sei se as Musas apareciam —
Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação. —
Mas sei que nós não aparecemos.
Quantas vezes me tenho debruçado
Sobre o poço que me suponho
E balido «Ah!» para ouvir um eco,
E não tenho ouvido mais que o visto —
O vago alvor escuro com que a água resplandece
Lá na inutilidade do fundo...
Nenhum eco para mim...
Só vagamente uma cara,
Que deve ser a minha, por não poder ser de outro.
É uma coisa quase invisível,
Excepto como luminosamente vejo
Lá no fundo...
No silêncio e na luz falsa do fundo...
Que Musa!

Álvaro de Campos

Um lugar para os clássicos no TNSJ














Mais um encontro entre o 1.º A da EBI da Corujeira e o 11.ºD. Hoje, no "castelo" da Luísa Portal, que é como quem diz, no Teatro Nacional São João.
Conhecemos os bastidores e levámos Almada Negreiros ao Salão Nobre...

Se eu pudesse havia de... de... | Irene Lisboa

Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

Irene Lisboa


PARA MEMÓRIA FUTURA



Breve Sumário Da História De Deus| Gil Vicente
O Ano Do Pensamento Mágico| Joan Didion
Glosa Nova Da Tragédia De Sófocles| António Pedro
Antígona| Sófocles
O Deus da Matança| Yasmina Reza
O Príncipe de Homburgo| Kleist
Azul Longe nas Colinas| Dennis Potter
A Gaivota| Tchékhov
Hedda| Ibsen
Talk Show| Rui Horta
Sombras| Ricardo Pais
Exactamente Antunes| Almada Negreiros
A Morte do Palhaço| Raul Brandão

... e sexta-feira voltamos...

Pára-me de repente o Pensamento... - Ângelo Lima

"Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?" [Almada Negreiros]







Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

 Ângelo de Lima



Mais poemas de Ângelo de Lima aqui.
Sobre Ângelo Lima: Biblioteca Breve

Curiosidade a editora Mariposa Azual deve o seu nome a um verso deste poeta.

Morte do Palhaço

Aparição

A Morte do Palhaço, de Raul Brandão



«a vida aborrece [...] queres vingar-te?... Sonha!»

«queres ser rei? Queres vingar-te?... Sonha»
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A Biblioteca | Gonçalo M. Tavares [in Senhor Juarroz]

O senhor Juarroz gostava de organizar a sua biblioteca de maneira secreta. Ninguém gosta de revelar segredos íntimos. O senhor Juarroz primeiro organizara a biblioteca por ordem alfabética do título de cada livro. Rapidamente, porém, foi descoberto. O senhor Juarroz organizou depois a sua biblioteca por ordem alfabética, mas tendo em conta a primeira palavra de cada livro. Foi mais difícil, mas ao fim de algum tempo alguém disse: já sei! A seguir o senhor Juarroz reordenou a biblioteca, mas agora por ordem alfabética da milésima palavra de cada livro. Há no mundo pessoas muito perseverantes, e uma delas, depois de muito investigar, disse: já sei! No dia seguinte, assumindo este jogo como decisivo, o senhor Juarroz decidiu arrumar a biblioteca a partir de uma progressão matemática complexa que envolvia a ordem alfabética de uma determinada palavra e o teorema de Godel.

Assim, para estranheza de muitos, a biblioteca do senhor Juarroz começou a ser visitada, não por entusiastas da leitura, mas por matemáticos. Alguns passaram tardes a abrir os livros e a ler certas palavras, utilizando o computador para longos cálculos, tentando assim encontrar a todo o custo a equação matemática que desvendasse a organização da biblioteca do senhor Juarroz. Era, no fundo, um trabalho de descoberta da lógica de uma série, semelhante a 2|9|30|93 Pois bem, passaram dois, três, quatro meses, mas chegou o dia.

Um reputado matemático, completamente vermelho e eufórico, segurando, na mão direita, num bloco gigante coberto de números, disse: já sei!, e apresentou depois a fórmula de progressão da série que baseava a organização da biblioteca. O senhor Juarroz ficou desanimado e decidiu desistir do jogo. Basta!
No dia seguinte pediu à sua esposa para organizar a biblioteca como bem entendesse. Por ele estava farto.
Assim foi. Nunca mais ninguém descobriu a lógica da organização da biblioteca do senhor Juarroz.

Gonçalo M. Tavares

ECOS E MEMÓRIAS DE A Morte do Palhaço, Nuno Júdice

ECOS E MEMÓRIAS DE A Morte do Palhaço

Quando publiquei a minha primeira obra de ficção, Plâncton, Vergílio Ferreira procurou situá-la dentro de uma tradição do romance português. Numa conversa que tivemos no extinto café Monte Carlo, em Lisboa, falou de duas linhas ficcionais que se polarizavam em Raul Brandão e Eça de Queiroz, e colocava-me dentro da linha brandoniana que, segundo ele, remontava à Menina e Moça de Bernardim Ribeiro. Não se contrariam os Mestres (para além de tudo, Vergílio Ferreira fora meu professor de grego no liceu Camões), e aceitei de bom grado esta minha inclusão no que me parecia ser uma família melancólica e nocturna que, além do mais, se inscrevia dentro de um universo que me era próximo: o dos nórdicos, como Strindberg e Kierkegaard, e o de russos como Dostoievski e o Tolstoi das novelas, não o épico da Guerra e Paz. O tempo passou, outras coisas foram surgindo e apagando esta ilustre linhagem até que, quando João Brites há já mais de uma década me propôs uma releitura de Raul Brandão para o seu espectáculo a partir de A Morte do Palhaço, representado no Teatro Maria Matos, me lembrei dessas palavras de Vergílio Ferreira e entrei no jogo que consiste em entrar na cabeça de um outro, e puxar de dentro dos seus fantasmas aquilo que se poderá cruzar ou confundir com o meu próprio imaginário. Não precisei de um grande esforço para descobrir uma identidade profunda com o universo de A Morte do Palhaço, que então me falou mais do que o Húmus, que só recentemente redescobri numa leitura que dele fiz na sua absoluta e total singularidade de entrar na sociedade pela voz e pela alma dos que ela despreza e silencia. Muito antes de Beckett, o que Raul Brandão faz é assumir o lugar dos marginais e excluídos e levá-los ao estatuto de uma santidade negativa, como sucede com Eponina que é, sem dúvida, uma das figuras femininas mais fortes da nossa literatura, ao lado de outras como a enigmática “menina” de Bernardim ou a Maria do Frei Luís de Sousa de Garrett. O drama é pintado com as cores negras e violentas do expressionismo, de que Brandão é contemporâneo e, pode dizer-se, um cultor, embora nada possa demonstrar que tenha conhecido esse movimento e apreciado o seu radicalismo estético. Porém, se quisermos ter um retrato do que foi o Portugal dessa transição da Monarquia para a República, e a miséria mais extrema dos que estavam por baixo, desde os camponeses às criadas de servir, do poeta pobre às prostituta que por vezes eram quase crianças, como algumas de que fala no diário, é nele que o teremos de ir procurar. E esse retrato é feito sob a forma de um fresco monumental em que entram todas as classes e todas as regiões, como se Brandão se tivesse dado como projecto guardar a memória de uma época que, sob uma forma mais atenuada, só tem equivalente nos romances de Aquilino Ribeiro (outro grande esquecido nos dias de hoje). João Brites voltou a dar voz a essas personagens, e pô-las em cena de uma forma criativa, recuperando esse tom do expressionismo e do excesso de uma prosa inigualável. Depois dele, outras encenações de obras de Brandão surgiram, em particular a partir do Húmus. É por isso de toda a actualidade recuperar essa encenação, recriando-a, e ver como essa prosa se transforma em discurso e em canção, sem que para isso tenha sido necessário afastarmo-nos da sua linguagem. Com efeito, como Herberto Helder já fizera, a escrita de Brandão molda-se facilmente à poesia;e sobre o barro dessas palavras surgem estas construções teatrais que dão vida, de novo, a uma obra que eu classificaria como o anti-Livro do Desassossego, dado o eco de um mundo subterrâneo e inconsciente que, sob um fundo de crenças e de esperanças traídas, corporiza uma época sombria. Também por isto, Raul Brandão volta a ser actual e esta Morte do Palhaço põe-nos perante uma voz que merece ser escutada. (aqui).