Vamos ao teatro?



Joseph Danan soube porque escrevia peças para crianças quando começou a receber mensagens de telemóvel do filho que então crescia na barriga da mãe, contando-lhe a sua vida de bebé por nascer. Não esperemos banalidades de Danan. Francês, romancista, ensaísta, professor de dramaturgia contemporânea e escritor de peças, primeiro para adultos, e mais recentemente para públicos infanto-juvenis, onde se estreou com As Aventuras de Auren, o Pequeno Serial Killer (2003) e prosseguiu com Jojo, o Reincidente (2007) e Dodô – No Rasto do Pássaro do Sono (2010). Obras onde o humor e a crueldade andam de mãos dadas, como se ele nos quisesse dizer que em cada criança vive um poeta e um terrorista. Jojo imagina para se rebelar contra as normas que lhe são impostas pelo mundo dos adultos, e essa imaginação fala através dos objectos mesmo antes de falar por palavras (a peça é um conjunto de didascálias que propõe uma sequência de cenas sem diálogos). Jojo, o Reincidente é assim uma viagem pelas liberdades e direitos concretos da infância, onde as crianças se inventam e, ao fazê-lo, se formam a si mesmas. Viagem rara (a milhas de distância do paternalismo que anestesia) assinada por um autor desconcertante, que o Teatro da Rainha se tem encarregado de divulgar em Portugal. [daqui]

Acordar para o acordo


Lince - conversor para a nova ortografia (Portal da Língua Portuguesa)






Conversor do Acordo Ortográfico da Porto Editora

 


 

Atualização do Office  
 


Vozes, de Ana Luísa Amaral


A Cerimónia
Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,

mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,

em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.

Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.

Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.
Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.

A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um ceptro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,
ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último contei-lhe o caminho de
água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava

com as margens que havia deixado
para trás.

Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,

a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado
,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.
Antes lhe tivesse dito vezes sem conta como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.
Uma prenda, porém, me é boa na memória:
a do papel e das palavras. Dispensaria o ceptro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.
Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina, 
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?
Onde ficaram as minhas tardes molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?
Por que outra noite trocaram
o meu escuro? 
Vozes, de Ana Luísa Amaral  (2011)

Diagnose...

Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo do vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesa indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.
Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.

Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.

Joaquim Manuel Magalhães

Apresente, de forma estruturada, as suas respostas ao questionário.
1. Selecione, da lista a seguir indicada, as duas palavras que, em sua opinião, se ajustam melhor ao sentido das duas primeiras estrofes.
                  Cumplicidade | Inexperiência | Paixão | Transgressão
Justifique as suas escolhas, fundamentando a sua argumentação em elementos do poema.

2. Em duas antologias foram encontrados, sobre este poema, os comentários seguintes:
   Comentário A – “Este poema é sobre a memória de uma experiência amorosa da adolescência”.
   Comentário B – “Este poema é sobre a consciência de um amor impossível”

Escolha o comentário que lhe parecer mais adequado, fundamentando a sua resposta em elementos do texto.

3. Sobre a poesia de Joaquim Manuel Magalhães, tem sido dito que ela é marcada, entre outros aspetos pela referência a um “quotidiano banal”, pela “interpelação do visual”, pela “notação autobiográfica” e pela ideia de “nostalgia”. Explicite a relevância de dois destes aspetos, à sua escola, para a análise do poema.

GRUPO II
Sophia de Mello Breynner Andresen, em entrevista ao Diário de Notícias, em 24.11.94 disse:

«A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança, que se deve escrever com ‘s’, como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada, uma letra pesada. Escrevo com ‘s’, mas há sempre o desastre de os tipógrafos ou as pessoas que me passam os textos à máquina acharem que é um erro e emendarem para ‘ç’...»

Redija um texto bem estruturado, de cem a duzentas palavras, onde se posicione criticamente em relação ao acordo ortográfico.

Dossiê Cantigas de Amigo

Dossie_cantigas de Amigo

GRAMÁTICA: O VERBO


GRAMÁTICA: O VERBO
Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

Nuno Júdice, A matéria do poema, 2008.

Golgona Anghel



Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras
de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quanto mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.

Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa:
e que bonito me fica a esperança enquanto apresento em direto
a autópsia da minha glória.

***


Poeta na Praça da Alegria:
Não sou infeliz. Não, não me quero matar.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida~
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.

Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em direto no canal
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.

Quero ser um deles.

Mais aqui.

Sou imprudente | Adília Lopes


Sou imprudente
como os pombos
que morrem atropelados
e complicada
como as serpentes
que se enroscam
nas árvores

Adília Lopes

Exame de Literatura Portuguesa



Prova de Literatura Portuguesa e Cenários de Resposta 


DESTINO

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino... 
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer. 



Almeida Garrett



Na casa defronte de mim e dos meus sonhos | Álvaro de Campos


Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada! Não sei...
Um nada que dói ...

Álvaro de Campos

Ler é Preciso!



Mais aqui.

Revisões da Matéria dada # 7 [Bocage]


Bocage é um poeta de claro-escuro, ora de sombras nocturnas, ora de serena luminosidade. O poeta consumiu-se na busca incessante de uma felicidade impossível, ora inventando mulheres quiméricas, idealizando mulheres de carne e osso que depressa o decepcionavam, quando não o desiludiam de si próprio, ora evadindo-se pela entrega ao prazer sensual. O sentimento agudo da frustração leva-o a pensar no suicídio. A morte horroriza-o e ao mesmo tempo exerce nele uma poderosa sedução: é o esquecimento, a paz. Por isso Bocage elogia a Noite, símbolo da morte, e descreve gostosamente a paisagem nocturna povoada de animais sinistros muito em voga no Pré-Romantismo: o mocho, o corvo.

PERCURSO BIOGRÁFICO:

• nascimento em Setúbal a 15 de Setembro de 1756;
• embarque para a Índia e passagem pelo Brasil em 1786;
• regresso a Lisboa em 1790;
• publicação do 1º tomo das Rimas em 1791;
• vida dissoluta passada entre os cafés, os salões e uma boémia generalizada;
• obsessão do paralelismo existente entre a sua vida e a de Camões;
• prisão, por delito contra o Estado ( irreverências antimonárquicas e anticatólicas) em 1797;
• estada, por decisão do Tribunal, no Mosteiro de São Bento da Saúde, em 1798;
• publicação do 2º tomo das Rimas, em 1799;
• publicação do 3º tomo das Rimas, em 1804;
• morte a 21 de Dezembro de 1805. 

BOCAGE  "CLARO"   - NEOCLASSICISMO

Natureza colorida e esplendorosa ( Primavera e Verão), alegre e suave ("locus amoenus")
Domínio da razão. 
Uso da mitologia pagã: Amores, Zéfiro, Vénus, Mavorte 
imitação dos clássicos greco-latinos e de autores quinhentistas como Camões
 alegoria 
Forma: soneto. 
Vocabulário erudito. 
Linguagem oratória, recheada de exclamações e hipérboles. 
Exemplo: Olha, Marília, as flautas dos pastores / Que bem que soam, como estão cadentes! /
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes / Os Zéfiros brincar por entre as flores?

 BOCAGE  "ESCURO" -PRÉ-ROMANTISMO


Natureza sombria e melancólica (Outono e Inverno), agreste ("locus horrendus").
Natureza - reflexo do estado de espírito do poeta.
Valorização do sentimento (predomínio da sensibilidade sobre a razão).
Desespero, angústia, melancolia, solidão, tristeza, gosto pelo fúnebre e nocturno.
Relações profundamente afectivas entre a Natureza e o EU.
Linguagem nova que melhor traduza a força dos sentimentos, feita de exclamações, vocativos, suspensões frásicas, etc.
Mochos, pios, gemidos, ciprestes, chorar, praguejar, delirar, sombras, furacões, ira, etc.
A obsessão da morte:
- encarada como libertação;
- crença no perdão final, associado ao arrependimento e sentimentos religiosos
- Personificações constantes .
Exemplo:O Céu, de opacas sombras abafado, / Tornando mais medonha a noite feia; / Mugindo sobre as rochas, que salteia,
O mar, em crespos montes levantado.