Curva,Renata Correia Botelho
é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.
Renata Correia Botelho
"Paga-me um café e conto-te a minha vida", José Tolentino Mendonça
"Paga-me um café e conto-te a minha vida"
o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro
outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu ,não,nunca choraste
por amores que se perdem
os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas ,acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois
"pago-te um café se me contares
o teu amor"
José Tolentino Mendonça
Centenário de Manuel da Fonseca

Antes que Seja Tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
Biografia aqui.
Um dos principais autores do Neo–Realismo português. Em Lisboa se radicara desde a época dos estudos secundários, depois dos quais frequentou, por algum tempo, a Escola de Belas – Artes.
Destacou-se como poeta, contista e romancista. Publicou Rosa dosVentos ( poesia, 1940), Planície
(poesia, 1941, na colecção Novo Cancioneiro, de Coimbra), Aldeia Nova (contos, 1942), Cerro – Maior (romance, 1943), O Fogo e as Cinzas (contos, 1951), Seara de Vento(romance, 1958), Poemas Completos (1958), Um Anjo no Trapézio(contos,1968), Templo de Solidão (contos, 1973), além de um volume de crónicas ( Crónicas Algarvias, 1986) e de uma Antologia de Fialho d´Almeida (1984). Reelaborou alguns de seus textos mais de uma vez, dando-lhes forma definitiva para a Obra Completa.
[In: Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua portuguesa – 1995]
[In: Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua portuguesa – 1995]
Algumas Figuras de Estilo
Algumas Figuras de Estilo
Alegoria - Expressão de ideias através de imagens. Um símbolo,
por meio de imagens, dá a impressão de ideias. A alegoria está sob a forma de
uma intenção nítida, pormenorizada, precisa; o símbolo está sob a forma de uma
criação livre, onde a ideia e a imagem se encontram fundidas. Simplificando: a
alegoria é uma forma de metáfora e verifica-se quando a mudança de significação
se dá numa frase.
Ex: Assim que sempre, enfim, com fama e glória, teve os troféus pendentes da vitória
Ex: Assim que sempre, enfim, com fama e glória, teve os troféus pendentes da vitória
Anáfora - Repetição de uma mesma palavra.
Ex:Vistes que com grandíssima ousadia, vistes aquela insana fantasia, vistes e ainda vemos cada dia.
Ex:Vistes que com grandíssima ousadia, vistes aquela insana fantasia, vistes e ainda vemos cada dia.
Anástrofe - Inversão da ordem natural das palavras.
Ex: Esses seus muito azuis olhos.
Ex: Esses seus muito azuis olhos.
Antanáclase - Repetição da mesma palavra, mas com outro sentido.
Ex: Eles assim vão, andando em vão.
Ex: Eles assim vão, andando em vão.
Antítese - Aproximação de termos contrários para os
realçar.
Ex: Amor é fogo que arde sem se ver
Ex: Amor é fogo que arde sem se ver
Apóstrofe - Interrupção do discurso para fazer uma invocação de alguém
real ou fictício.
Ex: Ó mar salgado quanto do teu sal
Ex: Ó mar salgado quanto do teu sal
Assíndeto - Supressão das conjunções.
Ex: Fere, mata, derriba denodado
Ex: Fere, mata, derriba denodado
Comparação - Aproximação de dois objetos para precisar a natureza do
primeiro.
Ex: Os lábios como duas cerejas
Ex: Os lábios como duas cerejas
Diérese - Divisão de um ditongo em duas sílabas.
Ex:
Ex:
Disfemismo - Emprego de um termo ou expressão grosseiro e pouco elegante
para dar intensidade à frase.
Ex: Esticou o pernil
Ex: Esticou o pernil
Exclamação - Expressão espontânea de um súbito sentimento.
Ex: Ó glória de mandar!
Ex: Ó glória de mandar!
Gradação -Disposição das palavras e ideias por ordem crescente ou
decrescente do seu significado.
Ex: Por uma omissão perde-se uma inspiração; por uma inspiração perde-se um auxílio; por um auxílio, uma contrição
Ex: Por uma omissão perde-se uma inspiração; por uma inspiração perde-se um auxílio; por um auxílio, uma contrição
Hipálage - Quando se atribui a certas palavras o que parece próprio de
outras.
Ex: Fumava um cigarro austero. (Austero é a qualidade da pessoa que fumava o cigarro.)
Ex: Fumava um cigarro austero. (Austero é a qualidade da pessoa que fumava o cigarro.)
Hipérbato - Inversão violenta da ordem natural das palavras. É uma
anástrofe mais evidente.
Ex: Casos, que o marido teve passados.
Ex: Casos, que o marido teve passados.
Hipérbole - Exagero da verdade das
coisas para produzir impressão mais forte.
Ex: Esse livro fez correr rios de tinta.
Ex: Esse livro fez correr rios de tinta.
Imagem - Representação mais rica e animada do que a comparação ou a
metáfora, que se estende a toda a frase. Pode resultar de uma combinação de
metáforas e comparações.
Ex: Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia rolar.
Ex: Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia rolar.
Ironia - Uso de palavras com sentido contrário ao verdadeiro.
Ex: Saíste-me um belo patife.
Ex: Saíste-me um belo patife.
Metáfora - Mudança de significação por semelhança. A metáfora funde num
só os dois termos da comparação.
Ex: Flor da mocidade, cabeça de prego, língua de fogo, primavera da vida.
Ex: Flor da mocidade, cabeça de prego, língua de fogo, primavera da vida.
Metátese - Transposição de fonemas ou sílabas de um vocábulo.
Ex: E com ventos contrairos a desvia
Ex: E com ventos contrairos a desvia
Metonímia - Substituição de um termo por outro com o qual está
intimamente ligado.
Ex: O escritor pela obra: ler Camões
Ex: O escritor pela obra: ler Camões
Onomatopeia - Representação dos sons.
Ex: Crac, zigue-zague, pumba
Ex: Crac, zigue-zague, pumba
Perífrase - Emprego de muitas palavras em lugar de poucas.
Ex: Nos meses de águas vivas (No inverno)
Ex: Nos meses de águas vivas (No inverno)
Personificação (Prosopopeia, Animismo) - Introdução no discurso, de
pessoas mortas ou ausentes, animais, plantas, divindades, às quais se atribui
fala, ação e sentimentos.
Ex: As rãs do charco choravam.
Ex: As rãs do charco choravam.
Pleonasmo - Uso de palavras que parecem desnecessárias por repetirem
ideias, mas que servem para dar mais força expressiva.
Ex: Subir para cima, descer para baixo
Ex: Subir para cima, descer para baixo
Polissíndeto - Repetição de conjunções.
Ex: E salta e pula e sobe e desce e gira
Ex: E salta e pula e sobe e desce e gira
Quiasmo - Disposição de um período em 4 membros, em que o 1º corresponde
ao 4º e o 2º ao 3º.
Ex: Desfeito em cinzas,/ em lágrimas desfeito.
Ex: Desfeito em cinzas,/ em lágrimas desfeito.
Reticência - Verifica-se nesta figura a suspensão do sentido.
Ex: Mas moura enfim, nas mãos das brutas gentes, que pois eu fui
Ex: Mas moura enfim, nas mãos das brutas gentes, que pois eu fui
Sinédoque - Figura que consiste em tomar a parte pelo todo, o plural
pelo singular.
Ex: O Português é valente. (O povo Português)
Praia Lusitana (Portugal)
Ex: O Português é valente. (O povo Português)
Praia Lusitana (Portugal)
Sinestesia - Confusão dos sentidos
Ex: Cheira a mel, sabe a vento
Ex: Cheira a mel, sabe a vento
Importa-se de parar de olhar para mim?, de Paulo Kellerman
Importa-se de parar de olhar para mim?, de Paulo Kellerman
De repente, ele diz: importa-se de parar de olhar para mim?
Sinto um súbito embaraço, vergonha misturada com surpresa, vontade de fugir; ou de reagir; mas limito-me a murmurar, em tom humilde: peço desculpa. E volto a cabeça, ostensivamente.
Penso que ninguém se terá apercebido desta breve troca de palavras, ou que ninguém se tenha importado, se tenha surpreendido, o que limita o meu embaraço. Mas o autocarro está cheio - imagino que esteja cheio - e é impossível mudar de lugar; tenho de permanecer aqui, em frente a este homem que acabou de me proibir de o olhar; e não sei bem o que fazer: olhar para a direita ou para a esquerda rapidamente me provocará dores no pescoço, e talvez na coluna; e, neste momento, já tenho doressuficientes. Por isso, penso que resta olhar para os sapatos; pergunto-me por que se terá incomodado o homem com o meu olhar; depois, tento imaginá-lo: pela voz, suponho que será alguém mais velho que eu; talvez seja um pouco atarracado, pequenino: vozes agressivas compensam, muitas vezes, estaturas minúsculas; talvez um aposentado precoce, por motivos de saúde; alguém contrariado, que se considera demasiado infeliz, injustamente maltratado pelas forças do universo; um homem dolorosamente banal, que sabe que a sua passagem pelo mundo não modificou absolutamente nada. Ou seja: alguém que me poderia entender. Mas estou a fantasiar, como sempre faço. A sua inesperada agressividade indispôs-me contra esta pessoa, que talvez até seja encantadora. Mas também tenho o direito de me indignar, de ser irracional: e apesar de não o conhecer, odeio-o. Um daqueles ódios viscerais, que por vezes me corroem e dilaceram; o ódio intemporal e genérico que transporto na minha alma, desde sempre, e que por vezes não consigo deixar de focalizar em alguém específico, como se fosse esse alguém a causa única da minha raiva.
Tento distrair-me, com as divagações habituais: sendo cego, deveriam permitir que olhasse para onde desejasse; para os outros, deveria ser indiferente que os olhasse ou não, já que não os posso ver; contudo, acontece o contrário: apesar de não ver, meu olhar parece incomodar mais que o olhar dos que podem ver. Como se imaginassem o meu olhar como uma acusação, um pedido de desculpas. E vou pensando nisto, remoendo os mesmos pensamentos de sempre, as mesmas lamentações de sempre, as mesmas culpas de sempre.
O tempo vai passando, devagarinho e escuro. Esforço-me por me manter distraído, o que é fundamental para não cair na tentação de ter pena de mim, de me chorar; penso no homem e tento odiá-lo, tranquilamente, anonimamente; na verdade, preciso de odiar os outros - um outro qualquer - para não me odiar a mim, ou para esquecer que me odeio.
Gostava de ser uma pessoa normal, fazer o que faz uma pessoa normal: olhar pela janela, por exemplo. E ver. Olhar lá para fora; ver a paisagem desfilar; e não pensar, não pensar, em nada. Olhar, simplesmente: porque olhar e ver é fugir; e eu estou preso em mim. Condenado a mim.
O autocarro pára e o homem sai; sinto-o passar junto de mim, respiro o seu cheiro, a sua hostilidade, a sua pressa. Não resisto a imaginar-lhe um destino; e como sempre, os destinos que fantasio para aqueles que odeio representam os destinos que desejo para mim mas sei que nunca viverei; o que me permite aprofundar o ódio, descobrir novas nuances no ódio que preciso de ir alimentando, para que depois me alimente dele. Mais importante que tudo: é preciso distrair-me de mim. Fingir que posso fugir.
Estou tão absorvido que, de início, nem reparo que a mulher que se senta ao meu lado falou para mim; mas depois, quando percebo o sentido da sua frase, compreendo que só pode estar a dirigir-se a mim. Disse ela: sabia que o senhor que acabou de sair, aquele que se chateou consigo, também era cego?
Não, claro que não fazia ideia. No meu silêncio, ela adivinha a minha resposta; e não insiste no diálogo - que certamente não lhe interessa -, sente que já cumpriu a sua função. Deixa-me só, com a minha estupefacção. Penso no inesperado da situação, no ridículo: dois cegos a olharem-se, sentindo que estão a ser olhados, incapazes de suspeitar que estão a ser olhados por outro cego. Olham: mas não vêem nem são vistos. E fico a pensar nisto. Não ver nem ser visto; ou seja: não existir. Fico a pensar nisto durante muito tempo. Distraído.
Paulo Kellerman, in Gastar Palavras
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Paulo Kellerman
Vamos ao teatro?
Joseph Danan soube porque escrevia peças para crianças quando começou a receber mensagens de telemóvel do filho que então crescia na barriga da mãe, contando-lhe a sua vida de bebé por nascer. Não esperemos banalidades de Danan. Francês, romancista, ensaísta, professor de dramaturgia contemporânea e escritor de peças, primeiro para adultos, e mais recentemente para públicos infanto-juvenis, onde se estreou com As Aventuras de Auren, o Pequeno Serial Killer (2003) e prosseguiu com Jojo, o Reincidente (2007) e Dodô – No Rasto do Pássaro do Sono (2010). Obras onde o humor e a crueldade andam de mãos dadas, como se ele nos quisesse dizer que em cada criança vive um poeta e um terrorista. Jojo imagina para se rebelar contra as normas que lhe são impostas pelo mundo dos adultos, e essa imaginação fala através dos objectos mesmo antes de falar por palavras (a peça é um conjunto de didascálias que propõe uma sequência de cenas sem diálogos). Jojo, o Reincidente é assim uma viagem pelas liberdades e direitos concretos da infância, onde as crianças se inventam e, ao fazê-lo, se formam a si mesmas. Viagem rara (a milhas de distância do paternalismo que anestesia) assinada por um autor desconcertante, que o Teatro da Rainha se tem encarregado de divulgar em Portugal. [daqui]
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