Feliz Natal!

 Noemí Villamuza




Gramática do português contemporâneo
 
ler
é também uma maneira de premeditar a solidão,
um modo de aproximar a alma da sintaxe
como se também o ser se ordenasse
em sujeito
predicado e complemento directo.
Alexandra Monteiro

Dia de Natal, António Gedeão


Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

Teste Fernão Lopes

testereis_convertido

O RETRATO , Ana Luísa Amaral


O RETRATO
Ora esguardae,
escreveu o outro,
quando dele falou nas suas crónicas.
 Eu digo que se esguardardes demais
pondes o vosso coração em perigo,
porque ficar eis a saber
o que talvez não vos seja de interesse,
as verdades que tínheis como certas.
Esguardar é considerar,
e eu não sei se deveis considerar verdadeiramente a sua história
ou se não é preferível que vos fiqueis junto aos mitos,
às histórias que se contaram e o fizeram grande,
a ele, que tal não se considerava
depois da morte daquela que amava.
 
Basta olhar para aquele seu retrato
e para a angústia nos seus olhos.
 Ora esguardae essa angústia
sem esguardardes a história como vos foi contada.
Talvez então o muimento de alva pedra
comece a fazer outro sentido,
e, com ele, os bichos que o povoam:
as caras dos algozes?, as faces
dos tempos que corriam?, cheios de doenças,
de febres, tempos assustados.
Esguardae esse retrato:
a sua barba, a mão que ali foi posta a segurar a espada,
a capa, tão vermelha, sobre os ombros.
 
Dele falaram e da sua amada.
Esguardae o seu olhar, cuidadosamente,
e vereis que é um olhar enrouquecido pela loucura.
Pensará nela?
Não são as dobras em relevo
da tinta de óleo do retrato
que poderão dar-vos a resposta.
Só a memória dessas dobras e da tinta espessa
saberia dizer-vos se era nela que ele pensava,
 mas a essa memória não tendes vós acesso.
Nem às memórias
de quem pintou o retrato,
ido há tanto tempo como o seu modelo.
Não sei se eu não terei tido
uma pequena entrada nessas memórias,
eu, seu escudeiro, que o servi
e ouvi tantas vezes os gritos entre ele e seu pai.
Eu, que vi, replicados em espelho,
amores seus iguais ao primeiro amor,
e de como desejou erguer noutros lugares túmulos
 tão belos como aquele que erguera
em honra da morte, branco e belo.




É  o primeiro amor o mais gentil,
O melhor sempre?
 Como dizer do ponto central da paixão,
quando mente e corpo,
recuados antes e protegidos pelo terror daperda,
se deixam enfim conquistar?
Teria o pintor pensado nisto
no instante em que prendeu aquele olhar?
Entrei várias vezes na sala,

levando vinho e bolos,
mas o pintor estava sempre de costas para mim.

E eu pousava a bandeja na mesa
e afastava-me, sem uma palavra.

Nunca me chamou para junto de si, o meu senhor,
nos dias em que posou para o retrato.
Nem nunca teve comigo confidências
sobre aquela que perdera,
 por obra de seu pai.

Mas eu, porque o servia todas as manhãs
e o acompanhei durante tanto tempo, e à sua dor,
eu conhecia-lhe os tons,
as paletas de cor por detrás da íris dos olhos,
as formas mutantes
conforme as jardas do sofrimento.

E juro que o pintor
soube resguardar o seu olhar.
Como se fôsseis presente
podeis agora esguardá-lo.
E meditar sobre ele.


                                                                              Ana Luísa Amaral, in Vozes

Teste

Teste de Literatura Portuguesa_convertido

Curva,Renata Correia Botelho

é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.
Renata Correia Botelho

"Paga-me um café e conto-te a minha vida", José Tolentino Mendonça


"Paga-me um café e conto-te a minha vida"

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu ,não,nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas ,acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"

José Tolentino Mendonça

Centenário de Manuel da Fonseca



Antes que Seja Tarde


Amigo, 
tu que choras uma angústia qualquer 
e falas de coisas mansas como o luar 
e paradas 
como as águas de um lago adormecido, 
acorda! 
Deixa de vez 
as margens do regato solitário 
onde te miras 
como se fosses a tua namorada. 
Abandona o jardim sem flores 
desse país inventado 
onde tu és o único habitante. 
Deixa os desejos sem rumo 
de barco ao deus-dará 
e esse ar de renúncia 
às coisas do mundo. 
Acorda, amigo, 
liberta-te dessa paz podre de milagre 
que existe 
apenas na tua imaginação. 
Abre os olhos e olha, 
abre os braços e luta! 
Amigo, 
antes da morte vir 
nasce de vez para a vida. 


Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"



Biografia aqui.
Um dos principais autores do Neo–Realismo português. Em Lisboa se radicara desde a época dos estudos secundários, depois dos quais frequentou, por algum tempo, a Escola de Belas – Artes.
Destacou-se como poeta, contista e romancista. Publicou Rosa dosVentos ( poesia, 1940), Planície
(poesia, 1941, na colecção Novo Cancioneiro, de Coimbra), Aldeia Nova (contos, 1942), Cerro – Maior (romance, 1943), O Fogo e as Cinzas (contos, 1951), Seara de Vento(romance, 1958), Poemas Completos (1958), Um Anjo no Trapézio(contos,1968), Templo de Solidão (contos, 1973), além de um volume de crónicas ( Crónicas Algarvias, 1986) e de uma Antologia de Fialho d´Almeida (1984). Reelaborou alguns de seus textos mais de uma vez, dando-lhes forma definitiva para a Obra Completa.
[In: Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua portuguesa – 1995]

Algumas Figuras de Estilo

Algumas Figuras de Estilo

Alegoria - Expressão de ideias através de imagens. Um símbolo, por meio de imagens, dá a impressão de ideias. A alegoria está sob a forma de uma intenção nítida, pormenorizada, precisa; o símbolo está sob a forma de uma criação livre, onde a ideia e a imagem se encontram fundidas. Simplificando: a alegoria é uma forma de metáfora e verifica-se quando a mudança de significação se dá numa frase.
Ex: Assim que sempre, enfim, com fama e glória, teve os troféus pendentes da vitória
 
Anáfora - Repetição de uma mesma palavra.
Ex:Vistes que com grandíssima ousadia, vistes aquela insana fantasia, vistes e ainda vemos cada dia.
 
Anástrofe - Inversão da ordem natural das palavras.
Ex: Esses seus muito azuis olhos.
 
Antanáclase - Repetição da mesma palavra, mas com outro sentido.
Ex: Eles assim vão, andando em vão.
 
Antítese - Aproximação de termos contrários para os realçar.
Ex: Amor é fogo que arde sem se ver
 
Apóstrofe - Interrupção do discurso para fazer uma invocação de alguém real ou fictício.
Ex: Ó mar salgado quanto do teu sal
 
Assíndeto - Supressão das conjunções.
Ex: Fere, mata, derriba denodado
 
Comparação - Aproximação de dois objetos para precisar a natureza do primeiro.
Ex: Os lábios como duas cerejas
 
Diérese - Divisão de um ditongo em duas sílabas.
Ex:
 
Disfemismo - Emprego de um termo ou expressão grosseiro e pouco elegante para dar intensidade à frase.
Ex: Esticou o pernil
 
Exclamação - Expressão espontânea de um súbito sentimento.
Ex: Ó glória de mandar!
 
Gradação -Disposição das palavras e ideias por ordem crescente ou decrescente do seu significado.
Ex: Por uma omissão perde-se uma inspiração; por uma inspiração perde-se um auxílio; por um auxílio, uma contrição
 
Hipálage - Quando se atribui a certas palavras o que parece próprio de outras.
Ex: Fumava um cigarro austero. (Austero é a qualidade da pessoa que fumava o cigarro.)
 
Hipérbato - Inversão violenta da ordem natural das palavras. É uma anástrofe mais evidente.
Ex: Casos, que o marido teve passados.
 
Hipérbole - Exagero da verdade das coisas para produzir impressão mais forte.
Ex: Esse livro fez correr rios de tinta.
 
Imagem - Representação mais rica e animada do que a comparação ou a metáfora, que se estende a toda a frase. Pode resultar de uma combinação de metáforas e comparações.
Ex: Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia rolar.
 
Ironia - Uso de palavras com sentido contrário ao verdadeiro.
Ex: Saíste-me um belo patife.
 
Metáfora - Mudança de significação por semelhança. A metáfora funde num só os dois termos da comparação.
Ex: Flor da mocidade, cabeça de prego, língua de fogo, primavera da vida.
 
Metátese - Transposição de fonemas ou sílabas de um vocábulo.
Ex: E com ventos contrairos a desvia
 
Metonímia - Substituição de um termo por outro com o qual está intimamente ligado.
Ex: O escritor pela obra: ler Camões
 
Onomatopeia - Representação dos sons.
Ex: Crac, zigue-zague, pumba
 
Perífrase - Emprego de muitas palavras em lugar de poucas.
Ex: Nos meses de águas vivas (No inverno)
 
Personificação (Prosopopeia, Animismo) - Introdução no discurso, de pessoas mortas ou ausentes, animais, plantas, divindades, às quais se atribui fala, ação e sentimentos.
Ex: As rãs do charco choravam.
 
Pleonasmo - Uso de palavras que parecem desnecessárias por repetirem ideias, mas que servem para dar mais força expressiva.
Ex: Subir para cima, descer para baixo
 
Polissíndeto - Repetição de conjunções.
Ex: E salta e pula e sobe e desce e gira
 
Quiasmo - Disposição de um período em 4 membros, em que o 1º corresponde ao 4º e o 2º ao 3º.
Ex:
Desfeito em cinzas,/ em lágrimas desfeito.
 
Reticência - Verifica-se nesta figura a suspensão do sentido.
Ex: Mas moura enfim, nas mãos das brutas gentes, que pois eu fui
 
Sinédoque - Figura que consiste em tomar a parte pelo todo, o plural pelo singular.
Ex: O Português é valente. (O povo Português)
        Praia Lusitana (Portugal)
 
Sinestesia - Confusão dos sentidos
Ex: Cheira a mel, sabe a vento

Importa-se de parar de olhar para mim?, de Paulo Kellerman


Importa-se de parar de olhar para mim?, de Paulo Kellerman

De repente, ele diz: importa-se de parar de olhar para mim?
Sinto um súbito embaraço, vergonha misturada com surpresa, vontade de fugir; ou de reagir; mas limito-me a murmurar, em tom humilde: peço desculpa. E volto a cabeça, ostensivamente.
Penso que ninguém se terá apercebido desta breve troca de palavras, ou que ninguém se tenha importado, se  tenha surpreendido, o que  limita o meu embaraço. Mas o autocarro está cheio  -  imagino que esteja cheio  - e é impossível mudar de lugar; tenho de permanecer aqui, em frente a este homem que acabou de me proibir de o olhar; e não sei bem o que fazer: olhar para a direita ou para a esquerda rapidamente me provocará dores no pescoço, e  talvez na coluna; e, neste momento,  já tenho doressuficientes. Por isso, penso que resta olhar para os sapatos; pergunto-me por que se terá incomodado o homem com o meu olhar; depois, tento imaginá-lo: pela voz, suponho que será alguém mais velho que eu; talvez seja um pouco atarracado, pequenino: vozes agressivas compensam, muitas vezes, estaturas minúsculas; talvez  um  aposentado  precoce,  por motivos  de  saúde;  alguém  contrariado,  que  se  considera  demasiado  infeliz, injustamente maltratado pelas forças do universo; um homem dolorosamente banal, que sabe que a sua passagem pelo mundo não modificou absolutamente nada. Ou seja: alguém que me poderia entender. Mas estou a  fantasiar, como sempre faço. A sua inesperada agressividade indispôs-me contra esta pessoa, que talvez até seja encantadora. Mas  também  tenho o direito de me  indignar, de ser  irracional: e apesar de não o conhecer, odeio-o. Um daqueles ódios viscerais, que por vezes me corroem e dilaceram; o ódio intemporal e genérico que transporto na minha alma, desde sempre, e que por vezes não consigo deixar de  focalizar em alguém específico, como se  fosse esse alguém a causa única da minha raiva.
Tento  distrair-me,  com  as  divagações  habituais:  sendo  cego,  deveriam  permitir  que  olhasse  para  onde desejasse; para os outros, deveria ser indiferente que os olhasse ou não, já que não os posso ver; contudo, acontece o contrário:  apesar  de  não  ver,  meu  olhar  parece  incomodar  mais  que  o  olhar  dos  que  podem  ver.  Como  se imaginassem  o  meu  olhar  como  uma  acusação,  um  pedido  de  desculpas.  E  vou  pensando  nisto,  remoendo  os mesmos pensamentos de sempre, as mesmas lamentações de sempre, as mesmas culpas de sempre.
O  tempo  vai  passando,  devagarinho  e  escuro. Esforço-me  por me manter  distraído,  o  que  é  fundamental para  não  cair  na  tentação  de  ter  pena  de mim,  de me  chorar;  penso  no  homem  e  tento  odiá-lo,  tranquilamente, anonimamente; na  verdade, preciso de odiar os outros  - um outro qualquer  - para não me odiar  a mim, ou para esquecer que me odeio.
Gostava de ser uma pessoa normal, fazer o que faz uma pessoa normal: olhar pela janela, por exemplo. E ver. Olhar lá para  fora; ver a paisagem desfilar; e não pensar, não pensar, em nada. Olhar, simplesmente: porque olhar e ver é fugir; e eu estou preso em mim. Condenado a mim.
O autocarro pára e o homem sai; sinto-o passar junto de mim, respiro o seu cheiro, a sua hostilidade, a sua pressa. Não  resisto  a  imaginar-lhe  um  destino;  e  como  sempre,  os  destinos  que  fantasio  para  aqueles  que  odeio representam  os  destinos  que  desejo  para mim mas  sei  que  nunca  viverei;  o  que me  permite  aprofundar  o  ódio, descobrir novas nuances no ódio que preciso de ir alimentando, para que depois me alimente dele. Mais importante que tudo: é preciso distrair-me de mim. Fingir que posso fugir.
Estou tão absorvido que, de início, nem reparo que a mulher que se senta ao meu lado falou para mim; mas depois, quando percebo o sentido da sua  frase, compreendo que só pode estar a dirigir-se a mim. Disse ela: sabia que o senhor que acabou de sair, aquele que se chateou consigo, também era cego?
Não, claro que não fazia ideia. No meu silêncio, ela adivinha a minha resposta; e não insiste no diálogo  - que certamente não lhe interessa -, sente que já cumpriu a sua função. Deixa-me só, com a minha estupefacção. Penso no  inesperado  da  situação,  no  ridículo:  dois  cegos  a  olharem-se,  sentindo  que  estão  a  ser  olhados,  incapazes  de suspeitar que estão a ser olhados por outro cego. Olham: mas não vêem nem são vistos. E fico a pensar nisto. Não ver nem ser visto; ou seja: não existir. Fico a pensar nisto durante muito tempo. Distraído.

Paulo Kellerman, in Gastar Palavras

Vamos ao teatro?



Joseph Danan soube porque escrevia peças para crianças quando começou a receber mensagens de telemóvel do filho que então crescia na barriga da mãe, contando-lhe a sua vida de bebé por nascer. Não esperemos banalidades de Danan. Francês, romancista, ensaísta, professor de dramaturgia contemporânea e escritor de peças, primeiro para adultos, e mais recentemente para públicos infanto-juvenis, onde se estreou com As Aventuras de Auren, o Pequeno Serial Killer (2003) e prosseguiu com Jojo, o Reincidente (2007) e Dodô – No Rasto do Pássaro do Sono (2010). Obras onde o humor e a crueldade andam de mãos dadas, como se ele nos quisesse dizer que em cada criança vive um poeta e um terrorista. Jojo imagina para se rebelar contra as normas que lhe são impostas pelo mundo dos adultos, e essa imaginação fala através dos objectos mesmo antes de falar por palavras (a peça é um conjunto de didascálias que propõe uma sequência de cenas sem diálogos). Jojo, o Reincidente é assim uma viagem pelas liberdades e direitos concretos da infância, onde as crianças se inventam e, ao fazê-lo, se formam a si mesmas. Viagem rara (a milhas de distância do paternalismo que anestesia) assinada por um autor desconcertante, que o Teatro da Rainha se tem encarregado de divulgar em Portugal. [daqui]