PENÉLOPE ESCREVE , JOSÉ MIGUEL SILVA

PENÉLOPE ESCREVE 


É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.



JOSÉ MIGUEL SILVA
Ulisses já não mora aqui
& etc. 

Vale Formoso


No Vale formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.

No Vale formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.

No Vale formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.

Filipa Leal, Vale Formoso, Deriva Editores.

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu, Maria do Rosário Pedreira

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para a morte.
 Não fales – tenho também ciúmes

 da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.

 Maria do Rosário Pedreira

Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
 veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?

 Sentada, bordava um lenço de mão;
 veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?
 Dei um cravo e dei um lenço,
 só não dei o coração;
 mas se o rapaz mo pedir
 -- mãe, dou-lho ou não?
 (Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa)

 Com efeito, esta composição poética tem marcas que nos remetem para a tradição da lírica medieval. Eugénio de Andrade, poeta contemporâneo português, recorre aos artifícios das cantigas de amigo para recriar uma pequena história de amor. O eco das cantigas de amigo está presente na construção paralelística e na presença da mãe. Tradicionalmente, a mãe funciona como confidente e adjuvante; aqui é a voz que ouve os anseios do sujeito de enunciação. Como nas cantigas de amigo há um refrão, neste caso um refrão que implica uma escolha. A “amiga” é sujeita a uma série de pedidos: cravo, lenço, coração. Deu o cravo, símbolo quiçá da liberdade, deu o lenço bordado e, agora, tem dúvidas sobre se dará ou não o o coração. Como nas cantigas de amigo, sentimos a dúvida, a ansiedade, o despertar dos amores. Isto prova, que o tema amoroso, passem os séculos que passarem, é omnipresente.

Oficina de escrita

Partindo da sua experiência de leitura da lírica trovadoresca, refira-se, num texto de cem a duzentas palavras, ao tema do sofrimento amoroso nas cantigas de amor. O sofrimento amoroso é uma constante na lírica trovadoresca e não só. Com efeito, raras são as épocas literárias em que a dor de amor não esteja presente. Nas cantigas de amor, o sofrimento amoroso toma o nome de “coita de amor” e é sentido pelo sujeito de enunciação. Nestas cantigas, de sabor provençal, o trovador, respeitando a identidade da sua “senhor”, mostra o quanto por ela sofre e até se mostra disposto a morrer por ela. Convém dizer que a “senhor” era uma mulher casada, daí a necessidade do trovador manter o anonimato sobre ela, bem como de sofrer sem ter qualquer esperança de ser correspondido. A “coita de amor” é , de certo modo, uma representação do amor platónico. Um amor que se contenta com a admiração, pois sabe que não merece ser correspondido.

Sassetti

Teste

Teste de Avaliação de Literatura Portuguesa barroco

Ler é Preciso! - apresentação da leitura encenada


No dia 22 de abril, na Biblioteca do Agrupamento de Escolas do Cerco, o 10.ºC e o 10.ºD de Literatura Portuguesa apresentaram ao 2.ºA da EB1/JI da Corujeira uma leitura encenada de "Uma história que começa pelo fim", um dos contos que faz parte do livro Histórias que me contaste tu, de Manuel António Pina.





Ler é Preciso_dramatização

Sob o signo da subversão, "Uma história que começa pelo fim”, de Manuel António Pina.




Sob o signo da subversão,
"Uma história que começa pelo fim”,
de Manuel António Pina.
   

Manuel  António Pina  subverteu os cânones da literatura tradicional, assim, ao invés de iniciar o seu conto como habitualmente: “era uma vez”, “há muito, muito tempo” e de narrar  o desenvolver de um conflito, que no fim acaba bem, prefere começar pelo fim.
    O autor, desta forma, frustra as expetativas do leitor, pois não segue os trilhos habituais do conto tradicional: o início é o fim. De facto, quantos de nós já não se questionaram sobre o depois do “foram felizes para sempre”?
 Diz-se que palavras como “sempre” e “nunca” devem ser evitadas, não é isso que o narrador faz, ele questiona-as: “o que é para sempre?”.  E vai mais além: pode ser-se feliz para sempre? O que é ser feliz? Como se mede a felicidade?
Para “desmontar” algumas ideias feitas, M.A.P.  coloca um príncipe e uma princesa numa situação absurda: aborrecidos com a monotonia do “felizes para sempre”...


Uma história que começa pelo fim

António Veira

António Vieira

O céu estrela  o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e a gloria tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

 No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.

Fernando Pessoa, Mensagem

Barroco

O Barroco caracteriza-se pelo exagero ornamental. Trata-se de um estilo extremamente rebuscado, que se opõe às formas clássicas e sóbrias do Renascimento. Aparentemente, o Barroco é menos profundo, mais superficial do que qualquer outro género. Valoriza-se mais a forma do que o conteúdo. 
Há duas tendências da literatura barroca: o cultismo e o concetismo. O cultismo valoriza o artifício da forma, a busca de perfeição formal. Explora a perceção sensorial através do jogo de palavras e da repetição de sons. No cultismo o aspeto exterior é visível por causa do abuso de figuras de linguagem, especialmente sintáticas como a repetição, a anáfora e o quiasmo. O concetismo valoriza o artifício do conteúdo e volta-se para o requinte expressivo e para a subtileza de ideias. A expressão concetista é mais simples que a dos cultistas, no entanto, a densidade concetual das suas obras tende a dificultar a compreensão. 
Os concetistas preocupam-se em exprimir muitas ideias e têm tendência para acumular conceitos e usar palavras com duplo e triplo significado. Assim, as figuras de estilo mais utilizadas são a antítese, os paradoxos, as comparações inesperadas, as metáforas, as imagens, as alegorias, as sinédoques e as hipérboles que conduzem a uma densidade concetual que obscurece o conteúdo.

Medida velha e medida nova






Em Camões coexistiu a poesia com sabor tradicional com uma poesia cujos modelos formais e temáticos revelam a cultura humanística e clássica do poeta. Assim, e por influência tradicional escreveu vilancetes, cantigas, esparsas, trovas. Fez uso da Medida Velha e cultivou o verso de cinco sílabas métricas (Redondilha Menor) e de sete sílabas métricas (Redondilha Maior). 
Da influência clássica Renascentista Camões, cultivou a Medida Nova fazendo uso do verso decassílabo através da composição poética o soneto (duas quadras e dois tercetos) introduzido em Portugal por Sá de Miranda.

Amor é um fogo que arde sem se ver | Luís de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Luís de Camões

Farsa de Inês Pereira



A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, dito pai do teatro português, datada do séc. XVI versa sobre as relações amorosas e sobre a forma como a mulher é, ou melhor, era, tratada. Neste texto dramático, Gil Vicente criou um enredo onde a mulher assume um papel preponderante. 
Na corte duvidava-se da originalidade de suas obras, por isso, e a fim de provar que merecia a fama que tinha, desenvolveu uma intriga a partir do mote popular “Antes asno que me leve, que cavalo que me derrube”. É com base neste dito que é contada a história de Inês Pereira, rapariga idealista, sonhadora que, depois de ver os seus sonhos desfeitos, adopta uma postura mais pragmática na vida. A novidade desta peça, em nosso entender, prende-se com o facto de a mulher ser apresentada como emancipada. Inês escolhe o seu destino, sem dar ouvidos à mãe, voz da razão, nem à alcoviteira. Porém, mesmo depois do casamento se ter tornado uma decepção, volta a arriscar. No entanto, desta vez Inês não se deixa ludibriar e, para não ser enganada, escolhe um marido “asno”. Consideramos que Gil Vicente ousou, ao não penalizar Inês Pereira pelos seus actos, afinal a sua conduta imprópria foi recompensada e ilustrada pelo provérbio: “Antes asno que me leve, que cavalo que me derrube”. Assim, esta pérola vicentina pode ser considerada uma obra feminista avant la lettre.

Vergílio Ferreira


Filipe Acosta



"Inventa a eternidade na simples comoção de olhar uma estrela.

Basta que a olhes pela primeira vez, depois de a teres olhado inúmeras vezes.

E, então, não precisarás de nenhum Deus que te ponha a mão no ombro e diga estou aqui. Uma estrela espera-te desde toda a eternidade.

Procura-a.

E vê se não a perdes durante a vida inteira.

A tua estrela pode não estar no céu.

Põe-na lá."  


                                      Vergílio Ferreira in Pensar