OS BOIS E OS LIVROS, António José Forte


OS BOIS E OS LIVROS

Os bois não sabem ler e também não fingem que sabem. É por isso que nunca ninguém viu nenhum boi com um livro debaixo do braço. Mas há gente que tem a mania de ligar os bois aos livros. Ouve-se às vezes dizer: aquele não conhece uma letra nem do tamanho dum boi. E um filósofo alemão, que usava uns enormes bigodes, afirmou certo dia que ler, ler bem, era verdadeiramente uma ruminação, que é o que os bois fazem depois de introduzir a comida na boca. E que é o que não faz a maioria dos que não são bois, isto é, os homens que lêem livros. Os bois não sabem ler e não gostam nem de ler nem de comer livros, esta é a verdade. Por isso andam a puxar carros de bois, a puxar charruas e quando vão às touradas andam a correr dum lado para o outro às marradas. Os homens que sabem ler, mesmo mal, que andam atrás ou à frente dos bois, conforme as circunstâncias, e que não vêem um boi doutra coisa chamam-se ribatejanos. Os meninos, a quem são dirigidas estas palavras de muita sabedoria, não devem imitar o analfabetismo dos bois nem os homens que andam atrás ou à frente deles. Não andar nunca à frente dos bois porque podem tropeçar e cair e serem pisados pelos bois, não andar atrás porque podem levar com os rabos dos bois na cara e, como já sabem ler, não querem com certeza voltar a ser analfabetos. Numa coisa, porém, devem imitar sempre os bois: na ruminação. E isto quer dizer: ler, ler bem, ler com os olhos e com o pensamento.

António José Forte (1931-1988), Uma Faca nos Dentes, 2.ª edição, aumentada, Parceria A. M. Pereira, p. 124, 2003.

Maria do Rosário Pedreira




Não me importa o pão quando não o divido:
farta mesa triste sem companhia. Na tua
ausência não há fome que me devore, e a
gota de vinho na toalha é só mais um borrão
num poema sozinho. Antes de ti nunca

 tive apetite pela vida, as costelas vincadas
 na camisa. Tantos cães escanzelados iguais
a mim cumprindo a solidão das avenidas,
e tão poucas as esquinas. Milagre mesmo

 foi teres parado numa para me alimentares.

*********



Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo – a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que nos salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. Trago portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem vindo.




Maria do Rosário Pedreira in Poesia reunida




Destino, Almeida Garrett


Destino

Quem disse à estrela o caminho 
Que ela há-de seguir no céu? 
A fabricar o seu ninho 
Como é que a ave aprendeu? 
Quem diz à planta «Florece!» 
E ao mudo verme que tece 
Sua mortalha de seda 
Os fios quem lhos enreda? 

Ensinou alguém à abelha 
Que no prado anda a zumbir 
Se à flor branca ou à vermelha 
O seu mel há-de ir pedir? 
Que eras tu meu ser, querida, 
Teus olhos a minha vida, 
Teu amor todo o meu bem... 
Ai!, não mo disse ninguém. 

Como a abelha corre ao prado, 
Como no céu gira a estrela, 
Como a todo o ente o seu fado 
Por instinto se revela, 
Eu no teu seio divino . 
Vim cumprir o meu destino... 
Vim, que em ti só sei viver, 
Só por ti posso morrer. 

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'


1. Desde o início do poema até ao verso 12, repete-se um mesmo processo estilístico: a pergunta retórica.
Refira o efeito de sentido que esse processo estilístico produz.

A pergunta retórica, que, portanto, não é para ser respondida, produz, pela sua insistência (vv. 1 a 12),um efeito de convicção: a resposta às sucessivas interrogações, que seria, por exemplo, «ninguém» (v. 16), sublinha a predestinação que parece conduzir todas as coisas e todos os seres, e cuja força é revelada pelo «instinto» (v. 20).

2. Comente a importância das referências a elementos da natureza feitas ao longo do poema.

As referências a elementos da natureza, isto é, à «estrela» (v. 1), à «ave» (v. 4), à «planta» (v. 5), ao «verme» (v. 6), à «abelha» (v. 9), ao «prado» (v. 10), à «flor» (v. 11) e aos seus movimentos ou modos de
vida funcionam como a demonstração de uma capacidade, intrínseca a todos os seres, de serem fiéis ao seu destino. Através destas referências, pretende-se transmitir a ideia de espontaneidade e de inevitabilidade do amor que o «eu» sente, como se esse amor fosse uma força da natureza, independente da sua vontade.

3. Indique os traços principais do «tu» a que o sujeito lírico diretamente se dirige, fundamentando a resposta em elementos do texto.

O «tu» é o objeto do amor apaixonado do «eu», num sentido que parece indicar a total identificação entre ambos. Do «tu» é destacado um elemento concreto, os «olhos» (v. 14), que são o que melhor pode caracterizar a intensidade dessa identificação. Além disso, o adjetivo que marca a expressão «no teu seio divino» (v. 21) é um traço da qualidade única e sagrada de que o «tu» se reveste aos olhos do «eu».

4. Explicite as relações que se podem estabelecer entre o título e o conteúdo do poema

O título do poema, «Destino», palavra que depois é repetida no verso 22, desta vez associada ao amor que o «eu» sente, é a resposta às perguntas retóricas colocadas na primeira parte do poema, resposta reforçada
pela palavra «instinto» (v. 20), extensiva a «todo o ente» (v. 19). Sentido essencial do poema, o «Destino» marca uma visão romântica da natureza, animada por uma ordem perfeita e predeterminada, e do amor humano como parte dessa harmonia.

Relações intertextuais

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folgas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira:

Que alegre campo! Que a manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se não te vira
Mais tristeza que a morte me causara.

Bocage




A F., favorecendo com a boca
e desprezando com os olhos

Quando o Sol nasce e a sombra principia,
A doce abelha, a borboleta airosa
Procura luz ardente e fresca rosa,
Que faz a Terra céu e a noite dia.

Mas quando à flor se entrega, à luz se fia,
Uma fica infeliz, outra ditosa,
Pois vive a abelha e morre a mariposa
Na favorável rosa e chama impia.

Fílis, abelha sou, sou borboleta
Que com afecto igual, com igual sorte,
Busco em vós melhor luz, flor mais selecta,

Mas quando a flor é branda, a chama é forte,
Néctar acho na flor, na luz cometa,
A boca me dá vida, os olhos morte.

Jerónimo Baía
  
Está o lascivo e doce passarinho
Com o biquinho as penas ordenando,
O verso sem medida, alegre e brando,
Espedindo no rústico raminho.


O cruel caçador (que do caminho
Se vem calado e manso desviando),
Na pronta vista a seta endereitando,
Lhe dá no Estígio lago eterno ninho.  


Destarte o coração, que livre andava
(Posto que já de longe destinado),
Onde menos temia, foi ferido.


Porque o Frecheiro cego me esperava,
Pera que me tomasse descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.


Camões

PENÉLOPE ESCREVE , JOSÉ MIGUEL SILVA

PENÉLOPE ESCREVE 


É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.



JOSÉ MIGUEL SILVA
Ulisses já não mora aqui
& etc. 

Vale Formoso


No Vale formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.

No Vale formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.

No Vale formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.

Filipa Leal, Vale Formoso, Deriva Editores.

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu, Maria do Rosário Pedreira

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para a morte.
 Não fales – tenho também ciúmes

 da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.

 Maria do Rosário Pedreira

Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
 veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?

 Sentada, bordava um lenço de mão;
 veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?
 Dei um cravo e dei um lenço,
 só não dei o coração;
 mas se o rapaz mo pedir
 -- mãe, dou-lho ou não?
 (Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa)

 Com efeito, esta composição poética tem marcas que nos remetem para a tradição da lírica medieval. Eugénio de Andrade, poeta contemporâneo português, recorre aos artifícios das cantigas de amigo para recriar uma pequena história de amor. O eco das cantigas de amigo está presente na construção paralelística e na presença da mãe. Tradicionalmente, a mãe funciona como confidente e adjuvante; aqui é a voz que ouve os anseios do sujeito de enunciação. Como nas cantigas de amigo há um refrão, neste caso um refrão que implica uma escolha. A “amiga” é sujeita a uma série de pedidos: cravo, lenço, coração. Deu o cravo, símbolo quiçá da liberdade, deu o lenço bordado e, agora, tem dúvidas sobre se dará ou não o o coração. Como nas cantigas de amigo, sentimos a dúvida, a ansiedade, o despertar dos amores. Isto prova, que o tema amoroso, passem os séculos que passarem, é omnipresente.

Oficina de escrita

Partindo da sua experiência de leitura da lírica trovadoresca, refira-se, num texto de cem a duzentas palavras, ao tema do sofrimento amoroso nas cantigas de amor. O sofrimento amoroso é uma constante na lírica trovadoresca e não só. Com efeito, raras são as épocas literárias em que a dor de amor não esteja presente. Nas cantigas de amor, o sofrimento amoroso toma o nome de “coita de amor” e é sentido pelo sujeito de enunciação. Nestas cantigas, de sabor provençal, o trovador, respeitando a identidade da sua “senhor”, mostra o quanto por ela sofre e até se mostra disposto a morrer por ela. Convém dizer que a “senhor” era uma mulher casada, daí a necessidade do trovador manter o anonimato sobre ela, bem como de sofrer sem ter qualquer esperança de ser correspondido. A “coita de amor” é , de certo modo, uma representação do amor platónico. Um amor que se contenta com a admiração, pois sabe que não merece ser correspondido.

Sassetti

Teste

Teste de Avaliação de Literatura Portuguesa barroco

Ler é Preciso! - apresentação da leitura encenada


No dia 22 de abril, na Biblioteca do Agrupamento de Escolas do Cerco, o 10.ºC e o 10.ºD de Literatura Portuguesa apresentaram ao 2.ºA da EB1/JI da Corujeira uma leitura encenada de "Uma história que começa pelo fim", um dos contos que faz parte do livro Histórias que me contaste tu, de Manuel António Pina.





Ler é Preciso_dramatização

Sob o signo da subversão, "Uma história que começa pelo fim”, de Manuel António Pina.




Sob o signo da subversão,
"Uma história que começa pelo fim”,
de Manuel António Pina.
   

Manuel  António Pina  subverteu os cânones da literatura tradicional, assim, ao invés de iniciar o seu conto como habitualmente: “era uma vez”, “há muito, muito tempo” e de narrar  o desenvolver de um conflito, que no fim acaba bem, prefere começar pelo fim.
    O autor, desta forma, frustra as expetativas do leitor, pois não segue os trilhos habituais do conto tradicional: o início é o fim. De facto, quantos de nós já não se questionaram sobre o depois do “foram felizes para sempre”?
 Diz-se que palavras como “sempre” e “nunca” devem ser evitadas, não é isso que o narrador faz, ele questiona-as: “o que é para sempre?”.  E vai mais além: pode ser-se feliz para sempre? O que é ser feliz? Como se mede a felicidade?
Para “desmontar” algumas ideias feitas, M.A.P.  coloca um príncipe e uma princesa numa situação absurda: aborrecidos com a monotonia do “felizes para sempre”...


Uma história que começa pelo fim

António Veira

António Vieira

O céu estrela  o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e a gloria tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

 No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.

Fernando Pessoa, Mensagem

Barroco

O Barroco caracteriza-se pelo exagero ornamental. Trata-se de um estilo extremamente rebuscado, que se opõe às formas clássicas e sóbrias do Renascimento. Aparentemente, o Barroco é menos profundo, mais superficial do que qualquer outro género. Valoriza-se mais a forma do que o conteúdo. 
Há duas tendências da literatura barroca: o cultismo e o concetismo. O cultismo valoriza o artifício da forma, a busca de perfeição formal. Explora a perceção sensorial através do jogo de palavras e da repetição de sons. No cultismo o aspeto exterior é visível por causa do abuso de figuras de linguagem, especialmente sintáticas como a repetição, a anáfora e o quiasmo. O concetismo valoriza o artifício do conteúdo e volta-se para o requinte expressivo e para a subtileza de ideias. A expressão concetista é mais simples que a dos cultistas, no entanto, a densidade concetual das suas obras tende a dificultar a compreensão. 
Os concetistas preocupam-se em exprimir muitas ideias e têm tendência para acumular conceitos e usar palavras com duplo e triplo significado. Assim, as figuras de estilo mais utilizadas são a antítese, os paradoxos, as comparações inesperadas, as metáforas, as imagens, as alegorias, as sinédoques e as hipérboles que conduzem a uma densidade concetual que obscurece o conteúdo.

Medida velha e medida nova






Em Camões coexistiu a poesia com sabor tradicional com uma poesia cujos modelos formais e temáticos revelam a cultura humanística e clássica do poeta. Assim, e por influência tradicional escreveu vilancetes, cantigas, esparsas, trovas. Fez uso da Medida Velha e cultivou o verso de cinco sílabas métricas (Redondilha Menor) e de sete sílabas métricas (Redondilha Maior). 
Da influência clássica Renascentista Camões, cultivou a Medida Nova fazendo uso do verso decassílabo através da composição poética o soneto (duas quadras e dois tercetos) introduzido em Portugal por Sá de Miranda.

Amor é um fogo que arde sem se ver | Luís de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Luís de Camões