Um Auto de Gil Vicente [RTP MEMÓRIA]
Para celebrar o casamento da Infanta D. Beatriz, Gil Vicente escreve um auto que é representado por ele, por sua filha e por Bernardim Ribeiro.
Bernardim Ribeiro, aproveita o auto para, a coberto da sua personagem, revelar o seu amor à infanta que também está apaixonada por ele.
Uma peça de Almeida Garrett, com adaptação de Luís Francisco Rebelo e encenação de Varela Silva.
Realizada em 1972 por Luís Miranda, esta peça conta com as interpretações de: Pedro Lemos, Henriqueta Maia, Manuel Cavaco, Victor de Sousa, Joaquim Rosa, Henrique Santos, Irene Cruz, Alberto Ponces, Rui Furtado, Luis Filipe, Luis de Campos, Meniche Lopes, Maria Alberta, José David, Cunha Marques, Paulo Garcia, entre outros.
DRAMATIZAÇÃO AQUI.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Alguns poemas de Maria Rosário Pedreira
Amei-te como na vida se ama uma só vez;
e todos os afetos que dividi depois eram
apenas cinzas que evocavam o brilho dessa
imensa chama. Troquei suspiros e beijos
com muitas outras bocas quando, na minha,
o travo da solidão era uma amarga desculpa
para repartir o pouco que não tinha; mas
em nenhuma quis morder fruto mais
suculento que o silêncio nem permiti que
pousasse sequer o meu nome verdadeiro -
que só nos teus lábios era graça e canção
e eco de loucura. Foi o meu corpo tão vão displicente
naqueles que o cingiram que me faria velha
a tentar recordar-lhes os gestos hesitantes,
as convulsões da pressa e os veios de sal que
descreviam no litoral da pele o aviso de uma
paisagem interior abandonada. Mas de nada
me serviu amar-te assim - pois, ao dizer-te o
que não pude ser longe de ti, digo-te o que sou
e isso há de guardar-te para sempre de voltares.
(Maria do Rosário Pedreira)
**************
“Ninguém pode tomar banho duas vezes nas águas do mesmo rio” – Heráclito
**************
Nunca te esqueci – é este um amor maior
que atravessa a vida e resiste à cicatriz
do tempo. O que ontem me disseste agora
o ouço, como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas
se aguardavam na distância de um beijo e
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se
hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja
lombada acariciei todos os dias que durou a tua
ausência como uma nesga de sol acaricia um
rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar
na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
para qualquer aventura – e ainda o cão deitado
à porta, à tua espera, como na véspera de partires.
Porque os anos não contam para quem assim ama.
**************
Nada mudou. Ao fim de tantos anos, o meu
passado é ainda o mesmo passado - nenhum
rosto diferente para desviar o rio da memória,
nenhum nome depois. Para te esquecer,
devia ter partido há muito tempo, como viajam
as aves de verão em verão. E tentei; mas as malas
abertas sobre a cama eram livros abertos, e eu
nunca deixei um livro pela metade. Por ter
ficado, nada mudou jamais - e o meu passado é
ainda o nosso passado; e o rosto que tinha antes
de me deixares é o que o espelho me devolve no
presente - embora os outros me digam que o
que vêem na superfície fria desse lago é um vinco
na água, uma mulher muito mais velha do que eu.
**************
Chegámos ao amor pelos mapas vincadosda solidão. Quando o veneno das últimas
memórias se diluiu no sangue (como o
orvalho se evapora dos salgueiros assim
que março começa a conspirar), o nosso
silêncio gritou para que alguém o escutasse.
Despimos, pois, as estátuas um do outro
sem o temor de perturbarmos o coração
da pedra; e descobrimos que a nudez era
a única ponte que entre nós se estendia.
Nas imensas noites que se abateram sobre
nós, os nossos corpos deixaram de pertencer
ao mundo: foram como essas aves surdas
que se afastam do bando, eternamente
indiferentes ao apelo do verão. Por isso
creio agora que o amor não passou de uma
desculpa para juntarmos os nossos desamparos;
e não estranho sequer que lábios castigados por
tantos beijos, como foram os teus nunca tenham
nomeado essa doce fadiga que sucede a um
abraço; nem me pergunto porque, ao fechar
os olhos, são hoje ainda as linhas do teu rosto
que as sombras teimosamente me devolvem.
Maria do Rosário Pedreira
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Maria do Rosário Pedreira
OS BOIS E OS LIVROS, António José Forte
OS BOIS E OS LIVROS
Os bois não sabem ler e também não fingem que sabem. É por isso que nunca ninguém viu nenhum boi com um livro debaixo do braço. Mas há gente que tem a mania de ligar os bois aos livros. Ouve-se às vezes dizer: aquele não conhece uma letra nem do tamanho dum boi. E um filósofo alemão, que usava uns enormes bigodes, afirmou certo dia que ler, ler bem, era verdadeiramente uma ruminação, que é o que os bois fazem depois de introduzir a comida na boca. E que é o que não faz a maioria dos que não são bois, isto é, os homens que lêem livros. Os bois não sabem ler e não gostam nem de ler nem de comer livros, esta é a verdade. Por isso andam a puxar carros de bois, a puxar charruas e quando vão às touradas andam a correr dum lado para o outro às marradas. Os homens que sabem ler, mesmo mal, que andam atrás ou à frente dos bois, conforme as circunstâncias, e que não vêem um boi doutra coisa chamam-se ribatejanos. Os meninos, a quem são dirigidas estas palavras de muita sabedoria, não devem imitar o analfabetismo dos bois nem os homens que andam atrás ou à frente deles. Não andar nunca à frente dos bois porque podem tropeçar e cair e serem pisados pelos bois, não andar atrás porque podem levar com os rabos dos bois na cara e, como já sabem ler, não querem com certeza voltar a ser analfabetos. Numa coisa, porém, devem imitar sempre os bois: na ruminação. E isto quer dizer: ler, ler bem, ler com os olhos e com o pensamento.
António José Forte (1931-1988), Uma Faca nos Dentes, 2.ª edição, aumentada, Parceria A. M. Pereira, p. 124, 2003.
Maria do Rosário Pedreira
Não me importa o pão quando não o divido:
farta mesa triste sem companhia. Na tua
ausência não há fome que me devore, e a
gota de vinho na toalha é só mais um borrão
num poema sozinho. Antes de ti nunca
tive apetite pela vida, as costelas vincadas
na camisa. Tantos cães escanzelados iguais
a mim cumprindo a solidão das avenidas,
e tão poucas as esquinas. Milagre mesmo
foi teres parado numa para me alimentares.
*********
Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo – a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só
o que li nos romances que nos salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante
que ergueste no corredor como uma casa
nova. Trago portas abertas no coração:
se ainda não sabias, és muito bem vindo.
Maria do Rosário Pedreira in Poesia reunida
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Destino, Almeida Garrett
Destino
Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?
Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.
Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'
1. Desde o início do poema até ao verso 12,
repete-se um mesmo processo estilístico: a pergunta retórica.
Refira o efeito de sentido que esse processo
estilístico produz.
A pergunta retórica, que, portanto, não é para
ser respondida, produz, pela sua insistência (vv. 1 a 12),um efeito de
convicção: a resposta às sucessivas interrogações, que seria, por exemplo,
«ninguém» (v. 16), sublinha a predestinação que parece conduzir todas as coisas
e todos os seres, e cuja força é revelada pelo «instinto» (v. 20).
2. Comente a importância das referências a elementos da
natureza feitas ao longo do poema.
As referências a elementos da natureza, isto é, à
«estrela» (v. 1), à «ave» (v. 4), à «planta» (v. 5), ao «verme» (v. 6), à
«abelha» (v. 9), ao «prado» (v. 10), à «flor» (v. 11) e aos seus movimentos ou
modos de
vida funcionam como a demonstração de uma
capacidade, intrínseca a todos os seres, de serem fiéis ao seu destino. Através
destas referências, pretende-se transmitir a ideia de espontaneidade e de
inevitabilidade do amor que o «eu» sente, como se esse amor fosse uma força da
natureza, independente da sua vontade.
3. Indique os traços principais do «tu» a que o sujeito lírico
diretamente se dirige, fundamentando a resposta em elementos do texto.
O «tu» é o objeto do amor apaixonado do «eu», num
sentido que parece indicar a total identificação entre ambos. Do «tu» é
destacado um elemento concreto, os «olhos» (v. 14), que são o que melhor pode
caracterizar a intensidade dessa identificação. Além disso, o adjetivo que
marca a expressão «no teu seio divino» (v. 21) é um traço da qualidade única e
sagrada de que o «tu» se reveste aos olhos do «eu».
4. Explicite as relações que se podem estabelecer
entre o título e o conteúdo do poema
O título do poema, «Destino», palavra que depois
é repetida no verso 22, desta vez associada ao amor que o «eu» sente, é a
resposta às perguntas retóricas colocadas na primeira parte do poema, resposta
reforçada
pela palavra «instinto» (v. 20), extensiva a
«todo o ente» (v. 19). Sentido essencial do poema, o «Destino» marca uma visão
romântica da natureza, animada por uma ordem perfeita e predeterminada, e do
amor humano como parte dessa harmonia.
Relações intertextuais
Olha,
Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?
Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.
Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folgas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira:
Que alegre campo! Que a manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se não te vira
Mais tristeza que a morte me causara.
Bocage
A F., favorecendo com a boca
e desprezando com os olhos
Quando o Sol nasce e a sombra principia,
A doce abelha, a borboleta airosa
Procura luz ardente e fresca rosa,
Que faz a Terra céu e a noite dia.
Mas quando à flor se entrega, à luz se fia,
Uma fica infeliz, outra ditosa,
Pois vive a abelha e morre a mariposa
Na favorável rosa e chama impia.
Fílis, abelha sou, sou borboleta
Que com afecto igual, com igual sorte,
Busco em vós melhor luz, flor mais selecta,
Mas quando a flor é branda, a chama é forte,
Néctar acho na flor, na luz cometa,
A boca me dá vida, os olhos morte.
e desprezando com os olhos
Quando o Sol nasce e a sombra principia,
A doce abelha, a borboleta airosa
Procura luz ardente e fresca rosa,
Que faz a Terra céu e a noite dia.
Mas quando à flor se entrega, à luz se fia,
Uma fica infeliz, outra ditosa,
Pois vive a abelha e morre a mariposa
Na favorável rosa e chama impia.
Fílis, abelha sou, sou borboleta
Que com afecto igual, com igual sorte,
Busco em vós melhor luz, flor mais selecta,
Mas quando a flor é branda, a chama é forte,
Néctar acho na flor, na luz cometa,
A boca me dá vida, os olhos morte.
Jerónimo Baía
Está
o lascivo e doce passarinho
Com o biquinho as penas ordenando,O verso sem medida, alegre e brando,
Espedindo no rústico raminho.
O cruel caçador (que do caminho
Se vem calado e manso desviando),
Na pronta vista a seta endereitando,
Lhe dá no Estígio lago eterno ninho.
Destarte o coração, que livre andava
(Posto que já de longe destinado),
Onde menos temia, foi ferido.
Porque o Frecheiro cego me esperava,
Pera que me tomasse descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.
Camões
PENÉLOPE ESCREVE , JOSÉ MIGUEL SILVA
PENÉLOPE ESCREVE
É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.
JOSÉ MIGUEL SILVA
Ulisses já não mora aqui
& etc.
É mais que certo: não sinto a tua falta.
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.
JOSÉ MIGUEL SILVA
Ulisses já não mora aqui
& etc.
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José Miguel Silva,
poesia
Vale Formoso
No Vale formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.
No Vale formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.
No Vale formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.
Filipa Leal, Vale Formoso, Deriva Editores.
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Filipa Leal,
poesia
Não digas nada – a tua boca já me pertenceu, Maria do Rosário Pedreira
Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para a morte.
Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.
Maria do Rosário Pedreira
Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para a morte.
Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.
Maria do Rosário Pedreira
Canção
Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?
Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?
Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
-- mãe, dou-lho ou não?
(Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa)
Com efeito, esta composição poética tem marcas que nos remetem para a tradição da lírica medieval. Eugénio de Andrade, poeta contemporâneo português, recorre aos artifícios das cantigas de amigo para recriar uma pequena história de amor. O eco das cantigas de amigo está presente na construção paralelística e na presença da mãe. Tradicionalmente, a mãe funciona como confidente e adjuvante; aqui é a voz que ouve os anseios do sujeito de enunciação. Como nas cantigas de amigo há um refrão, neste caso um refrão que implica uma escolha. A “amiga” é sujeita a uma série de pedidos: cravo, lenço, coração. Deu o cravo, símbolo quiçá da liberdade, deu o lenço bordado e, agora, tem dúvidas sobre se dará ou não o o coração. Como nas cantigas de amigo, sentimos a dúvida, a ansiedade, o despertar dos amores. Isto prova, que o tema amoroso, passem os séculos que passarem, é omnipresente.
veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?
Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo -
- mãe, dou-lho ou não?
Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
-- mãe, dou-lho ou não?
(Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa)
Com efeito, esta composição poética tem marcas que nos remetem para a tradição da lírica medieval. Eugénio de Andrade, poeta contemporâneo português, recorre aos artifícios das cantigas de amigo para recriar uma pequena história de amor. O eco das cantigas de amigo está presente na construção paralelística e na presença da mãe. Tradicionalmente, a mãe funciona como confidente e adjuvante; aqui é a voz que ouve os anseios do sujeito de enunciação. Como nas cantigas de amigo há um refrão, neste caso um refrão que implica uma escolha. A “amiga” é sujeita a uma série de pedidos: cravo, lenço, coração. Deu o cravo, símbolo quiçá da liberdade, deu o lenço bordado e, agora, tem dúvidas sobre se dará ou não o o coração. Como nas cantigas de amigo, sentimos a dúvida, a ansiedade, o despertar dos amores. Isto prova, que o tema amoroso, passem os séculos que passarem, é omnipresente.
Oficina de escrita
Partindo da sua experiência de leitura da lírica trovadoresca, refira-se, num texto de cem a duzentas palavras, ao tema do sofrimento amoroso nas cantigas de amor.
O sofrimento amoroso é uma constante na lírica trovadoresca e não só. Com efeito, raras são as épocas literárias em que a dor de amor não esteja presente.
Nas cantigas de amor, o sofrimento amoroso toma o nome de “coita de amor” e é sentido pelo sujeito de enunciação. Nestas cantigas, de sabor provençal, o trovador, respeitando a identidade da sua “senhor”, mostra o quanto por ela sofre e até se mostra disposto a morrer por ela. Convém dizer que a “senhor” era uma mulher casada, daí a necessidade do trovador manter o anonimato sobre ela, bem como de sofrer sem ter qualquer esperança de ser correspondido.
A “coita de amor” é , de certo modo, uma representação do amor platónico. Um amor que se contenta com a admiração, pois sabe que não merece ser correspondido.
Ler é Preciso! - apresentação da leitura encenada
No dia 22 de abril, na Biblioteca do Agrupamento de Escolas do Cerco, o 10.ºC e o 10.ºD de Literatura Portuguesa apresentaram ao 2.ºA da EB1/JI da Corujeira uma leitura encenada de "Uma história que começa pelo fim", um dos contos que faz parte do livro Histórias que me contaste tu, de Manuel António Pina.
Ler é Preciso_dramatização
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Ler é Preciso,
Manuel António Pina
Sob o signo da subversão, "Uma história que começa pelo fim”, de Manuel António Pina.

Sob o signo da subversão,
"Uma história que começa pelo fim”,
de Manuel António Pina.
Manuel António Pina subverteu os cânones da literatura tradicional, assim, ao invés de iniciar o seu conto como habitualmente: “era uma vez”, “há muito, muito tempo” e de narrar o desenvolver de um conflito, que no fim acaba bem, prefere começar pelo fim.
O autor, desta forma, frustra as expetativas do leitor, pois não segue os trilhos habituais do conto tradicional: o início é o fim. De facto, quantos de nós já não se questionaram sobre o depois do “foram felizes para sempre”?
Diz-se que palavras como “sempre” e “nunca” devem ser evitadas, não é isso que o narrador faz, ele questiona-as: “o que é para sempre?”. E vai mais além: pode ser-se feliz para sempre? O que é ser feliz? Como se mede a felicidade?
Para “desmontar” algumas ideias feitas, M.A.P. coloca um príncipe e uma princesa numa situação absurda: aborrecidos com a monotonia do “felizes para sempre”...
O autor, desta forma, frustra as expetativas do leitor, pois não segue os trilhos habituais do conto tradicional: o início é o fim. De facto, quantos de nós já não se questionaram sobre o depois do “foram felizes para sempre”?
Diz-se que palavras como “sempre” e “nunca” devem ser evitadas, não é isso que o narrador faz, ele questiona-as: “o que é para sempre?”. E vai mais além: pode ser-se feliz para sempre? O que é ser feliz? Como se mede a felicidade?
Para “desmontar” algumas ideias feitas, M.A.P. coloca um príncipe e uma princesa numa situação absurda: aborrecidos com a monotonia do “felizes para sempre”...
Uma história que começa pelo fim
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Manuel António Pina
António Veira
António Vieira
O céu estrela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e a gloria tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
Fernando Pessoa, Mensagem
O céu estrela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e a gloria tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
Fernando Pessoa, Mensagem
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