Aparição
No YouTube, já está disponível,na íntegra, o programa Grandes Livros dedicado a Aparição.
Aparição (Documentário) | Rui Filipe
[Comentário do Rui após visionamento do programa Grandes Livros]
RTP2, Grandes Livros - Aparição
Pensar
Ainda a Aparição.
No cap. I., Alberto começa por se identificar com:
- Profissão - “Sou professor de liceu” (pg.13). -
- Alcunha - “O monge sou eu” (pg. 17).
- Nome próprio - “O Alberto sou eu” (pg.20).
Tudo isto são elementos exteriores, são formas de sociabilização. Referem-se não apenas ao "eu", mas à relação eu / sociedade. Isto é, são convenções que facilitam a aprendizagem do social.
Profissão : estatuto social
Alcunha : forma de os outros o verem “ o monge”
nome próprio: é um rótulo, uma forma de se manifestar.
“não sei que pacto se estabelece entre a pessoa que somos e o nome que nos deram : o nome como o corpo, é nós também ” (pg. 20)
No cap. II, Alberto, confrontado com a morte do pai relembra a questão essencial que o persegue desde a infância.
“Quem sou eu ?” ( pg. 25)
A resposta que lhe é vaga, não o conseguindo satisfazer cabalmente. Alberto tem consciência de que é mais do que um mero ser vivo que pensa, vive e há-de morrer. A inquietação existencial de Alberto caminha progressivamente do exterior para o interior.
No cap. III, Alberto diz-se um “indizível equilíbrio interior”.
Estamos perante um paradoxo: ele diz que é o que não pode ser dito. Depois de Alberto ter concluído que é uma entidade única e irrepetível toma consciência da morte como limite. A morte corresponde a uma “desaparição” (pg. 51) Na filosofia cristã o homem tem consciência que é um ser finito perante a infinitude divina.
Em Aparição proclama-se morte de Deus (pg. 46). Deus já não explica. O ser depara-se com o Nada.
“Ora este eu é para morrer” (...) Mas como é possível? Agora eu sou essa intimidade, agora que sou o seu espírito, a sua evidência.”
No início do cap. IV , Alberto encontra um novo problema: “justificar a vida em face da inverosimilhança da morte” (pg. 49). Por isso regressa aos primórdios do homem – procura a “verdade primitiva” (pg. 49) e conclui que ele não é mais do que o resultado de “biliões e biliões de acasos” (pg. 50). A morte é aqui um paradoxo, um absurdo face à existência. Só temos consciência do “eu” no instante da morte.
No cap. VI existe, pela primeira vez, o confronto entre a aparição de si a si mesmo.
No epílogo, Alberto diz :
“Casei, adoeci, retirei-me do ensino” mas o essencial permanece inalterável: cada instante continua único e irrepetível. É dada mais importância não ao ser mas ao estar sendo. Ou seja ao instante.
O problema do ser também se coloca ao nível da palavra.
“E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.” Pg. 44
A língua condiciona, sendo simultaneamente criadora e veículo de cultura (actividade cognoscitiva e manifestativa). A língua corresponde a uma determinada apreensão da realidade (sistema modelizante primário) , não traduzindo contudo automática e fielmente o que queremos exprimir.
A linguagem faz com que o homem seja mais do que um “ser para si” , ajuda-o a ser um “ser para os outros”. O problema da palavra está presente em Aparição na medida em que Alberto se debate com o problema da opacidade da linguagem , com a dificuldade em adequar o que quer dizer às palavras que existem. Daí que o “eu” seja um “indizível equilíbrio” .
Existencialismo & Aparição

Nietzsche insurge-se contra a civilização burguesa voltada para o bem-estar material , rejeitando todos os seus valores, proclamando a morte de Deus e valorizando o sentido terreno da existência.
Nietzsche criou o conceito de super-homem. O homem que ocupa o lugar de Deus.
A ideia do homem ser o seu próprio Deus, coincide a afirmação patente no preâmbulo de Aparição. Na pg. 11, o narrador afirma:
“Conheço-me o deus que recriou o mundo., o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodígio de invenções , descobertas, que só eu sei, recriei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímil”
A filosofia de Nietzsche foi desenvolvida por Sartre e Camus.
Sartre desenvolve as ideias de Nietzsche e conclui que, como não existe uma razão suprema - um deus , – a vida humana é inútil, absurda e sem esperança. Sartre afirma que:
“Se Deus não existe, o homem está condenado a ser livre.”
A liberdade de optar coloca o homem face a uma multiplicidade de caminhos: é uma responsabilidade angustiante pois sendo o homem livre de escolher, também as consequências dessa opção recaem sobre ele.
EXISTENCIALISMO
Camus expressa esta ideia através do mito de Sísifo.
Sísifo, pai de Ulisses, foi, segundo a tradição, um mortal sem escrúpulos, tendo vivido de roubos e assassínios. Por isso, uma vez descido ao Hades, foi condenado pelos Juízes dos Infernos a empurrar sem descanso um enorme rochedo até ao cume de uma montanha. Sísifo, porém, nunca conseguiu realizar esta tarefa pois mal chegava ao cimo da montanha a enorme pedra, em consequência do seu peso, caía de novo. Os deuses condenaram Sísifo ao castigo mais terrível: o trabalho inútil e sem esperança.
A tragicidade deste mito advém da consciência do seu herói. Se acaso Sísifo tivesse esperança ,o efeito da tortura seria minimizado.
Uma característica muito comum a todas as filosofias da existência é o facto de repousarem numa vivência muito pessoal e portanto variável de filósofo para filósofo. A existência é sempre individual, singular, subjectiva.
A angústia e a inquietação existencialista perpassam de um modo quase obsessivo para a figura de Alberto Soares.
Nocturno nº 20, Chopin
Aparição | Vergílio Ferreira
“E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.”
Ferreira, Vergílio Aparição , Bertrand ed.28ª ed, 1996, pg.44
— “Também fiz outra experiência, senhor doutor.
— Que experiência?
— Bem ... Não sei como explicar. É assim mastigar as palavras.
— Mastigar as palavras?
— Bem... É assim: a gente diz, por exemplo, pedra, madeira, estrelas ou
qualquer coisa assim. E repete: pedra, pedra, pedra” Muitas vezes e depois pedra já não quer dizer nada.
Como, Carolino? Sabes então já a fragilidade das palavras, acaso o milagre de um encontro através delas connosco e com os outros? E saberás o que vive em ti, o que te vive, e as palavras ignoram?”
Ferreira, Vergílio Aparição , Bertrand ed.28ª ed, 1996, pg.74.




