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Aparição



No YouTube, já está disponível,na íntegra, o programa Grandes Livros dedicado a Aparição.

Aparição (Documentário) | Rui Filipe

"Terminou há minutos o programa da Rtp2 Grandes Livros a falar do livro "Aparição" de Vergílio Ferreira. O programa explicava o livro numa vertente mais ligada ao mundo e ao escritor e não tanto a questão literária. No entanto, não deixei de aprender umas coisas, sei agora que entre outros prémios Vergílio António Ferreira( também descobri o nome completo dele) recebeu os prémios Camões e Camilo Castelo Branco. Uma pequena curiosidade é o facto da palavra "aparição" ter sido narrada apenas uma vez. Mas idiossincrasias à parte, desconhecia que o livro já tinha tido tantas edições na antiga União Soviética." Rui Filipe

[Comentário do Rui após visionamento do programa Grandes Livros]

RTP2, Grandes Livros - Aparição


RTP2, Grandes Livros - Aparição
Pelas 21:15
Não percam!

"Grandes Livros" é um projecto multi-plataforma de divulgação da literatura portuguesa que envolve uma série de 12 documentários, com 50 minutos cada, narrados por Diogo Infante, actor e director do Teatro Nacional D. Mª II.

Pensar


"Chegar à janela e olhar o céu. Ver só o que cabe no rectângulo dela, limitado e instantâneo. E ficar perturbado por essa rápida aparição da beleza que se não sabe dizer. Há um azul intenso e profundo e a um dos lados o amontoado de uma nuvem branca, iluminada de sol. Como transmitir esta revelação? Quantas formas de a dizer e todas serem uma ficção do que lá está. Há uma outra coisa dessa coisa e tudo são formas fictícias de a dizer. É um céu azul e uma nuvem branca a um canto da janela. Mas o que isso foi no seu aparecer, para sempre se perdeu." (verbete 181) Ferreira, Vergílio, Pensar , Bertrand Ed.
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Ainda a Aparição.


No cap. I., Alberto começa por se identificar com:


- Profissão - “Sou professor de liceu” (pg.13). -

- Alcunha - “O monge sou eu” (pg. 17).

- Nome próprio - “O Alberto sou eu” (pg.20).



Tudo isto são elementos exteriores, são formas de sociabilização. Referem-se não apenas ao "eu", mas à relação eu / sociedade. Isto é, são convenções que facilitam a aprendizagem do social.


Profissão : estatuto social

Alcunha : forma de os outros o verem “ o monge”

nome próprio: é um rótulo, uma forma de se manifestar.


“não sei que pacto se estabelece entre a pessoa que somos e o nome que nos deram : o nome como o corpo, é nós também ” (pg. 20)


No cap. II, Alberto, confrontado com a morte do pai relembra a questão essencial que o persegue desde a infância.

“Quem sou eu ?” ( pg. 25)

A resposta que lhe é vaga, não o conseguindo satisfazer cabalmente. Alberto tem consciência de que é mais do que um mero ser vivo que pensa, vive e há-de morrer. A inquietação existencial de Alberto caminha progressivamente do exterior para o interior.

No cap. III, Alberto diz-se um indizível equilíbrio interior.

Estamos perante um paradoxo: ele diz que é o que não pode ser dito. Depois de Alberto ter concluído que é uma entidade única e irrepetível toma consciência da morte como limite. A morte corresponde a uma “desaparição” (pg. 51) Na filosofia cristã o homem tem consciência que é um ser finito perante a infinitude divina.

Em Aparição proclama-se morte de Deus (pg. 46). Deus já não explica. O ser depara-se com o Nada.


“Ora este eu é para morrer” (...) Mas como é possível? Agora eu sou essa intimidade, agora que sou o seu espírito, a sua evidência.”


No início do cap. IV , Alberto encontra um novo problema: “justificar a vida em face da inverosimilhança da morte” (pg. 49). Por isso regressa aos primórdios do homem – procura a “verdade primitiva” (pg. 49) e conclui que ele não é mais do que o resultado de “biliões e biliões de acasos” (pg. 50). A morte é aqui um paradoxo, um absurdo face à existência. Só temos consciência do “eu” no instante da morte.

No cap. VI existe, pela primeira vez, o confronto entre a aparição de si a si mesmo.

Depois da aparição de si, surge outro problema: como comunicar aos outros a sua descoberta.


No epílogo, Alberto diz :

“Casei, adoeci, retirei-me do ensino” mas o essencial permanece inalterável: cada instante continua único e irrepetível. É dada mais importância não ao ser mas ao estar sendo. Ou seja ao instante.

O problema do ser também se coloca ao nível da palavra.

“E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.” Pg. 44

A língua condiciona, sendo simultaneamente criadora e veículo de cultura (actividade cognoscitiva e manifestativa). A língua corresponde a uma determinada apreensão da realidade (sistema modelizante primário) , não traduzindo contudo automática e fielmente o que queremos exprimir.

A linguagem faz com que o homem seja mais do que um “ser para si” , ajuda-o a ser um “ser para os outros”. O problema da palavra está presente em Aparição na medida em que Alberto se debate com o problema da opacidade da linguagem , com a dificuldade em adequar o que quer dizer às palavras que existem. Daí que o “eu” seja um “indizível equilíbrio” .



Existencialismo & Aparição


O existencialismo fundamenta-se na obra de Nietzsche, filósofo do séc. XIX.
Nietzsche insurge-se contra a civilização burguesa voltada para o bem-estar material , rejeitando todos os seus valores, proclamando a morte de Deus e valorizando o sentido terreno da existência.
Nietzsche criou o conceito de super-homem. O homem que ocupa o lugar de Deus.
A ideia do homem ser o seu próprio Deus, coincide a afirmação patente no preâmbulo de
Aparição. Na pg. 11, o narrador afirma:

“Conheço-me o deus que recriou o mundo., o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodígio de invenções , descobertas, que só eu sei, recriei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímil”

A filosofia de
Nietzsche foi desenvolvida por Sartre e Camus.
Sartre desenvolve as ideias de Nietzsche e conclui que, como não existe uma razão suprema - um deus , – a vida humana é inútil, absurda e sem esperança. Sartre afirma que:

“Se Deus não existe, o homem está condenado a ser livre.”

A liberdade de optar coloca o homem face a uma multiplicidade de caminhos: é uma responsabilidade angustiante pois sendo o homem livre de escolher, também as consequências dessa opção recaem sobre ele.

EXISTENCIALISMO

Camus expressa esta ideia através do mito de Sísifo.

Sísifo, pai de Ulisses, foi, segundo a tradição, um mortal sem escrúpulos, tendo vivido de roubos e assassínios. Por isso, uma vez descido ao Hades, foi condenado pelos Juízes dos Infernos a empurrar sem descanso um enorme rochedo até ao cume de uma montanha. Sísifo, porém, nunca conseguiu realizar esta tarefa pois mal chegava ao cimo da montanha a enorme pedra, em consequência do seu peso, caía de novo. Os deuses condenaram Sísifo ao castigo mais terrível: o trabalho inútil e sem esperança.

A tragicidade deste mito advém da consciência do seu herói. Se acaso Sísifo tivesse esperança ,o efeito da tortura seria minimizado.
Uma característica muito comum a todas as filosofias da existência é o facto de repousarem numa vivência muito pessoal e portanto variável de filósofo para filósofo. A existência é sempre individual, singular, subjectiva.
A angústia e a inquietação existencialista perpassam de um modo quase obsessivo para a figura de Alberto Soares.

Nocturno nº 20, Chopin

Cristina viera «fora de tempo». Ninguém a esperava já. O pai errara as «contas» da fisiologia, havia a lei moral - e ela nascera. Os amigos de Moura, risonhamnente, quando se referiam à filha, perguntavam-lhe pela «neta»... E ele sorria, inocente, porque a verdade da vida era mais forte do que ele, simples instrumento ou espectador...

- Cristina - disse Moura -, tu agora vais tocar um bocadinho para o senhor doutor.

A miúda fitou-me com os seus olhos azuis, sorriu imperceptivelmente e sentou-se ao piano. Ajeitou a saia à roda do banco e, de mãos imóveis no teclado, apesar do nosso silêncio, esperou ainda pela nossa atenção ou pela sua.

E então eu vi, eu vi abrir-se à nossa frente o dom da revelação. Que eram, pois, todas as nossas conversas, a nossa alegria de taças e cigarros, diante daquela evidência? Tudo o que era verdadeiro e inextinguível, tudo quanto se realizava em grandeza e plenitude, tudo quanto era pureza e interrogação, perfeito e sem excesso, começava e acabava ali, entre as mãos indefesas de uma criança. Mas tão forte era o peso disso tudo, tão necessário que nada disso se perdesse, que as mãos de Cristina se estorciam na distância das teclas, as pernas na distância dos pedais e toda a sua face gentil, até agora impessoal e só de infância, se gravava de arrepio à passagem do mistério. Toca, Cristina. Eu ouço. Bach, Beethoven, Mozart, Chopin. Estou de lado, ao pé de ti, sigo-te no rosto a minha própria emoção. Apertas ligeiramente a boca, pões uma rugazinha na testa, estremeces brevemente a cabeleira loura com o teu laço vermelho. E de ver assim presente a uma inocência o mundo do prodígio e da grandeza, de ver que uma criança era bastante para erguer o mundo nas mãos e que alguma coisa, no entanto, a transcendia, abusava dela como de uma vítima, angustiava-me quase até às lágrimas. Toca uma vez ainda, Cristina. Agora, só para mim. Eu te escuto, aqui, entre os brados deste vento de Inverno. Chopin, Nocturno n.º 20. Ouço, ouço.»
Ferreira, Vergílio Aparição , Bertrand ed.28ª ed, 1996, pg. 40/41. 

Aparição | Vergílio Ferreira


“E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.”
Ferreira, Vergílio Aparição , Bertrand ed.28ª ed, 1996, pg.44


— “Também fiz outra experiência, senhor doutor.
— Que experiência?
— Bem ... Não sei como explicar. É assim mastigar as palavras.
— Mastigar as palavras?
— Bem... É assim: a gente diz, por exemplo, pedra, madeira, estrelas ou
qualquer coisa assim. E repete: pedra, pedra, pedra” Muitas vezes e depois pedra já não quer dizer nada.
Como, Carolino? Sabes então já a fragilidade das palavras, acaso o milagre de um encontro através delas connosco e com os outros? E saberás o que vive em ti, o que te vive, e as palavras ignoram?”

Ferreira, Vergílio Aparição , Bertrand ed.28ª ed, 1996, pg.74.

Aparição, de Vergílio Ferreira

Uma ficha de leitura do tempo em que Aparição era um romance para maiores de 21!






(daqui)