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Talk Show | Rui Horta | por Filipa Miguel





Tendo como horizonte referencial as obras que conheces do romantismo português, explica num texto de 70 a 100 palavras, por que motivo Talk Show é, segundo Rui Horta, uma peça “ultra-romântica".
Talk-Show de Rui Horta é, tal como o próprio autor afirma, uma obra ultra-romântica, dado que há obsessão pela  da Morte.
Esta temática é comum a  todas as obras românticas e, em Talk Show, percebemos a fugacidade da vida, de como de um instante para o outro “o corpo se pode apagar”. Nesta peça, fala-se do corpo como o único espectador da longa viagem, sendo a nossa única propriedade.
Uma vez mais, há uma supervalorização do interior humano, há a busca das efemérides do passado como sendo cruciais ao presente e condicionando o futuro. Outras das características que fazem deste espectáculo ultra-romântico são os constantes duelos, as idealizações contínuas, o negativismo e o egocentrismo.
 

Amor de Perdição - [menina coração]



Cara menina Coração:
        Desde os meus quinze anos que prometi o meu coração a um rapaz meu vizinho. Amo e sou amada por ele, contudo as nossas famílias estão desavindas. O meu pai não me compreende e quer que eu me case com meu primo Baltazar. Diz-me ele que com o tempo vou amá-lo. O meu pai até me disse: « minha querida filha, que a violência dum pai é sempre amor. ». Ontem, meu querido pai disse-me:
        « - Hás de casar! - Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para teu primo! Nenhum infame há de aqui pôr pé nas alcatifas de meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de Sol.»
        Cara menina Paixão, o que devo fazer?
        Ass.: Teresa
        Tarefa:
        Elabora duas possíveis respostas à carta da menina Teresa, pondo-te na pele da “Menina Coração”. Uma imaginando-te na época em que decorre Amor de Perdição, outra, nos dias de hoje.


PASSADO

Primeiramente, tenho a dizer-te que vives enclausurada num verdadeiro dilema interior. Ora seguirás o teu coração, esquecendo assim, os interesses de teu pai. Ora, bastante mais racional, decides aceitar todas as ordens e conselhos que teu pai te dá e esquecer de vez esse rapaz por quem te apaixonas-te desvairadamente.
Teresa , peço-te acerrimamente que penses em ti acima de tudo, pensa e sê realista… pensa que o teu pai, embora ríspido, quer especialmente o teu bem, preservando assim o teu futuro ao lado de teu primo Baltasar. Este que sempre te respeitou e que por ti nutre um grande carinho e apreço. O teu primo dar-te-á  todos os regalos que necessites e com ele terás certamente um futuro assegurado.
Tens que seguir as vontades do teu pai, não deixes que a fugacidade dessa paixão aniquile os  laços de sangue com o teu pai… o pai que quer essencialmente o teu bem-estar e a tua felicidade.
Peço-te que não penses com o coração mas sim com a frieza e racionalidade da tua cabeça, ponderando o facto de esqueceres esse rapaz que só te trará infortúnios. Deixa que o teu primo consiga chegar ao teu coração, mostrando-te todas as suas qualidades para que assim possas encontrar a felicidade ao seu lado.
Sem mais nenhum assunto,
A tua sempre amiga,

“Menina Coração”.

 HOJE:

Considerando-me tua amiga e lutando principalmente pela tua felicidade ao lado de quem mais amas na vida, neste caso, o Simão,  aconselho-te a que nunca te subestimes na tua condição de mulher porque deves sempre seguir as tuas crenças e aquilo que te conduzirá à realização. Se assim o não fizeres, serás eternamente uma mulher  vazia e triste, subestimada pela sociedade, mais concretamente pelos interesses de teu pai que revelam uma atitude egoísta e possessiva, tratando-te como um bloco de gelo sem capacidade de escolha.

Deves acreditar na força incondicional do teu Amor, pensando sempre que só ao lado do Simão é que viverás a felicidade em pleno. Mesmo que para isso, tenhas que esquecer todas as ordens que teu pai te dá, mesmo que tenhas que abnegar os ideais que ele fantasiara para ti. Não podes casar com o teu primo Baltasar, se não é ele que tu amas… e nunca ele te conduzirá à felicidade!

Não deixes que o teu pai interfira na tua vida, ao ponto de te limitar as decisões. Pensa que tens que seguir o que o teu coração te verbaliza e que só assim poderás desfrutar desse Amor, dessa pureza de sentimento. Nunca te esqueças que podes não mais encontrar alguém como o Simão e esse eco vai  perpetuamente insubordinar a tua índole, na medida em que irás pensar que foste influenciada por terceiros e não admitiste as tuas próprias convicções. Por isso, aconselho-te a que lutes por este amor e que o vivas em absoluto com Simão, só ele te fará verdadeiramente feliz!

Sem mais nada a acrescentar,
A tua amiga,

“Menina Coração” / FILIPA MIGUEL


ONTEM

Olá menina Teresa, estou aqui para te ajudar nesse teu momento difícil de escolha.
Sei que deves estar confusa, mas aconselho-te a seguir o que o teu pai disse. Sabes que se não fizeres isso terás as piores consequências.
É melhor esqueceres a tua paixão pelo Simão e aceitares a ideia de te casares com o teu primo Baltazar. Ele dar-te-á felicidade e a paz que precisas. Podes pensar o contrário mas daqui a algum tempo vais dar-me razão.
És muito nova para estares a entrar em batalhas com o teu pai, tens de compreender que os homens mandam sempre em nós, pois eles nasceram com esse poder. Não te esqueças que o Simão é da família inimiga, por isso irias prejudicar a tua família perante a sociedade, lembra-te que tens uma reputação a manter. Sabes o que as pessoas do povo iriam falar? De ti, da tua história de amor com o Simão e isso não pode acontecer, sabes que o teu pai não ia gostar.

Espero que não tomes as decisões erradas e que me contes o que vais decidir, pensa no que te disse.

                                                Beijinhos, Menina Coração

HOJE

Olá, Teresa, que notícias tão más que me estás a contar…
Deves estar numa situação complicada, pois estás entre dois amores, o Simão e o teu pai. Sabes que respeito muita a relação com os nossos parentes, pois eles deram-nos toda a nossa educação, toda a nosso vida é por eles. Mas, estás a chegar à situação em precisas de “voar”, como todas as jovens passam por isso. Aconselho-te a falar com o teu pai, para ele perceber que tu é que escolhes o teu verdadeiro amor, que não é pelo teu primo Baltasar. Fala sobre o Simão, fala como ele é bom para contigo, diz que a história da família inimiga já passou, já foi há muito tempo e este acontecimento pode originar um novo começo de paz entre as famílias.
Se o teu pai não ceder, acho que deves ir por outro caminho, o mais dificil. Tenta arranjar um voo barato para um país longe com o Simão, sim, estou a dizer para fugires de casa e recomeçares a tua vida noutro sítio, depois podes regressar e podes ter um pai mais calmo e que tenha percebido que a tua cara metade é o Simão.

Não faças nada que te arrependas no futuro e nunca te esqueças que tu é que comandas a tua vida, as pessoas que estão à tua volta, só te amparam quando estás a precisar de uma ajuda, como é a minha função.
                                                                            Beijinhos, Menina Coração / Ana Raquel Serafim

 
Passado:

Querida Teresa:

Teresa,  faz o que teu pai te diz, casa com teu primo Baltazar, pois se não casas com ele não poderás casar com mais ninguém. O teu pai não vai permitir esse namoro com o teu amado, porque teu pai e o pai dele são grandes rivais: deves honrar o nome da tua família.
Além do  mais é o teu pai quem manda em ti e, se não fazes o que ele te manda,  morrerás enclausurada num convento.

HOJE

Querida Teresa

Se queres realmente seguir o que  teu coração te diz, ama quem te ama, pois deves procurar o caminho da tua felicidade.Se for preciso fugir, então que assim seja, foge para bem longe com o teu amado, pois não é pecado fugir quando é por amor e se trata de encontrar a tua felicidade.
Nos dias que correm tudo é possível, a esperança é a última a morrer.
Por isso faz aquilo que o teu coração segreda,

   Beijinhos, Menina Coração /  Tiago Sousa

Raquel e Filipa comentam um poema de David Mourão-Ferreira

Nada garante que tu existas.
Não acredito que tu existas.
Só necessito que tu existas.”

David Mourão-Ferreira

Nesta composição lírica existe uma aparente contradição, uma vez que  eu poético não sabe e não acredita que um “tu”, como ele idealiza, existe de facto,  no entanto (e paradoxalmente), demonstra  uma absoluta necessidade  desse outro “eu”.  É o outro que lhe dá (ou ajudará a dar sentido) e isto tanto é válido para um poema de amor, como para a relação entre autor e leitor: o texto precisa de um tu que lhe dê sentido.

Podemos ainda acrescentar o facto de o poema manter sempre o mesmo término dos versos (“que tu existas”), tornando-se repetitivo e mostrando mais uma vez, essa necessidade imperiosa. O sujeito lírico contradiz-se, visto que, demonstra nos dois primeiros versos uma certa indiferença e até um aparente desinteresse em relação a essa pessoa., porém, no último verso percebemos a dependência em relação a esse “tu”.Esta composição poética é bastante sucinta e para nós, leitores, é um mistério descortinar quem é o destinatário deste poema.


Filipa Miguel

Neste pequeno e curioso poema da autoria de David Mourão-Ferreira podemos destacar vários aspectos interessantes. O que nos chamas mais à atenção é a contradição do sujeito lírico ao dizer que necessita de uma pessoa, mas não garante e nem sequer acredita que ela exista. Há uma grande complexidade subjacente a este texto, porém creio que  estamos perante a idealização de um “tu”.  Mesmo sem a palavra “amor”, este é, sem dúvida, um poema de amor: há uma procura de um ideal que ajudará a dar sentido à sua existência.
A composição lírica encerra um paradoxo entre o que sabe ser verdade – a necessidade do outro – e a incerteza da sua existência.

Raquel Serafim
 

Tarde de mais Mariana, Filomena Cabral (por Filipa Miguel)

Tarde de mais Mariana,  Filomena Cabral


Trata-se de um texto poético, onde se adivinha um triângulo  amoroso: Júlio, Paulo, Rui.
Mariana era apaixonada por Júlio, mas ele morre e ela não lhe diz o quanto o ama. A morte de Júlio mostra-lhe que   Paulo e Rui são menos especiais do que Júlio:


"Júlio! (...) não vivi anos a recordar-te para perder-te de novo, ou desistir de ti (....) Júlio, Júlio vem comigo  (...) prometo-te fidelidade.


 Filipa Miguel

Bolor, de Augusto Abelaira | por Filipa Miguel



-Por que casaste comigo em vez de casar com outra? Por que me escolheste a mim como imagem da vida quotidiana, ponto de referência em relação ao qual uma diferente vida é possível - vida, parêntesis, na realidade inútil de todos os dias?”


"Se falo aqui da Maria dos Remédios e da minha vida com ela é por-que algo em nós ficou incompleto, é porque não achamos em nós esse absoluto, essa perfeição que a si mesma se basta."

Humberto, a personagem principal, reflecte, neste diário, sobre diversas situações da sua vida.
Humberto é advogado e casado, há seis anos, com Maria dos Remédios. Trata-se de um segundo casamento, pois o nosso protagonista era viúvo de Catarina.
Humberto lamenta-se, no diário,  das dificuldades de comunicação com Maria dos Remédios, determinada altura a voz de Maria dos Remédios intromete-se no Diário: ela passa a escrever aquilo que não consegue dizer de viva voz. Ainda, assim o entendimento continua a não existir (até se complica).
Aparentemente, à excepção da relação que mantém com Maria dos Remédios, tudo na vida de Humberto é perfeito: a vida profissional, as amizades.  - "com os meus amigos e com o meu trabalho, sou (descubro hoje)perfeitamente feliz" - Porém, também pelo diário ficámos a saber que Aleixo, o seu melhor amigo, mantém uma relação extra-conjugal com com Maria dos Remédios. Leonor, mulher de Aleixo, é a primeira a descobrir, mas, pela sua reacção, não parece demasiado afectada.

Filipa Miguel


Augusto Abelaira (1926 -2003) - biografia aqui e aqui.
Augusto Abelaira nasceu em Cantanhede em Março de 1926. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. A par do seu trabalho como escritor, tem exercido os cargos de professor, jornalista (no Diário Popular e no Jornal de Letras), director de programas da RTP e director das revistas Vida Mundial e Seara Nova. Em 1963, ganhou o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências como romance As Boas Intenções. Em 1979, ganhou o Prémio Cidade de Lisboa com o romance Sem Tecto entre Ruínas. Em 1997, foi distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE com o romance Outrora, Agora.



- Questões que Bolor levanta:

-  A existência de um "eu" não-linear (vários "eu" surgem no texto)
- Obsessão pelo passado;
- Dificuldade da comunicação (incomunicabilidade);
- Fragmentação do texto;
- Narrativa aberta;
- Processo de auto-transfiguração (ver-se continuamente de outra perspectiva).

Ler mais aqui.

O Fim de Lizzie de Ana Teresa Pereira, por Filipa Miguel


"Uma antiga namorada disse uma vez que eu tinha o ar de quem passou algum tempo no inferno e está ainda um pouco chamuscado; mas era mais comum dizerem-me que tinha um aspecto felino.
A descrição não me desagradava.
Alto, magro, de olhos azuis, rosto de traços felinos. Suponho que as mulheres sempre me acharam bem parecido, ainda que o ar de ter passado algum tempo no inferno fosse um pouco inquietante. Mas as mulheres gostam de sentir medo.
As amigas de Lizzie diziam que ficávamos bem um com o outro. Lembro-me de uma delas ter afirmado que os nossos filhos seriam lindos. Os nossos filhos.
Não sei o que teria acontecido se Lizzie engravidasse naquela altura. Ou antes, acho que sei. Eu teria ficado doido de alegria, embora o dinheiro mal chegasse para vivermos os dois. E ela..."
in O Fim de Lizzie de
Ana Teresa Pereira

Este livro retrata a história de quatro personagens (Kevin, John e as duas irmãs gémeas, Lizzie e Miranda). Kevin é o narrador de toda a história e aqui conta as suas aventuras. Kevin foi criado na casa do seu avó, juntamente, com John, Lizzie e Miranda. Os quatro brincavam muito e divertiam-se, igualmente, na casa do avó que tomava conta deles. Mais tarde, a avó veio a falecer deixando-lhes uma herança (a casa onde cresceram) , mas essa herança só podia ser distribuída 7 anos depois da data da sua morte e, dos quatro jovens, só Kevin e Lizzie estavam vivos .
Foram eles, então, os herdeiros da casa do avó. Desde sempre, os dois sentiam, um pelo outro, um grande amor. Começaram a namorar e, a partir daí, viveram flizes, sem impedimentos, nem preocupações.

Filipa Miguel