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A vida eterna não existe. | Maria Gabriela Llansol
14 de Fevereiro de 1972
A cena primitiva
A vida eterna não existe.
Sentou-se arranjando as saias, para assistir à produção de texto.
Este texto é um texto que assiste à produção de texto.
Este texto é a cena primitiva do texto.
A mulher não existe, mas é escrita por _______________.
Maria Gabriela Llansol
Uma data em cada mão
Livro de Horas I
Um data em cada mão | Llansol
"Há no meu espírito uma parte de obscuridade e uma parte de luz; na obscuridade guardo esquecido, o que soube até que surja o momento de lembrar-me, e que pode nunca mais chegar, ou chegar para projectar o passado aberto no futuro, o velho no novo, o nunca visto junto do já visto." (Maria Gabriela Llansol, pg. 24)
Não penso no amor de um casal como numa casa fechada, isto, pela minha própria definição de amor, pela pulsão de amor, que não existe se não for comunicável. Por que formas? Moldável a que tipo de troca com outros? Isso não sei. (Llansol, 25)
Não penso no amor de um casal como numa casa fechada, isto, pela minha própria definição de amor, pela pulsão de amor, que não existe se não for comunicável. Por que formas? Moldável a que tipo de troca com outros? Isso não sei. (Llansol, 25)
o que advém do texto é a construção da frase | Llansol

o que advém do texto é a construção da frase;
o que advém do espaço é o seu sentido;
o que advém da manhã é o sentimento de perca;
o que advém da noite é o recomeço da frase interrompida;
assim cogitando caminhava
e abri a porta que dava para o teu rosto legente.
Não disse nada, a ouvir nos teus olhos
o som da rua que entrava pelas janelas.
Sentei-me nos lugares dispersos do teu silêncio, e esperarei
por ele
_ uniu-se a mim como o oxigénio e o hidrogénio
se unem em forma de água,
numa união tão rara, imponderável e banal
como os nossos corpos unidos a ler __
voltaremos à imagem da água.
(Maria Gabriella Llansol, Onde vais drama-poesia?)
O Livro das Comunidades | Maria Gabriela Llansol
"nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos do seu ventre. pedia aos homens que lhe trouxessem os filhos de suas mulheres para educá-los numa grande casa de um só quarto e de uma só janela; usava um xaile preto junto de seu rosto; tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os os tempos da sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível. "
in O Livro das Comunidades, de Maria Gabriela Llansol
in O Livro das Comunidades, de Maria Gabriela Llansol
Maria Gabriella LLansol

Lovaina, 13 de Fevereiro de 1975.
o pano de renda sobre a mesa, em casa de Cristina. Rosas, renda que liga as rosas. Talvez tenha sido isto, fazer renda, que eu primeiro tenha desejado. No seu lugar, começarei a escrever. Pressinto que, de novo, haverá um momento em que preferirei ter traçado esta textura, a ter-me envolvido com a escrita.
Por que não o fiz?Por que me envolvi precisamente nesta escrita?
Quando deixei de escrever histórias para alinhavar as passagens do Ser subtil das nossas vidas? Quando me devo ter apercebido que só na proximidade desse lugar, seguindo as bermas dessa passagem, a vida poderia alcançar as fontes da Alegria? Em que momento eu soube que só criando reais-não-existentes, como Augusto lhes chama, abriríamos acesso a essas fontes?
Fico perplexa ao ver que, fora do texto, esses reais são evanescentes. E que se perdermos, ficaremos reduzidos ao caos, sem cartografia.
Como o mundo aparece em estados de linguagem...
Como estes foram surgindo em formas fazendo-se...
Como se pode voltar lá, fazendo o desfazendo...
Devo concluir que nasci, à imagem de todas as mulheres, para fazer renda? A outra, a de Ariane? A dos fios de ouro que Ana de Peñalosa tece, escrevendo, para que não se perca o sentido perdido da batalha? e a longa ausência de seus filhos não seja exílio mas "partiram à descoberta?"
Conversava com Cristina que me dizia, mas eu só isto ouvi
o ciclo do Renascimento não está concluído;
ainda há tempo, para voltar ao seu começo, e reescrever-lhe um novo sentido.
Havia nela uma tal certeza, que me encontrei mais à vontade,
desviando o meu olhar do
dela
para a mesa
coberta
de renda.
LLansol, Maria Gabriella , Finita, Diário 2, ed. Rolim, 1987.
Maria Gabriela Llansol, 1931 - 2008

"_______escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear"
Ler
"A finalidade de ler não é guardar na memória. Eu esqueço-me do que leio mas encontro-me, ao cair da noite, com ele. O fundamento da minha leitura é a pergunta seguinte:
"Por quanto tempo lês um pequeno período extenso?". Por um segundo, um minuto, um ano, toda esta noite, ou toda esta vida? Ler estende-se pelo tempo e quer o espaço do dia-a-dia para projectar a sua sombra. Ler estende-se por vertentes desconhecidas, e eu leio pouco, mas infinitamente. Desses metais preciosos escolho um metal, e torno-o integralmente minha estrela."
Maria Gabriela Llansol
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