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A Biblioteca | Gonçalo M. Tavares [in Senhor Juarroz]

O senhor Juarroz gostava de organizar a sua biblioteca de maneira secreta. Ninguém gosta de revelar segredos íntimos. O senhor Juarroz primeiro organizara a biblioteca por ordem alfabética do título de cada livro. Rapidamente, porém, foi descoberto. O senhor Juarroz organizou depois a sua biblioteca por ordem alfabética, mas tendo em conta a primeira palavra de cada livro. Foi mais difícil, mas ao fim de algum tempo alguém disse: já sei! A seguir o senhor Juarroz reordenou a biblioteca, mas agora por ordem alfabética da milésima palavra de cada livro. Há no mundo pessoas muito perseverantes, e uma delas, depois de muito investigar, disse: já sei! No dia seguinte, assumindo este jogo como decisivo, o senhor Juarroz decidiu arrumar a biblioteca a partir de uma progressão matemática complexa que envolvia a ordem alfabética de uma determinada palavra e o teorema de Godel.

Assim, para estranheza de muitos, a biblioteca do senhor Juarroz começou a ser visitada, não por entusiastas da leitura, mas por matemáticos. Alguns passaram tardes a abrir os livros e a ler certas palavras, utilizando o computador para longos cálculos, tentando assim encontrar a todo o custo a equação matemática que desvendasse a organização da biblioteca do senhor Juarroz. Era, no fundo, um trabalho de descoberta da lógica de uma série, semelhante a 2|9|30|93 Pois bem, passaram dois, três, quatro meses, mas chegou o dia.

Um reputado matemático, completamente vermelho e eufórico, segurando, na mão direita, num bloco gigante coberto de números, disse: já sei!, e apresentou depois a fórmula de progressão da série que baseava a organização da biblioteca. O senhor Juarroz ficou desanimado e decidiu desistir do jogo. Basta!
No dia seguinte pediu à sua esposa para organizar a biblioteca como bem entendesse. Por ele estava farto.
Assim foi. Nunca mais ninguém descobriu a lógica da organização da biblioteca do senhor Juarroz.

Gonçalo M. Tavares

Gonçalo M. Tavares


14.
geografia Móvel: O Corpo.
Pátria Portátil

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33.
Amar é ver diferente.
Depois fica-se cego.
Mas primeiro é ver diferente.


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53.
Não pensar no amor porque o amor não se pensa.
Pensar no amor ou é: não pensar, ou é: não amor.


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[Gonçalo M. Tvares, in Investigações Novalis]

A constipação | Gonçalo M. Tavares


A constipação

De manhã, ofereceram ao Chefe o mapa do país, todo dobradinho, a cores, para que o Chefe deixasse de confundir o Norte com o Sul, o Litoral com o Interior, urna cidade grande com urna aldeia pequena, um castelo com um centro comercial moderno, urna fonte de água com urna taberna.Enfim, ofereceram o mapa do país ao Chefe para ele deixar de confundir tudo com o seu contrário. Mas como o Chefe guardou, distraído, o mapa no bolso, à tarde estava já a assoar-se a ele.

- Raio de lenço que me ofereceram! - protestou.
- É para partir o nariz!

Os dois Auxiliares que, quando tinham testemunhas, eram muitos patriotas - e naquele caso um era testemunha do outro - estavam gelados, ao longo de toda a espinha, da cabeça aos pés: aquilo não se fazia. Nem as luvas, nem o casacão ou o cachecol impediam os calafrios. Além disso, estavam alguns graus negativos.

- Oh, Chefe. Isso não é um lenço: é o mapa do país!
- Ah! - exclamou o Chefe -, por isso é tão áspero!

O Chefe protestou, encolheu os ombros e, corno o mal já estava feito, continuou a assoar-se ao mapa.
- Assoe-se ao litoral propôs então um dos auxiliares.
- É a melhor maneira de não fazer uma ferida no nariz.

É mais mole.

O Chefe, subitamente, parou, e fixou os olhos no seu Auxiliar. Uma certa comoção na atmosfera: aquela preocupação com a sua saúde... Sem uma palavra, o Chefe inclinou-se e deu um pequeno mas significativo beijo na testa do dedicado Auxiliar.



Senhor Krauss, Gonçalo M. Tavares

A lâmina | Gonçalo M. Tavares


A lâmina

E o que chamam cicatriz
muitas vezes é bolor;
pois esse coração não é acidentado,
mas sim aquilo que tem falta de uso: um órgão esquecido.
É por isso que, por vezes, é importante levar a lâmina ao palco
e agir como quem está pronto a usá-la a corrigir anatomias,
isto é: vidas.
É preciso ferir, em quem se vê, a caixa que sente,
porque aquilo a que se chama cicatriz
muitas vezes é apenas bolor.

Gonçalo M. Tavares, in A Colher de Samuel Beckett e Outros Textos

Diamantes, de Gonçalo M. Tavares

"Em vez de uvas os cachos do reino deixavam cair sobre a terra diamantes.
-Diamantes, diamantes, diamantes! Há anos que é só isto - queixava-se o produtor."

in O Senhor Bretch, de Gonçalo M. Tavares

O Senhor Valéry, o Senhor Henry e o Senhor Calvino, de Gonçalo M. Tavares


Gonçalo M. Tavares foi publicando ao longo dos tempos uma colecção de livros que tem como fio o condutor o bairro onde todos os personagens habitam. Cada personagem tem características muito próprias. O Senhor Valéry, por exemplo, é um homem que tem necessariamente que arranjar uma lógica para tudo aquilo que faz; o Senhor Henry é dependente de absinto e o Senhor Calvino é um pouco sentimental. Estes livros são compostos de micro-histórias de acessível leitura, mas com diferentes possibilidades de interpretação.

O desempregado com filhos | Gonçalo M. Tavares


O desempregado com filhos

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht

Vamos ao teatro?



O Senhor Juarroz de Gonçalo M. Tavares com poemas de Roberto Juarroz

Alguns já leram alguns livros de O Bairro de Gonçalo M. Tavares: O senhor Valéry, O senhor Henri, O senhor Walser, O senhor Bretch, O senhor Juarroz, O senhor Calvino. Uns gostaram, outros estranharam. A companhia Pé de Vento, encenou O Senhor Juarroz, um espectáculo absurdo e surrealista artísticamente inspirado na pintura de René Magritte.

Dia 28 de Fevereiro, pelas 11 h.

Excerto de O SENHOR JUARROZ:

"
O Senhor Juarroz pensou num Deus que, em vez de nunca aparecer, aparecesse, pelo contrário, todos os dias, a toda a hora, a tocar à campainha. Depois de muito meditar sobre esta hipótese o Senhor Juarroz decidiu desligar o quadro da electricidade." Gonçalo M. Tavares.

Alguns apontamentos sobre o Bairro, por Tiago



O Bairro é um conjunto de livros onde comparecem uma série de senhores com estórias anormais, no sentido em que escapam à lógica habitual. O Senhor Valéry, o Senhor Calvino, o Senhor Krauss e o Senhor Juarroz têm em comum o facto de serem todos vizinhos do mesmo bairro, apesar de nos livros existir registo de que falem uns com os outros.

Todos os habitantes do bairro têm nomes de escritores famosos: Valéry (Paul Valéry), Calvino (Italo Calvino), Kraus (Karl Krauss) e Juarroz ( Roberto Juarroz).

O Senhor Valéry e o Senhor Calvino têm em comum a baixa estatura, o que os leva a andar muitas vezes aos "saltos" para conseguirem ser do mesmo tamanho das outras pessoas, só que por menos tempo.De todos os livros, considero que o Senhor Valéry e o Senhor Juarroz são os mais cativantes. O Senhor Krauss foi, de entre todos os livros, aquele que considerei menos interessante.


Sobre o autor:


Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Foi Bolseiro do Ministério da Cultura — IPLB com uma bolsa de Criação Literária para o ano 2000, na área de poesia. Em Dezembro de 2001 publicou a sua primeira obra: Livro da dança, na Assírio e Alvim.

Recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso com a obra O Senhor Valéry (publicado na Editorial Caminho em 2002) e o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Investigações. Novalis (Difel).

Publicou O homem ou é tonto ou é mulher e A colher de Samuel Beckett e outros textos, ambos na Campo das Letras e adaptados para teatro. Está representado em antologias de poesia publicadas na Holanda («Hotel Parnassus, Poetry International 2002») e na Bélgica («Het laatste anker» — «O último refúgio — 300 poemas de todo o mundo sobre a morte», Lannoo/Atlas), e editado em revistas inglesas e americanas. Traduzido para italiano com um conto inserido na antologia «Racconti senza dogana» — «Jovens escritores para a nova Europa» (Gremese Editore). No grupo OuLIPO (França) foi realizada, em 2003, uma leitura de algumas histórias de O Senhor Valéry (com tradução e leitura de Jacques Roubaud). Ainda em 2003 publicou O Senhor Henri (Caminho). O Senhor Valéry foi traduzido para francês, com um prefácio de Jacques Roubaud, e editado em Setembro de 2003 na «Joie de Lire». O ano de 2004 assitiu ao crescimento do «Bairro» com o lançamento de O Senhor Brecht e O Senhor Juarroz. Publicou os romances: Um homem: Klaus Klump, em 2003 e A máquina de Joseph Walser (2004) na Caminho.Em 2005 publica, também na Editorial Caminho, a obra vencedora de dois prémios, Jerusalém.Vencedor, em 2004, do Prémio LER/Millenium BCP.Vencedor, em 2005, do Prémio Literário José Saramago.


Tiago Joel Rocha Santos