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A propósito de intertextualidade...

 Nestes dois poemas, um de Vasco Graça Moura, outro de Nuno Júdice, há uma alusão implícita  ao Nocturno de David Mourão Ferreira.  Trata-se de um fenómeno de intertextualidade. Diz Carlos Ceia:
"Filmes que retomam filmes, quadros que dialogam com outros, propagandas que se utilizam do discurso artístico, poemas escritos com versos alheios, romances que se apropriam de formas musicais, tudo isso são textos em diálogo com outros textos: intertextualidade." (ver mais)

Era a noite que caía
E na sombra recolhia
O voo das andorinhas.
Era a voz que se calava,
Era a dor de ver que estava
Sem as tuas mãos nas minhas

Eram passos que escutei,
Que eram teus ainda pensei,
Iludiu-me o coração.
Foram pela rua escura
Longe da minha amargura
E acompanhei-os em vão

Fiquei perto da janela,
Pus-me a abri-la com cautela,
Fiz disfarce da cortina.
Vi então na luz incerta
Que a rua estava deserta
E deserta estava a esquina.

Era só eu na escuridão,
Era no peito um rasgão,
Era já no céu a lua,
Que me importa?, á minha porta
A sombra que se recorta
Bem pode ainda ser a tua.

Vasco Graça Moura




Era um choro de olhos
Abertos; um copo de silêncio
A esvaziar de um trago;
Um corpo ácido como certas
cidades nocturnas.

Era essa canção de pedra
Que os rios murmuram; esse
Muro de ramos partidos numa
Secura de lábios; a sombra
Que desce com a chuva.


Nuno Júdice

Intertextualidades

Não podemos

desamar

quem nos ama

Se nem

quem nos desama

podemos desamar


Adília Lopes

ÉTANT DONNÉS | Duchamp


ÉTANT DONNÉS é a última obra de Duchamp. Trata-se uma instalação que foi montada no Museu de Arte de Filadélfia, após sua morte, em 1968. O espectador assume a postura de voyeur e, espreitando pela fresta de uma porta vê uma mulher deitada, tridimensional, com o sexo exposto, mas não vê o rosto, como no quadro de Courbet.

Sobre o conjunto da obra de Marcel Duchamp mergulha em Understanding Duchamp.

"Reabro as portas do poema" | Nuno Júdice

Reabro as portas do poema, portas de ouro
Da estrofe, e entro num chão de terra negra,
Pisando a cinza de quem ali viveu.

Tu, Camões, com a lenta memória de amigas
E madrugadas, levantas-te de um sepulcro
De rimas e mágoas, com as mãos cansadas.

E tu, Garrett, suando o ócio de amores e
Desamores, já não corres pelos campos
Onde viveste para nunca mais.

Mesmo tu, Antero, cujo tédio se estende
Pelas paredes onde jazem Cristos estéreis,
Perdeste o impulso da oração.

Puxo-vos para dentro das palavras. E ouço
O murmúrio que escorre dos lábios,
Como um salmo que o poema repete.


Nuno Júdice (n. 1949)