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O Valor do Vento, Ruy Belo

O Valor do Vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo

Do sono da desperta Grécia, de Ruy Belo



[o eco de Antígona continua a acompanhar-nos]


Do sono da desperta Grécia, de Ruy Belo 

Nenhuma voz em Esparta nem no oriente
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma Grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã

[Ruy Belo, “Nau dos Corvos”, in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

O valor do vento, Ruy Belo



Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto.

Ruy Belo

Dia 21 de Abril : Missão Coimbra / Alcobaça

Na igreja abacial de santa Maria de Alcobaça
[...]
Os que em vida se amaram para sempre se juntaram
No cruzeiro de pedra poisam hoje os dois moimentos
Dois poemas em pedra onde em quarenta e seis edículas
Se narra
A história desse amor às vezes alegria quase sempre dor
amor pétreo de Pedro que prepara para Inês esse alvo leito
Em pedra
[...]

Ruy Belo, in A Margem da Alegria

Palavras de Jacob depois do sonho | Ruy Belo






[um dos textos que Nuno Carinhas faz dialogar com Gil Vicente]



Palavras de Jacob depois do sonho


Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
É esse o seu nome e nele não cabe temor
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
Porquê não sei talvez uma haste balance
talvez sorria alguma criança
Terrível não é o homem sozinho na tarde
como noutro tempo de esplendor cantei
Terrível é este lugar
Terrível porquê?

Não sei bem
Talvez porque o senhor pisa esta terra com os seus pés
(lembro-me até de que mandou tirar as sandálias a moisés)
Levanto os dois braços aos céus
Aqui - mulher terra mar -
Aqui só pode ser a casa de deus
.
Ruy Belo

Um rosto de Natal | Ruy Belo



Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia


Ruy Belo

Nos trinta anos da morte de Ruy Belo




Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente



Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu sei que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum


"Lá está o nome bíblico, já pintado a branco no asfalto e com setas antes das rotundas, Monte Abraão, subúrbio do subúrbio. Há 30 anos, jogava-se à bola nos campos por trás destes prédios. Agora por trás destes prédios há mais prédios, Queluz é subúrbio de Lisboa e Monte Abraão é subúrbio de Queluz, mas em algumas ruas ainda se respira. Esta não tem saída, o que quer dizer que não tem trânsito. Há arbustos em flor, uma palmeira soberba, plátanos. No Verão, como agora, as janelas dão para copas verdes e acesas, por alturas do quarto andar. Não é o "quarto andar sem elevador" que Ruy Belo subia "com uma pedra no peito", como diz uma das 10 cartas de que o P2 hoje revela passagens. Aí era o andar de solteiro, em Lisboa. Aqui é o andar para onde veio já casado com Maria Teresa Belo. E foi aqui, no Monte Abraão, que Rui de Moura Ribeiro Belo - nascido a 27 de Fevereiro de 1933, em S. João da Ribeira, Rio Maior - foi encontrado morto a 8 de Agosto de 1978, deitado em cima da cama. Edema pulmonar, diz a certidão de óbito. Tinha apenas 45 anos, mas parece ter vivido muitas vidas e mortes nos seus oito livros de poemas, da fundação de Roma ao aeroporto de Barajas, de Córdoba lejana y sola àquele grande rio Eufrates, de Jerusalém ao Alto da Serafina, de Lucas 21, 28 a Marilyn, de Pedro e Inês ao rapaz afogado no mar de Vila do Conde que por um triz tantas vezes não foi ele, Ruy Belo. E vem ao de cima num longo poema, Fala de um homem afogado ao largo da Senhora da Guia no dia 31 de Agosto de 1971:
"Não pense quem vier que estou sozinho
entre inúmeros peixes das
profundidades
e os corpos de incontáveis
pescadores
como o jovem lourenço
são miguel
que aqui se despediu dessa vida
de aí
a cinco salvo erro de janeiro de
sessenta e cinco".
À memória desse afogado dedicou Ruy Belo País Possível, a única antologia que fez dos seus poemas. Acreditava num país possível, que não foi Portugal. Portugal não quis saber. E a obra de Ruy Belo continua vívida, por vezes urgente. "Se a sua poesia não tivesse existido, tudo o que havia de essencial na vida espiritual do meu tempo teria ficado sem testemunhas", escreveu em 1999 António Alçada Baptista, na revista Relâmpago. É um tempo bipolar, entre Deus e deus, recolhimento e comunhão, a alegria do mundo e a sua margem. Mas os leitores que vierem depois reconhecerão sempre o seu próprio tempo, com tudo o que nele há de opressivo e sôfrego, exaltante e sem remédio, e esses leitores têm vindo, em edições lentas mas sucessivas." (in Público, 8/8/08)