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Vale Formoso
No Vale formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.
No Vale formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.
No Vale formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.
Filipa Leal, Vale Formoso, Deriva Editores.
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Filipa Leal,
poesia
Digo-te por isso | Filipa Leal
[fotograma de Um amor de Perdição]
Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.
Filipa Leal
Rui Manuel Amaral & Filipa Leal [associação muito livre]
[imagem daqui]
A ÁRVORE
RUI MANUEL AMARAL
Não me lembro quando começou. Não sou bom a memorizar datas. Mas tenho ainda presente o espanto, o assombro, o medo, o assombro e o espanto que senti quando, uma manhã, ao acordar, dei de caras com a árvore. Uma árvore imensa plantada no meio do apartamento. Um gigante de longas raízes negras, que irrompera do fundo do soalho, durante a noite. Os ramos, tão numerosos como uma floresta, cobriam todas as divisões. As folhas farfalhavam no ar e batiam-me nos olhos.
Nesse mesmo dia, cortei-a pela base e livrei-me daquilo tudo. À noite, estendi-me na cama e adormeci muito satisfeito. Na manhã seguinte, porém, a árvore achava-se no mesmo local da véspera. E parecia ainda maior e mais frondejante. Cortei-a de novo e tudo se repetiu: de manhã lá estava o monstro verde, conspirando pacífica e vegetalmente, no meio do apartamento. No meu desespero, cheguei a queimar toda a madeira num instante. Mas bastavam alguns segundos para ela irromper do chão, ainda mais convincente e definitiva, e lançar os ramos contra os vidros.
Nesse mesmo dia, cortei-a pela base e livrei-me daquilo tudo. À noite, estendi-me na cama e adormeci muito satisfeito. Na manhã seguinte, porém, a árvore achava-se no mesmo local da véspera. E parecia ainda maior e mais frondejante. Cortei-a de novo e tudo se repetiu: de manhã lá estava o monstro verde, conspirando pacífica e vegetalmente, no meio do apartamento. No meu desespero, cheguei a queimar toda a madeira num instante. Mas bastavam alguns segundos para ela irromper do chão, ainda mais convincente e definitiva, e lançar os ramos contra os vidros.
Pouco a pouco, desisti de lutar contra os desígnios da natureza, se assim me posso exprimir. Tentava concentrar-me nas velhas tarefas domésticas, mas a minha atenção perdia-se por entre os ramos, nas folhas verdes e amarelas que ondulavam pelo tecto como borboletas caprichosas. Entretanto, um pássaro começou a cantar, depois outro e outro ainda, e pequenos animais despontaram de todos os lados, correndo e escondendo-se na erva.
Daí por diante, a casa transformou-se num bosque interminável, cheio de ruídos misteriosos, locais sombrios, segredos profundos. Por esta altura, creio que já não consigo encontrar a porta da rua. A vida nos bosques não é a melhor coisa do mundo, mas são tempos difíceis estes em que vivemos. E de um modo geral, tenho de o dizer sem falsa modéstia, estou a sair-me bem.
Daí por diante, a casa transformou-se num bosque interminável, cheio de ruídos misteriosos, locais sombrios, segredos profundos. Por esta altura, creio que já não consigo encontrar a porta da rua. A vida nos bosques não é a melhor coisa do mundo, mas são tempos difíceis estes em que vivemos. E de um modo geral, tenho de o dizer sem falsa modéstia, estou a sair-me bem.
Amaral, Rui Manuel, Doutor Avalanche, Angelus Novus, 2010 [pg. 39]
O PROBLEMA DE SER NORTE, Filipa Leal
Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que
um
raro
silêncio ainda
me interrompa?
Filipa Leal, O Problema de Ser Norte, Deriva Editores
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Filipa Leal,
Rui Manuel Amaral
O PROBLEMA DE SER NORTE | Filipa Leal
O PROBLEMA DE SER NORTE
Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que
um
raro
silêncio ainda
me interrompa?
Filipa Leal, O Problema de Ser Norte, Deriva Editores
Nesta brisa quase suave, Filipa Leal
(escolhemos esta imagem do quadro Afinidades Electivas de Magritte pois a capa de Talvez os Lírios Compreendam trabalha esta imagem. Afinidades Electivas é também o título de um livro de Goethe)
Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.
Filipa Leal, in Talvez os Lírios Compreendam
APOCALYPSE NOW | Filipa Leal
APOCALYPSE NOW
(a Adília Lopes)
Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.
Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.
Filipa Leal
(poema retirada daqui)
(a Adília Lopes)
Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.
Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.
Filipa Leal
(poema retirada daqui)
MAPA-MUNDO | FILIPA LEAL
MAPA-MUNDO
O vizinho de baixo
O vizinho do lado
O vizinho de cima
O vizinho do lado
O vizinho da frente
O vizinho do lado
O vizinho de trás
O vizinho do lado
Filipa Leal, O Problema de Ser Norte
O vizinho de baixo
O vizinho do lado
O vizinho de cima
O vizinho do lado
O vizinho da frente
O vizinho do lado
O vizinho de trás
O vizinho do lado
Filipa Leal, O Problema de Ser Norte
SMS | Filipa Leal
[explicação prévia: Estando nós a “discutir” os limites do texto literário, o Tiago trouxe para a discussão o SMS de Filipa Leal. A Joana achou o poema “estranho”, daí ao estranhamento de Chklovski foi um pulinho…]
Como se fosse um comentário
O poema de Filipa Leal é devedor da modernidade, aliás podemos mesmo considerá-lo um epigrama dos nossos dias. Contudo, se na Antiguidade o epigrama era perene, o SMS é efémero. Isto é um reflexo da vida actual: hoje tudo (ou quase tudo) é descartável, mesmo este SMS.
Curiosamente, a poetisa recupera este SMS e transforma-o numa epifania. De repente, o lixo electrónico é transformado em luxo poético. O SMS é elevado a “coisa” poética (res poetica)
O verso, porque de um verso se trata, é sucinto, informa-nos apenas sobre uma localização geográfica – “Porto” – sobre uma localização temporal “20h” e acrescenta um enigma “Ninguém canta”. Mais complicado do que entender a mensagem do verso, parece-nos ser o descortinar do receptor desta mensagem. Talvez esse receptor “ideal ”, aquele para quem foi pensado o SMS conheça o significado. Ou , pode dar-se o caso de ter sido o sujeito poético a receber o SMS. Não sabemos.
Mas, mesmo não sabendo a quem se dirige a mensagem, nós leitores tomámo-la como nossa. É a nós que o sujeito poético confia que “ninguém canta”. E fica-nos uma doce melancolia :por que é que ninguém canta?
[este texto foi passado pela Cátia]
Curiosamente, a poetisa recupera este SMS e transforma-o numa epifania. De repente, o lixo electrónico é transformado em luxo poético. O SMS é elevado a “coisa” poética (res poetica)
O verso, porque de um verso se trata, é sucinto, informa-nos apenas sobre uma localização geográfica – “Porto” – sobre uma localização temporal “20h” e acrescenta um enigma “Ninguém canta”. Mais complicado do que entender a mensagem do verso, parece-nos ser o descortinar do receptor desta mensagem. Talvez esse receptor “ideal ”, aquele para quem foi pensado o SMS conheça o significado. Ou , pode dar-se o caso de ter sido o sujeito poético a receber o SMS. Não sabemos.
Mas, mesmo não sabendo a quem se dirige a mensagem, nós leitores tomámo-la como nossa. É a nós que o sujeito poético confia que “ninguém canta”. E fica-nos uma doce melancolia :por que é que ninguém canta?
[este texto foi passado pela Cátia]
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Filipa Leal
A inexistência de Eva | Filipa Leal
Depois de ler A inexistência de Eva, apetece-me "copiar" Adrienne Rich:
Call it a book, or not
call it a map of constant travel
[Chame-se-lhe livro, ou não
chame-se-lhe um mapa de um viajar constante.]
************
Ao quarto livro, Filipa Leal dá-nos um mapa. De repente tudo ficou mais claro, como a sala branca onde estava aquela mulher:
“Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca”
Um corpo marcado pelo remorso imemorial – talvez aquele que herdamos das nossas mães e as nossas mães das mães delas – e pela castidade.
Um corpo marcado por uma culpa que ainda não é sua, mas que inevitavelmente será sua também.
Um corpo que não tem versos à volta, mas tem maçãs difusas .
Um corpo sem voz que recebe ordens de uma voz sem corpo.
Um corpo que não se pode ver a si mesmo, porque não tem espelhos (nem sequer os olhos de um qualquer Adão).
Um corpo em construção.
Um corpo de mulher que pode sair, pode ir, mas que ouve a voz que avisa:
“Assustar-te-á a existência de dia e de noite”.
Este corpo tem um nome: Eva. Como a primeira mulher. Mas esta Eva não é a primeira mulher, é apenas a primeira mulher ali. Como todas as mulheres e como todos os homens somos sempre, em alguma circunstância, os primeiros em alguma situação, corrijo, em alguma emoção..
Eva é a tinta que pela primeira vez vai escrever na brancura indefinida do papel. E, ao arriscar a escrita, pode encontrar a gaguez ou a palavra exacta ou a gralha.
Eva é a mulher limitada pelo medo de esmagar o pássaro que está fora da janela.
“Ouviu: Há um pássaro que todas as noite se deita à tua porta.
Como não sabes a que horas anoitece, nem o que é anoitecer, se abrires, esmagá-lo-ás”
Eva é matéria moldável.
Eva é a Alice no dentro do espelho, é a Sofia da Condessa de Ségur na sala dos Castigos, é Platão na sua Caverna, é cada um de nós antes de enfrentar a luz cruel da rotina.
Eva é a certeza da inexistência de saídas de emergência para a vida:
“Ouviu: - O fascínio é o perigo em que te moves.
Em breve conhecerás o abandono.”
*********
(2009), Leal, Filipa, A inexistência de Eva, Deriva Editores, Porto.
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Digo-te por isso, de Filipa Leal
Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.
Filipa Leal
Uma tarde diferente: O guindaste branco espalha as suas asas
Antes da apresentação de O guindaste branco espalha as suas asas (Poesia de Lawrence Pettener), por Filipa Leal, houve tempo para uma visita ao Mercado do Livro e para uma sessão fotográfica.
Já no Clube Literário do Porto, Filipa Leal disse alguns poemas, por ela traduzidos, de Lawrence Pettener. O poeta leu também alguns dos seus textos não só em inglês, mas também em irlandês gaélico. No final, a Juliana, as Gabrielas e a Bruna estiveram à conversa com Filipa Leal. Ficou prometida uma visita à Escola, para uma conversa com versos à volta. A Gabriela teve ainda oportunidade para interagir com o actor Rui Spranger, que ela reconheceu como protagonista de O Senhor Juarroz, peça a que assistimos em Fevereiro, no Teatro da Vilarinha.
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O guindaste branco espalha as suas asas, Poesia de Lawrence Pettener, por Filipa Leal
O guindaste branco espalha as suas asas | Poesia de Lawrence Pettener | Leitura e tradução portuguesa de Filipa Leal

Lawrence Pettener vive em Bristol, mas costuma identificar-se como sendo “Irlandês de Liverpool”. A sua poesia está traduzida em várias línguas europeias e tem feito leituras em cidades como Berlim, Liubliana e Amesterdão. Licenciado em Literatura inglesa e Mestre em Escrita Criativa, tem trabalhado como revisor em publicações periódicas e textos literários. Na primeira visita ao Porto, Lawrence Pettener promete fazer uma leitura dos seus poemas não só em inglês mas também em irlandês gaélico.
Filipa Leal nasceu no Porto. Formada em Jornalismo, é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros. Publicou «lua-polaroid», «Talvez os Lírios Compreendam», «A Cidade Líquida e Outras Texturas» e «O Problema de Ser Norte». Tem participado em vários Encontros de Poesia, nomeadamente na Galiza, em Pisa, Zagreb e Bristol. Integra, desde 2004, os Seminários de Tradução Colectiva de Poesia Viva da Fundação da Casa de Mateus.
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, 22
Sábado, 11 de Outubro, 17 h
Da Escola ao Clube Literário:
Ver mapa maior
Filipa Leal nasceu no Porto. Formada em Jornalismo, é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros. Publicou «lua-polaroid», «Talvez os Lírios Compreendam», «A Cidade Líquida e Outras Texturas» e «O Problema de Ser Norte». Tem participado em vários Encontros de Poesia, nomeadamente na Galiza, em Pisa, Zagreb e Bristol. Integra, desde 2004, os Seminários de Tradução Colectiva de Poesia Viva da Fundação da Casa de Mateus.
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, 22
Sábado, 11 de Outubro, 17 h
Da Escola ao Clube Literário:
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Traindo o poema

Juro: eu tinha prometido não escrever
este poema. Não gosto de supermercados
nem de poetas de supermercado, mas hoje enchi
a casa de manteiga e não pude evitar uma sensação
de metáfora, uma ironia a escorregar-me nos dedos
como anúncio de contemporaneidade. Juro: eu não preciso
de tantas embalagens, nem preciso deste poema,
mas há tantos dias que não posso tomar o pequeno-almoço
na minha casa sem manteiga, sem poema, que hoje enchi-me
de coragem para tudo isto.
E juro: apesar da traição, sinto-me hoje mais
contemporânea
do que nunca.
Filipa Leal
" Filipa Leal sabe que o poema pode ser muito mais do que uma coisa banal, daí o não gostar dos poetas que só falam do quotidiano." (Bruna Freitas)
"O que lhe escorrega dos dedos é a manteiga, não a ironia: a ironia é a forma que encontra para se distanciar dos 'poetas de supermercado' ." (Gabriella)
"O sujeito lírico entende que a poesia é algo que merece muita atenção: a poesia não serve para o banal." (Jessica)
"O sujeito poético traí a poesia ao escrever sobre algo banal. A poesia serve o inefável." (Rui)
"Filipa Leal não gosta de desperdiçar palavras a falar das coisas do dia-a-dia, mas e numa crítica aos seus contemporâneos, faz um poema com manteiga, com compras, com banalidades. Para ela a manteiga é tão essencial como o poema." (Juliana)
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O problema de ser norte, de Filipa Leal, por Juliana Monteiro

O Problema de Ser Norte é um pequeno livro de poesia da autoria de Filipa Leal. Trata-se de um livro que revela uma sensibilidade extrema, uma imensa delicadeza. Nenhuma palavra é escolhida ao acaso: todas são pensadas e pesadas. São poemas que nos falam dos medos da vida, da tristeza, da felicidade, do amor. Só em “Traindo o poema” é que a poeta nos toca as questões mais banais, mais domésticas.
Traindo o poema
Juro: eu tinha prometido não escrever
este poema. Não gosto de supermercados
nem de poetas de supermercado, mas hoje enchi
a casa de manteiga e não pude evitar uma sensação
de metáfora, uma ironia a escorregar-me nos dedos
como anúncio de contemporaneidade. Juro: eu não preciso
de tantas embalagens, nem preciso deste poema,
mas há tantos dias que não posso tomar o pequeno-almoço
na minha casa sem manteiga, sem poema, que hoje enchi-me
de coragem para tudo isto.
E juro: apesar da traição, sinto-me hoje mais
contemporânea
do que nunca.
Filipa Leal
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