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TEOREMA, Herberto Helder

                          TEOREMA,  Herberto Helder                                                                                                                                                              Ao Dr. Ernesto Gonçalves
         
         El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da Bandeira.  Gosto deste rei louco, inocente e brutal.  Puseram-me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto a cabeça, torno o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor.  Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste ao tempo.  D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados.  Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens.  O rei olha para mim com simpatia.  Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês.  Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota.  Que desejava salvar o Reino da influência espanhola.  Tolice.  Não me interessa o Reino.  Matei-a para salvar o amor do rei.  D. Pedro sabe-o.  Olho de novo para a janela onde se debruça.  Ele diz um gracejo.  Toda a gente ri.
       — Preparem-me esse coelho, que tenho fome.
       O rei brinca com o meu nome.  O meu apelido é Coelho.
       O que este homem trabalhou na nossa obra!  Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas da gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres.  Foi um terrível espetáculo, que cidades e lugarejos apreciaram.
       Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor.  Levanto-me e fico bem defronte do edifício.  Vejo no rés-do-chão o letreiro da Barbearia Vidigal e o barbeiro de bigode louro que veio à porta assistir ao meu suplício.  Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.
       — Senhor — digo eu —, agradeço-te a minha morte.  E ofereço-te a morte de D. Inês.  Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.
       — Muito bem — respondeu o rei.  Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-mo.
       De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro.  Distingo as vozes do povo, a sua ingénua excitação.  Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal.  Estremeço de frio.  Foi o punhal que entrou na carne e cortou algumas costelas.  Uma pancada de alto a baixo do meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos.  Um moço do rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado.  A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo, se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo.  Percebo como tudo isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem.  Ah, não tenho medo.  Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico.  Matei por amor do amor — e isso é do espírito demoníaco.  O rei e a amante também são criaturas infernais.  Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu.  Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas.  Detesto a rainha.
       O moço sobe a escada com a bandeja onde o meu coração é um molusco quente e sangrento.  Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela.  O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita.  Mostra-o ao povo, e o sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo.  Ouvem-se aplausos.  Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo assim.  Felizmente o nosso rei encontra-se à altura do seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra.  Somos também um povo cheio de fé.  Temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade.  Somos todos loucos.
       Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul de céu, acima dos telhados.  Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina.  O claxon de um carro expande-se lìricamente no ar.  Estamos nos começos de junho.  Ainda é primavera.  A terra está cheia de seiva.  A terra é eterna.  À minha volta dizem obscenidades.  Alguém sugere que me cortem o pénis.  Um moço vai perguntar ao rei se o podem fazer, mas este recusa.
       — Só o coração — diz.  E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente.  A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda a alma ao Diabo.  Eu gostaria de poder agradecer a este povo bárbaro e puro as suas boas palavras violentas.
       Um filete de sangue escorre pelo queixo de D. Pedro, e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente.  O rei come o meu coração.  O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade.  O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto do seu plinto de granito.  As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima.  D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça.  Aclama-o o povo mais uma vez, e dispersa.  Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima.  Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim.  Meditaremos.  Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do comum amor à eternidade.  O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima.  Talvez não termine aí a sua inspiração, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado.  O seu corpo ir-se-á reduzindo à força de fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura.  E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração.  D. Inês tomou conta das nossas almas.  Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda.  Entra devagar nos poemas e nas cidades.  Nada é tão incorruptível como a sua morte.  No crisol do inferno manter-nos-emos todos três perenemente límpidos.  O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração.  Que ninguém tenha piedade.  E Deus não é chamado para aqui.


HELDER, Herberto.  "Teorema", in: Os Passos em Volta.  3a ed. Editorial Estampa, 1970

Salmo 139 mudado por Herberto Helder


[um dos textos que Nuno Carinhas faz dialogar com Gil Vicente] 



 Ilda David

Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas co
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
– Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho -te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra -me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho -me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer -se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fxaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá -me o caminho secreto para a tua eternidade.
mudado por  Herberto Helder

Salmo 139
In Poesia Toda. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 169 -170.

As mães são as mais altas coisas | Herberto Helder

Maternidade, Almada Negreiros


Fonte II

As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos
filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe á cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do
amor.

Herberto Helder


Ofício Cantante | herberto helder


[...]
Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia -
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.

herberto helder, Ofício Cantante (pg. 159)

CÃES, MARINHEIROS, de Herberto Helder (Os Passos em Volta)

CÃES MARINHEIROS

Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. - Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. - Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. - Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. - Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. - Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. - Adora-as, respondeu a cadela. - Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. - Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. - O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. - Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. - Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. - Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?
Herberto Helder (Os Passos em Volta)

Herberto helder: Afastem de mim a inocência || António Guerreiro


UM AR DE FAMÍLIA atrai para o mesmo lugar problemático uma afirmação de Hölderlin - de uma carta enviada à mãe - e dois versos de Herberto Helder: um, designando a poesia como «a ocupação mais inocente de todas»; o outro, enunciando o princípio que coloca a poesia nas regiões do terror e liberta nela um núcleo trágico: «- o inferno! alguém disse: afastem de mim a inocência/ eu falo o idioma demoníaco». A falsa e irónica inocência de Hölderlin revelou-se, afinal, como um saber que inaugura uma idade heróica da literatura. Herberto Helder pertence ainda a esta idade.

Princípio importante deste «ethos» heróico (que toda a poesia moderna fortemente reivindicou): o poeta constitui-se única e exclusivamente através da sua obra (e, desse modo, não coincide com um indivíduo que tem uma determinada identidade civil), a qual deve escapar a todos os factores pessoais e sociais que a alienam. Dito de outro modo, ela não deve legitimar-se senão no interior de um espaço literário autónomo. «Les honneurs déshonorent», disse Flaubert contra o sucesso mundano. As recusas e resistências de Herberto Helder - ou melhor e mais radicalmente: a decisão de, enquanto poeta, não existir senão através da sua poesia - encontram nessa frase do escritor francês um sentido muito evidente.

Durante anos, habituámo-nos a designar a sua «Poesia Toda». Mas esse «corpus» volumoso foi reduzido, em 2001, a uma «súmula», acompanhada desta advertência: «para dizer que é uma ressalva ao poema contínuo pelo autor chamado poesia toda. O poema contínuo parecia não exigir a escusa das partes que não eram punti luminosi poundianos, ou núcleos de energia assegurando uma continuidade imediatamente sensível. O livro de agora pretende então aceitar a escusa e, em tempos de redundância, estabelecer apenas as notas impreteríveis para que da pauta se erga a música, uma decerto não muito hínica, não muito larga nem límpida música, mas este som de quem sopra os instrumentos na escuridão (...)».

Um estreito laço familiar aproxima também «os tempos de redundância» apontados por Herberto Helder e «o tempo de indigência» de Hölderlin - razão da sua pergunta inquietante: «Para quê poetas?» Na nota que citámos, coloca-se de maneira explícita a questão da condição epocal da poesia. E não é certamente exagerado dizer que a de Herberto Helder (e alguns, raros, textos e «extratextos», como este aqui citado) obriga, de maneira radical (e como nenhuma outra, na poesia portuguesa contemporânea), a questionar o próprio lugar e estatuto da poesia, hoje. Porque ela designa um «espaço literário» que só podemos reconhecer como intempestivo. Não se entra nela senão interrompendo o curso do mundo, suspendendo as linguagens da história e pondo entre parêntesis as circunstâncias empíricas. Eis a literatura como utopia.

Essa drástica redução da Poesia Toda operada em Ou o Poema Contínuo (2001) é agora confirmada em A Faca Não Corta o Fogo. De certa maneira, esta concepção do «poema contínuo», da obra como poema único que pode ser ampliado sem quebras, responde à exigência de caminhar para um ponto onde só a linguagem age, com todo o seu poder, suprimindo a pessoalidade e, de certa maneira (não como Mallarmé, mas também não o ignorando), erradicando o autor. Na poesia de Herberto Helder não há psicologia, nem confidencialidade, nem biografia - estamos noutro mundo, mais difícil de reconhecer e de habitar. O que nela emerge é uma paixão puramente literária. Ora, em «tempos de redundância», o grande «escândalo» de Herberto Helder é o de se furtar à esfera mundana da «vida literária», deixando que apenas a sua obra exista e siga o seu curso sem quaisquer interferências do exterior. Repare-se que a única entrevista que se lhe conhece é uma «auto-entrevista».

Esta atitude, que não devemos reconduzir a uma mera «idiossincrasia», ganha hoje um sentido fundamental. O que é que se acelerou nas últimas décadas? Acelerou-se a perda de autonomia dos escritores e do campo literário em geral, um campo que deixou de reivindicar o direito a ser ele próprio a definir os princípios que o legitimam. A legitimidade passou a ser outorgada pela instância do mercado e por factores mundanos, que ditam as regras da consagração. E a literatura de entretenimento ganhou um poder desmesurado, quase deixou de ser reconhecível como tal, como se só ela existisse. Por isso é que a obra de Herberto Helder é intempestiva: conduz-nos para um espaço e um tempo que lançam um forte desafio a todo o contexto, não apenas o literário; fala um «idioma» que é cada vez mais difícil de escutar.

Na história da poesia portuguesa da segunda metade do século XX, Herberto Helder ocupa a posição do «poeta forte», que provoca nos que vêm depois uma «angústia da influência». Já muitas vezes se falou deste poder totalitário que exerceu sobre poetas mais jovens, da atracção fatal que representou. Joaquim Manuel Magalhães escreveu um texto fundamental sobre esta questão. Entretanto, a poesia portuguesa seguiu maioritariamente por vias diferentes. Mas a luz que emana do fogo lento da poesia de Herberto Helder não se extinguiu nem um pouco. Sem ela, outra figura teria o último meio século literário português.

António Guerreiro, Actual (Expresso), 11/10/08


Os Animais Carnívoros, de Herberto Helder



Os Animais Carnívoros
I
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante umparque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia oque fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanhaintensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele erauma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Herberto Helder