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Vicente, de Miguel Torga




Apresentação de Vicente de Miguel Torga pelas Corujas Trovadoras e 10.ºE.






LIBERDADE

– Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
– Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga
Albufeira, 28 de Agosto de 1975
in Diário XII


Ler Vicente na íntegra aqui.

COMUNICADO | Miguel Torga

COMUNICADO 

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha.
Até cair.

Miguel Torga


 (Coimbra, 18 de Abril de 1961)

Vicente, de Miguel Torga


Não encontrei texto melhor para iniciarmos o 3º período.
Um texto de Miguel Torga que nos mostra a importância de ser VICENTE - e enfrentar o dilúvio, em vez de nos sujeitarmos à opressão da arca.




"Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia - lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -, apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava:- a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente."
(Miguel Torga, Os Bichos)

Conto na íntegra aqui.