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dois poemas de Manuel de Freitas

ESTUDOS CAMONIANOS

Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.

Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.

Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.

Manuel de Freitas, A última Porta

A Última Porta 

GRAPEFRUIT MOON


Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Ao quinto ou quarto gin
(lembras-te?) deitávamo-nos
a sorrir para a estrelas,
sobre o pano gasto do bilhar.

A música era esta.
Perdemos quase tudo.
Manuel de Freitas

Rua de Miragaia | Manuel de Freitas


Rua de Miragaia

Se vieres dos lados da Ribeira,
depressa reparas como
os preços descem e a miséria
aumenta em esplanadas
de improviso, e ficam mais
tristes e humanas as janelas.

Chegaste a Miragaia
e quase não mentes
se lhe chamares destino.

Manuel de Freitas, in Intermezzi, op. 25

PINA BAUSCH, 2008 | Manuel de Freitas


PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

Manuel de Freitas
(Jukebox 2)


PINA BAUSCH [1940 . 2009]


Duas vezes nada, de Manuel de Freitas

Duas vezes nada

É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.

Constatamos o pior, os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alcoolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
Não temos, ao que parece, serventia.

Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.

Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:

não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.



Manuel de Freitas
[SIC]
poesia inédita portuguesa
Assírio & Alvim

Genealogia, de Manuel de Freitas

"Não sei se a cultura ajuda. Preferia
a qualquer obra de Bach
que a música ambulante do amolador
pudesse de novo passar na infância,
na infância breve de estarmos ambos vivos,
sentados na varanda. À espera de dias
iguais, sob a alta sombra dos pinheiros.

Era isso."

Manuel de FREITAS, (2003), Beau Séjour. Lisboa: Assírio & Alvim.


Um excerto de Genealogia, um poema à «musa distraída» de M. Freitas, escolhido pela Bruna.