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Operação Carnaval: PSP apreende livros por considerar pornográfica capa com quadro de Courbet




A origem do Mundo - quadro sobre o qual já falámos nas nossas aulas - deu, agora, origem um equívoco ....

"A PSP de Braga apreendeu hoje numa feira de livros de saldo alguns exemplares de um livro sobre pintura. A polícia considerou que o quadro do pintor Gustave Courbet, reproduzido nas capas dos exemplares, era pornográfico, adiantou uma fonte da empresa livreira.
António Lopes disse que os três agentes policiais elaboraram um auto no qual afirmam terem apreendido os livros por terem imagens pornográficas expostas publicamente.
O quadro do pintor oitocentista - tido como fundador do realismo em pintura - expõe as coxas e o sexo de uma mulher, sendo, por isso, a sua obra mais conhecida. Pintado em 1866, está exposto no Museu D'Orsay em Paris.
António Lopes manifestou-se "indignado" com a atitude da PSP: "isto é uma vergonha, um atentado à liberdade", afirmou. O empresário é um dos sócios da distribuidora 'Inovação à Leitura', de Braga, organizadora da Feira do Livro em Saldo e Últimas Edições, que está a decorrer, até ao dia 8 de Março, na Praça da República - vulgo Arcada - no centro de Braga.
Segundo os especialistas, Gustave Courbet era já um pintor "conhecido em França pela sua destreza técnica mas sobretudo pela sua atitude crítica e corrosiva em relação à sociedade burguesa, que não perdia ocasião de afrontar". Courbet, um socialista convicto, ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher, com o quadro "A Origem do Mundo" abalou profundamente o meio artístico, tendo a sua exposição pública sido proibida na época. (Público)

Esta história traz à memória o bom zelo de dois agentes da PSP que, em 2004, em Viseu, "aconselharam" os responsáveis da livraria Polvo a retirar da montra um livro do espanhol Alvarez Rabo, com um título eventualmente polémico.

ÉTANT DONNÉS | Duchamp


ÉTANT DONNÉS é a última obra de Duchamp. Trata-se uma instalação que foi montada no Museu de Arte de Filadélfia, após sua morte, em 1968. O espectador assume a postura de voyeur e, espreitando pela fresta de uma porta vê uma mulher deitada, tridimensional, com o sexo exposto, mas não vê o rosto, como no quadro de Courbet.

Sobre o conjunto da obra de Marcel Duchamp mergulha em Understanding Duchamp.

Função social da Arte


“Não sou só um pintor, sou também um homem. Não faço arte pela arte mas para reclamar a minha liberdade intelectual.” Gustave Coubert

A Origem do Mundo | Courbet & Jorge Sousa Braga


A Origem do Mundo, Gustave Courbet


A Origem do Mundo

Uma mulher deitada de costas
As pernas abertas a vulva exposta

Em primeiro plano entre as coxas
Roliças e as nádegas espalmadas

Os pêlos do púbis densos como escamas
Como linha do horizonte as suas mamas

Jorge Sousa Braga, A Ferida Aberta

"A história deste quadro dava um filme. Depois de o diplomata otomano, Khalil-Bey, o ter recebido de Courbet e o ter acrescentado à sua colecção no seu palácio nz Boulevard Haussman – onde, ao que dizem, apenas o mostrava aos seus amigos e visitantes mais íntimos –, o quadro desapareceu na dispersão que se seguiu à ruína de Khalil-Bey, em 1868, tendo certamente servido para pagar algumas das suas dívidas. Sabe-se que A origem do mundo esteve guardado durante vários anos no castelo de Blonay. Em 1913, reaparece numa galeria de Paris, onde é adquirido por um barão húngaro, François Hatvany, coleccionador de arte, que o leva para o seu palácio de Budapeste. Volta a desaparecer no tumulto da segunda guerra mundial. E volta a ressurgir, de novo na capital francesa, nos anos 50, indo parar às mãos de Sylvia Bataille, primeira mulher de Georges Bataille (autor do livro O Erotismo), depois casada com o psicanalista Jacques Lacan, e actriz-protagonista do filme de Jean Renoir, La Partie de Campagne (1936). O casal Lacan manteve a tela guardada na sua casa de campo ao longo de décadas e um familiar de Sylvia decidiu dissimular a crueza da sua representação sobrepondo-lhe, numa porta de correr, de madeira, o desenho de uma paisagem chinesa – era uma espécie de jogo e desafio para os observadores mais voyeuristas; e era também, num certo sentido, a materialização da teoria de Bataille, que dizia que o erotismo está não naquilo que se mostra, mas naquilo que se esconde. Depois da morte de Sylvia Bataille, a obra foi doada ao Estado francês, que o recuperou e depositou no Museu d’Orsay." (lê o texto completo aqui)

"Esta tela surge assim como um manifesto contra o academismo mas também contra a falsidade vigente na Arte e na Sociedade oitocentista. Representa a libertação definitiva do artista de todos os estereótipos! Significativo é o facto da polémica se ficar a dever ao tema e à forma como foi abordado e não às qualidades pictóricas do quadro - se estava bem pintado ou não. A Origem do Mundo foi uma obra inspirada, visionária talvez, um acto estético da maior importância e uma obra de arte de primeira grandeza. A Pintura Moderna talvez tenha começado aqui, com origem no sexo de uma mulher." (continua aqui)