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GRAMÁTICA SENTIMENTAL DO CORAÇÃO | Miguel Carvalho


GRAMÁTICA SENTIMENTAL DO CORAÇÃO

Coração – Substantivo masculino, recorte à esquerda do meu peito, a alma picotada, de luto carregado ou amores de incenso. Não, órgão oco e musculoso não. Carente de fé, por vezes. A fazer-se forte, às tantas. Mas num intenso pulsar, sempre. Ora sepultando existências na cova funda dos anos, ora tricotando a vida que acontece enquanto penso o que fazer dela. Sensibilidade moral, sim, mas consciência da carne, quando fere. Coragem, ânimo e a forma tenrinha de te amar, a paixão sem osso, a roer-nos. Valor, carácter, saber que à boca não há-de ir parar a piedade que o corpo grita. Abrir o coração, semear palavras, lavrar toda a extensão da folha branca do teu corpo e ter a certeza de um verso na volta, a poesia em flor. Sentimentos com lealdade para sossego dos sentidos enquanto a inquietação preenche o lugar de não estares aqui. O coração caído aos pés, estilhaços de ilusões, as utopias trituradas, o esfrangalhar do ser na lâmina, à espera de ressuscitar no campo de batalha da consciência. Falar ao coração, comovê-lo. A ver se ele se importa. Dar-lhe colo, algemar o pensamento a rascunhos de mimo e desenhar, a traço grosso, o essencial que os olhos não alcançam. Fazer das tripas coração, o sangue a espirrar um estoicismo que não se resigna, a fibra de um rosto de papel, a cara à luta na ventania dos dias do avesso. Ter o coração ao pé da boca, mas entalar a raiva entre o bom senso dos teus lábios. Então, dar asas às palavras que escrevo no livro de horas que cabe em tua mão. Pedir-te que a feches. Pedir-te que me guardes, coração.

Miguel Carvalho [aqui]

Dos textos nascem textos # momento 1

[fotograma de Lost in Translation]

Dos textos nascem textos  

[construímos o nosso texto a partir desta gaveta. A utilização do texto foi autorizada e, durante o processo de escrita, procuramos não torturar a gramática, nem ofender a ortografia. Tomámos, apenas, algumas liberdades poéticas]

Aprendi a sinfonia dos silêncios. Das esperas.
Sem ânsias do amanhã. Aprendi a conjugar o presente.
E a vivê-lo como se um passado não tivesse existido.
Os compassos da lenta descoberta.
Abriram as comportas do imaginário
e, timidamente, quiseram ser peixes voadores
Ensaiei a dança das palavras, pura.
Puros movimentos doces dançando de boca em boca
e com o mesmo desfecho: morrer ali.
Sem ter a noção do ontem, sem saber do amanhã.
E vi o encantamento soltar as asas, reclamando o peito pela cintura.
Envolvendo todo o corpo
Encantamento perdido, no começo do fim
E veio a ânsia, despida.
Com silêncio profundo
Que me faz pensar na vida.
E a graça, nua.
sem medo da liberdade
Sem temer.
E todo este movimento perpétuo
que me faz explodir de alegria,
viver no limiar das emoções,
deixar voar as palavras, sem medo....
....sem medo de arriscar    de viver.


Miguel Carvalho, Ana , Raquel,  Filipa ,  Inês  , Juliana, Cátia, Joana, Tiago

E agora José? - Carlos Drummond de Andrade & Sabes José?, Miguel Carvalho

E agora, José?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?

Carlos Drummond de Andrade


Sabes, José?, Miguel Carvalho []
Sabes, José? Nos quarteirões da minha cidade, voltaram os pedidos de meio frango com ar envergonhado e dinheiro contado. Na repartição dos correios, diante da minha porta, os funcionários já viram mãos alheias perto do gasganete em dias em que faltou dinheiro na caixa para pagar a pensão do mês. E há mais clientela esperando a sua vez.
Uma tragédia, José, quem havia de dizer que os nossos antigos iam morrer vivendo, de pé?
Também tenho reparado que os carrinhos de supermercado andam menos recheados, sabes? Mas deve ser das minhas vistas, tenho de mudar as lentes, certamente. Uma coisa tenho reparado e essa eu vejo bem: na hora de pagar, algo fica para trás. Um pacote, um algo que vinha e já não vem.
Nas farmácias, os velhos dizem que seleccionam medicamentos por não terem forma nem maneira de pagar a ementa dos remédios gourmet das suas eternas maleitas. Entre a doença, as dores e a boca, escolhem o pão, como não?
Olha, José, vê os portões das fábricas a fechar, o presente a definhar.
No nosso País de misérias e angústias, há um rumorejar a borbulhar, José. Ouve-se por toda a parte, até aqui ao pé, no escritório do lado, na mercearia da esquina ou no balcão do café.
Já não é só futebol, José, o penalty que é ou não é.
São conversas fartas, raivas incontidas, vidas fora-de-jogo à espera da reviravolta que nunca vem para quem sempre joga limpo.
Olha, José, vocês aí no alto discutem números, austeridade, a salvação nacional e a saúde da pátria depois do leite derramado. Mas aqui em baixo, no País terra-a-terra e na nação sem parlapié, há gente com défice de crença e paciência para acreditar de novo na sobrevivência.
Não sei, José, que dias virão a seguir.
Um dia, talvez mais cedo do que julgamos, vão juntar-se os deserdados do futuro, a polícia empobrecida e desprestigiada e os que pouco já tinham e agora não têm nada. Nesse momento, juntos, vão encher a praça. E aí, José, uma coisa eu garanto: não vai ter graça.

Miguel Carvalho (A Devida Comédia)


Miguel Carvalho ganhou o Grande Prémio Gazeta 2009

O jornalista da Visão Miguel Carvalho ganhou o Grande Prémio Gazeta 2009 pelo trabalho “Os segredos do Barro Branco” sobre Joaquim Ferreira Torres, figura ligada à oposição violenta ao 25 de Abril e assassinado em 1979.
Nós já conhecemos Miguel Carvalho daqui ,  de uma visita à comunidade de leitores e das nossas Histórias de Mão em Mão.


Reportagem Vencedora

Joaquim Ferreira Torres - Os segredos do Barro Branco


Joaquim Ferreira Torres, industrial e financiador da rede bombista de extrema-direita, foi assassinado a 21 de Agosto de 1979. A morte serviu conveniências privadas e políticas. Mentores e autores não foram descobertos. O crime prescreveu. Trinta anos depois, a VISÃO traz a público novos dados e documentos.

Esta é a história de um homem controverso, de fortuna suspeita, que tentou cair nas graças do fascismo, deu dinheiro à oposição democrática, tirou comunistas da cadeia e ajudou «pides» e empresários a fugir. Um dia, ameaçou «abrir o saco» e calaram-no. A tiro

Naquela manhã, Joaquim Ferreira Torres levantou-se mais tarde do que o habitual. Normalmente, estaria a pé às seis horas. Mas o jantar terminara para lá da meia-noite e ele havia passado a madrugada com dores na coluna. Estava, contudo, bem-disposto ao pequeno--almoço. Era Verão e a família mudara da vivenda das Antas, no Porto, para a sua Quinta de Vila Nova, em Penafiel. A mulher, Elisa, ia para as termas de São Vicente, ali perto. O marido continuava a fazer o percurso diário entre a casa e a fábrica têxtil de que era proprietá rio, em Famalicão, ignorando o significado da palavra férias.

Apesar de discreto e reservado, regressara uma das últimas noites carregando uma mala com mil contos, fruto de um negócio com ciganos.

Atarefado, nem deu importância ao facto de, naquele período, alguém lhe rondar a quinta, questionando os caseiros sobre as suas rotinas. Estranhara apenas as avarias no telefone, quase sempre ao final da tarde. O aparelho parecia ter vontade própria e os técnicos tardavam em descobrir o defeito.

Tal não o impediu de marcar o referido jantar. Encomendara uns melões no restaurante Tanoeiro, em Famalicão, onde almoçava amiúde. O tenente-coronel Oliveira Marques e a esposa eram esperados à noite, vindos de Lisboa. Torres juntou à mesa a mulher, o Quinzinho sobrinho que criou como verdadeiro filho desde os onze meses após a morte de um irmão, a irmã Sãozinha e o cunhado Mota Freitas, major da PSP, entre outros familiares. Antes e depois da refeição, os homens reuniram no escritório. Oliveira Marques foi embora já passava da meia-noite.

Quando acordou, Torres vestiu uma camisa, casaco e calças claras, tipo caqui.

Apertou o cinto de cabedal vermelho e calçou uns sapatos castanho-claros picotados, de pala. No pulso, um Ómega de ouro. Num dedo, o anel, também em ouro, com brilhante de sete quilates.

Guardou a carteira com umas dezenas de contos e numa pequena pasta preta colocou documentos, cerca de 42 mil pesetas e 200 marcos. No casaco, levava a caneta em ouro e a agenda, cheia de contactos.

Nomes de homens de negócios, polícias e militares de várias patentes, velhos conhecidos do antigo regime, cónegos, políticos e cadastrados.

O industrial fez-se à estrada no seu Porsche vermelho 911 T, por volta das oito horas. Em Paredes, comprou os três matutinos do Porto e seguiu viagem. Três quilómetros à frente, na estrada nacional que liga Paredes a Paços de Ferreira, talvez vendo um rosto familiar, abrandou.

Numa emboscada de execução tipicamente militar, desconhecidos, munidos de armas pouco habituais no País, disparam contra ele vários tiros, atingindo-o sobretudo no crânio. Torres tombou, morto, para o lado direito do condutor.

Passavam 15 minutos das oito horas do dia 21 de Agosto de 1979. O Porsche contava mais de 77 mil quilómetros. Duas jovens iam comprar vinho quando deram o alerta. Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco» sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.

Até ali, ele tinha granjeado fama e fortuna vindo do nada e do esquecimento, ao estilo do mito americano. Nascera no simbólico 13 de Maio, em 1925, em Rebordelo, Amarante, um de 17 irmãos. Fez o ensino básico e vendeu carvão em Vila Pouca de Aguiar, onde o pai trabalhou nas minas. Também passou madeiras para Espanha, clandestino.

Foi marçano numa loja de mercearias finas e, no final dos anos 40, já andava por terras transmontanas, de bicicleta ou motorizada, como comissionista e vendedor de rifas, ganhando bom dinheiro com sorteios de chocolates e navalhas.

Em Murça, conhece Elisa, da aldeia de Noura, com quem haveria de casar. A rapariga trabalhara numa padaria e era governanta.

«Uma lasca de mulher, muito cobiçada», diz quem a conheceu. Namoram pelos quintais. E ela é sua cúmplice nas fugas à polícia, que metiam saltos pelos telhados e esconderijos em tonéis de vinho. Os mandados de captura contra ele sucediam-se. E do tribunal de Chaves desapareceria, mais tarde, o seu registo criminal, que incluiria um historial considerável de abusos de confiança.

Saramago, por Miguel Carvalho [A Devida…na VISÃO – XXXII]

(foto de Egídio Santos)


Do autocarro aos cafés, da coluna de jornal ao supermercado, o País pergunta: o Presidente da República deveria ou não ter ido ao funeral de José Saramago? Como nesta Terra de Pecado todas as interpretações são livres, também tenho uma: Cavaco não foi porque vai precisar dos votos dos que não leram O Evangelho segundo Jesus Cristo e consideraram Caim uma obra dos infernos. Ou seja, os mesmos votos que o inquilino de Belém terá perdido ao aprovar, contrariado, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Como se sabe, o facto levou a Igreja portuguesa ao desespero. Desde esse dia, anda por aí, numa autêntica Viagem do Elefante, em busca de um candidato a Belém mais bafejado pela graça de Deus. E, já agora, pelo espírito das cruzadas, quem sabe.

Esgrimiram-se, entretanto, outras justificações para a ausência de Cavaco: que não queria ser assobiado, que não queria ser hipócrita, que já tinha feito o que deveria como chefe de Estado… Argumentou-se também que não poderia faltar às cerimónias pela dignidade do cargo que ocupa. Ora, Saramago, que nunca foi um Homem Duplicado e dado a ostentações e vénias pelos senhores de turno, dispensaria bem a presença do homem a quem nunca apertou a mão. Ele, que nem n´As Intermitências da Morte quis fazer as pazes com a figura suprema do Governo que o tratou como um Objecto, Quase, agradeceria, por certo, a ausência.

Claro que, para quem apenas guarda Pequenas Memórias do tempo que passa, a censura ao escritor em pleno cavaquismo deveria ser relegada para Os Apontamentos da História na hora da despedida. Discordo. Naquela altura, goste-se ou não, tiraram tudo o que resta a um escritor: o valor da liberdade de criação e a dignidade das suas palavras. E Provavelmente, Alegria, já agora. Cavaco era chefe de um ajudante de ministro que, a dada altura, se questionou: Que farei com este livro? E tão rápido pensou como decidiu: uma obra incómoda para “o património religioso dos cristãos” não seria candidata ao Prémio Literário Europeu. Disse. E fez. Ontem como hoje, sabe-se o quanto Cavaco é cioso desse património cristão, pelos vistos sagrado. Num Governo que chefiou, um escritor foi relegado para A Caverna e nem Os Poemas Possíveis lhe valeram. Ou alguém ouviu a Cavaco arrependimentos a propósito desse momento triste, qual Ensaio sobre a Cegueira num País em que o mal parece incurável?

Nem por isso, Saramago deixou de ser Levantado do Chão.

Até ao Nobel. E depois dele.

Saramago foi Deste Mundo e do Outro e o gosto, nestas coisas, fica à porta. Entendamo-nos: não preciso de concordar ou aplaudir tudo o que escreveu ou disse. Mas a verdade é que foi nele, mais luminoso e redentor, qualquer Ensaio sobre a Lucidez do que Todos os Nomes que lhe chamaram.

M.C.

O Papa à minha porta | Miguel Carvalho

(Joana Vasconcelos)

 

O Papa à minha porta

Hoje madruguei. Tenho o Papa à minha porta.
Acelerado, saio de casa antes das oito em direcção ao Bolhão.
Nas ruas, caminheiros de passada larga dirigem-se para a Avenida dos Aliados, hoje transformada em… Assembleia. Atravesso Santa Catarina por entre polícias e gente ensonada. No shopping Via Catarina, entro no quiosque habitual. Jornal debaixo do braço, rezam-me lamentos por causa do que Papa disse do casamento gay e do aborto. “Ele tem alguma coisa que se meter nas nossas leis?”.
À porta do Bolhão, dois homens de coletes “efervescentes”, como diria Jesus (o do Benfica, claro), vendem t-shirts alusivas à visita papal. “Sobraram das paróquias”. Por cinco euros, vai-se equipado para a cerimónia. O negócio corre, desde madrugada. Se é do frio ou da fé, não sabe, mas Emília Machado, 60 anos, veio da Trofa enregelada e lá experimenta o tamanho da camisola, a ver se o agasalho de improviso fica à temperatura do seu coração católico, “mas pouco praticante”. No mercado, ainda se arrumam caixotes, poucos. 
Há posters e estandartes de Bento XVI espalhados pelas barraquinhas, também a Nossa Senhora em calendário. Faltam clientes, mas já há um milagre: pela primeira vez, velhas vendedoras do mercado andaram de metro. “Só por isso, já valeu a pena vir cá o Papa”, ouve-se. Maria Argentina, 70 anos, está à coca do falatório que por ali vai. Avental e blusão vermelho coçado, acena que sim com a cabeça. “O metro foi a melhor coisa que nos aconteceu”. Vende flores desde miúda no Bolhão, não sabe ler, nem escrever. Conta dez netos. Veio dos Carvalhos, às portas do Porto. O trajecto faz-se habitualmente de autocarro, mas hoje os acessos estavam cortados. A medo, lá veio de metro. “Nem sabia o que fazer com o bilhete, mas agora vou vir mais vezes”. Pudesse ela e daria um saltito para ver o Papa. Mas nada que a entusiasme por aí além. “Convença-se: ele é um homem normal, tão pecador como os outros”. Na banca de fruta ali ao lado, há uma televisão colocada estrategicamente para não perder pitada. “Quer laranjinha, menino?”

ESTE PORTUGAL - Sagrado e Profano


ESTE PORTUGAL

As noivas
De Santo António
Que exigem
Casar
Com Santo António

À porta
Do tribunal
A Eva
Do Natal
Que dá
Um andar
Que não é
Uma cave

Adília Lopes


A RELIGIÃO

"Foi no habitual mês de festas, romarias e regressos dos emigrantes para as vacances que o País se pôs a cantarolar o Pimba, já lá vão onze anos. A moda pegou. E logo o termo foi adoptado para catalogar, a bem ou a mal, a nova roupagem da cantiga popularucha, de rima fácil, brejeira, provocadora.
A velha canção melosa e delicodoce ganhou então mais frenesim, baloiço de ancas e atrevimento. À conta disso, Miguel Gomes, 34 anos, realizador, anda por Arganil, a recolher imagens de arraiais e festas. «Já filmei uma banda que tinha um bebé de seis meses em palco», diz o cineasta, apostado, nesta fase, no registo documental para o seu filme Aquele Querido Mês de Agosto.
O melodrama é inspirado numa cantiga do mítico Dino Meira. O fundo musical é pimba. Ou, como prefere Miguel, «a música ligeira, romântica que se faz por aí». Para este trabalho, já ouviu mais de 300 canções e até ficou fã do grupo Diapasão. «Não tenho um olhar maldoso sobre este universo. Os sentimentos das pessoas que ouvem e gostam destas músicas são tão intensos e complexos como os de quem ouve Bach». Se assim não fosse, Carina António, de 22 anos, nunca iria em peregrinação até à Palhaça, por ocasião das festas da Senhora da Memória. Óculos, cara redondinha, a jovem viajou de Santarém até àquela freguesia de Oliveira do Bairro numa noite de segunda-feira para assistir ao seu enésimo concerto de Tony Carreira, o quebra-corações do momento. «Sigo-o para todo o lado, até faço directas para chegar cedo ao restaurante onde trabalho. Mas ele compensa tudo», diz, segurando um álbum com dezenas de fotos de Tony e do saxofonista Vítor, mais conhecido como o Brad Pitt do Seixal.
Entradas a cinco euros, barracas à nora com as bifanas, tendas com Noddys de pilhas, um terreiro quase às escuras e acidentado, eis o cenário no qual se enlataram casais com carrinhos de bebé, velhinhos de muletas e pares de namorados. Na assistência, vêem-se coelhinhos de peluche, rosas, cartazes com declarações de amor e um enxame de máquinas digitais e telemóveis a flashar o cantor. Este, primeiro de fato escuro às riscas, e depois já de ganga e camisa vermelha, ouve gritinhos enquanto pede mãozinhas no ar. «Cavaleiro andante, de abrigo em abrigo», Tony passa, nas suas músicas, a ideia de «eterno vagabundo».
Elas gostam. E engrossam a fila para os autógrafos. Um aparato tal que «nem no Estádio do Dragão se vê tanta segurança», ouvia-se.
O cantor, esse, esteve blindado. Quando o staff do mais-que-tudo da canção romântica quis impor a escolha das fotografias para a reportagem, o nosso papel na Palhaça esgotou-se.
Se a clausura fosse proporcional ao sucesso, Roberto Leal já estaria num altar ou fechado a sete chaves como uma freira carmelita.Não é o caso.
Quinze milhões de discos vendidos depois, o português com o sotaque mais famoso do País continua tão acessível como o cidadão António Joaquim Fernandes, natural de Vale da Porca, que um dia rumou ao Brasil e adoptou o nome artístico de Roberto Leal. Em São Martinho de Anta, ele entrou em cena às duas da manhã, no momento alto das festas da Senhora da Azinheira. No largo principal da terra, nem os jovens que, no início, torciam o nariz, resistiram ao batuque, sanfona e jogo de bunda das bailarinas. «Roberto, és o maior!», gritavam. E ele, todo de branco, entremeando a canção de puxar lágrima, os vivas ao Senhor, o hino de Portugal e os calores de palco, lá acabou a beijar Toninho na testa, velho amigo dos tempos difíceis do Brasil."
Miguel Carvalho, in Aqui na Terra)