Questões linguísticas....


FÓRMULAS ESTILÍSTICAS 

Plural de modéstia:

Trata-se do  emprego dos verbos e pronomes na 1ª pessoa do plural (nós) em substituição da 1ª pessoa do singular (eu), como tratamento de humildade e proximidade com os leitores e ouvintes.  Frequente nos oradores dos mais diversos quadrantes ou em trabalhos científicos. Com esta fórmula linguística cria-se o efeito de expressão de um pensamento colectivo, suavizando o modo impositivo das afirmações.

Ex: Queremos, com isto, dizer que é nossa intenção fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para resolver o problema.

Plural majestático: 

Fórmula idêntica ao plural de modéstia. Há contextos em que este uso da 1ª pessoa do plural, que se pretende de proximidade, é preferentemente tomado como sinal de engrandecimento e elevação de quem o usa. O adjectivo “majestático” reporta-se à Idade Média, ao monarca que falava em nome da Nação e era a única voz com legitimidade para usar da palavra em nome de todos. A este plural também se chama, actualmente, “plural de modéstia”.

Ex: Nós, por graça de Deus rei de Portugal, declaramos ser nossa vontade aqui mandar erigir um templo que testemunhe esta nossa grande vitória.

Fórmulas de cortesia 

Imperfeito de cortesia: produz o efeito de distanciar cortesmente um pedido ou uma pergunta. (Queria um café, por favor.)
Terceira pessoa de cortesia: requerimentos dirigidos a pessoas de hierarquia superior (Palmira … solicita … / pede que lhe …)

A este propósito...


A Gaivota, de Anton Tchékhov no TNSJ


Trigórin
Estou só a tomar uma nota… Surgiu‑me um tema… (Escondendo o caderno.) Um tema para um pequeno conto: na margem do lago vive desde criança uma jovem, assim como você; gosta do lago como uma gaivota, e é feliz, e livre como uma gaivota. Mas por acaso apareceu um homem, viu ‑a e por não ter nada que fazer, destruiu ‑lhe a vida. Como a desta gaivota. 
in  A Gaivota, de Anton Tchékhov  

módulo 1 - Almeida Garrett

Módulo 1 _11ºD

Manifesto Anti-poetisa | Ana Luísa Amaral


Manifesto Anti-poetisa | Ana Luísa Amaral

Para a Maria Irene sobre «o sexo dos poetas», 
e recordando aquela que, engenhosamente, 
um dia escreveu «This was a Poet – It is That –».

Mais fácil é «a poet – it is that –»,
que a gramática nossa o não permite
e precisa dois gumes do estilete
– o que implicará sempre mais limite.

Mas, caso a regra for bem aplicada
(invertendo-se os termos da excepção),
porque não ler «poeta», feminino,
e masculino: ... vide conclusão?

Mas se poeta for quem mais repete
as quadras já ouvidas, recusando-
-as depois e repetidas, lembrando
utilidade imensa do estilete:

ou seja, a de espetar tais mil palavras
em cima de mil sílaba de mais,
sabendo que depois, uma palavra
é o que sobrará; e que das tais

mil e catorze sílabas só uma
lá caberá (no verso, quero dizer),
que de tanto esforçar e se perder,
acaba por às vezes ser nenhuma.

E se poeta for nem paciente
nem ausente de tal, que a paciência
em demasia: coisa de serpente,
como é do seu contrário a sua ausência.

E se poeta for... inútil mais,
que de ridículo este definir
se perderá por versos mais e tais
que o verso às tantas poderá partir.

Mas quando se partir, aí o verso.
E quando se partir, aí o lume:
avançar muito além do definir,
não distinguir essência de perfume.

E na ausência de final dourado,
tal como na ausência de terceto,
a conclusão: nem homem, nem mulher,
ou então: a «poeta» e o «poeto».

 Ana Luísa Amaral, revista DIACRÍTICA, Ciências da Literatura, n.º 22/3 (2008), 157-158
Programa de Literatura Portuguesa aqui.

Do livro ao filme: filme do Desassossego




a partir de "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares 
realização João Botelho 
música Caetano Veloso, Carminho, Lula Pena, Ricardo Ribeiro e "Ópera Marcha Fúnebre para o Rei Luís Segundo da Baviera", de Eurico Carrapatoso (interpretação Angélica Neto, Elsa Cortez) fotografia João Ribeiro som Francisco Veloso  
direcção artística Sílvia Grabowski 
montagem João Braz  
interpretação Cláudio da Silva, Alexandra Lencastre, Ana Moreira, André Gomes, António Pedro Cerdeira, Carlos Costa, Catarina Wallenstein, Dinis Gomes, Filipe Vargas, José Eduardo, Luísa Cruz, Manuel João Vieira, Marcello Urgeghe, Margarida Vila-Nova, Miguel Guilherme, Miguel Moreira, Mónica Calle, Paulo Filipe, Pedro Lamares, Ricardo Aibéo, Rita Blanco, Rui Morisson, Sofia Leite, Suzana Borges  
produção Ar de Filmes 

TEATRO NACIONAL SÃO JOÃO - dias 7,8,9 de Outubro.


Folhas Caídas



Os últimos anos da vida de Garrett são dominados por uma paixão fatal por uma senhora casada da alta sociedade lisboeta, Rosa de Montufar, viscondessa da Luz, a inspiradora das Folhas Caídas (1853), livro que escandalizou a sociedade da época, na medida em que revelava, com exibicionismo, esses amores ilícitos, mas que constitui afinal a grande inovação do lirismo romântico.

Nas Folhas Caídas, o seu último livro de versos e aquele em que a vida e a poesia estão intimamente ligadas, a ponto de escandalizar e simultaneamente apaixonar os leitores da época, Garrett liberta-se completamente da formação arcádica e compõe uma obra inovadora e moderna, tanto pelo conceito de amor que nela canta ( uma devastadora paixão sensual), como pela métrica, inspirada na poesia popular, com predomínio da redondilha maior e menor, e o emprego de novos recursos estilísticos, por exemplo a sinestesia, em que precedeu os Simbolistas; mas, sobretudo, pelo tom directo, emotivo, coloquial.

A poesia das Folhas Caídas não é verdadeiramente lírica, mas dramática, pois nela se exprime um drama amoroso, e os desabafos do poeta são dirigidos a uma personagem, a mulher amada, cuja presença  está sempre implícita e tem de subentender-se, para que se possa compreender a técnica do “monólogo dialogado”, que caracteriza a grande maioria dos poemas desta obra. A técnica dramática evidencia-se ainda nos processos adoptados pelo autor ( antíteses, monólogos, diálogos subentendidos, apóstrofes, interrogações, invocações), no nível de língua ( linguagem oral e familiar) e no emprego dos verbos no Presente do Indicativo.  (Maria Ema T. Ferreira)



GOZO E DOR

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
– Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso do gozo é dor.

Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida – ou a razão.

Almeida Garrett

Serralves| Projecto com Escolas ... e o tema é...


CIDADES: PERCURSOS, INTERVENÇÕES, AFECTOS

CIDADES é o tema do projecto com escolas em 2010/2011. Propõe-se uma pesquisa sobre o espaço urbano, tendo em conta a complexa rede de inter-relações entre as dimensões física, social, económica e afectiva. O processo de trabalho em parceria com as escolas implicará uma vontade colectiva de equacionar e negociar propostas concretas de intervenção/transformação dos lugares que habitamos, de modo a passar da esfera meramente discursiva à acção, da teoria à prática. Conceitos tais como os de habitabilidade e sustentabilidade serão importantes no debate que pretendemos gerar, sempre numa perspectiva multidisciplinar, que cruza referências da arte e da arquitectura, da geografia, da sociologia e das ciências do ambiente, sem esquecer a aproximação criativa e atenta à obra de artistas cujas práticas revelam preocupações neste âmbito. O projecto terá diferentes níveis de abordagem, consoante as faixas etárias de cada grupo, privilegiando, no caso dos mais novos, uma vertente lúdica e exploratória.
Público-alvo: do pré-escolar ao ensino secundário

A Gaivota, de Anton Tchékhov



A estreia foi um fiasco, em São Petersburgo, corria o ano de 1896. Reza a história que Anton Tchékhov abandonou o teatro jurando a si mesmo não voltar a escrever para o palco. No final da temporada, a peça era já um êxito e acabaria por se tornar o emblema do Teatro de Arte de Moscovo de Stanislavski e companhia. Que assim tenha acontecido não deverá surpreender, pois que é a contradição – entre sucesso e fracasso, como entre sonho e realidade ou entre as convenções e as “novas formas” – que atravessa A Gaivota, peça com que o TNSJ abre a temporada 2010/2011. Rodeado pelos seus mais regulares colaboradores, Nuno Cardoso acerca-se deste teatro que fala de si próprio e ama a vida toda, acrescentando à sua galeria de belos vencidos as personagens de Tréplev, Arkádina, Nina e Trigórin – criaturas que persistem em colocar a fasquia da existência muito acima da sua capacidade de impulsão, gente irresistivelmente votada ao fracasso, ou a descobrir a insuficiência de todo o êxito. É o regresso de Nuno Cardoso ao universo do dramaturgo russo, depois de nos ter surpreendido com Platónov, produção do TNSJ considerada pelo jornal Público como o melhor espectáculo teatral de 2008, também merecedora de uma Menção Especial da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. “Subimos o pano às nove e meia em ponto, quando nasce a lua.” daqui

Vida: Variações - Bénédicte Houart

 (imagem daqui)
algumas letras numa página
algumas páginas numa vida
algumas vidas numa morte
tantas mortes numa só vida

assim se compõe um livro
Bénédicte Houart

O prolongamento do lodo são estas quarto mãos | Catarina Nunes de Almeida


O prolongamento do lodo são estas quarto mãos
num dia sem vento e sem orquestra.
Na mansidão do pomar tantas vezes adiado
há cabelos e tecidos que se agitam
por debaixo da nespereira.


Catarina Nunes de Almeida
Metamorfose das Plantas dos Pés

Uma na Bravo Outra na Ditadura, de André Valentim Almeida

Uma na Bravo Outra na Ditadura (2010) é um "documentário retrato da geração nascida em Portugal pela revolução de Abril", de André Valentim Almeida  acabado de estrear na Web, com cerca de uma hora e de acesso integralmente gratuito.

Conta com mais de uma dezena de entrevistas, entre as quais, algumas figuras do panorama criativo nacional: Fernando Alvim, Gonçalo M. Tavares, Filipe Pedro, Inês Fonseca Santos, Inês Nadais, Jacinto Lucas Pires, Joana Vasconcelos, João Bonifácio, Jorge Guerra e Paz, JP Coutinho, JP Simões, Nuno Cardinho, Pedro Mexia, Pedro Ribeiro, Raquel Bulha, Raquel Vieira da Silva, Valter Hugo Mãe, Vanessa Granja.

VER O DOCUMENTÁRIO

Uma na Bravo Outra na Ditadura - parte 1/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.


Uma na Bravo Outra na Ditadura - parte 2/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.

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desculpa mãe, mas meu amigo... | MAFALDA GOMES


desculpa mãe, mas meu amigo...

A minha mãe disse-me não vás à fonte com a sede toda e eu não fiz caso. Pernas para que as queria? De goelas abertas, bebi. A minha mãe disse-me a carne é fraca e eu não fiz caso. Braços para que os queria? Dei o corpo sem a alma. A minha mãe disse-me a fome é negra e eu lambi os dedos, rapei os tachos, falei ao telefone como as putas, anoiteci como os gatos, amanheci como as leiteiras, não adormeci como os boémios, gatinhei como os loucos, farejei como os cães, suspirei de sede. Eu sou fácil, eu sei. A minha mãe disse-mebrincadeiras de homens, coices de burro e eu não fiz caso. Dei-me a todas as pancadas, emborquei quanto pude. É censurável, mas eu só tenho de averiguar o meu tamanho.  MAFALDA GOMES [O meu amor é Glandular]

Se essa rua fosse minha: Saramago, Eça, politiquices e politicões



Nada há de mais ruidoso, e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas – do que a política. Por toda essa antiga Europa real, se vêem multidões de politiquetes e de politicões enflorados, emplumados, atordoadores, cacarejando infernalmente, de crista alta. Mas concebes tu a possibilidade de daqui a cinquenta anos, quando se estiverem erguendo estátuas a Zola, alguém se lembre dos Ferry, dos Clemenceau, dos Cánovas, dos Brigth? Podes-me tu dizer quem eram os ministros do império em 1856, há apenas trinta anos, quando Gustave Flaubert escrevia «Madame Bovary»? Para o saber precisas desenterrar e esgaravatar com repugnância velhos jornais bolorentos: e achados os nomes nunca verdadeiramente poderás diferenciar o sujeito Baroche do sujeito Troplong: mas de «Madame Bovary» sabes a vida toda, e as paixões e os tédios, e a cadelinha que a seguia, e o vestido que punha quando partia à quinta-feira na «Hirondelle» para ir encontrar Léon a Rouen! Bismarck todo-poderoso, que é chanceler e de ferro, daqui a duzentos anos será, sob a ferrugem que o há-de cobrir, uma dessas figuras de Estado que dormem nos arquivos e que pertencem só à erudição histórica: o papa Leão XIII, tão grande, tão presente, que até as crianças lhe sabem de cor o sorriso fino, não será mais, na longa fila dos papas, que uma vaga tiara com um número; mas duzentos anos passarão, e mil – e o nome, a figura, e a vida de certo homem que não governou a Alemanha nem a Cristandade, estará tão fresca e rebrilhante como hoje na memória grata dos homens.”  Eça de Queirós, Prefácio a  «Azulejos» do Conde de Arnoso (Notas Contemporâneas)
Assisto à montanha
e não me apetece mais nada,
nem que o palco se ilumine
nem que me traduzam o texto.
Um corpo sem pegadas
é o lugar perfeito
para o abandono.

Catarina Nunes de Almeida

I love my husband, Nélida Piñon



I love my husband, Nélida Piñon

Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre maldormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado.

Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto.

Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo compras, e por cima reclamo da vida. Enquanto ele constrói o seu mundo com pequenos tijolos, e ainda que alguns destes muros venham ao chão, os amigos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e visíveis.

A mim também me saúdam por alimentar um homem que sonha com casas-grandes, senzalas e mocambos, e assim faz o país progredir. E é por isto que sou a sombra do homem que todos dizem eu amar. Deixo que o sol entre pela casa, para dourar os objetos comprados com esforço comum. Embora ele não me cumprimente pelos objetos fluorescentes. Ao contrário, através da certeza do meu amor, proclama que não faço outra coisa senão consumir o dinheiro que ele arrecada no verão. Eu peço então que compreenda minha nostalgia por uma terra antigamente trabalhada pela mulher, ele franze o rosto como se eu lhe estivesse propondo uma teoria que envergonha a família e a escritura definitiva do nosso apartamento.

O que mais quer, mulher, não lhe basta termos casado em comunhão de bens? E dizendo que eu era parte do seu futuro, que só ele porém tinha o direito de construir, percebi que a generosidade do homem habilitava-me a ser apenas dona de um passado com regras ditadas no convívio comum.

Comecei a ambicionar que maravilha não seria viver apenas no passado, antes que este tempo pretérito nos tenha sido ditado pelo homem que dizemos amar. Ele aplaudiu o meu projeto. Dentro de casa, no forno que era o lar, seria fácil alimentar o passado com ervas e mingau de aveia, para que ele, tranqüilo, gerisse o futuro. Decididamente, não podia ele preocupar-se com a matriz do meu ventre, que devia pertencer-lhe de modo a não precisar cheirar o meu sexo para descobrir quem mais, além dele, ali estivera, batera-lhe à porta, arranhara suas paredes com inscrições e datas.

Filho meu tem que ser só meu, confessou aos amigos no sábado do mês que recebíamos. E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa. Então o homem, além de me haver naufragado no passado, quando se sentia livre para viver a vida a que ele apenas tinha acesso, precisava também atar minhas mãos, para minhas mãos não sentirem a doçura da própria pele, pois talvez esta doçura me ditasse em voz baixa que havia outras peles igualmente doces e privadas, cobertas de pêlo felpudo, e com a ajuda da língua podia lamber-se o seu sal?

Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. Alisei meu corpo, pensei, acaso sou mulher unicamente pelas garras longas e por revesti-las de ouro, prata, o ímpeto do sangue de um animal abatido no bosque? Ou porque o homem adorna-me de modo a que quando tire estas tintas de guerreira do rosto surpreende-se com uma face que Ihe é estranha, que ele cobriu de mistério para não me ter inteira?

De repente, o espelho pareceu-me o símbolo de uma derrota que o homem trazia para casa e tornava-me bonita. Não é verdade que te amo, marido? perguntei-lhe enquanto lia os jornais, para instruir-se, e eu varria as letras de imprensa cuspidas no chão logo após ele assimilar a notícia. Pediu, deixe-me progredir, mulher. Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo.

Eu lhe disse então, se não quer discutir o amor, que afinal bem pode estar longe daqui, ou atrás dos móveis para onde às vezes escondo a poeira depois de varrer a casa, que tal se após tantos anos eu mencionasse o futuro como se fosse uma sobremesa?