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«Paga-me um café e conto-te a minha vida» | Tolentino Mendonça


«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro


outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu ,não,nunca choraste
por amores que se perdem


os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas ,acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«pago-te um café se me contares
o teu amor»

José Tolentino Mendonça

Diálogo para um personagem de Andrei Tarkovskii | José Tolentino Mendonça


Diálogo para um personagem de Andrei Tarkovskii

dizer-te é inclinar-me
sobre o
silêncio

faz que eu seja
o choupo
todo dobrado
na face pressentida
das águas

José Tolentino Mendonça
A noite abre meus olhos [poesia reunida]

GRAFITO | José Tolentino Mendonça


GRAFITO

«O poema é o acto espiritual
por excelência»
E. Levinas

O poema pode conter:
coisas certas, coisas incorrectas, venenos para manter fora do alcance
excursões campestres, falhas de memória
uma bicicleta caída junto às primeiras paixões sombrias
Pode conter Le matin, Le midi, Le soir
audácias típicas de um visionário
uma guerra civil
um disco dos Smiths
correntes marítimas em vez de correntes literárias

José Tolentino Mendonça

Os incêndios | José Tolentino Mendonça


Os incêndios

Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas

a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma

não despertes o que não podes calar

José Tolentino Mendonça