Aconteceu no dia 15.
Na segunda-feira passada, os alunos de Literatura Portuguesa, do 11ºC, foram até à sala do 3ºA, na Eb1 da Corujeira ler a história de Sara Monteiro - Dona Miquelina, o seu filho e a professora. Temos de agradecer a atenção que nos dispensaram e a simpatia com que nos receberam. Obrigada!
Traindo o poema

Juro: eu tinha prometido não escrever
este poema. Não gosto de supermercados
nem de poetas de supermercado, mas hoje enchi
a casa de manteiga e não pude evitar uma sensação
de metáfora, uma ironia a escorregar-me nos dedos
como anúncio de contemporaneidade. Juro: eu não preciso
de tantas embalagens, nem preciso deste poema,
mas há tantos dias que não posso tomar o pequeno-almoço
na minha casa sem manteiga, sem poema, que hoje enchi-me
de coragem para tudo isto.
E juro: apesar da traição, sinto-me hoje mais
contemporânea
do que nunca.
Filipa Leal
" Filipa Leal sabe que o poema pode ser muito mais do que uma coisa banal, daí o não gostar dos poetas que só falam do quotidiano." (Bruna Freitas)
"O que lhe escorrega dos dedos é a manteiga, não a ironia: a ironia é a forma que encontra para se distanciar dos 'poetas de supermercado' ." (Gabriella)
"O sujeito lírico entende que a poesia é algo que merece muita atenção: a poesia não serve para o banal." (Jessica)
"O sujeito poético traí a poesia ao escrever sobre algo banal. A poesia serve o inefável." (Rui)
"Filipa Leal não gosta de desperdiçar palavras a falar das coisas do dia-a-dia, mas e numa crítica aos seus contemporâneos, faz um poema com manteiga, com compras, com banalidades. Para ela a manteiga é tão essencial como o poema." (Juliana)
Quase um poema de amor, Miguel Torga
Quase um poema de amor
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor
Neste poema de Torga, o sujeito poético fala-nos daquilo que ele melhor sabe fazer: poemas de amor. No entanto, à medida que vai envelhecendo
ninguém o "deseja apaixonado" e o "pudor", a vergonha, fazem com que ele cada vez menos se consiga expor. O amor torna-nos mais confiantes, mas o sujeito poético tem medo se parecer ridículo quando agora fala de amor.
Jessica
Algo
MINHA SENHORA DE QUÊ
dona de quê
se na paisagem onde se projectam
pequenas asas deslumbrantes folhas
nem eu me projectei
se os versos apressados
me nascem sempre urgentes:
trabalhos de permeio refeições
doendo a consciência inusitada
dona de mim nem sou
se sintaxes trocadas
o mais das vezes nem minha intenção
se sentidos diversos ocultados
nem do oculto nascem
(poética do Hades quem me dera!)
Dona de nada senhora nem
de mim: imitações de medo
os meus infernos
(Ana Luísa Amaral)
Se ao menos a morte, de Filipa Leal

Testamento, Ana Luísa Amaral

Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos
Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita
Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas
Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu
Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras
ANA LUÍSA AMARAL
Ser forte, mandar

