O Deus da Matança, de Yasmina Reza, 19 de Março



"Dois rapazes andam à pancada depois da escola e um deles parte os dentes ao outro… mas esta história não é acerca deles."

Os pais de Bruno, agora desdentado, conseguem descobrir que foi Fernando quem lhe bateu, e convidam os pais deste para irem lá a casa resolver o assunto como pessoas civilizadas.
O encontro começa num tom muito cordial e civilizado, mas lentamente, pequenas verdades se vão dizendo e insinuando, de parte a parte. O tom amigável e compreensivo com que começaram o encontro é a pouco e pouco substituído por uma desagradável tom de agressão.Todo o ser humano consegue conter a sua raiva apenas até um certo ponto…e uma vez ultrapassado esse ponto, poderemos finalmente conhecer verdadeiramente alguém…Este será o pior dia da vida deles."

Álvaro Lapa


uma bandeira
uma orelha
uma luva
uma linha amarela
um prego
um vestido
uma estrada
um ponto final, um travessão e um vírgula
um mapa




Miró


Cores
preto
fios
desenho
verde
cinzento
expressões
Miró
circulos
redondo

Desenho expressivo
sem sentido
com cores
confio em ti
nem muito feliz
nem pouco triste
és confuso
como um pintor

10.ºE




Helena Almeida: Sem i...


Desespero, Abandono
             tua cara de azul
Amor constante
             versos em branco
estou a ver-te de azul
             manchando o espelho
azul como o mar
             no azul forte da tua alma
(é o que eu penso)
            serve para esconder o teu rosto
azul de paz
            (és uma pessoa agradável)
com o azul...
           penso em tudo
como te amo, meu amor
           uma pessoa bondosa
que me mata sufocadamente
          de todos os teus desgostos de amor
que me esconde o rosto
          versos em branco
          versos em branco
Azul, cor da tua alma

10.ºE

Manchando o espelho
com o azul que me esconde o rosto
(Filipa)

Pinto-me de Céu (lipograma)


Pinto-me de Céu

cor do meu peito
que me fez feliz
(Tiago)

cor dos meus olhos
cor que me fez ver-te
belo como tu és 
                                                                    (Cátia Coelho)

Céu do teu corpo
intenso como  um jogo
no extremo escuro
                                                                         (Juliana)

céu é o limite
onde eu vou
(Ana)

Como me sinto:
Eis o meu reflexo
(Joana)

Pinto-me de nuvens
que me reflectem
entre os limites longínquos de nós
(Filipa)

Penso em ti
no meu limite
(Raquell)

Tarde de mais Mariana, Filomena Cabral (por Filipa Miguel)

Tarde de mais Mariana,  Filomena Cabral


Trata-se de um texto poético, onde se adivinha um triângulo  amoroso: Júlio, Paulo, Rui.
Mariana era apaixonada por Júlio, mas ele morre e ela não lhe diz o quanto o ama. A morte de Júlio mostra-lhe que   Paulo e Rui são menos especiais do que Júlio:


"Júlio! (...) não vivi anos a recordar-te para perder-te de novo, ou desistir de ti (....) Júlio, Júlio vem comigo  (...) prometo-te fidelidade.


 Filipa Miguel

A cadência dos bichos de conta | Alberto Pimenta

A cadência dos bichos de conta

os bichinhos do ouvido
fazem de conta que escutam
o que os bichinhos de conta
fazem de conta que contam

assim tudo corre bem
para uns e para outros
nem uns dizem que são mudos
nem os outros que são moucos

Alberto Pimenta, Bestiário Lusitano

Variações em torno de uma imagem de Helena Almeida




Tenho sangue nas mãos
é sangue do teu coração
coração ao abandono
abandono *  escuro
escuro abandono

Raquel

Tenho sangue nas mãos
é sangue do meu coração
coração de papelão
papelão melhor que o meu coração
coração magoado, traído
traído, estragado,sincero
sincero no sofrimento deste amor
Amor que me mata em silêncio.

Inês


Tenho sangue nas mãos
é sangue do meu coração
Coração que sente
sente um amor quente
quento como o verão
verão que pode ser em Fevereiro.

Ana 

Tenho sangue nas mãos
é sangue do teu coração
coração vermelho
vermelho de paixão
paixão que por ti sinto
sinto-te eternamente a meu lado
lado eterno

Filipa

Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente

Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente | clip

isto vai fazer sentido...


Faianças Artísticas  Bordallo Pinheiro

Soneto Soma 14 X | Eugénio M. Castro (lido por Alberto Pimenta)




"MeIo e Castro mantém a forma e esvazia-a de conteúdo semântico, redu-la portanto a mera estrutura. A esta estrutura, porém, não falta nada, ela tem tudo em si mesma: as suas variaçães discursivas são tautologias. Tem um esquema rimático pouco usado mas interessante (ahab odcd ea'e fef) ; as qua'dras têm rimas pares, as tercetos rimas ímpares; os signos ·são' introduzidas em parte progressivamente, em signos  são introduzidos, em efeito surpresa  (o "8" aparece pela primeira vez na segunda quadra, tal como o "5"; o "9" surge só no último verso, e há ainda a grande omissão - talvez um tabu - do "7"). Há várias rimas internas e belas figuras; finalmente, cúmulo da beleza, há a chave de ouro do última verso, cuja soma é 28, e não simplesmente 14, como nos outros." (Alberto Pimenta, O silêncio dos poetas ; precedido de Reflexões sobre a função da arte literária)



O soneto "Soma 14X" é composto apenas por números, mas não deixa de  respeitar as regras compositivas do soneto (duas quadras e dois tercetos).   O soneto em questão, apresenta rimas numéricas. Sabendo-se com qual determinado verso rima é já possível saber  qual o último dos cinco números que compõem o verso. Os outros quatro números do verso, resultaram de uma soma baseada no facto do total do verso dar 14. Note-se  que não há um só verso repetido neste soneto. Observe-se ainda, que o último verso deste soneto, o verso "chave de ouro" dá soma 28 (duas vezes 14), como que a querer dizer que é um verso que vale mais do que os outros.

não sei para que lado da noite me hei-de virar | Carlos Alberto Machado

não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua e recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite

Carlos Alberto Machado, Registo Civil

Bolor, Carlos de Oliveira / Augusto Abelaira

Bolor


Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor nas paredes
deste quarto deserto
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.

Carlos de Oliveira, Cantata



“-Por que casaste comigo em vez de casar com outra? Por que me escolheste a mim como imagem da vida quotidiana, ponto de referência em relação ao qual uma diferente vida é possível - vida, parêntesis, na realidade inútil de todos os dias?” BolorAugusto Abelaira


Maria Altinha | Manuel da Fonseca




"Todos os anos, mulheres que vivem lá para o sul, ao pé do mar, atravessam as serras e espalham-se pela planície, para a monda e para o trabalho dos arrozais.

Trazem cantigas alegres e falas rumorosas, e o povo das vilas junta-se nos largos para as ver passar a caminho das herdades. E, nos primeiros dias da faina, à hora a que o manajeiro tem as palavras mais desejadas para os que andam curvados entre as espigas ou enterrados no lodo das várzeas, quando o sol desaparece e cigarras e ralos arrastam um traquinar que se perde pelos longes, as mulheres de ao pé do mar cantam coisas novas e coloridas.

Em volta do lume, malteses e ganhões calam as vozes pesadas e ficam-se a ouvi-las, com os olhos parados na noite, pensando nas terras da beira-mar, lá donde elas vieram. Que as cantigas das moças do sul têm o brilho das águas e a vivacidade das ondas. E as suas gargalhadas são naturais como um pincho de água trespassado de sol, saltando numa rocha. Elas trazem a frescura do mar para a charneca desolada." Manuel da Fonseca







Maria Altinha

Registo Civil | Carlos Alberto Machado

MATÉRIA

I

Palavras
para te contar uma ausência
perdidas
palavras na desolação da ilha
palavras presas
e eu nelas.

II

Disseste há palavras forradas de silêncio
mas os homens acreditam nas palvras
com significados ou nos significados das palavras
nas falésias batidas pelo vento e pelo mar no inverno
descobrimos vestígios de esponjas multicolores
antigos pensamentos
cedendo à força dos nossos desejos.

***

Há um segredo que não dizes
abres os braços como as aves
as mãos acariciando as imagens
pergunto-te ainda uma vez
o segredo é não existirmos
o sol tardio nos nossos corpos.

****

Derramamos
muito do teu sangue
antes soubemos
que não é doce
o teu sabor
é bom sabê-lo
depois
nada.


Carlos Alberto Machado, Registo Civil, poesia reunida, Assírio & Alvim (2009)

o poema feio | valter hugo mãe


o poema feio | valter hugo mãe

o poema feio 
para o jamie stewart

a princesa feia não casou mas, no tempo em que foi visitada por príncipes solteiros, querendo agradar, cortou uns palmos às pernas para ficar mais baixa e cómoda ao abraço, puxou pelos dedos para ficar com eles compridos, amassou os seios de encontro ao pescoço para subirem aos olhos da gente, rasgou os lábios para sorrir eternamente. agora, ali sentada, sozinha de amores, lembrava-se de ser impossivelmente a mulher que foi, mas os ratos passavam-lhe entre as falhas cortadas das pernas, e os dedos desjuntavam-se irremediavelmente murchos de encontro ao chão, os seios coagularam como calcificados com as marcas desorganizadas das mãos e os lábios articulavam apenas palavras de dentes, trituradas pelo osso da cabeça lentamente vertendo para fora da pele. conformada, a princesa feia, dizia à prioresa sua amiga que o vento estava louco. levantava-se instável e profundamente mortal, fechava a janela e voltava ao silêncio
(valter hugo mãe, "folclore íntimo"/ Cosmorama Edições)

Lusofonia | Nuno Júdice

Lusofonia


rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.
...
Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008

Maçã - Rui Manuel Amaral





Maçã

Um homem decide plantar-se no meio dos campos, à espera de dar fruto. Durante muito tempo nada acontece.(Tempo durante o qual nada acontece) 
Um dia, uma prodigiosa laranja irrompe de um dos lados da cabeça. O homem dá a laranja a comer a um crítico de laranjas. O crítico explica ao homem que aquele fruto não é uma laranja mas um pêssego e que, infelizmente, ele é alérgico a pêssegos. O homem repara então que a laranja, na verdade, não passa de um
limão. E ele não gosta de limões. Decide acabar com aquilo. Desfaz em pedaços a maçã prodigiosa que tinha nascido da sua cabeça. E desta vez tudo se torna claro a seus olhos. E levantando a voz diz: "Então era isso!"

(Rui Manuel Amaral, Caravana, ed. Angelus Novus)

Texto colectivo - sem pés, mas com cabeça... #2




O teatro é castanho.
A vida é imprevisível.
O teatro é diferente.
A  vida é extraordinária
o teatro é o lugar do sonho
A vida é razoável
O teatro é um mun do de oportunidades
A vida desafia-nos todos os dias
O teatro é espontâneo
A vida são dois dias.
O teatro é fantástico.
A visa é uma seca.
O teatro é o sonho
A vida é única
O teatro é vida.
A vida também é teatro.

10.ºE