Lírica trovadoresca - base de dados



No site http://cantigas.fcsh.unl.pt/  tens uma base de dados com a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais). A base inclui ainda informação sucinta sobre todos os autores nela incluídos, sobre as personagens e lugares referidos nas cantigas, bem como a “Arte de Trovar”, o pequeno tratado de poética trovadoresca que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional.
O texto editado das cantigas dá ainda acesso a um conjunto de informações destinadas a facilitar quer a sua leitura, quer o seu enquadramento histórico (glossário, notas explicativas de versos, toponímia, antroponímia, notas gerais). E fornece igualmente informação de base sobre alguns dos seus aspetos formais. Em cada cantiga, o texto editado pode ainda ser confrontado com o texto manuscrito que transcreve, disponibilizando a base igualmente um conjunto de notas justificativas das leituras proposta (notas de leitura).



"Sedia-m'eu na ermida de San Simion"


Lírica trovadoresca - sistematização


Formação de Palavras (II)

Formação de palavras

Autorretrato

Autorretratos poéticos


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em que luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.
                                    Bocage
AUTORRETRATO

O'Neill( Alexandre ), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
( omita-se o olho triste e a testa iluminada )
o retrato moral também tem os seus quês
( aqui uma pequena frase censurada...).
No amor? No amor crê ( ou não fosse ele O'Neill )
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito ) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.

Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

                             Alexandre O'Neill


Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular

Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.

Destino de água salgada
principiado na veia.
E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento

e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranqüilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar

Natália Correia



Autorretrato

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.
Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.
Oculto nele e nele convertido
do tempo ido escusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;
E do meu sonho transformado em ato,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.
Ana Hatherly

Autorretrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da autoimportância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.


Ary dos Santos

Terras de Portugal, Miguel Esteves Cardoso


"Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada. Por exemplo. Há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide. Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide. Nunca mais ninguém o viu.

Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia! Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide. Um palácio com
sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umas
águas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço. Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre
imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada,
Agualva-Cacém, Abuxarda, Alfornelos, Murtosa, Angeja, Ranholas? ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola. Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. (...) Ao ler os nomes de alguns sítios ? Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na CEE.

De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?
Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses. Imagine-se o impacte de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).
E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?", só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz).

É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro? Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda. Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso? Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma Vergadelas? É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra". Ninguém é do Porto ou de Lisboa.

Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir. Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do bairro). É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and GoAway...").

Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa. Verá que não é bem atendido.(...) Não há limites. Há até um lugar chamado ******, no concelho de Ponte de Lima.
Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros. Há que dar-lhes nomes civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo Não Sei, A Mousse é Caseira, ou Vai Mais um Rissól.(...) Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do "Bogadouro"¹, (Amarante), depois de ter parado parafazer um chi-chi em Alçaperna (Lousã).


¹ - Bogadouro é o Mogadouro quando se está constipado!!!"

(Miguel Esteves Cardoso)

Os nossos ambíguos, Miguel Esteves Cardoso



Não foi o Facebook que fez pouco da palavra "amigo". Apenas prolonga um antigo abandalhamento, em que amigo passou de amor, como nas canções de amigo medievais, para o amor da amizade e, nos últimos cinquenta anos, para amante ocasional e, pior ainda, conhecido.

Embora um "amigo" no Facebook possa ser ainda menos conhecido do que um conhecido - até porque pode ser um desconhecido e até um inimigo -, faz falta uma palavra para quem não se conhece mas de quem se pode, em princípio, ser "amigo" e que posta coisas das quais, em princípio, se "gosta". Num tempo em que se pode ter centenas de amigos, incluindo dezenas de conhecidos e uma mão-cheia de amigos, sem se saber quem é que realmente gosta ou pode vir a gostar de nós - e sabendo que a maior parte nem gosta nem desgosta, porque se está nas tintas -, há que introduzir a categoria dos ambíguos.

Os ambíguos não são nem amigos nem inimigos. Podem ser uma ou outra coisa - ou nem uma coisa nem outra. Dessas pessoas devo poder dizer, com margem para dúvidas, que "é meu ambíguo". No Facebook ou numa estranha reunião em carne viva em que nos encontremos, seria bom poder dizer que "aqui, somos todos ambíguos". E, caso fôssemos, para nosso mal, demasiado francos, como quem fala com um amigo, alguém avisaria que "tem calma, que estás entre ambíguos".

"És meu ambíguo?" é mais afectuoso, realista e utilmente paranóico do que perguntar se o desconhecido ou conhecido visado é amigo ou não. Miguel Esteves Cardoso, in Publico.

Autobiografia sumária de Adília Lopes

Autobiografia sumária de Adília Lopes
Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas.

Adília Lopes


Pastiches do 10.ºB

Os acordes que faço
Surgem nas cordas 
Da minha guitarra.
                           Ana Sofia

A sociedade
É tão incompreensível
Como a minha mente.
                       Ariana Ferreira

Os meus livros
Dizem por mim
O que preciso contar ao mundo.
                        Ariana Sanches

Os meus livros 
eram as palavras 
que me faltavam.
                        Ariana Sanches

Eu gosto muito de música
Apesar de não querer ser artista
A música faz parte da vida
Beatriz
A minha vida
Numa palavra
É muito mexida, é a dança.
                         Bruna Rocha

Além de ouvir música
Gosto de ver televisão
E dormir.
                            Débora

As músicas 
Que eu ouço
Fazem-me sentir feliz.
                            Inês 

Eu gosto de
Estar na minha cama 
a ver TV e a dormir.
                              Jéssica

Visto-me de preto 
Combinando
Com a imagem da minha alma inexistente.
                                  Andreia

Eu gosto muito de ver séries,
Porque sempre que estou triste
Elas metem-me em modo fantasia.
                                  Márcia Silva

Cada viagem de autocarro
Uma deslocação aos 
Pensamentos mais tortuosos.
                                Márcia Dantas

Eu gosto de música
Mas obviamente
Nem todo o tipo de 
música me agrada.
                            Maria 

A minha gata gosta 
de brincar 
com o meu cabelo.
                            Marta

No cinema 
sinto-me feliz.
                            Marta

Escondido entre os meus passos
Vejo o meu passado
A correr sobre os meus traços
                                       Pedro Cardoso

10x10

A EBS do Cerco, o TNSJ e a Fundação Calouste Gulbenkian vão embarcar na 3.ª edição do projeto 10x10, uma iniciativa a que adere também A Oficina (Guimarães) e que promove a colaboração entre artistas e professores do ensino secundário, com o objetivo de desenvolver estratégias de aprendizagem eficazes na captação de atenção, motivação e envolvimento dos alunos em sala de aula. 10 artistas x 10 professores – seis duplas em Lisboa, duas no Porto e duas outras em Guimarães – trabalham em conjunto com turmas de alunos do 10.º ano do ensino regular, estimulando a interação das perspetivas, dos saberes e da criatividade de cada um. Em julho, professores e artistas participaram numa residência artística na Fundação Calouste Gulbenkian; entre setembro e dezembro, as duplas de artistas/professores trabalham com os alunos, partindo das matérias curriculares; mais adiante, entre janeiro e fevereiro, promovem-se aulas públicas, ocasião para apresentar os resultados do processo de trabalho e partilhar experiências. No Porto, dois artistas – a coreógrafa e bailarina Elisabete Magalhães e o ator e encenador Nuno M Cardoso – trabalham com as professoras Paula Cruz (Português) e Sandra Santos (Matemática) e com alunos da Escola Básica e Secundária do Cerco.
Para conhecer mais sobre este projeto clicar aqui.

Gustav Mahler: Das Lied von der Erde - Santo António de Pádua pregando aos peixes




Santo António de Pádua pregando aos peixes

 Santo António vai pregar e encontra a igreja vazia.
Dirige-se então aos rios e prega aos peixes!
Eles batem com as caudas!
Como brilham ao sol.

As carpas com as suas ovas vieram todas para aqui;
Estão todas de boca aberta, ávidas por escutar.
Nunca nenhum sermão agradara tanto aos peixes!

Lúcios de nariz aguçado, sempre a batalhar,
Nadaram rapidamente para ouvir o Santo!

Até aquele fantasista, que está sempre a jejuar,
Refiro-me ao bacalhau, veio ao sermão!
Nunca nenhum sermão agradara tanto ao bacalhau!

As enguias e os esturjões, tão apreciados pelos nobres,
Eles próprios se dignaram escutar a prédica.

Mesmo os caranguejos e as tartarugas, emissários  lentos,
Subiram depressa do fundo para ouvirem aquelas  palavras!
Nunca nenhum sermão agradara tanto aos caranguejos!

Peixes grandes, peixes pequenos, raros ou vulgares,
Erguem as cabeças como seres pensantes!
Ansiosos por Deus, escutam o sermão!

Acabada a prédica, cada qual se retira!
Os lúcios permanecem ladrões, as enguias a muito amar,
O sermão agradou, mas ficam todos como antes!

Os caranguejos vão embora, os bacalhaus continuam  gordos,
As carpas devoram tudo, o sermão esquece!
O sermão agradou, mas ficam todos como antes!
(Tradução de Maria Fernanda Cidrais. Do programa do recital de 31-10-2006, na Fundação Calouste Gulbenkian. Barítono Matthias Goerne.)


Os Maias [final]

A lanterna vermelha do «Americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «Americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.


Eça de Queiroz, Os Maias, cap. XVIII



Filipa Leal e o Porto [Fugas, Público]





Tem dez anos de carreira literária, muitos mais de palavras ditas, lidas, escritas. São a obsessão desta portuense que leva o Porto no que é, no que escreve. "O Porto será sempre a minha cidade, como o Douro será sempre o meu rio - conforta-me a proximidade da outra margem." Périplo entre uma cidade líquida e uma cidade das palavras. Andreia Marques Pereira (texto) e Fernando Veludo/NFactos (fotos)

Se estamos diante do Atlântico não é um acaso.

"Vir ao Porto é ver imediatamente o mar."

"O mar faz-me muita falta", e não é, sublinha Filipa Leal, uma "necessidade poética", antes a "necessidade física de quem nasce e vive junto dele." E ela nasceu, cresceu, viveu no Porto - agora, gosta de imaginar que está com um pé aqui e outro em Lisboa. Em Londres, continua, sentia muito a sua falta, em Lisboa, nos primeiros tempos, quando vivia e trabalhava na Baixa, ia ao Cais das Colunas só para ver o rio - como se fosse o mar. Assim, com o mar como pano de fundo, Filipa Leal, jornalista e poetisa a cumprir dez anos de carreira literária, desenha o seu "triângulo amoroso" geográfico, no qual o Porto ocupa o epicentro em torno do qual gravitam as duas capitais, uma onde viveu, a inglesa, outra onde vive, a portuguesa. Uma relação resolvida (e, isto, sim, é poesia):

"O Porto é o meu marido, Londres a ex-mulher, Lisboa a amante."

E se estamos na Praia dos Ingleses também não é por acaso, já vimos. Filipa gosta do simbolismo, como se Londres, onde estudou jornalismo, vivesse um pouco neste canto da Foz portuense. Além do mais, é presença regular neste pedaço "inglês", sobretudo desde que o seu outro triângulo, desta vez inteiramente portuense, se fechou quando a família se mudou para esta zona do Porto-a-ver-o-mar. Nesta tarde de Inverno invulgarmente ensolarada, as palavras de José Gomes Ferreira que Filipa conjura parecem desajustadas: "Porto - cidade de luz de granito", mas o contexto é outro; agora, o Porto manifesta-se solar diante da vastidão do mar.

"Há dias em que me constrange [o mar]. A vastidão também me perturba. Procuro e rejeito."

Quando rejeita, há mais "cidade líquida" (título de um dos seus livros) como refúgio-alternativa de Filipa Leal. Não passámos, fisicamente, pelo rio neste périplo pela cidade - ficamo-nos mais pela geografia das palavras, o que não surpreende: "É na linguagem que se instala a minha geografia e às vezes é muito cansativo" -, mas é este o outro rosto líquido desta sua cidade. "O rio de onde se pode ver a outra margem." Há um conforto inerente em poder vê-la, confessa.

"O Douro, no Porto, tem tamanho de rio. Estranhei o Tejo, tem tamanho de oceano."

Nos "grandes passeios pelas marginais" portuenses, Filipa está consigo. A pessoa que é, que foi, quem sabe, que será. O seu Porto sempre passou por estas margens, desde o tempo de juventude, quando se iniciou nas saídas com amigos.

"A maior parte da adolescência passei-a nestas praias, as minhas primas viviam aqui."

Não esquece os jantares na Praia do Molhe ("está igual"), as primeiras sangrias e cervejas entre esta e a Praia do Homem do Leme.

"Mais tarde, tive a fase da Ribeira, todos iam para lá." E "há imagens que não passam", como as tardes entre finos e tremoços na "praça do cubo". Ou outras mais específicas, como a jukebox numa das esplanadas defronte do rio naquele fim de tarde "extraordinário", de "música inimaginável"; ou, mais recentemente, o almoço dos 30 anos com a família, seguido da surpresa das amigas que a levaram, pela primeira vez, a passear no Douro de barco rabelo.

Se a "cidade líquida" de Filipa Leal se começou a revelar na adolescência, a sua "cidade das palavras" revelou-se um pouco mais tarde e, desde então, passou a mover-se entre ambas. As suas origens, porém, vêm de trás, da sua infância, com a mãe a recitar, a ela e aos irmãos, poesia, "sonetos de Camões, Pessoa...". "Foi ela que criou o hábito de eu ouvir poesia, comecei a ouvir poesia antes de a ler." Se calhar nem a mãe esperava o efeito que essas leituras tiveram: aos 11 anos chegou a casa para anunciar à mãe que queria ser escritora. "A minha mãe, muito sabiamente, disse que achava lindamente", recorda, "mas que em Portugal era difícil ser só escritora, tinha que ter outra profissão." "Há 23 anos, os poetas já estavam em crise", brinca. Pouco depois tinha encontrado a "profissão".

"O jornalismo foi a escolha que fiz como alternativa possível à literatura. Se não podia ser escritora, como jornalista podia, pelo menos, escrever todos os dias." A poesia=escolha intuitiva; o jornalismo=escolha cerebral.

A "cidade das palavras" de Filipa Leal começou a desenhar-se há mais ou menos 15 anos entre o Pinguim e o Púcaros, dois bares portuenses onde a poesia corria solta e que se tornaram os seus "sagrados pontos de fuga permanentes". Às segundas-feiras era na cave do Pinguim que saciava a sua fome de palavras ditas (ainda hoje se pode fazer); às quartas-feiras, no Púcaros. Numa primeira fase, limitava-se a ouvir; depois começou a dizer.

"Durante muitos anos só dizia em público poesia dos outros. Passava parte da semana a escolher o que ia dizer."

Actores frustrados

Passava também no café Luso, "quando era sítio de beatas no chão e muito sujo": "um sítio especial" onde conheceu o poeta Ulisses, que vendia poemas avulso. "Foi a primeira pessoa que vi fazê-lo. Cheguei a comprar-lhe um poema." Nessa altura, considera, o Porto tinha grande investimento na poesia. E foi nessa altura que se lhe abriram as portas das "Quintas de Leitura" do Teatro Campo Alegre, hoje uma instituição da cidade, quando conheceu Pedro Lamares, no Pinguim.

Foi para as "Quintas" e para a Caixa Geral de Despojos, uma trupe poética para a qual a palavra é uma ponte para outras formas de expressão artística. Inclusive para o teatro, com o qual Filipa também se envolveu: esteve um ano no centro de formação do Balleteatro e, antes, no liceu Garcia de Orta, o 12.º ano fez-se com uma oficina de teatro às sextas à tarde - já em Londres, tentou o mesmo mas entendeu que o seu inglês não estava à altura de dizer Shakespeare. Foi uma "decisão tardia", esta do teatro, mas o fascínio sempre esteve lá.

"Acho que o escritor é um actor frustrado. No fundo gostava de entrar em cena; no fundo é isso que faz quando se senta a escrever."

Ao mesmo tempo, da parte de Filipa "havia uma vontade de ultrapassar limites" e ela achava que "em palco a palavra se tornava em algo mais palpável". Nas "Quintas de Leitura", encontrou uma casa feliz: "estar em palco a dizer poesia, a unir os dois lados".

"A palavra é a minha grande obsessão: dita, lida, escrita."

O Campo Alegre é, aliás, a zona do Porto onde as suas raízes emocionais chegam mais fundo: antes de realizar o sonho nas "Quintas de Leitura", houve o Colégio de Nossa Senhora de Lourdes, que havia sido a casa dos seus bisavós. "Brinquei, nos meus primeiros anos de escola, no jardim onde o meu pai e os meus tios o haviam feito." E, coincidência, os avós maternos viviam nessa rua, eram eles que a iam buscar. Também viveu aqui e, mais tarde, na Faculdade de Letras, fez o mestrado em Literatura Portuguesa e Brasileira.

"Acho que é um Campo Alegre mesmo."

Porém, o seu Porto é novamente um triângulo, que tem os outros vértices na Foz, já vimos, e na Baixa, onde nasceu e viveu os primeiros anos. E onde por estes dias descobre uma nova geografia de "lazer". Já era por aqui, contudo, que percorria alguns caminhos das palavras, com paragens obrigatórias na Livraria Leitura, onde encontrou mais o que procurava, sobretudo quando "descobriu" a literatura brasileira, e, mais tarde, na Poetria, feita de teatro e poesia. Agora tem um outro caminho de palavras, desta vez suas, neste Porto: a Casa do Conto inscreveu-as no tecto de uma das suas suites, que leva o seu nome. "Não era bem voar/era pelo menos/poder ficar/suspenso/num ponto alto."

A poesia de Filipa Leal inscrita no Porto que ela sente como poesia, "no sentido da síntese, da contenção, da reflexão". A comparação com Lisboa, onde vive há quatro anos, é inevitável: "Lisboa é prosa, é torrencial, é uma cidade de parágrafos mais longos." O Porto permite-lhe, dá-lhe solidão; é introspectivo, de maior silêncio. Filipa tem uma relação de grande proximidade com ele e, por isso, também se sente mais perto de si, mesmo que para tal tenha de atravessar "a zona de nevoeiro" que a cidade pode parecer ter até se conseguir iluminar e ao que aqui está.

"Dá mais espaço ao confronto."

"Porque não tenho o trabalho de o descobrir posso descobrir-me."

Na sua obra (seis livros, cinco de poesia) não há muitas referências directas ao Porto. Uma das raras excepções está n" O Problema de Ser Norte. Uma página, um verso: "Porto. 20h. Ninguém canta." Mas como Filipa Leal não se importava de ter sido detective, vai deixando pistas, nem sempre geográficas, nos seus livros. "Muitas vezes são recados a mim mesma." No mesmo livro, por exemplo, fala de um café que Al Berto chegou a frequentar, na Batalha - não por acaso, o poema chama-se O Medo; não por acaso, termina com a palavra granito.

"Como o Porto, também eu tenho um lado enevoado, silencioso, contido, franco. Tenho muita dificuldade em disfarçar o que sinto. Tenho o coração à mostra. É quase tudo verdade."

Ao desvendar o Porto, a cidade incitou-a a procurar os seus poetas, os que aqui nasceram, os que aqui escolheram viver.

"Sophia, Eugénio de Andrade, Jorge de Sousa Braga, Ana Luísa Amaral, Manuel António Pina, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Rosa Alice Branco, José Miguel Silva, e tantos outros..."

"O Porto é uma cidade muito bem frequentada." (risos)

Ainda que trate mal quem a quer bem. Filipa Leal viu-se obrigada a ir para Lisboa quando o jornal onde trabalhava despediu a redacção e nenhuma outra porta se abriu no Porto. Diz que a grande tragédia do Porto é essa mesma, não dar trabalho; se não, podia ser uma cidade quase perfeita.

"Tem mar, tem rio."

Voltamos ao estado líquido. Nos próximos dias, Filipa Leal estará rodeada de água por todos os lados - vai passar pelo Funchal, como convidada do Festival Literário da Madeira (de 1 a 6 de Abril). Se a vastidão do mar a constranger, sabe que tem um lugar-refúgio.

"A cidade onde nasci e vivi a maior parte destes 34 anos está sempre em mim - no que sou, no que escrevo. O Porto será sempre a minha cidade, como o Douro será sempre o meu rio - conforta-me a proximidade da outra margem."