Bolor, de Augusto Abelaira | por Filipa Miguel
Bolor, de Augusto Abelaira
BOLOR - Augusto Abelaira
dar a conhecer, primeiro, Humberto e depois Maria dos Remédios. Humberto, casado com Maria dos Remédios, vai falando de si e estabelecendo, no diário comparações entre a mulher, Maria dos Remédios, e Catarina. Catarina, já falecida, havia sido a sua primeira mulher e paira quase como um fantasma entre os dois. Maria dos Remédios descobre o diário e passa a escrever nele, fazendo revelações que de outra forma seriam escondidas. O diário passa a ser o espaço onde se revelam um ao outro, confessando que o casamento está a matar o amor. Humberto diz mesmo que o casamento é a morte da experiência amorosa.
O Bolor foi lido pelo Tiago.
Importas-te de continuar? # 2 [Gabriella]

[…]
Aproximei-me da janela, afastei as cortinas. Lá fora o horror é maciço.
A guerra rebentou. As pessoas correm, fogem para onde podem.
Mães protegem os filhos, levando-os nos braços. Estou horrorizado. Não consigo sair de casa. Só penso em Sara.
Ontem discutimos. Ela saiu e não sei nada dela. Estou preocupado, amo-a, mas ela irrita-me.
Nunca pensei perdê-la após longos anos. Sempre nos demos bem, mas estes dias ela tem-se tornado intransigente. Discutimos várias vezes. Mas agora, que está perdida, no meio desta vasta confusão. […]
Nunca me passou pela cabeça que esta guerra pudesse chegar ao Chile. Chegará a nós uma vitória fascista? O que ficará deste país? […]
Importas-te de continuar? # 2 [Juliana]
E se não escrever?
9 de Março
Ela vivia a rotina diária, sonhando todas as noites com um acontecimento que mudasse a rotina dos seus dias.
Eu não encontrava já nada que me fizesse sorrir, nem em casa, nem no emprego.
Estava a janela, embrenhado nos meus pensamentos, quando, em frente à minha janela, reparei nela.
Todos os dias apanhamos o metro juntos, todos os dias entravamos no mesmo edifício com o mesmo objectivo: sair dele.
Almoçávamos no mesmo café, em mesas distantes.
16 de Março
Começamos a ir juntos para o emprego, agora já não almoçávamos sozinhos. Conversávamos imenso e fomo-nos descobrindo.
23 de Março
Fomos jantar a casa dos meu pais. Eles gostaram da delicadeza dela.
Quando chegamos à nossa rua, ela beijou-me. Subimos e só voltamos no dia seguinte.
Ainda não acredito em tudo o que aconteceu.
Hoje recordo-me do dia em que pensei que estaria a escrever na página cento e quinze, recordo-me do medo, da incerteza de não saber o futuro.
Hoje abri o caderno na página duzentos e seis e fiquei a pensar no que lá escreverei.
Juliana Monteiro
Importas-te de continuar? # 2
“11 de Dezembro
Olho para o papel branco (afinal um tudo-nada pardacento) sem a angústia de que falava Gaughin (ou era Van Gogh?) ao ver-se em frente da tela, mas com apreensão, apesar de tudo. Que vou eu escrever — eu, a quem nada neste mundo obriga a escrever? Eu, antecipadamente sabedor da inutilidade das linhas que neste momento ainda não redigi, dentro de alguns minutos (de alguns anos) finalmente redigidas?
Não sei: folheio ao acaso a página cento e quinze do meu caderno, ainda branca, ainda parda, e pergunto-me: daqui a dois, a três, a quatro meses, quando a alcançar — se a alcançar —, terei escrito uns milhares de palavras. Que palavras?
E fico perturbado, muito mais perturbado por essa página do que por esta, já em parte azulada e vazia de surpresas. Como saber se nela, hoje e durante um ou dois meses ainda branca, branca e situada no futuro, embora um futuro espacial, eu não contarei (não terei contado) coisas de cortar o coração? Sobre mim. Ou sobre o mundo, uma guerra, a vitória completa do fascismo, por exemplo.”
É com a angústia da página em branco que se inicia o romance Bolor, de Augusto Abelaira.
Continua o texto (não mais de 400 palavras) respeitando o registo de língua usado pelo autor e a tipologia textual.

