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Barroco: Igreja do Convento de Santa Clara


"No ano de 1758 escrevia-se sobre a igreja de Santa Clara: É a mais perfeita e asseada deste Reino, toda coberta de talha de ouro, e azul.

A Igreja do Convento de Santa Clara, é o melhor exemplo que se pode apontar numa cidade fortemente timbrada pelo fenómeno do barroco. A Arte da Talha dourada e policromada, é uma das expressões que mais a notabiliza, enfatizando dessa forma a apropriação dos princípios da Reforma Católica (Natália Marinho Ferreira-Alves). Faz parte de um conjunto de edifícios - igrejas forradas a ouro - em que a madeira entalhada e policromada ocupa todas as superfícies parietais e coberturas do espaço sacro, provocando no crente a evasão sensorial e elevando-o a uma realidade supra-humana. O trabalho de talha da capela-mor e arco cruzeiro é a obra-prima de Miguel Francisco da Silva, arquitecto e entalhador, um dos melhores intérpretes do barroco joanino no Porto." (daqui)

Barroco: Igreja e Torre dos Clérigos



A igreja dos Clérigos é pois a obra fundamental de Nasoni ― e fundamental o é também para a arquitectura barroca. Iniciada em 1732, resulta da decisão de uma assembleia (1731) da Irmandade com o mesmo nome constituída em 1707 e que desejava sede condigna. Na reunião de 31 o projecto é apresentado e logo aprovado sendo então presidente da Irmandade o Deão Jerónimo de Távora e Noronha, protector permanente de Nasoni.
A nóvel igreja seria construída em local extra-muros da cidade, confirmando a apropriação de novos espaços feita pela arquitectura barroca, funcionando simultaneamente como pólos dinamizadores do crescimento urbano. É por isso intencional o aproveitamento de um sítio elevado donde a igreja pudesse irradiar o seu poder visual, prestigiando a Irmandade e a própria cidade. Esta terá compreendido a importância decisiva da obra pois comemora comluminárias (concebidas por Nasoni) e cortejo em que se incorporam as principais forças sociais da cidade, a abertura dos trabalhos.O ritmo das obras não é constante, como resultante de intrigas movidas pelo Clero da igreja de St.° Ildefonso, que receava a concorrência da nova igreja. (…)
Por sobre todas as vicissitudes o Porto tinha finalmente a sua igreja barroca, a que melhor define a renovação empreendida no período joanino. A fachada principal, com os seus dois pisos, definia-se intencionalmente na vertical, assumindo a importância de que se revestia. Às proporções juntava-se um vocabulário decorativo com exuberantes formas “gordas”, uma cenografia trabalhosa que suscitava a empatia do espectador. É “uma vasta pintura cenográfica” traduzida espectacularmente em arquitectura: painéis com florões, cascas, panejamentos, grinaldas, festões, uma tríplice coroa papal sobre almofada, estátuas de S. Pedro e S. Filipe Néri… Era encimada por um frontão de linhas ziguezagueantes, com pilastras terminais e uma cruz central reforçando o jogo ascensional. Era a apoteose dramática do pintor-decorador-arquitecto Nicolao Nasoni que assim moldava definitivamente a fisionomia da cidade. A clientela clerical do artista aceitava com entusiasmo o imaginário lírico do artista que meritoriamente harmonizava a sua formação com o gosto local. (pg. 125)


 “Faltava porém uma obra que coroasse o esforço empreendido e que prestigiasse a cidade e o artista. Dando seguimento à igreja dos Clérigos, Nasoni construiria na sua retaguarda uma casa utilitária de forma poligonal e um hospital. A partir de 1757 o conjunto completava-se com o início da construção da famosa torre que sintetizará o estilo nasoniano. Com 75,6 metros de altura, servida por escadaria com 225 degraus, divide-se em seis zonas repartidas por quatro andares. Na parte inferior, na primeira zona.” (pg. 129)


“A Torre dos Clérigos coroa a obra de Nasoni e a arquitectura barroca do Porto, permanecendo como emblema da cidade e sinal do poder do clero responsável pela renovação empreendida. O clero, que dominava de facto a cidade, era pois o único grupo social capaz de empreender tal obra ― e o único que verdadeiramente a merecia.” (pg. 130)

in Arquitectura Barroca em Portugal, de José Fernandes Pereira , ICALP - Colecção Biblioteca Breve - Volume 103,1986.

O Barroco (arquitectura)

Igreja de S.Nicolau, Porto


Igreja de Santo Ildefonso, Porto
Igreja e Torre dos Clérigos, Porto
 



"Seguindo a regra geral verificável para outros  períodos arquitectónicos, o barroco inicia-se fragmentadamente: motivos dispersos, de feição não estrutural, decorativos, inseridos em edifícios já existentes. É um período de experimentação de formas das suas potencialidades, fenómeno minoritário que entamente irá desalojar um maneirismo persistente e duradouro, até se transformar em discurso dominante.
A segunda metade do século XVII conhecerá uma justaposição de tempos artísticos, quando a modernidade barroca inicia, em substituição, um  processo necessário de renovação do panorama  arquitectónico português. O primeiro exemplo conhecido de aplicação de formas decorativas barrocas é fornecido pela desaparecida igreja de Nossa Senhora do Loreto em Lisboa, pertencente à comunidade italiana da capital.
Pinturas e esculturas que ornavam a igreja, foram importadas de Génova, anunciando um processo de italianização que será particularmente importante no reinado joanino. A principal novidade trazida por essadecoração foram as colunas salomónicas em pedra verde, instaladas em 1671, e que se celebrizaram emItália a partir do baldaquino berniniano para S. Pedro de Roma. Potencialmente essas colunas, devido ao seudinamismo formal, interessavam a uma arquitectura que pretendia quebrar padrões espaciais estáticos. (..)
As salomónicas da igreja do Loreto achavam-se despojadas de quaisquer elementos decorativos. Mas logo em 1676, na igreja de S. Nicolau do Porto, os retábulos perdidos combinavam a salomónica com elementos decorativos vegetalistas multiplicados indefinidamente e fornecendo um padrão estético que a partir da década de 80 se popularizará. Então dar-se-á início ao denominado “estilo nacional” em que a salomónica de ordem coríntia ou compósita se combina com elementos naturalistas ― cachos, folhas, aves ― ou de simbologia cristã  ― fénixes, pequenos anjos em colheita eucarística.Procura-se uma unidade na infinita diversidade e os pequenos apontamentos decorativos, prova do gosto pelo detalhe, inserem-se numa ordenação geral que os enquadra e lhes dá justificação. A talha seguirá um percurso próprio, relegando para plano menor uma escultura subalternizada e gozando dos favores de uma clientela eclesiástica que se comprazia no infinito maravilhamento visual da madeira dourada. A relação da talha com a arquitectura é precisa neste período de experimentação, e assim se manterá ao longo de todo o período barroco: destina-se a dinamizar espaços internos estáticos e austeros já existentes, que se conservam, e cuja fisionomia é assim alterada." (pg. 13-16)

in Arquitectura Barroca em Portugal, de José Fernandes Pereira , ICALP - Colecção Biblioteca Breve - Volume 103,1986.

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