Derivas poéticas ...



Amanhã, será este o nosso cenário.

Alinhamento:
Pêro da Ponte, Adília Lopes, Cesário Verde, Mário Cesariny, Nuno Júdice, Antero de Quental, Manuel Alegre, Luís Quintais, João Pedro Mésseder, Sá de Miranda, Maria Teresa Horta, Ana Luísa Amaral, Mário Sá Carneiro, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice.

# Proposta de Trabalho

Era uma vez
um português
de Portugal.

O nome Luís
há-de bastar
toda a nação
ouviu falar.

[...]
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.

Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.

_ Mar ignorante
que queres roubar?
A minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há-de ficar.


Almada Negreiros

E tu, de todos os livros que leste qual salvarias?

Manias! | Cesário Verde



Manias!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

Cesário Verde (25.2.1855 - 19.7.1886)
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Operação Carnaval: PSP apreende livros por considerar pornográfica capa com quadro de Courbet




A origem do Mundo - quadro sobre o qual já falámos nas nossas aulas - deu, agora, origem um equívoco ....

"A PSP de Braga apreendeu hoje numa feira de livros de saldo alguns exemplares de um livro sobre pintura. A polícia considerou que o quadro do pintor Gustave Courbet, reproduzido nas capas dos exemplares, era pornográfico, adiantou uma fonte da empresa livreira.
António Lopes disse que os três agentes policiais elaboraram um auto no qual afirmam terem apreendido os livros por terem imagens pornográficas expostas publicamente.
O quadro do pintor oitocentista - tido como fundador do realismo em pintura - expõe as coxas e o sexo de uma mulher, sendo, por isso, a sua obra mais conhecida. Pintado em 1866, está exposto no Museu D'Orsay em Paris.
António Lopes manifestou-se "indignado" com a atitude da PSP: "isto é uma vergonha, um atentado à liberdade", afirmou. O empresário é um dos sócios da distribuidora 'Inovação à Leitura', de Braga, organizadora da Feira do Livro em Saldo e Últimas Edições, que está a decorrer, até ao dia 8 de Março, na Praça da República - vulgo Arcada - no centro de Braga.
Segundo os especialistas, Gustave Courbet era já um pintor "conhecido em França pela sua destreza técnica mas sobretudo pela sua atitude crítica e corrosiva em relação à sociedade burguesa, que não perdia ocasião de afrontar". Courbet, um socialista convicto, ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher, com o quadro "A Origem do Mundo" abalou profundamente o meio artístico, tendo a sua exposição pública sido proibida na época. (Público)

Esta história traz à memória o bom zelo de dois agentes da PSP que, em 2004, em Viseu, "aconselharam" os responsáveis da livraria Polvo a retirar da montra um livro do espanhol Alvarez Rabo, com um título eventualmente polémico.

dia 27



Uma amostra do que estamos a preparar para sexta-feira...
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Dois poemas de Miguel-Manso

(Herbert Bayer)
Proscénio

o poema é antes de tudo
um palco para gestos simples
eu rego as flores em Junho


***
O fogo, a cidade

às vezes
sobre as palavras pesa um dia luminoso, a clara
imprecisão do gesto
o corpo inclina-se para a água
do poema

a roupa estas mãos o torpor da casa
quando o silêncio a morna demorosa voz
se desfazem no ritmo entontecido
do mundo

caminho descalço sobre a página
olho uma outra vez
voltando-me para trás
o fogo, a cidade

Miguel-Manso, Quando escreve descalça-se

micro experiência

video

NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

David Mourão Ferreira

Era a noite que caía
E na sombra recolhia
O voo das andorinhas.
Era a voz que se calava,
Era a dor de ver que estava
Sem as tuas mãos nas minhas

Eram passos que escutei,
Que eram teus ainda pensei,
Iludiu-me o coração.
Foram pela rua escura
Longe da minha amargura
E acompanhei-os em vão

Fiquei perto da janela,
Pus-me a abri-la com cautela,
Fiz disfarce da cortina.
Vi então na luz incerta
Que a rua estava deserta
E deserta estava a esquina.

Era só eu na escuridão,
Era no peito um rasgão,
Era já no céu a lua,
Que me importa?, á minha porta
A sombra que se recorta
Bem pode ainda ser a tua.

Vasco Graça Moura

Era um choro de olhos
Abertos; um copo de silêncio
A esvaziar de um trago;
Um corpo ácido como certas
cidades nocturnas.

Era essa canção de pedra
Que os rios murmuram; esse
Muro de ramos partidos numa
Secura de lábios; a sombra
Que desce com a chuva.

Nuno Júdice

Manhãs provisórias | Juliana Monteiro


Manhãs provisórias

No espelho do quarto leio o desalinho
de mais uma noite passada contigo.
A sós, comigo, procuro preencher o vazio
com o som ininteligível de um televisor.
Não me basta.
No chão, abro-o um livro
Entro na sua história
Pego noutro e noutro e devoro-os.

É assim que me esqueço de mim.
É assim que consigo esquecer quem sou.

Juliana Monteiro

Se queres atravessar | Pedro Eiras

(Imagem de Herbert Bayer)

Se queres atravessar
o Oceano,
escrevia o mestre Eckart,
naufraga.
Apaga a mão de luz
com o punhado de
sombra.

Pedro Eiras, Arrastar Tinta (Deriva)

MILK | Gus Van Sant



"Activista pelos direitos dos homossexuais, primeiro político americano a assumir a sua homossexualidade, amante, amigo, lutador, herói. A vida de Harvey Milk mudou a História e a sua coragem mudou vidas. Em 1977, Milk tornou-se o primeiro político americano abertamente gay a ser eleito nos Estados Unidos. A sua vitória não foi apenas uma vitória para os homossexuais mas para todos aqueles que lutavam pelos direitos humanos. Em 1978, quando é assassinado, o mundo perde um dos seus líderes mais visionários." (daqui)

Um grau de Separação



No início da aula de hoje, a Joana fez um breve, mas pertinente comentário, a propósito da reportagem "Um grau de Separação", da autoria de Ana Leal, que passou ontem na TVI. Trata-se de uma reportagem sobre a educação proporcionada pelo Estado às crianças que sofrem de uma qualquer deficiência - alunos cegos, surdos, autistas, com trissomia 21, com paralisia cerebral. Para os que não viram, fica aqui o link.

(Obrigada, Joana pela tua atenção!)
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TROCAS | Nuno Júdice

Júlio Pomar

TROCAS

Tinha uma amiga com quem queria ter dormido. A

amiga tinha outro amigo com quem dormiu depois

de saber que ele queria dormir com ela. Disse-lhe

depois que se não tivesse sabido que ele queria

dormir com ela teria dormido com ele sem dormir

com o outro. Mas o outro, que sabia que ela não

queria dormir com ele, dormiu com ela para que

ela percebesse que era melhor dormir com ele do

que dormir com o amigo. O amigo é que deixou

de ser amigo dele porque não gostou que a amiga

o tivesse preferido a ele. A amiga dos dois, por

fim, convenceu-os a não se zangaram por ela ter

dormido com o que não gostava dela, e acabou a

pedir ao primeiro que dormisse com ela para não

ficar triste. Mas o amigo não quis, porque já tinha

feito as pazes com o que dormira com ela, e não

queria que tudo voltasse ao princípio. E foi assim

que a amiga se zangou com o que queria ter dormido

com ela por ele não querer dormir com ela só

porque ela tinha dormido com o outro depois de

saber que o outro já tinha dormido com ela, e ele não.


Nuno Júdice

Mais uma história da Gata Borralheira | Adília Lopes


Mais uma história da Gata Borralheira

Era uma vez o Príncipe que tinha dormido com a Gata Borralheira. Durante o baile no palácio apeteceu a ambos deixar de dançar e irem para a cama um com o outro. E foram. Mas, à meia-noite, a Gata Borralheira saiu a correr da cama do Príncipe e esqueceu-se do soutien atrás de si. O Príncipe não gostava do seu antepassado que tinha obrigado todas as mulheres do principado a descalçar o pé direito ou o esquerdo. O Príncipe não se lembrava ou a história era
omissa quanto a ser o pé esquerdo ou o pé direito. Achava uma atitude grosseira, arrogante, pornográfica, de mau gosto. Então o Príncipe para encontrar a Gata Borralheira não obrigou todas as mulheres do principado a despirem-se diante dele e a calçar o soutien. Meteu o soutien na gaveta das recordações e decidiu fazer amor com todas, uma por uma, velhas e novas, feias e bonitas, aleijadas e não aleijadas. E foi fazendo. Quando fez amor com a madrasta e com as duas filhas da madrasta, sentiu-se mal. Jurou para nunca mais. Porque as três eram pelintras, chupistas, feias e fidalgas. E isso tudo traduzia-se no calculismo e no fingimento com que faziam amor. O Príncipe chegou a pensar que em vez de pénis tinha um godemichet implantado no baixo ventre de tal modo a madrasta e as duas filhas da madrasta o usaram e se serviram dele. Agoniado depois de fazer amor com as três, foi à casa de banho vomitar.
Na casa de banho vomitou. E encontrou a Gata Borralheira a limpar a retrete. Como o Príncipe não foi a tempo de vomitar na retrete, vomitou no chão. A Gata Borralheira limpou o vomitado sem enjoos. Porque o Príncipe e a Gata Borralheira tinham-se reconhecido mutuamente imediatamente. Não foi preciso fazerem amor porque a cumplicidade que os unia era evidente para ambos aos olhos e ao sorriso de ambos. O Príncipe levou a Gata Borralheira imediatamente para o palácio montados ambos num mesmo cavalo branco. E a madrasta e as duas irmãs suas filhas e irmãs da Gata Borralheira ficaram por entre os vidros e as cortinas danadas e furiosas e
sem perceberem nada porque eram as três tão burras que nunca percebiam nada de nada.
O soutien voltou a ser usado algumas vezes pela Gata Borralheira porque a Gata Borralheira era poupada, percebia muito de afrodisíacos e era tão fetichista como o Príncipe.

Adília Lopes, Obra

Amor de Perdição (reconto da novela com alguns poemas à mistura)




Foi hoje na EB1 da Corujeira.
O Amor de Perdição foi recontado e debatido entre o 11º ano e o 3º ano.
Perspectivas diferentes, mas uma certeza, talvez tudo fosse diferente se o pai de Teresa conversasse um pouco com ela. Às vezes um boa conversa pode resolver muita coisa...
Um destes dias divulgaremos, aqui, a nossa "versão". Por hoje as imagens.

(Um agradecimento muito especial à prof. Elisa e aos alunos do 3º A por nos receberem sempre tão bem. Obrigado pelos bolinhos de côco da Daniela, pelo bolo de iorgurte, pelo bolo de chocolate do senhor Vítor e por todos os outros mimos.)
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S/he is her/e | Anna Jotta

Anna Jotta

Ainda a propósito A inexistência de Eva.


A inexistência de Eva | Filipa Leal



Depois de ler A inexistência de Eva, apetece-me "copiar" Adrienne Rich:

Call it a book, or not
call it a map of constant travel

[Chame-se-lhe livro, ou não
chame-se-lhe um mapa de um viajar constante.]

************

Ao quarto livro, Filipa Leal dá-nos um mapa. De repente tudo ficou mais claro, como a sala branca onde estava aquela mulher:

Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca

A inexistência de Eva é um corpo de mulher marcado pela memória.

Um corpo marcado pelo remorso imemorial – talvez aquele que herdamos das nossas mães e as nossas mães das mães delas – e pela castidade.
Um corpo marcado por uma culpa que ainda não é sua, mas que inevitavelmente será sua também.
Um corpo que não tem versos à volta, mas tem maçãs difusas .
Um corpo sem voz que recebe ordens de uma voz sem corpo.
Um corpo que não se pode ver a si mesmo, porque não tem espelhos (nem sequer os olhos de um qualquer Adão).
Um corpo em construção.
Um corpo de mulher que pode sair, pode ir, mas que ouve a voz que avisa:
“Assustar-te-á a existência de dia e de noite”.

Este corpo tem um nome: Eva. Como a primeira mulher. Mas esta Eva não é a primeira mulher, é apenas a primeira mulher ali. Como todas as mulheres e como todos os homens somos sempre, em alguma circunstância, os primeiros em alguma situação, corrijo, em alguma emoção..
Eva é a tinta que pela primeira vez vai escrever na brancura indefinida do papel. E, ao arriscar a escrita, pode encontrar a gaguez ou a palavra exacta ou a gralha.
Eva é a mulher limitada pelo medo de esmagar o pássaro que está fora da janela.

“Ouviu: Há um pássaro que todas as noite se deita à tua porta.
Como não sabes a que horas anoitece, nem o que é anoitecer, se abrires, esmagá-lo-ás”


Eva é matéria moldável.

Eva é a Alice no dentro do espelho, é a Sofia da Condessa de Ségur na sala dos Castigos, é Platão na sua Caverna, é cada um de nós antes de enfrentar a luz cruel da rotina.
Eva é a certeza da inexistência de saídas de emergência para a vida:

“Ouviu: - O fascínio é o perigo em que te moves.
Em breve conhecerás o abandono.”

*********
(2009), Leal, Filipa, A inexistência de Eva, Deriva Editores, Porto.

Yendoo Jung: materialização de imaginários infantis




Yeondoo Jung é um fotógrafo coreano, nascido em 1969 , que desenvolveu um trabalho de criação de cenários irreais e imaginários a partir do desenho de crianças.

(obrigada, Marianíssima pela descoberta)


reunião familiar | Marilar Aleixandre


reunião familiar

na primeira noite
levei-te para a minha cama
e trespassaste-me
(solstício noite e lume desatado)
não reparei que metia na cama
toda a família

ensaiando manhas de morcego
demonstravas mordendo no meu pescoço
que tenho o sangue azul
entretanto irmãos mãe e pai tias e avós
silenciosamente
cercavam a cama beliscavam
o meu cu afagavam
as minhas pernas

enquanto eu cavalgava sobre ti
atravessávamos espirais de lume eles
criticavam o meu cabelo esguedelhado
e discutiam em voz altas
e tinha um peito maior que o outro
entraste na minha casa trazendo os teus cutelos afiados
e a seguir um a um entrou a família veneno insípido
para ficar
desde então fazem parte da mobília

olham com desaprovação
do fundo dos espelhos
ou vigiam debaixo dos lençóis

família marca do cutelo no teu braço
pegada de terra nas unhas


Marilar Aleixandre
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O sol ilumina a neve | Rui Filipe




O sol ilumina a neve
branca que o mar já congelou
campo de rosas vermelhas que
outro campo beijou
desço o alto penhasco
que ao seio de montes me levou
sigo para sul a planície
onde um lago me parou
conheço cada centímetro deste
mundo onde estou
soalho de seda suave
que, sem querer, me apaixonou
Pensei já ter tirado
o meu coração daqui
afinal estava enganado,
afinal nunca parti

Rui Filipe

(No dia em que o Rui completa 17 anos, um texto de sua autoria.)
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Cesário Verde | Nuno Júdice


CESÁRIO VERDE

(variante sem burguesas)


Naquele piquenique de deusas, serviram
ambrósia e sanduíches de cisne, com
molho de via láctea a mistura. Vénus,
de véu na cabeça, desatou-o; e os seus
cabelos derramaram-se pelo copo, para
que Vulcano se engasgasse, ao beber,
e Marte lhe batesse nas costas, fazendo
inchar mais ainda a sua corcunda. Mas
quando a pálida Diana, num crescente
de lua, tirou a saia, e os sátiros saíram
de dentro das pregas, todos olharam
para o lado, e foi a coisa mais bela da
merenda: os seus seios soltos, e os doces
melões, servidos na bandeja do céu.

Nuno Júdice, in A Matéria do Poema



De Tarde

Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde