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Manhãs provisórias | Juliana Monteiro


Manhãs provisórias

No espelho do quarto leio o desalinho
de mais uma noite passada contigo.
A sós, comigo, procuro preencher o vazio
com o som ininteligível de um televisor.
Não me basta.
No chão, abro-o um livro
Entro na sua história
Pego noutro e noutro e devoro-os.

É assim que me esqueço de mim.
É assim que consigo esquecer quem sou.

Juliana Monteiro

Três poemas de Juliana Monteiro


Título

Há alturas em que penso mais no título que no poema.

História sem Fim

Vejo um livro em branco aberto.
Pede-me para escrever na sua primeira página.
Conto-lhe uma história.
O livro, como se tivesse medo de perder um tesouro,
aprisiona-me nele.

Manhã provisória

Acordas-me e sinto que estás feliz.
Sem te perguntar, dizes que me amas.
Prometes nunca me deixar.
Dás-me um beijo sentido.
Levo-te à porta com um sorriso.
Dizes-me até logo.

Até hoje, nunca mais te vi.

Juliana Monteiro

Um lugar para brincar, Juliana Monteiro

(imagem do viravento)

Um lugar para brincar, Juliana Monteiro

Uma criança brinca ao som da melodia
Duas crianças, juntas, descobrem o sabor de um sorriso
Entre risos e alegrias esvoaçam borboletas coloridas
Que me dizem que ser criança é ser feliz
Que os homens deixam morrer dentro de si essa criança
E se entregam às vicissitudes da vida
Entre nós caminha a felicidade disfarçada
E descubro que não somos como balões que caminham em liberdade
Cruzando-se no decorrer desse caminho

O Senhor Valéry, o Senhor Henry e o Senhor Calvino, de Gonçalo M. Tavares


Gonçalo M. Tavares foi publicando ao longo dos tempos uma colecção de livros que tem como fio o condutor o bairro onde todos os personagens habitam. Cada personagem tem características muito próprias. O Senhor Valéry, por exemplo, é um homem que tem necessariamente que arranjar uma lógica para tudo aquilo que faz; o Senhor Henry é dependente de absinto e o Senhor Calvino é um pouco sentimental. Estes livros são compostos de micro-histórias de acessível leitura, mas com diferentes possibilidades de interpretação.

Aparição, de Vergílio Ferreira, por Juliana



Aparição, da autoria de um dos grandes mestres da língua portuguesa, é uma obra complexa e marcante. O narrador conta-nos da sua estada em Évora, durante um ano lectivo, mas isso é o menos importante. O que realmente interessa é a descoberta que Alberto, o protagonista, faz: descobre-se a si próprio. Vergílio Ferreira fala-nos da descoberta do eu e da tentativa inglória de partilhar este conhecimento com os outros. O que mais me prendeu a este livro foi a forma como o escritor nos prende à sua descoberta e a forma como detalhadamente nos aproxima de Sofia. É uma escrita intensa que envolve o leitor.

Aparição, de Vergílio Ferreira

Diário de um Louco, de Gogol


Diário de um Louco, de Gogol

Como em todos os seus contos, predomina também aqui uma mistura de real e de fantasia. Enquanto leitora, este conto trouxe-me alguma "amargura" por estar a assistir ao
sofrimento da personagem. Trata-se de uma história escrita na primeira pessoa, uma vez que é um diário, e onde assistimos ao delírio e fragmentação da identidade do personagem principal.

"Como tem a forma de diário, este é o único livro de ficção do autor escrito na primeira pessoa. O herói, o eterno funcionário miserável de Gógol, assume em Diário de Um Louco, apesar e, talvez, por causa do delírio psicótico em que se refugia, contornos muito humanos e comoventes. Como sempre, a arte gogoliana de misturar o real e o fantástico, o normal e o patológico, o razoável e o delírio, imperam em Diário de Um Louco, a ponto de o leitor se sentir desconfortavelmente a assistir ao sofrimento de um ser humano a quem a identidade se vai estilhaçando com a rapidez e a intensidade de um pequeno conto."

(excerto da introdução, Filipe Guerra)